SOL

Imagens caídas

Uma imagem vale mais do que mil palavras. Porque não fazer o contrário? Com as palavras construir e falar de imagens.

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Cut Scenes: Cenas Cortadas do Filmezinho das Nossas Vidas - 1 - Compras com Fim

Se a nossa vida fosse um filme seria por certo um filmezinho que passaria quase despercebido, a não ser para meia dúzia de espectadores que se sentam sempre nas primeiras filas da nossa sala de vivências. Por certo só as grandes personalidades teriam direito a um grande épico, daqueles de longas horas e que no final têm sempre direito a muitos prémios. Outros há, que mesmo não passando também um filmezinho, fazem-se aparecer com um bom conjunto de efeitos especiais para dar a sensação de grande espectáculo, e é vê-los sempre em festivais e eventos à procura de grandes holofotes. Mas esse brilho é sempre passageiro, pois as suas bobines acabam arrumadas, como nós, no velho armazém do esquecimento.

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Passando a vida para filme vamos apenas de deixando ficar no projector da memória apenas os factos importantes que marcaram a nossa rodagem. Todo o resto acaba por cair, na eterna mesa de montagem do tempo, constituindo, assim, um espólio enorme de cenas cortadas.

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 fita

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Se os factos importantes são aquilo que é exibido na grande projecção, as cenas cortadas são os extras que realmente transformam o nosso DVD de memórias em algo diferente e verdadeiro único. Incluí-los é trazer uma outra cor, um outro brilho às imagens que são nossas e que não devem ficar caídas.

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Com este post inauguro mais um séria (incompleta, como sempre) a que chamo Cenas Cortadas. São pequenos contos (suspirem já os traumatizados dos lençóis!), short stories, a que eu chamo de historietas, e que ilustram alguns momentos caricatos que vivi, que vi ou que me contaram (a maioria). Claro que partindo de uma situação potencialmente real, nem sempre as presenciei, são depois coloridas com as minhas palavras e com a minha imaginação (ou a falta dela).

Espero apenas que os verdadeiros protagonistas nunca venham aqui ler, caso contrário, espera-me um pelotão de fuzilamento.

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A edição zero desta série fez apareceu no Post United Colors of Reveillon - Menu de Tradições  (eu avisei), com a sua emissão experimental.

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1 Todos nós nos lembramos de um tempo em que se guardavam coisas para uma ocasião especial. O fato que não se vestia para que só fosse usado em caso de casamentos e baptizados. O pijama novo oferecido que ficava religiosamente arrumado num roupeiro para o caso de uma doença súbita aparecer e houvesse a necessidade de uma exposição pública, em hospital ou em casa, da nossa intimidade têxtil. A toalha de mesa em linho cru bordado que esperava, guardada numa gaveta do armário, uma qualquer visita importante que resolvesse aparecer. Uma roupa mais formal e em bom estado, que a partir de uma certa idade, fica estacionada à espera de ser o vestuário final.

Outros tempos nasceram. Afogados num mar de coisas à nossa disposição, não só não guardamos nada como compramos e usamos mais do que realmente precisamos, a fazer lembrar crianças gulosas que ainda não acabaram um doce e já pensam noutro. No entanto, algumas pessoas ainda fazem deste tempo o seu antigo tempo.

*

 vestido

*

Genoveva, apesar de continuar de boa saúde, sabia que os seus dias já não seriam muitos, afinal os seus 76 anos começavam a pesar. A ideia que tinha que se preparar para o dia final há muito que não a largava.

- Paula, tenho que lhe pedir um favor – disse Genoveva enquanto olhava para umas caixas de cartão que o seu filho Pedro tinha acabado de montar. – Um dia destes vai vir comigo às compras, pois eu tenho que fazer umas compras especiais.

Paula franziu a testa, em jeito de surpresa, pois não era Natal e a sua sogra, tirando essa época, há muito que tinha deixado de sair para fazer compras, a não ser que a arrastassem para uma visita a algum centro comercial novo, a fim de ela o conhecer. Normalmente ela acedia, perante o entusiasmo dos netos em querer levar a avó, mas bem que preferia ficar no seu sofá a ver televisão.

- Eu quando morrer não quero dar trabalho nenhum. Quero que tudo já esteja preparado. Assim quero ir comprar a roupa que vou levar vestida nesse dia. Estive a ver e não tenho nada de jeito.

- Por amor de Deus, Veva! – exclamou Paula estarrecida, não só com a morbidez da ideia, como também com a penosidade de ter que acompanhar a sogra numa sessão de compras com tal fim.

- Está decidido, eu vou comprar a roupa. Se não quiser vir, vou eu sozinha.

- Não é isso. Claro que vou. Agora não tem necessidade de estar a pensar nessas coisas, primeiro porque está aí muito boa, cheia de genica, e depois quem cá ficar que resolva o assunto.

- Pronto, está resolvido. Diga-me só quando é que lhe dá jeito.

Sem mais conversas Genoveva foi para o quarto arrumar as caixas de cartão. Paula compreendeu, então, porque a sogra fez questão de comprar aquelas caixas aquando de uma visita a uma grande loja de coisas para casa. Logo ela que dizia que para casa não comprava mais nada pois já tinha tralha que chegasse.

*

Paula e Genoveva entraram na enésima loja de roupa.

Genoveva dirigiu-se logo apressadamente ao local dos vestidos e começou a escolher. Paula procurou imediatamente uma cadeira para se sentar, estava exausta. Como podia alguém andar a escolher roupa para quando morresse, se estava como uma energia alucinante? Ela entrava e saia das lojas com mais fulgor do que uma adolescente a escolher a toillete para levar à primeira festa que vai sem os pais.    

Genoveva vestiu uma série de vestidos. Via-se ao espelho, rodopiava para ver o efeito e caminhava até perto da sua nora para que ela lhe desse a sua opinião. Esta, sempre sentada, ia abanando a cabeça afirmativamente ou negativamente, não percebendo muito bem o porquê de tanta escolha.

- Este faz-me um pouco gorda, não faz? – perguntou Genoveva.

- Não, cai-lhe lindamente – respondeu a empregada, que julgava que se trava da escolha de uma roupa para uma cerimónia um pouco mais viva do que aquela a que realmente se destinava.

- Sempre quis ter um vestido assim – referiu Genoveva ao colocar um com umas flores alaranjadas bem grandes. – Mas é capaz de não ficar muito bem.

