O Meu Cinema já não é o Meu Cinema - A Arte Escondida
Se há 20 atrás eu dissesse a alguém conhecido que tinha papado todos os filmes blockbuster e que tratava o Top Ten US por tu, por certo que me mandavam internar, ou então saíam desarvorados comigo para um exorcismo bem forte, num cineclube qualquer.
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Uma coisa é certa, para uma pessoa que navegava quase que em exclusivo por cineclubes, ciclos Carlos Alberto, numa primeira fase no Porto, e Cinemateca e Quarteto, numa segunda em Lisboa, ter agora no curriculum os Spider-Man I, II e III é motivo para ser excomungado de todos os cardápios cinéfilos de dita qualidade.
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Mas o que me fez mudar? Que divórcio tenho eu com o cinema de autor para agora andar tão amantizado com o cinema comercial? Ainda por cima se tiver que fazer uma lista dos filmes da minha vida, daqueles que marcam a nossa memória, não faltam os ditos autores nos contemplados, quase todos europeus, só Fellini é capaz de ter 3 na conta final.
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Poderia dizer que os bons autores já morreram e que dos actuais, tirando um Almodôvar, um Techiné ou um Kusturika poucos são capazes de surpreender – se calhar estou a ser injusto, afinal Spielberg também é um autor e dos grandes.
Poderia até dizer que uma boa parte deles ficaram chatos e cristalizaram na forma como apresentam o cinema – o cinema é predominantemente técnica e como tal evolui –, em que, por vezes, muitas formas de estilo escondem deficiências assustadoras – é muito mais fácil colocar um tripé e ficar à espera que as coisas aconteçam do que estruturar movimentos e planos para captar a acção.
Poderia mesmo avançar para a desculpa do novo tempo que nos devora, em que tudo tem que ser muito rápido e pronto a ser compreendido de imediato - pensar é um exercício difícil, o melhor é darem-nos já o pensamento feito, viva a fast mind.
Tudo pode ser verdade, mas, como dizia o poeta, não, não vou por aí. Porquê? Porque sei que nenhuma das justificações apontadas é a verdadeira razão.
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Para se continuar a perceber a minha ideia (ou a falta dela) terei que esclarecer que quando falo em ver determinados tipo de filmes, falo em vê-los no cinema, claro está. Porque em TV ou em vídeo sempre vi de tudo.
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Não sei se por preconceito, se por vergonha, não ia ver filmes de animação. Via alguns quando passavam na televisão, mas nunca me atraíam muito.
Há cerca de uma dezena de anos, porque apareceu uma pessoa que mudou a minha vida, comecei a ir ver tudo o que se estreava de cinema de animação. Não só era uma coisa diferente para fazer com uma criança, como também era a única forma de a manter sentada ao colo e não me exigir que andasse. Ela, que por caso é um ele, divertia-se com meros 2 anos a ver a bonecada, e eu, refastelado, ferrava um galho, vulgo passar pelas brasas. Pena que os malditos filmes fossem tão curtos.
Uma coisa é certa, mesmo com um olho meio aberto, meio fechado, fui começando a gostar dos filmes de animação, e graças a este palmo e meio de gente descobri todo um universo que me fugia. Só assim posso considerar Ratatouille uns dos melhores filmes de 2007.
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Mas ansioso de coisas diferentes, levei-o, com 3 anos, a ver o Star Wars – A ameaça fantasma. Não sei se um dia ainda vou ter que pagar muita conta de psiquiatra ou se vou estar emocionado numa plateia, a chorar baba e ranho, quando ele receber a Palma de Ouro em Cannes, mas o certo é que o puto sabia mais depressa dizer May the force be with you do que quero pão com manteiga. Só espero que quando tiver idade para dizer ó pai quero levar o teu carro, saiba antes dizer coisas do género ET phone home, acho que vou gostar mais de ouvir.
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Como não se contentou com o volume I da exalogia, há que aviar o II e o III, os Harrys Potters, os Senhores todos que tinham anéis, os Matrix – apesar da idade penso que terá percebido o último episódio tanto quanto eu, nada – os Aranhiços Homens e por aí fora. Como não há filmes destes todos dias, valha-nos Deus, eu ia depois arranjando tempo para ver os meus.
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Mas as crianças crescem e agora, mesmo não tendo uma idade muito recomendável, insiste em me acompanhar a quase todos os filmes. Assim, lá vou ter que ir fazendo uma selecção aceitável do que pode ver, como se eu fosse uma pessoa muito responsável para isso, mas pronto, faço o meu melhor. Tento conciliar uns tiros e umas explosões com algo um pouco mais suave de vez em quando. Ganho assim alguns direitos – olha que este filme Scoop do Wood Allen é capaz de ser giro, afinal é um morto que regressa para revelar um crime – para olhar outros filmes com menos $$$ - claro que depois de ele assistir ao Scoop fui amaldiçoado e interditado a sugerir qualquer filme durante uns meses, até ao Zodiac. O problema é que ele tinha razão quanto à qualidade do filme, Allen voltou ao seu pior.
