United Colors of Reveillon - Menu de Tradições
A tradição já não é o que era. Mas que tradição? Se fizermos caso de todas as tradições o mais certo é arriscarmo-nos a ficar completamente doidos, pois há uma panóplia de usos completamente avassaladora, muitos deles em sentido contrário um dos outros. Cumprir tradições é, por vezes, mais caótico do que ir a um centro comercial em véspera de Natal. A somar à tradição temos ainda a superstição para compor o ramalhete e formar uma aliança dourada, que além de complicar ainda vem criar uma dose de penalização para os não cumpridores.
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A noite de 31 de Dezembro, a famosa passagem de ano, em português mais conhecida por reveillon, é um autêntico painel demonstrativo desta santa aliança, em que subir a cadeiras, deglutir passas, bater em panelas, vestir roupa interior de uma determinada cor, são apenas a ponte de um iceberg que teima em incendiar o mundo inteiro nessa data.
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O pior disto tudo é que não há uma norma, tipo Código Civil das Tradições, que nos ajude a sair deste calvário. Mesmo um regulamentozinho já nos safava.
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Para verem que não estou a mentir, façam uma pequena leitura (sim, porque já não vai havendo paciência para leituras profundas de tão grandes lençóis) no mapa mundi dos reveillons. A pesquisa original é de um senhor chamado Marcelo Duarte e pode ser lida aqui. Os comentários posteriores são do idiota de serviço, que mais uma vez faz análise de pacotilha.
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Áustria |
“Os austríacos têm o hábito de jogar chumbo derretido num copo com água no momento em que o relógio soa zero hora de um novo ano. As figuras que surgem quando o chumbo esfria, são guardadas pelas pessoas como um amuleto que irá ajudar na realização dos pedidos feitos na passagem do ano.” |
Será que ainda mantêm esta tradição? Será que ainda não ouviram falar dos efeitos do chumbo no ar? Será que a cimeira de Bali não proibiu os reveillons na Áustria? Imaginem esta tradição em Portugal: “Anda depressa comer as passas”, “Agora não posso, tenho que ir derreter um bocado de chumbo”, “Ai que a minha Vanessa já entornou o chumbo no Michael!”, “Valha-nos Deus que se acabou o chumbo! Será que posso utilizar este aqui do dente?”, bom, já para não falar da urgências que deviam de entupir com tanta queimadura chumbada. Melhor seria que começassem a derreter cera, sempre podiam aproveitar as figuras para oferecer à Madame Tussaud. |
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China |
“Na China, o ano-novo é celebrado durante seis semanas entre os meses de Janeiro e Fevereiro. Tradicionalmente, nesse período os chineses fazem uma bela faxina em suas casas para espantar os maus espíritos e atrair boa sorte. Eles também costumam pagar todas as dívidas contraídas. Na noite da véspera do novo ano, todas as luzes ficam acesas para representar calor humano, amizade e reconciliação.” |
Estes chineses, por serem pequenos, tinham logo que fazer a coisa em grande, 6 semanas. Quase que tenho um colapso nervoso só de pensar repetir o dia 31 durante mês e meio. Não havia paciência nem fígado que aguentasse. Gostei daquilo da faxina, seria um bom princípio para se aplicar todas as semanas quando a preguiça invade este humilde lar. Ou será a preguiça já um mau espírito? Uma coisa é certa, cheira-me que por debaixo de meu tapete a sorte não anda grande coisa. Agrada-me a cena de pagar as dívidas todas, pena que algumas pessoas que conheço não sejam chinesas. |
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Colômbia |
“Os colombianos pegam uma mala e dão a volta em torno de suas casas, despedindo-se de todos que cruzam seu caminho. Isto atrai um ano de aventura.” |
Gostava de ver isto cá. Já não bastava a correria para ir comer as passas, senão agora ainda termos que levar com os encontrões do pessoal a passear a mala em tudo o que era passeio. Deviam parecer os carrinhos de choque da feira. Depreendo que a mala vá vazia, assim tipo mudança de casa em telenovela, senão no fim da viagem a única aventura que vão atrair será numa cama a recuperar o fôlego, a menos que cheirem umas boas folhas de coca, coisa que, suspeito, deve estar no raiz da tradição em causa. |
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Coreia do Sul |