Paula estava para morrer. A sua sogra, que nunca a viu vestir outras cores que não o sóbrio cinzento e azul-escuro, estava ali à sua frente com um lindo vestido branco com flores laranja, toda sorridente como se fosse embarcar para a Jamaica. A sua boca quase que se esteve para abrir e dizer, não fica não, especialmente não vai ligar nada bem com os tons da madeira do caixão. Mas segurou-se.

- Se calhar não é muito próprio – comentou Paula.

- Tem razão – concordou Genoveva num tom melancólico, deixando, assim, escapar um certo desapontamento por aquele pequeno sonho ter sido desfeito na única oportunidade confessa que teve para o realizar.

Depois de mais umas provas, Genoveva encontrou finalmente um vestido azul-marinho liso que poderia ser a escolha acertada. Caminhou mais uma vez bem airosa na sua passerelle improvisada, sentia-se uma verdadeira modelo, até Paula, mas já não levava o sorriso estampado que tinha quando vestiu o das flores laranjas.

- Que tal?

- Bom, esse fica-lhe a matar – respondeu Paula, quase que trincando a língua ao tentar travar a palavra matar, pois no momento em que a proferiu reparou que não era a palavra adequada às circunstâncias.

*

 sapatos

*

Já com o vestido azul e todo um conjunto de acessórios e complementos, dirigiram-se à última loja, uma sapataria.

Enquanto a sogra ia calçando sapatos, Paula, aproveitava e experimentava também umas sandálias, as férias estavam quase à porta e havia que ganhar tempo.

Mais uma vez Genoveva andava de um lado para o outro, saltitando, a experimentar e a ver o efeito dos sapatos. Depois de já ter experimentado uma boa dúzia deles fixou-se nuns azuis.

- Eu gosto muito destes, mas não sei não. Acho que me magoam um pouco ao andar.

Paula pousa definitivamente na prateleira, num gesto bem enérgico e estridente, as sandálias que tinha acabado de experimentar e, cansada de tanto fashion choice, olhou seriamente a sua sogra.

- Mas servem-lhe?

- Servem, só que me magoam um pouco aqui atrás.

- Bom, vamos lá ver, se é para o que é, esteja descansada que nesse dia não lhe vão magoar de certeza, ou muito me engano ou não vai precisar de dar um passo com eles.

- Pois é! – respondeu tristemente Genoveva, caindo finalmente em si, tudo o que tinha andado a comprar com tanto gosto era apenas um conjunto de coisas que quando as fosse usar já não faziam nenhum sentido para ela, tinha ando a comprar o seu fim. – Levo estes, então. 

*

Chegaram a casa num perfeito silêncio. Genoveva arrumou todas as compras nas tais caixas de cartão e foi fazer o jantar, que o filho e o neto estavam à espera dos seus petiscos e ela não gostavam que a sua gente saísse dali de barriga vazia.

Ninguém percebeu porque no meio jantar e perante a observação do neto, que queria outros ténis porque os que tinha andavam a magoá-lo, Paula e Genoveva explodiram a rir sem conseguir parar.

Nessa noite lavaram a loiça as duas juntas.

Posted: quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008 20:55 por bp63

Comentários

bluewater68 said:

bp63,

"A minha vida dava um filme"? Bom, as 'Cenas Cortadas' podem ser os Extras do DVD. E o 'Making Of'? :)

Aqui a Princesa Mor, quando compra algum trapinho, é quase certo que o veste no próprio dia ou no máximo dos máximos no dia seguinte. Só falta mesmo é sair da loja com ele vestido.

Dantes havia a roupinha dos Domingos (a melhor). Depois, vieram os CC e o melhor passou para o vulgar fato de treino. Mais tarde e actualmente, lembraram-se de chamar 'look casual' e assim é na boa que se misturam sapatilhas com blazer.

É deveras curioso como por vezes se guarda roupa à espera de uma ocasião especial e ela acaba por nunca acontecer.

Sobre a tua Historieta, Conto, Cena Cortada, apenas acrescento que escolher a roupa para alguém na hora da morte é uma tarefa bastante difícil e muito dolorosa. É algo que não se fala e torna-se numa tarefa que ninguém quer assumir, muito menos tomar uma decisão. E depois, é dar um conjunto de malas com roupa que foi comprada ao longo dos anos, que foi em algumas situações arranjada numa modista, e que era motivo de orgulho e vaidade por quem as usava.

Dito isto, um Abraço

.

P.S: (ou PC - Post Comment) isto é que vai uma crise com os guionistas. Nem Globos de Ouro, Óscares talvez...

# Janeiro 10, 2008 22:36

desabafosdaminda said:

bêpêzinho,

tu não descansas homem?

já li o que escreveste, já me ri... mas ainda não reli!

sábado voltarei!!! é uma ameaça!!!

e não morasses tu tão longe e ias ver se não me aturavas a ver desenhos animados!

beijinhos

minda

# Janeiro 10, 2008 23:00

bp63 said:

BW

Pois eu também sou como aí la princese, o que compro é pra usar, seja de vestir, calçar, comer, beber ou outra coisa. Guardar para quê? Ainda vem aí uma rabanada de vento e nos leva e ficam as coisas por estrear, ná!! Por um não se espera e por dois vai-se andando.

Mas lembro-me que em pequeno me guardavam umas coisas para ocasiões especiais. Detestava isso. Por isso agora vingo-me.

Guardar roupa para quando morrer deve ser uma coisa muito pesada. Por isso achei esta história verdadeira bem deliciosa quando me contaram, pois no meio de acto bem triste conseguiram encontrar uma certa alegria e um certo humor-negro.

O Making off, pois bem, acho que temos alguns, quando preparamos e preparamos uma coisa e depois zás, sai tudo ao contrário.

Os argumentistas estão mesmo em grande. Parece que a força das palavras ainda tem peso. Não sei bem quais são as suas motivações mas que eles são 50% do sucesso de qualquer coisa, lá isso são. O pior é que depois não embolsam quase nada nos direitos.

E se aqui nos Blogs fizéssemos também uma greve para termos 100% dos cachets do blogues. Não ia custar muito porque 100% de 0 será sempre 0.

Abraço

# Janeiro 10, 2008 23:45

bp63 said:

Minda

Será the Saturday Night Fever com um Terminatorminda?I'll be back!!!