Depois deste jogo do escolhe-escolhe já me resta pouco tempo e dinheiro para outras aventuras.
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Já estou mesmo a ouvir o pessoal, olha-me este, a armar-se em fino intelectual, que só gostava do autores, que comia nouvelle vague logo ao pequeno almoço, mas no fundo o que gosta é de uma boa cowboiada, nem que para isso tenha que arranjar a desculpa de uma criancinha. Faz lembrar alguns que compravam a Playboy porque tinha sempre muitas boas entrevistas.
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Mas podem crer que é a pura verdade. Arrependido? De forma alguma, descobri um outro tipo de cinema, se calhar o verdadeiro cinema, o cinema espectáculo, ou já nos esquecemos que os primórdios da 7ª arte foram nas feiras, como uma atracção?
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Pelo facto de serem produtos comerciais não significa que são obras menores. Têm na sua essência tudo aquilo que o cinema deve ter:
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- Óptimo grafismo - resumido no bom cruzamento da fotografia e da cenografia, apresentam uma estética e uma plasticidade muito interessantes com arquitecturas e designs cénicos, muita das vezes, fabulosos. É preciso lembrar que o fabuloso boneco do Alien foi criado por um grande artista plástico suíço, o H.R.Giger.
- Bom ritmo - determinado por uma montagem sempre cuidadosa, que elimina o desnecessário e faz um encadeamento adequado entre cenas.
- Castings acertados - não tendo, normalmente, grandes interpretações, pois exageram muito no overacting, apresentam quase sempre actores adequados aos papeis.
- Personagens coerentes – apostando nos bonecos tipificados, apresentam personagens envolventes e fáceis de captar.
- Rigor Técnico – Não só os efeitos especiais são a excelência, mas iluminação, som, pormenor dos adereços, nada é deixado ao acaso.
- Dinâmica filmíca – os planos, a sua concepção e a sua sequência, criam uma emoção quase sobreposta ao enredo, como se uma segundo filme contassem.
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Ok, os argumentos muitas das vezes parecem idiotas, mas também não se pode ter tudo. Ninguém espera, quando vai ao circo, encontrar lá a mesma profundidade que sente no Nacional quando assiste a Beckett. No entanto, não deixa de se emocionar e de sentir o brilho da trapezista voadora ou de se empolgar com o domador de leões.
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Pode ser este tipo de cinema arte?
Pode. Desde Andy Warhol a Jeff Koons que sabemos que a arte pode estar em qualquer objecto banal com que lidamos todos os dias. A qualidade não se fabrica, acontece (ver Eu quero, posso e mando... criar quase nada.).
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O nosso problema é que tentamos ver um filme como um quadro, uma pintura, uma obra de arte. Mas não, um filme encerra em si, quando é bom, muitas artes, a fotografia, a interpretação, a cenografia, etc. Ou seja, um filme não é um quadro exposto mas sim a própria galeria. Já visitei muita boa galeria com maus quadros lá dentro e, pelo contrário, quadros muito bons em galerias mixurucas.
O que terá mais arte, pôr uma câmara numa sala para uma senhora com um longo chapéu dizer umas frases profundas, ou conceber estruturas e objectos, ao detalhe e com um bons designs, para criar um espaço cénico credível e vistoso, que vai ser filmado em diversos ângulos, ainda que servindo, por vezes uma história banal?
Não haverá neste tipo de filmes comerciais um exercício de estilo e de criação tão valioso quanto a concepção filosófica dos filmes de autor?
Sem fundamentalismos, no cinema cabe lá tudo como se fosse a própria torre de Babel em formato artístico. Mais do que a Obra, é apenas um suporte imenso onde a arte depende das diversas propostas estéticas e dramáticas apresentadas. No fundo, acaba por estar mais ligado ao prazer que causa a sua visualização do que ao conteúdo exclusivo ideológico da narrativa, ainda que também seja importante. A arte está na luz que enche os nossos olhos.
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Com o início do ano vem a temporada dos balanços e das análises. Vamos espreitar os filmes mais vistos nos anos 2007.