“A população segue o calendário lunar. A virada é marcada por uma visita a parentes e vizinhos mais velhos. As pessoas se curvam diante deles numa forma de expressar respeito aos seus ancestrais.” |
Por cá, não falta pessoal que cumpra esta tradição o ano inteiro. Devem chegar ao final do ano com graves problemas na coluna, de tanta curvatura. |
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Dinamarca |
“Depois de uma ceia à base de peixes e batatas, os dinamarqueses aguardam ansiosamente pela meia-noite. Quando o relógio está preste a soar doze badaladas, todos na família sobem em cadeiras. Assim que dá meia-noite, pulam da cadeira para o novo ano e brindam com champanhe. Também é costume colocar um pote de arroz bem doce nos estábulos para os gnomos. Assim, evita-se que eles incomodem no ano seguinte.” |
Uma ceia de batatas e peixe!!! Rica ceia! Como se estes dinamarqueses soubessem cozinhar alguma coisa além de salmão fumado. Já tentaram comer comida dinamarquesa? Eu, o melhor que lá vi foi sempre uma esquina do MacDonald’s. Aquela histeria das cadeiras não é novidade, lembro-me de isso acontecer por cá. A minha avó é que não gostava muito, quando via a parte mais pesada da sua querida família a querer cumprir a tradição, especialmente porque se lembrava sempre que no dia seguinte tinha mais umas cadeirazitas para mandar compor. O arroz doce para os gnomos!!! Cheira-me que os gnomos têm nome de rapaziada mais nova, que depois de irem comemorar no meio da palha as entradas ficam sempre com muito apetite. Ou será que andei a ver muitos filmes suecos dos anos 70, de qualidade duvidosa? |
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Equador |
“Monta-se um boneco com fogos de artifício, que é aceso à meia-noite.” |
Por cá fogos de artifício não faltam, com bonecada ou sem ela, mas isto é só até vir a ASAE e verificar que os bonecos não têm a sigla CE e o fogo não cumpre as regras europeias de intensidade luminosa. |
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Escócia |
“Na Escócia, um dos costumes mais tradicionais da festa de ano-novo é a de homens e mulheres, que nunca se viram, se beijarem na boca. Soma-se a isso o ainda mais tradicional hábito de beber uísque em toda e qualquer comemoração e está garantido um dos reveillons mais animados da Europa.“ |
Ora já tenho aqui um destino preferido para ir passar o ano novo. Gosto destes escoceses, têm imaginação. Calimero como sou, teria que ter cuidado pois havia de me calhar logo a Magda Patalógica lá do sítio. Se calhar, melhor do que viajar seria fazer aqui uma espécie de corrente, daquelas coisas idiotas que nos mandam por mail, tipo mande a não sei quantos amigos e será feliz, para instituir esta tradição em Portugal. Passem a palavra e o beijo já neste final de ano. Penso que iríamos tirar muito mais proveito do que os escoceses, não só porque as nossas mulheres são mais bonitas, como também para eles, com o whisky todo que têm no bucho, beijar uma pessoa ou um cavalo deve ser a mesma coisa. |
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França |
“Na França, as pessoas costumam preparar ostras e diversos outros frutos do mar para a ceia de ano-novo.” |
Pronto, na França é assim, super chique, super sei lá. Qual malas a correr, qual cadeiras empoleiradas, qual beijocas rançosas. Isso é povo, muito povo. O pessoal come umas ostras do melhorio, petisca umas lagostas geniais e bebe imensa champanhota. Ai, Paris c’est toujours Paris! |
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Hungria |
“A ceia tem sempre carne de porco. Como esse animal fuça para frente, acredita-se que, ao comê-lo, a vida seguirá na mesma direcção.” |
Anda o pessoal sempre a rogar pragas aos políticos por este país estar como está e afinal a culpa de tudo é a malta pôr-se a comer umas santolas, caranguejos e afins no reveillon, em lugar de saciar-se com uma boa carne de porco à alentejana. Porque teimamos em comer bichos que não andam para à frente? Já sabem, mandem o marisco às urtigas e voltem aos rojões bem fortes e aos enchidos em grande. Pode ser que ainda antes de amanhecer precisem de muita água das pedras e compensan, mas finalmente este Portugal começa a andar para à frente. Vamos lá, minha gente, é para o bem da Nação. Para já, devíamos instituir a carne de porco à alentejana e os rojões á moda do Minho como prato nacional dos membros do Governo, 365 dias por ano. Por via da dúvidas este ano é melhor que sejam 366. |