Então cá espero.

Beijos

# Janeiro 10, 2008 23:46

boogie said:

Olá bp63

As grandes e algumas pequenas cenas do filme da minha vida estão gravadas na minha memória.

Por vezes revejo-as e tento arranjar uma desculpa para o mau desempenho de algumas delas e rir-me da comicidade de outras.Faço isto com naturalidade.

Quanto às fatiotas  gosto de as ver nas montras ,de  comprá-las  e ter o prazer de as vestir, enquanto o sangue fluir no meu corpo e sentir o tiquetaque do meu coração a bater no meu peito.

Por isso não estou minimamente preocupada em saber como é que vai vestido o meu cadáver que ,se não for cremado, acaba ao fim de alguns anos por ser apenas um monte de ossos igual a tantos outros.Até os trapos que o envolvem apodrecem ,ficando irreconhecíveis.

Eu sei que existem  pessoas que se preocupam com estes pormenores e conheço até um sujeito que gostaria de escolher o caixão e guardá-lo em casa. Há gostos para tudo.

A morte é um facto inevitável e  a vida é apenas um intervalo, por vezes muito  curto, entre o acto de nascer e  o de morrer.Por isso quero aproveitar esse intervalo intensamente e não perder tempo a escolher a farpela que me vão vestir na cena final do filme da minha vida. Tenho mais que fazer.

Bjs

Boogie

# Janeiro 11, 2008 9:22

josefadobidos said:

Gostei do vestido com flores cor de laranja e os sapatos azuis parecidos com umas pantufas!!!! Ganda história! Um bocadito mórbida, porque a morte não nos fica nada bem.... tem de ser, mas não é nada bom. Aproveite-se o dia, como dizia o outro!

beijo

Jo

# Janeiro 11, 2008 16:54

PSCGF said:

Bp,

A "tua" Genoveva é uma mulher de fibra.

Adoraria chegar a essa idade e estar em plena concordancia com o meu futuro : a morte .

E mais , não estar stressada em pensar na morte , mas sim stressada em deixar este Mundo com tudo bem organizado .

Muitas vezes e por variados motivos , penso como será? o que acontecerá? Acho que comecei a pensar mais seriamente apartir do momento que fui mãe. Pois assalta-me sempre aquela questão : o que será dos meus filhos se...

E infelizmente temos que ser practicos. Hoje em dia a morte envolve muitas situações , emocionais, praticas, pessoais e juridicas.

E infelizmente são as questões praticas e juridicas que mancham a tranquilidade de qualquer um no final da linha da vida.

Mas (e eu tenho sempre um "mas") acredito na reencarnação . Verdade. Eu acredito que já cá estive e que cá voltarei.

Por isso,  aqueles que me amam direi sempre : Esperem que eu voltarei !

Aos meus inimigos direi:

Não queiram reencarnar no mesmo ano que eu!

Beijinhos

Paula

# Janeiro 11, 2008 19:03

bp63 said:

Boogie

?A vida é um intervalo?. Plenamente. Entre o nada e o nada temos esta oportunidade de passar por aqui. Também gosto muito de usar e viver as coisas, o que está para além dessa etapa tento não pensar nisso, até porque temo que não haja mesmo nada.

No entanto, não deixa de ser uma etapa marcante, afinal terminamos o intervalo. Por isso compreendo as pessoas que pensam nisso e tentam arranjar as coisas. Eu seria incapaz. Mas admiro ainda mais quem encara isso com descontracção.

A propósito de intervalos, quem acredita em reencarnação, o intervalo é a morte e não a vida. Será?

Bjs

# Janeiro 11, 2008 23:47

bp63 said:

Jo

Sim a história é um pouco mórbida, quase que diria com um humor bem negro, mas o certo é que quem a viveu (não com todos estes detalhes que escrevi) levou a morte na desportiva e acho um mimo que alguém, mesmo morte, ache que deve ter uns sapatos confortáveis. Porque não.

Realmente a morte não nos fica muito bem e mexe connosco, mesmo em palavras, especialmente se lidamos com ela de perto recentemente. Editei a historieta porque já a tinha escrita há algum tempo e pensava fazer esta série. Porque face aos últimos acontecimentos acho que agora é incapaz de a escrever. Inclusive tenho mais 3 pequenas histórias à volta de funerais, situações caricatas que por vezes acontecem, e não sei se as vou editar. Vamos ver.

Beijo

# Janeiro 11, 2008 23:54

bp63 said:

Paula

Não sei se a minha Genoveva será como a verdadeira senhora que viveu a história. Mas foi assim que eu a vi, pelas palavras que me foram transmitidas. Vi nela uma mulher com uma certa fibra e descontracção para encarar a escolha da sua ?toillete fúnebre? como mais uma sessão de compras divertida. Devia ser assim.

Quanto à reencarnação gostava de acreditar mas não consigo. Até pelo principio matemático. Assim não havia nem crescimento nem declínio demográfico.

Agora digo uma coisa, se alguém me dissesse ?eu voltarei?, acho que mesmo sem acreditar mandava rezar umas missas à sua alma para ficasse lá em descanso e não me viesse assombrar Smile. Até porque se a pessoa voltasse seria um encontro muito curto, ela voltava e eu partia. Fulminado com um ataque cardíaco.

Brincadeiras à parte, não consigo essa elevação para acreditar na reencarnação. Sou mesmo um pobre diabo materialista.

Beijos

# Janeiro 12, 2008 0:05

PSCGF said:

Ah Bp...

Acredito. Não me baseio em conceitos relegiosos ao dize-lo.

E penso que é este "acreditar" subconsciente que me faz encarar a vida e a morte e á tua Genoveva tambem.

E eu sei que estás a escrever ficção baseada em observações , eu li o teu mini lençol ! Até era mini...

Agora a sério (mas a reencarnação é verdade!) eu tambem já me deparei com algumas Genovevas e   acho que são pessoas que olham o seu passado com nostalgia mas com aquela sensação de dever cumprido.

Um beijinho e a esta hora prometo não falar mais em reencarnação.

Paula

# Janeiro 12, 2008 1:27

bp63 said:

Paula

"? aquela sensação de dever cumprido". Realmente é uma situação que encontramos muito em algumas pessoas de uma determinada geração, cuja vida está estabilizada, plena, com filhos criados, netos a crescer e especialmente em viúvas. Sim, parece que dizem, agora que já está tudo no seu lugar eu posso partir e ir ao encontro de quem me faz falta. Parece ser uma interpretação muito idílica mas realmente essas pessoas passam essa mensagem. Daí até escolherem a roupa que irão vestir nesse dia.