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Rank | Filme | Receita Global | EUA | Rest. Mundo |
Rec. | Rank | Rec. | Rank |
1 | Pirates of the Caribbean: At World's End | 961,0 | 309,4 | 4 | 651,6 | 1 |
2 | Harry Potter and the Order of the Phoenix | 938,5 | 292,0 | 5 | 646,5 | 2 |
3 | Spider-Man 3 | 890,9 | 336,5 | 1 | 554,3 | 3 |
4 | Shrek the Third | 796,0 | 321,0 | 2 | 475,0 | 4 |
5 | Transformers | 706,3 | 319,1 | 3 | 387,2 | 6 |
6 | Ratatouille | 617,0 | 206,4 | 8 | 410,6 | 5 |
7 | The Simpsons Movie | 525,6 | 183,1 | 10 | 342,5 | 7 |
8 | 300 | 456,1 | 210,6 | 7 | 245,5 | 9 |
9 | The Bourne Ultimatum | 441,2 | 227,5 | 6 | 213,7 | 10 |
10 | Live Free or Die Hard | 382,1 | 134,5 | 16 | 247,6 | 8 |
11 | Ocean's Thirteen | 311,3 | 117,2 | 24 | 194,2 | 11 |
12 | Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer | 288,3 | 131,9 | 17 | 156,4 | 13 |
13 | I Am Legend | 266,4 | 205,1 | 9 | 61,3 | 35 |
14 | Rush Hour 3 | 255,0 | 140,1 | 15 | 114,9 | 14 |
15 | Wild Hogs | 252,8 | 168,3 | 11 | 84,6 | 25 |
16 | Ghost Rider | 228,7 | 115,8 | 25 | 112,9 | 15 |
17 | Mr. Bean's Holiday | 224,7 | 32,6 | 74 | 192,1 | 12 |
18 | Knocked Up | 218,9 | 148,8 | 13 | 70,1 | 29 |
19 | Bee Movie | 230,4 | 123,6 | 19 | 106,8 | 16 |
20 | Hairspray (2007) | 200,2 | 118,9 | 22 | 81,3 | 26 |
Fonte: IMDB, com adaptação própria. Os filmes a cinzento ainda seguem em 2008
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- O mercado extra-EUA é cada vez mais determinante para o sucesso de um filme, pois representa cerca de 60% das receitas, mesmo os filmes com maior sucesso no EUA tiveram receitas superiores fora.
- A herança cinéfila mais sofisticada da Europa, ela é o principal mercado fora dos EUA, continua patente. O facto dos Piratas e do Harry Potter serem os principais filmes não escondem um gosto mais barroco, menos imediato, mais sofisticado, mesmo quando se fala em comercialite pura.
- O relativo fracasso do Die Hard, Quarteto Fantástico e Ghost Rider. Nem sempre a fórmula da eterna fábrica summer blockbuster funciona.
- Boas surpresas de 300, Hairspray, Wild Hogs e Knocked Up (sem carreira terminada).
- A ausência completa de um filme estrangeiro (não EUA) nos primeiros 20. Nem mesmo um filme inglês, que costumam por vezes dar o ar da sua graça. Mr. Bean que foi um sucesso por causa da sua carreira na Europa não é propriamente um filme inglês, mas sim uma co-produção americana.
- A galinha de ovos de ouro dos filmes de animação, com 4 bons exemplos na lista. Alguém dúvida que Ratatouille vai levar o Óscar? Não admira o filme é perfeito.
- Desta lista só sairão os Óscares técnicos, lá como cá, o preconceito contra o cinema mais comercial também é uma constante, no fundo aquele que sustenta depois todos os outros que vão levar as estatuetas. Talvez Hairspray seja uma surpresa.
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Mais uma ano que passou. Noto que cada vez vejo menos, em sala, o outro tipo de cinema. Depois vingo-me e, em DVD, vejo o resto, que também é importante. No fundo vejo o grande espectáculo no grande ecrã e o mais intimista numa pantalha mais pequena.
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Na sexta-feira, no Público, Pedro Costa, que vai receber um prémio da Associação de Críticos de Los Angeles, desdenha do filme de António Pedro Vasconcelos Call Girl e, de uma certa forma, de todo o cinema comercial. Se o cinema fosse só como ele o preconiza, já tinha acabado e andava aí a ser só mostrado em caves soturnas para meia dúzia de eleitos. Graças ao cinema que ele desdenha, e a toda a sua dinâmica de mercado, pode, além de receber o tal prémio, continuar a fazer os seus de filmes, que também são importantes, e a mostrá-los no mundo. Nostálgico de um certo cinema clássico, não vê que foram eles, a seu tempo, também suportes comerciais cinematográficos.
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No ano passado, por esta altura escrevi 12 post, de seguida, intitulados 12 meses 12 filmes. Fiz um balanço, quase em solidão. Mesmo assim deu-me muito gozo. Talvez a luz do que queria dizer ofuscou-me a imagem da plateia vazia. Mas não caí no fosso. Espero.
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O meu cinema já não é o meu cinema, de outrora, mas ainda assim, é cinema eterno. Não uma arte, mas um conjunto delas, em que cabe lá tudo, de Chaplin a Spileberg, é o meu grande caldeirão.