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Itália |
“As fitas verdes dadas no reveillon trazem boa sorte.” |
Não sei não, mas isto em Portugal soava logo a lagartagem e a tradição mudava de cor não sei quantas vezes. Será que não conseguimos olhar para as coisas sem sermos logo dizimados pela clubite? |
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Japão |
“No dia 31, é realizada a cerimónia Joya no kane. Uma pessoa, na ocasião, toca o tímbalo 108 vezes, que serve para expurgar os pecados e os desejos mundanos. A primeira refeição do novo ano inclui um pote de ozoni, sopa de cereais, bolinho de arroz e caldo feito com massa de soja.” |
Ora se eu já estou pronto para apanhar o avião para a Escócia, também já estou trancado a sete chaves para nunca me apanharem no Japão. Tocarem-me um tímbalo 108 vezes expurgava-me, sim, toda e qualquer boa disposição possível e o único desejo que me assaltaria, alimentado pela a minha explosiva e ressonante dor de cabeça, era o de estrangular o tocador com laivos de autismo, o que, confesse-se, não seria um sentimento muito nobre para começar o ano. Bem vistas as coisas e olhando para o que eles comem no dia seguinte, compreende-se o porquê do massacre timbalano, o pessoal precisa mesmo de ficar atordoado para comer aquela tralha da ementa que lhes é presente na primeira refeição do novo ano. |
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Líbano |
Come-se apenas comida branca, como arroz. |
A sorte é que não neva por lá, senão o pessoal ficava cá com uma barriga de água. A ser verdade esta tradição percebo porque me anda a ocorrer muita “mala pata”, tanto quanto me lembro o meu repasto tem sempre muitos tons escuros. Este ano está decidido, vou comer arroz de coco e algodão doce a noite inteira. Assim, para o ano ninguém me segura com tanta sorte. Já me estou a ver a ser o próximo excêntrico. Mandem de imediato fechar a Quinta Avenida que quero ir lá gastar uns trocos. Por falar em NY, o pessoal de elite deve conhecer bem esta tradição pois não há super festa em que não se coma, aspire, umas boas linhas brancas. |
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Líbia |
Após as orações na mesquita, cada família mata uma ovelha e doa metade aos pobres. |
Ora aqui está uma tradição solidária. Bem que a podíamos adoptar, só que substituíamos o carneiro por porco, a ver por causa da Hungria, porque um animal que fuça para a frente é melhor do que um que se lamenta, mééé, por tudo e por nada. E de lamentações já estamos cheios. Agora a questão de 1 família, supostamente rica, dar metade a uma pobre levanta, por cá, 2 problemas. O primeiro será matemático, pois é capaz de não haver famílias ricas suficientes para cobrir todas as pobres. O segundo é mais uma dúvida, não se estaria a dar o que se anda a tirar o ano inteiro? |
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Malásia |
“Os muçulmanos não varrem a casa, porque isso significaria tirar algo de dentro dela. O facto traria má sorte ao longo do novo ano.” |
Vá lá gente perceber isto. Tão perto, quase vizinhos, e uns, os chineses, limpam que se fartam, outros, os malaios, não mexem uma palha. Vamos lá ver se esta gente se entende. Afinal de contas, limpamos ou não limpamos? É por estas e por outras que eu acho que os Deuses se devem rebolar a rir com os comportamentos tradicionais, executados por nós humanos em nome deles ou de outra força qualquer superior. Cheira-me que devem fazer lá umas matinées bem animadas com a exposição de todos estes rituais supersticiosos. Será em Powerpoint? |
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Panamá |
“Os desejos para o próximo ano são escritos em pequenos papéis, conforme vão sendo realizados, os panamenhos queimam os bilhetes.” |
Olha outros a estragarem a camada do ozono. Ó pessoal não façam queimadas! Sugestão, escrevam os desejos em papel comestível e comam-nos quando se realizar. A ver pela amostra deve ser bem melhor do que muitas refeições tradicionais de ano novo. Melhor, em jeito do filme The Pillow Book, do Peter Greenaway, escrevam os desejos no corpo de alguém que gostem e depois façam o mesmo uso da boca como se fosse o papel. Vão ver que é muito mais divertido. Além disso, tem a vantagem de no caso de os desejos não se realizarem haver vontade para se comerem também, que não estamos em tempo de desperdícios. |