Penso que a nossa geração não vai conseguir isso, pelo menos eu, pois acho que não cumpri rigorosamente nada.

Podes falar novamente em reencarnação. Pelo lado sério é bom porque vejo outras perspectivas. Pelo lado brincalhão também gosto porque sempre adorei o fantástico e a FC.

Beijos

# Janeiro 12, 2008 9:54

eeu said:

Bp

Esta história fez-me lembrar o filme "Imitation of Life" e a cena do funeral para o qual a mãe negra canalizou a sua vida e os seus desejos...

E digo-te que no Brasil há consórcios para comprar campas nos cemitérios (privados) e que se compram em vida e se escolhem como imóveis de luxo ou vestidos de marca. A minha mãe já comprou uma.

Acho que o que leva as pessoas a darem as boas vindas à morte é não só a perda de pessoas especiais como, principalmente, penso eu, o cansaço. Deve chegar uma altura em que ficamos mesmo cansados de viver...

Eu tenho algumas coisas que guardo para as tais ocasiões especiais, principalmente roupas e lingerie. Porque não compro as coisas para as ocasiões, compro o que acho original, bonito e acessível. Depois tenho as coisas em casa até surgir a ocasião, que muitas vezes é surgir a pessoa para quem aquilo é adequado num determinado momento e então dou-lhe de presente !

Isso começou a acontecer depois que fui mãe e as ocasiões sociais para usar as coisas começaram a rarear por já não levar a vida socialmente intensa que levava. E continuo a acreditar que, crescendo a minha filha e crescendo eu profissionalmente as ocasiões voltarão a aumentar... ou eu a poder aproveitá-las.

Mas como disse no post de ano novo, acho importantíssimo pormo-nos bonitos para nós simplesmente, para nos sentirmos bem ou bonitos, ou sexy's, ou artigo de luxo ! rsss

Quando morrer, quero ser cremada, não quero que ninguém se sinta na obrigação de me ir visitar ao cemitério.

eeu

ps- lendo um comentário teu noutro post -e apesar de nem saber se isto encaixa- fiquei com vontade de dizer-te: se a luta te está a esgotar, não lutes mais, rende-te. Nada na vida é definitivo ao ponto de merecer uma luta de vida ou morte... rende-te aos factos e confia em que as voltas da vida trarão a sua própria e acertada solução... -talvez isto te possa ajudar de alguma maneira... ou não, não sei, só senti vontade de t'o dizer.

# Janeiro 12, 2008 17:15

bp63 said:

Eeu

Tive que ir fazer de NBC para ver qual era o filme, mas mesmo assim não me lembro dele.

Penso que as pessoas que começam a dar as boas vindas ao seu fim podem ter mesmo esse tal cansaço, mas também pode ser pelo tal ?missão cumprida? de que já falei. Não sei, ainda estarei longe (supostamente) mas se chegar lá não quer andar aqui por andar.

Cremar também é a minha vontade mas não sei se a vão respeitar. Nessa altura somos os que mandamos menos.

Quanto às coisas de guardar, não tenho nada disso, é logo para botar no corpinho, na mesa, na cama ou onde for. Infelizmente as únicas coisas que guardo são as tralhas que podia deitar fora mas que tenho a mania de fazer museu.

Sobre a tua dica, obrigado. Quando se tratam de coisas só comigo sou muito pelo princípio, depois da explosão passar, do ?O Tempo, esse grande escultor? da Marguerite Yourcenar. Acho que a seu tempo tudo se ajusta e fica reduzido à verdadeira importância. Quantas tempestades que já naveguei não passavam afinal de um leve bater das ondas na praia, que nem ao mar me fiz.

O problema é quando a tempestade envolve marinheiros em crescimento pois ou temos força para aguentar o barco e tentar mudar a sua direcção ou então, caso contrário, ele vai ao fundo, sem salvação.

Por vezes interrogo-me o que estaria por detrás de determinados actos loucos que vemos de alguém, o que falhou no processo de crescimento daquela pessoa para que depois seja assim?  Ou serão os genes delas que já levaram aquilo?

Estou um bocado confuso na conversa.

Obrigado pela tua atenção.

Bom, para terminar menos cinzento, no Brasil vi uma coisa muito engraçada que era um anúncio para Funerais de animais de estimação. Eles utilizavam uma palavra giríssima mas que já esqueci, sei que faziam um verbo de qualquer coisa, seria uma coisa do género ?venha funeralizar os seus animais queridos?, mas não tenho a certeza.

# Janeiro 12, 2008 17:51

eeu said:

Há duas versões do filme, a primeira com a Claudette Colbert, a segunda com a Lana Turner. É, entre outras, a história de uma menina mestiça que tenta passar por branca e renega a própria mãe negra para consegui-lo. No segundo filme, o enterro da mãe é uma celebração. No fundo, a única satisfação daquela mãe negra, que tanto sofreu em vida...

É, ou a missão está cumprida ou esgotam-se as possibilidades de cumpri-la e daí o cansaço...

No meu particular ponto de vista, seria tipo: ok, nesta encarnação só consegui avançar até aqui. Vamos lá descansar um bocado que eu bem preciso e voltar revigorado na próxima, para avançar o mais que conseguir... rss

eeu

ps- eeu fui uma adolescente rebelde do pior (do ponto de vista dos pais, não do meu !). Se esse meu ponto de vista puder te servir de alguma maneira, conta comigo.  

# Janeiro 12, 2008 19:12

josefadobidos said:

Nunca pensei vir  a escrever isto, mas acredito hoje em dia, que a melhor forma de protegermos alguém que amamos, nunca será defendê-la dos males da vida, mas dar-lhe apenas o melhor que conseguimos dar, mesmo que continuemos sempre com dúvidas, medos... Há momentos difíceis sim, e nessa altura é aguentar e estar lá.

Não é fácil, é complexo, mas ninguém é de ninguém, mesmo... para o melhor e para o pior.

Ensinaram-me uma vez, que quando não se sabe o que dizer, há que calar, quando não se sabe o que fazer, há que quedar, porque é preciso. A morte é precisa. Significativa. Intrínseca.

Mas a natureza de cada um é muito importante, porque é vida, e a vida é muito mais forte que a morte.

Por isso é que gostei daquele vestido com flores cor de laranja.

beijos

# Janeiro 12, 2008 20:17

bp63 said:

Eeu

Depois pesquisando bem acho que tenho uma ideia do filme da Lana Turner, nem que seja num simples documentário da história do cinema.

Quanto à rebeldia penso que há um tempo para tudo. Todos nós acabamos por ser um bocado rebelde. O problema é quando essa rebeldia é quase congénita e o maior dano é na própria pessoa. Faz lembrar aquelas pessoas loucas que vão contra as paredes e acabam por se magoar a elas próprias. O problema é que não posso levar a vida a afastar as paredes, que é mau, nem a puxá-la para não bater na paredes, porque não tenho forças. Só isso. Mas melhores dias virão.

Quanto à reencarnação, pelos vistos, parece que já tenho aqui 2 candidatas. Eu acho sempre que se não conseguir fazer aqui, já não vou fazer em lado nenhum. Por isso por vezes tento beber as coisas com demasiada sede.

# Janeiro 12, 2008 21:19

bp63 said:

Jo

O problema é que por vezes nem a queremos defender dos males da vida, a

apenas queremos defendê-la dela mesmo.

A morte é um fim, porque tudo tem um fim, mesmo o que é eterno, só é eterno enquanto dura, parafraseado Vinicius.

Aquilo que mais nos distancia da morte e o sonho. Por isso, naquele detalhe do vestido laranja, em que de repente voltou a sonhar, vi o voltar agarrar a vida, o tentar escolher um caminho que ainda não tinha percorrido. Isso podemos fazer a qualquer altura, mesmo perto de um fim.

Engraçado, que a partir dum texto com alguns laivos de humor acabei por ficar demasiado sério e sombrio nos comentários.

Beijo

# Janeiro 12, 2008 21:26

eeu said:

Só para dizer que eu fui exactamente dessas, que  fazia mal a si mesma. E ninguém me pôde ajudar, quanto mais se metiam mais eu me sentia um caco e mais mal fazia a mim mesma... Tive que ficar sózinha e aprender sózinha.

Ah, ajuda profissional -de qualidade !- ajuda. Mesmo.

eeu

# Janeiro 12, 2008 23:18

bp63 said:

EEu

Pois é dessa ajuda que estou a tentar voltar a pôr no caminho. Quando digo voltar é porque em etapas anteriores nada me aportaram a não ser na carteira, que ficou mais vazia.

Obrigado mesmo. Beijo

# Janeiro 12, 2008 23:34

desabafosdaminda said:

Bêpê

Quando oiço dizer a alguém ?a minha vida dava um filme? arrepio-me logo e penso: ?lá vou levar com ataques de lamechices, maus humores e auto-comiserações, em doses suaves ou em modelo zipado!? ? de um modo geral é bingo? variando apenas na metodologia de torturas sádicas utilizadas! E quiçá eu tenho uma alma masoquista porque normalmente fico a tentar ouvir!

Na vida há grandes diferenças entre o optimista e o pessimista: tu guardas na memória coisas boas de um amor perdido (a primeira troca de olhares? o primeiro estremecimento? o primeiro beijo) enquanto que o pessimista recordará a primeira, a segunda, a terceira zanga, corrói-se com as lembranças de um esquecimento ou de uma traição?

Faz um filme pífio e é infeliz!

Os outros passam na vida saltitantes, perfumados e coloridos, estalando sonoras gargalhadas e dizendo ao mundo: Eu estou FELIZ!

*

A tua história fez-me recordar a minha Tia Laurinha, minha tia-avó, viúva desde os trinta, embiucada no seu lenço preto, saias até aos pés e rata de sacristia. Era uma figura caricata de que tínhamos um medo terrível porque quando se zangava nos dava ?carolos? (dar com os nós dos dedos na cabeça)? bem sei que era ao de leve, mas doía, principalmente porque quem não levava se ria de nós á socapa.

A Tia Laurinha já tinha tudo tratado: a roupa escolhida, os sapatos, os adereços? e o que havia de ir com ela para a tumba: o missal, o terço e pasme-se o dedo embalsamado do seu finado!

Ganhou ou não à tua Genoveva?

Beijinhos

Minda

# Janeiro 12, 2008 23:47

KURIOSO said:

bp

Se a primeira história foi sobre o fim do filme (a morte), a ultima será passada numa maternidade?

Em relação a roupa, eu tenho, sim, algo que está reservado para ocasiões especiais: um fato escuro que é usado uma vez por ano no jantar formal da empresa (este ano acho que vou ter que comprar uma gravata nova...). Se quiser ser mórbido diria que, em caso de emergência, também serve para a grande viagem. Enquanto puder, não usarei fato completo em nenhuma outra ocasião, por isso este chega bem (e obriga-me a manter a linha...).

Eu conheci uma quase Genoveva. Uma lutadora que quando sentiu a hora a aproximar-se, foi deixando recados mais ou menos velados, sobre o que deveria ser feito.

Fico à espera das próximas cenas.

Abraço,

Kurioso  

# Janeiro 12, 2008 23:50

bp63 said:

Minda

Não sei se a montagem que fazemos das cenas se pode dividir entre o optimista e o pessimista. Penso que guardamos aquilo que nos marca e rejeitamos aquilo que não queremos, como uma forma de nos proteger.

Por exemplos tenho fases em que depois da tempestade mando tudo ?pró espaço? e que venham novas marés (serei o tal optimista), mas já tive outras fases em que acabei por apagar quase tudo de bom, porque precisava de cortar com esse tempo, e lembrar-me das coisas boas era ficar com um pé lá dentro. Penso que a memória é selectiva e inteligente, elimina o que não é preciso de acordo com o tempo e com a situação em causa.

Andam os homens a inventar computadores e temos um bem melhor.

Ok a tua Laurinha é mesmo melhor do que a minha Genoveva, até porque esta apenas tem uma inspiração real e já se sabe que a vida é sempre melhor do que a ficção.

Beijos

# Janeiro 13, 2008 0:02

bp63 said:

Kurioso

Não tinha pensado nessa da maternidade, mas é capaz de ser boa ideia, tanto mais que com a falta delas não devem faltar boas histórias.