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Portugal |
“Uma das manias dos portugueses é sair às janelas de casas batendo panelas para festejar a chegada do novo ano. Só não convém chamá-los de "paneleiros", pois isso significa o mesmo que "bicha" para nós.” |
Ai, como estes brasileiros gostam de nós! Sempre com mimos para o povo irmão. Sei que há esta mania irritante de fazer barulho mas penso que é uma espécie quase em vias de extinção. Que eu me lembre nunca vi esse tipo de “paneleiros” na rua no dia 31. Onde teríamos ido buscar esta mania de fazer chavascal com a lataria gastronómica, ainda por cima com um solfejo tão desafinado? Começo a ter saudades do tocador japonês. Espero, ao menos, que o pessoal utilize umas boas litradas de Fairy antes de sair para a rua. Não me apetecia nada, além de da barulheira, ter que levar com o cheiro dos refogados queimados. |
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Taiwan |
“Como a palavra peixe tem o mesmo som de abundância em chinês, ele é a estrela da refeição dos taiwaneses na chegada do novo ano.” |
Isto é só porque ainda não chegaram por lá as quotas de pesca da UE. Quando chegarem vão ver que a palavra soa mais a “chiça que é caro e não há” do que a fartura. O melhor seria encontrar já outra palavra para fazerem a estrela do novo ano, tipo Big Mac. Vão ver como ela daqui a uns tempos soa a abundância na tradição chinesa. |
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Turquia |
“Três pedras de sal grosso são colocadas em um saco com turquesas. O amuleto é colocado sobre a porta de entrada e actua para que maus fluidos não impregnem a casa” |
Tenho uma tia que, por certo, é conhecedora desta tradição em absoluto. Ela faz ainda melhor, coloca os próprios sacos bem escondidos dentro das refeições que prepara. Depois da refeição o único fluído que entra mesmo lá em casa é a água, litros e litros de água. Estou mesmo a ver os maus fluidos a querem entrar e ficarem imediatamente hipertensos. Zarpam logo, que nem gente grande, numa ambulância fluida, sim, com chás de cidreira. |
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Perante tanta tradição, o melhor seria arranjar um pouporri, tipo:
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Arranjamos duas salas da casa, de preferência o nosso quarto e outra divisão, numa faz-se uma faxina muito grande, noutra não tocamos nem numa palha. Assim, à boa maneira portuguesa, compensamos a coisa para os dois lados e dá para o que der e vier. Depois vamos ao estábulo, deixamos lá um arroz doce, com um coração em canela, que os nossos gnomos são muito românticos depois de se enrolarem na palha, e matamos um porco. Metemos metade do porco numa mala, damos meia volta à casa com ele e ofertamos depois a um pobre. Na volta curvamo-nos perante a mulher mais bonita que encontramos na rua e convidamo-la para vir até casa passar o reveillon (a parte feminina fará o mesmo perante o melhor exemplar varão que encontrar). Cozinhamos finalmente a outra metade do porco com algum peixe e temperada com muito sal, em pequenos sacos de papel que contêm os desejos para o próximo ano, e cobríamos tudo com muito coco, farinha, arroz, leite ou qualquer outra coisa branca. Na falta de um ingrediente alvo serve algodão em rama, como assim, depois de cozinhar porco com peixe, já ninguém irá notar a diferença. Quando for meia-noite tiramos a tampa da panela onde está o porco e batemos com ela 108 vezes numa janela, enquanto beijamos a mulher. Desta forma haverá um boneco com fogo de artifício, nós próprios, que ficamos a ver estrelas com todas as bofetadas que a senhora nos vai dar, parte por não poder ouvir mais as paneladas, parte por estar sufocada com os beijos arrebatadores. O chumbo não sei se irá derreter, mas que vai subir vai, pelo menos no termómetro quando a febre começar a subir depois de tanto espalhafato.
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Pela amostra em causa há que ter cuidado com as tradições. O melhor é tomá-las com conta peso e medida, pois o seu excesso faz mal à saúde. Devia até haver uma advertência por parte do governo, com letras bem grandes em todos os calendários.
Senão vejamos estas 3 Cenas Cortadas (fixem este nome) de reveillon, em que a tradição faz pior do que a nicotina.
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1 - As passas fazem mal às costelas
- Vamos lá avozinha, coma as 12 passas que está mesmo a dar a meia-noite.
- Mas eu não gosto, nem vou conseguir – responde a avó olhando para as passas que já lhe puseram na palma da mão.
- Qual não gosta, qual quê?! Coma, que é para dar sorte.
A avó, a custo, lá começou a comer as 12 passas. Não se sabe se por dificuldade em engolir uma dúzia de uvas secas à velocidade supersónica das badaladas, se pelo susto de ver o neto a estatelar-se de cima de uma cadeira, engasgou-se.
- Acudam que a avó está sufocar – gritou uma das netas quando a pobre senhora começou a ficar roxa com uma sultana entalada na garganta.
Jaime, um neto bem robusto, estudante de enfermagem mais dato a cantorias, afastou toda a gente e fez a manobra de Heimlich. Ele sabia do assunto, andava a estudar para isso. Com toda a sua força apertou a avó. A senhora soltou um grito enorme. Não foi de alívio.
Na urgência do hospital o médico teve muito dificuldade em perceber porque é que a pobre senhora teimava em lhe dizer que o motivo de ter uma costela fracturada tinha sido uma passa da meia-noite.
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2 – Baixar as calças não é tradição
- Ouve, é como eu te digo, deves vestir umas cuecas vermelhas, para trazer muita felicidade e que sejam o mais curtas possíveis, que é para trazer fortuna, pois o tamanho é inversamente proporcional ao dinheiro.
Manuel nem ouvia bem o que amiga lhe estava a dizer, ao olhar para aquelas strings vermelhas só se lembrava que se vestisse aquilo iria ficar pior do que um strip masculino em despedida de solteira.
- Não tenhas problemas, assim como assim, não vais andar a mostrar as cuecas a ninguém nessa noite.
Contrafeito Manuel lá vestiu a tanguinha vermelha. O ano que terminava tinha sido mesmo muito azarado e precisava de uma onda de sorte. Primeiro sentiu-se muito desconfortável, com aquela linha a passar no sitio onde gostava menos que passasse alguma coisa, mas aos poucos, como tudo na vida, foi-se habituando e lá para o fim da noite já ninguém o segurava com os grandes saltos dançarinos que exibia olimpicamente. Tantos saltos deu que acabou por dar um jeito numa perna, o que lhe provocou imensas dores.
No entanto, a dor maior foi quando, ao ter que ir ao hospital por causa da perna, teve que baixar as calças e a enfermeira assistiu em primeira fila à exibição da sua tanguinha secreta em cetim vermelho, a sobressair no meio de um pneus adiposos já bem acentuados. Consta que todo o pessoal da urgência passou todo por lá.
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3. Branco mais branco nem sempre há
- Sabes que com um vestido preto numa me comprometo. Fica sempre bem.
- Qual preto, qual quê? Imaginem entrar num novo ano já de preto, isso só atrai maus fluidos.
- Mas eu sempre vesti.
- Por isso é que a tua vida está como está. Veste-te toda de branco que isso dá boa sorte. Não vês os brasileiros, todos de branco a chamarem as energias positivas?
- Sim, mas nem por isso vivem bem.
- Mas são felizes, é uma gente para cima.
- Mas eu só tenho roupa branca de Verão e agora faz tanto frio.
- Que nada! Levas o tal vestido branco giríssimo que tens, pões uma aquela pashmina de lã rosa e vais muito bem.
Laura não achava muito boa ideia ir vestida como nos trópicos quando por cá fazia um frio de gelar, mas acabou por aceitar o conselho da amiga. Afinal a sua vida andava, há uns anos a esta parte, mesmo para trás que bem precisava de muita luz para ela avançar.
Não sabe se foi pelo vestido branco, se foi pelas taças de champanhe que bebeu para combater o frio, o que é certo é que se divertiu imensa naquele final de ano.
O mesmo não pôde dizer, passados uns dias, quando se viu pouco tempo depois numa cama com uma pneumonia muito complicada durante 2 semanas, causada pelo frio que sofreu toda aquela noite. Logo ela que tinha gozado com uma colega que em tempos apanhou uma hipotermia quando teimou em desfilar numa escola de samba no Carnaval da Mealhada, vestida como se tivesse no sambódromo.
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Sejam livres. Façam todas as tradições que vos derem na real gana, inclusive a de não fazer nenhuma.
Boas cores em 2008