Também tenho fato a que chamo de FFF, Festas, Formalidades e Funerais. Por vezes quando vou a uma cerimonia mais formal digo sempre que estou baralhado nos F's, não sei se aquilo é festa se funeral.

As próximas cenas vão vindo, assim haja inspiração.

Abraço

# Janeiro 13, 2008 0:07

pessoalissimo said:

BP ? Por acaso esta historieta não é assim tão invulgar.

Eu, que sou filho único, já fui também confrontado com a minha mãe, para esse ?assunto? da roupinha que quer levar no dia pessoal de finados. Fiquei sem palavras, lá disse alguns lugares comuns, ?- Para quê pensar nisso agora, tem tempo!?. Ou um mais eficaz ?Não se preocupe com isso, quem cá ficar há-de resolver!?. Mas a minha mãe, uma velhinha de 86 anos, embora já bastante debilitada pela fraca saúde, lá foi tratando de tudo com a sua empregada, uma outra já idosa senhora de mais de sessenta anos. E há lá em casa dela duas gavetas que só irão abrir-se novamente no dia que partir.

Os idosos são assim, quase todos: uma fixação mórbida na morte e na sua preparação. Entretanto lutam com unhas e dentes pela sua sobrevivência, o instinto de defesa da vida a funcionar. No entanto, a cabeça, na sua racionalidade já se despediu ou está de despedidas. E não há inculcação de animo que resulte?

A ?tua? Genoveva é contudo, um pouco diferente, está ainda bastante saudável, fisicamente. Mas talvez, na cabeça, as despedidas já estejam a fazer-se. Isso acontece muitas vezes (aconteceu também à minha mãe) quando depois de cumprido o ?Plano? que lhe foi traçado após o nascimento (crescer, casar, ter filhos, educá-los, assegurar-lhe a segurança profissional e familiar, apoiar o marido, tratar dos netos, etc.) sente que já não há mais nada para fazer. É chegada então a hora das despedidas. Claro que estas podem levar anos, ainda bem!  

Foi boa a tua ideia de passar a vida para um filme, isso deve dar para muitos episódios!

Força, amigo. A vida tem cá uns personagens!

Fernando

ps - Acho que se me finasse amanhã, deixava um belo problema por resolver, é que não pensei ainda no raio da gravata que hei-de levar, se a verde do meu clube do coração e da minha alma ecologista, se a vermelha do meu instinto lutador e da forte esperança que preservo. Talvez leve uma castanha, uma simbiose das duas...

# Janeiro 13, 2008 0:41

MarAzul2007 said:

Caro amigo BP63,

Simplesmente FABULOSO. O amigo BP63 escreve muito bem. Lê-lo torna a vida mais leve.Aborda coisas sérias com humor e muita classe. Aposto que a sua vida dava um grande filme e dos bons.

Vinte estrelas.

Um forte abraço,

Marazul2007

# Janeiro 13, 2008 14:38

bp63 said:

Pois é Fernando

Preparar o final dos que nos são queridos não é fácil e é uma tarefa que dói, mas fazê-lo com o facto já consumado também deve ser bastante penoso. Daí que as Genovevas desta vida com um pequeno gesto como este fazem um enorme favor aos que ficam, poupando-os dessa tarefa amarga.

Isso de das pessoas se começarem a despedir, lembra-me um bisavô meu que em cada encontro de família, normalmente em casamentos, se despedia de toda a gente sempre dizendo que para o próximo já não ia estar. O certo é que casou os netos todos e alguns bisnetos. Só não foi a mais porque um dia farto de tanto esperar, já com bastante idade mas ainda muito rijo, acabou por ser ele a antecipar o fim.

Que desilusão essa da gravata verde! Se ainda for por causa da ecologia, vá lá que não vá, agora por causa do club?? Smile.

A última coisa que quero é levar uma gravata. Gostava que fosse à antiga, nu embrulhado num lençol, mas era capaz do pessoal que cá fica não achar muita piada. Se é que vou ter lá alguém!

Abraço

# Janeiro 13, 2008 15:41

bp63 said:

Obrigado Marazul pelas palavras.

Tornam a vida mais leve? Quem me dera, então tornava-me um canibal dos meus próprios textos para ver se este peso todo começava a flutuar. Mas é bom saber que pelo menos aos outros, ou a alguns, a sua leitura faz com que as coisas fiquem mais ligeiras.

Bom se a minha desse um filme não sei se este seria muito divertido. Se calhar dava uma seca daquelas monumentais, tão seca que imagino que algum espectador se levantaria para me dar um tiro e pôr termo ao filme.

Abraço

# Janeiro 13, 2008 15:48

desabafosdaminda said:

bepezinho.

deixaste-me a matutar com essa das coisas boas nos deixarem com um pé dentro.

Se calhar, sem quereres, resolveste um dos dilemas da minha vida!

Beijinho

Minda

# Janeiro 13, 2008 16:06

bp63 said:

Minda

E eu quase que ia ficando com o dilema de perceber o sentido. Tive que ir reler a mensagem para perceber.

bj

# Janeiro 13, 2008 17:50

MarAzul2007 said:

Caro amigo BP63,

Acredite que os seus textos ajudam a mudar a cor dos dias cinzentos.

Vidas divertidas deve haver...nos filmes.

O seu blogue devia ser de paragem obrigatória, para quem entra no SOL. Ainda um dia vai tem de pensar em reunir os seus posts em livro, como fazem os programas de rádio como o "Pessoal e transmissível " ou " O amor é" do Júlio Machado Vaz.

Um abraço,

Marazul2007

# Janeiro 13, 2008 18:20

AlfredoRamosAnciaes said:

Caro bp,

Há uma meia dúzia de anos vi na comunicação social um Homem que me pareceu na casa dos 50` a construir um Mercedes Benz de madeira à escala real, tudo executado em pormenor, e que se destinava à sua urna.

Se juntarmos a isso um jazigo especial para albergar aquele tamanhão de caixão, veja-se só o investimento que este senhor estava a fazer para a sua morada não eterna.

De facto a morte ou os restos mortais como algo passageiros que são deveriam ter assim tanta importância? Se calhar não, mas tem a ver com o prolongamneto das memórias e estas é que são importantes pq. são como que um prolongamento da vida e no fundo ninguém quer morrer, pelo menos em vão.

Abraço

fred

# Janeiro 13, 2008 18:56

bp63 said:

Marazul

Felizmente que o Sol está cheio de boas paragens, umas de cor azul, outras de outras cores.

Quanto aos livros, é certo que nunca bati à porte de nenhuma editora, mas penso que elas devem estar cheias de candidatos a escritor, daqueles que têm textos com alguma piada.

Penso que nestas coisas ou se é muito bom, para conseguir desbravar a floresta tropical das publicações e chegar lá acima ao sol da edição, ou se tem um nome que já venda qualquer coisa. Como não me enquadro em nenhuma das partes vou andando por aqui, neste sol que nos dão.

Bom, esta lamentação Calimeriana faz lembrar a velha anedota do tipo que pedia sempre a Deus para que lhe saísse a lotaria, até que um dia Deus, já farto do ouvir lhe dá um berro e diz ?ao menos joga!?.

Se calhar tenho que jogar mais e falar menos.

Abraço

# Janeiro 13, 2008 18:59

bp63 said:

Alfredo

Estes rituais fazem lembrar um pouco os ancestrais endeusamentos da morte, como os egípcios, em que se acreditava numa vida depois da morte susceptível de se relacionar com os bens materiais, daí os mantimentos e ouro serem também sepultados. Se calhar ainda temos um pouco disso.

Sinceramente, eu penso que tudo isso, é apenas o nosso medo do lado de lá e a tentativa de se fazer ainda um ponte com a vida através dos objectos.

Essa do Mercedes não lembraria nem ao diabo, quanto mais ao Deus do tal senhor.

Abraço

# Janeiro 13, 2008 19:09

chabeli said:

bp

Vou  ser lacónica no comentário...porque o texto, embora notavelmente bem escrito, mexe com as minhas emoções.  Essas emoções, ainda, não estão arquivadas e rotuladas de  recordações...ainda não. Por isso resta-me dizer que  é sempre um prazer ler-te, ainda que por vezes o conteúdo(me)entristeça, embora decerto não era e não é  tua intenção entristecer ninguém. Arrisco sem qualquer incerteza !

Abraço

Chábeli

# Janeiro 13, 2008 19:28

bp63 said:

Chabeli

Claro que não pretendia entristecer ninguém, nem magoar. Apenas quis trazer esta pequena história que ilustra bem a força com que determinadas pessoas enfrentam o fantasma da morte. Um testemunho.

Neste momento também tenho em arquivo recente uma perda, talvez por isso hesitei em publicá-la. Já tinha escrito há algum tempo. Mas depois reli e vi que afinal era apenas uma história de uma bonita relação entre as pessoas.

Como consolo digo apenas que o próximo CC (Cenas Cortadas), focando o mesmo universo, o das compras, tem um sabor mais alegre.

Abraço

# Janeiro 13, 2008 20:11

PSCGF said:

IMORTALIDADE

Procuremos aliviar nossas mentes

com certo método, ética e razão.

Ao pensares que és tudo que tu penses,

só estás fortalecendo teu coração.

Evita sofrer por o inexistente...

Por vezes, coisas efémeras e banais;

porque estando triste, a nossa mente,

é envolvida por pensamentos mortais...

Porquê? E para quê? Isso será viver?...

Preparemo-nos para podermos receber

com alegria: -- a luz, a água, o ar...

...A vida salutar, energias... nada mais.

A ciência nos diz que o corpo morre.

Mas em espírito, nós somos imortais!...

Joaquim Marques

Isto é para todas as Genovevas.

Beijinhos

Paula

# Janeiro 13, 2008 20:56

bp63 said:

Obgigado Paula.

Gostei muito.

Beijinhos

# Janeiro 13, 2008 22:05

bp63 said:

Pegando no ambiente que as palavras acima da Paula trouxeram, nas emoções ainda em memória recente da Chabeli, no optimismo utópico da Minda e da sua tia, na ideia de partir e chegar, o tal intrvalo, da Eeu e da Paula, no sentir do vestido laranja da Jo e também no perfume ausente da Nemesis, acabo por chegar a esta estação da Vida, que o Milton tão bem compões e a Maria Rita tão bem canta.

[YouTube:9kx2qLISTU8]

Uma homenagem às Genovevas e às mulheres que andaram por aqui (a rapaziada que me perdoe).

BP

# Janeiro 13, 2008 22:18

bp63 said:

As palavras:

Mande notícias

Do mundo de lá

Diz quem fica

Me dê um abraço

Venha me apertar

Tô chegando...

Coisa que gosto é poder partir

Sem ter planos

Melhor ainda é poder voltar

Quando quero...

Todos os dias é um vai-e-vem

A vida se repete na estação

Tem gente que chega prá ficar

Tem gente que vai

Prá nunca mais...

Tem gente que vem e quer voltar

Tem gente que vai, quer ficar

Tem gente que veio só olhar

Tem gente a sorrir e a chorar

E assim chegar e partir...

São só dois lados

Da mesma viagem

O trem que chega

É o mesmo trem

Da partida...

A hora do encontro

É também, despedida

A plataforma dessa estação

É a vida desse meu lugar

É a vida desse meu lugar

É a vida...

# Janeiro 13, 2008 22:20

bp63 said:

Também gosto muito deste versão. Simone, pois não.

[YouTube:NkOUYi54LaM]

# Janeiro 13, 2008 22:25

chabeli said:

Bp

Obrigada. Sabes vi Maria Rita ao vivo, com a minha irmã (gémea). A pessoa que "agora" quem sabe me está a ver...pois, hoje, soma mais um mês que  partiu... por isso em jeito de partilha deixo aqui também o seu poema de eleição "cantado" pela Bethânia que ela tanto gostava.

a minha alma agradece por este momento.

Um beijo na tua.

Chábeli

# Janeiro 13, 2008 22:39

chabeli said:

             [youtube:mWxc7JCNMFo]

# Janeiro 13, 2008 22:40

bp63 said:

Chabeli

Eu vi um espectaculo há muito tempo onde a Maria Bethania declamou este poema ligando-a ao fado da Amália, Estranha forma de vida. Foi arripiante. O espectáculo chamava-se Momentos. Mais tarde ela voltou a incluir o poema, penso de onde resulta este video.

Obrigado pela partilha

beijo

# Janeiro 13, 2008 23:06

bp63 said:

Eu e as minhas pontes. Um video que pus lá no post da Minda achei que fazia falta também aqui, pela ligação que faz com o se escreveu na parte final.

[YouTube:1QjtpNfdFwE]

# Janeiro 14, 2008 0:01

dissidencias said:

Olá amigo Brad Pitt,

Gostei da tua Paula e Genoveva, pois a morte fica-nos tão bem... heheheheheh... (Isto lembra-me um filme com a Glenn Close que vi quando ainda era um estúpido de um estudante em Coimbra, pois isto do Ensino ser Superior é a maior treta que já foi inventada pela humanidade)...

Pois é, amigo, a partir de agora apenas virei assistir aos seus filmes no seu blogue sensacionalmente cinéfilo, pois o filme do dissidencias já acabou...

Abraço emocionado.

dissidencias

# Janeiro 14, 2008 0:29

Talina said:

Olá bp

Quando comecei a ler fez-me uma certa impressão pois tive uma avó que tina a tal caixa de cartão muito bem guardadinha para o dia do seu enterro, eu quando entrava no quarto dela nunca olhava para cima do guarda fatos, aquela caixa para mim era um pesadelo.

Mas parabéns...Fartei-me de rir com o teu conto, Vou ali e já venho para rir mais.

Abraços Talina

# Janeiro 14, 2008 1:01

lunaalexa said:

Olá bp 63,

Espero que consiga fazer o meu proprio filme sendo e que os actores/actrizes da minha vida sejam interessantes e que valha a pena!!!!

beijocas

Lunaalexa

# Janeiro 14, 2008 9:24

Luana said:

Pois, amigo, a minha história passada a DVD dava para esta comunidade se entreter uma semana ou mais porque eu nunca corto cenas. As minhas predilectas são sempre "as cenas tristes". Já fiz muitas mas não tenho medo de as ver todos os dias. À custa delas já recebi vários Óscars aqui em Hollwood de baixo que fica muito perto cá de casa.

A tua imaginação fundida na minha dá uma versão muito gira, tipo mistura de João Baião com Herman José. Queres tentar?

Um beijo

Luana

# Janeiro 14, 2008 15:23

josefadobidos said:

Obrigada por ser tão gentil, desejo-lhe que apesar da tristeza, a vida lhe continue a sorrir e o Bp à vida, porque sabe-se que ela

É BONITA, É BONITA E É BONITA

e é mesmo

bj

jo

# Janeiro 14, 2008 17:12

PSCGF said:

Bp,

Obrigado. Gostei das duas versões e do video (já o tinha visto na Minda) .

Adorei

Paula

# Janeiro 14, 2008 18:50

avomilu said:

bp63

Amigo gostei muito do conto embora um pouco triste por se tratar do que a Genoveva vai vestir quando morrer.... o pior amigo é que raras vezes as pessoas se lembram o que as pessoas querem vestir, em geral é o que elas gostam e não o que a pessoa pediu.

Eu por mim podem vestir-me o que quizerem.... pouco me importa.

Agradeço o teu amigo no meu post.

Beijinho da amiga milu

# Janeiro 14, 2008 23:32

bp63 said:

Dissi

Acabou? UMMMMMM!

Ná, umas férias curtas, sim. Há muita forma de se matar pulgas. Se não for com um Rissol então que venha um pastel de bacalhau.

A liberdade tem sempre que passar por aqui.

Um motivo apenas para a pausa é plausível, a nossa vontade mesmo de fazer uma pausa, só isso. Não os outros.

Abraço

# Janeiro 14, 2008 23:48

bp63 said:

Talina

Por vezes é dificil rir-nos com a parte mais dolorosa da vida. Mas se calhar também é uma forma de espantar os nossos fantasmas.

Abraço

# Janeiro 14, 2008 23:49

bp63 said:

Lunaalexa

Todos nós podemos fazer os nossos filmes, basta-nos a camara da nossa memória. Já agora que venham bons actores e actrizes, que o pessoal merece.

bjs

# Janeiro 14, 2008 23:51

bp63 said:

Luana

As cenas tristes também têm alguma beleza, com o tempo, porque acabam por criar marcas muito grandes que vão dar escala às cenas felizes. Será que se não tivéssemos tido alguma cena triste daríamos a mesma importância às alegres?

Espero pelo DVD em formato literário.

Confesso que aquela mistura do Herman com o Baião me deixou um pouco desconexo. Ainda não topei a cena, tás a ber?!

Beijo

# Janeiro 14, 2008 23:57

bp63 said:

Jo

Obrigado, e ela tem Mmesmo que ser BONITA!

Ainda que a paisagem da minha janela diga o contrário.

Amanhã vai ser bonita.

Bj

# Janeiro 14, 2008 23:59

bp63 said:

Paula

Acho que a ponte também se podia fazer com o escreveste no teu post.

Bjs

# Janeiro 15, 2008 0:01

anajasmin said:

Este teu blog está fantástico!

Quando li sobre o pijama que comprámos ou nos ofereceram e guardávamos orgulhasamente para uma doença repentina, fizeste-me lembrar a sala de jantar da minha mãe, que tão bem decorada estava e que eu lhe chama a "Sala Museu"! Só usavamos a sala no dia do meu aniversário. Sim, porque o natal era em cada dos meus avós... e muitas outras cenas escreveria aqui!

Parabéns pelo teu blog.

Abraço

Ana Jasmin

# Janeiro 15, 2008 0:04

bp63 said:

Vomilu

Ainda bem que gostou. Apesar de ser um pouco triste também é a história de alguém com força e serenidade, bem como algum sonho. Por isso tinha humor.

Beijos amigos

# Janeiro 15, 2008 0:05

anajasmin said:

Este teu blog está fantástico!

Quando li sobre o pijama que comprámos ou nos ofereceram e guardávamos orgulhasamente para uma doença repentina, fizeste-me lembrar a sala de jantar da minha mãe, que tão bem decorada estava e que eu lhe chama a "Sala Museu"! Só usavamos a sala no dia do meu aniversário. Sim, porque o natal era em cada dos meus avós... e muitas outras cenas escreveria aqui!

Parabéns pelo teu blog.

Abraço

Ana Jasmin

# Janeiro 15, 2008 0:05

bp63 said:

Obrigado Ana

Bom, essa das salas congeladas, dava pano para mangas. Também vivi isso na infância. Mas pior do que isso, conheci pessoas que lacravam a casa toda e, depois de gastarem um pipa de massa a decorá-la, faziam a vida toda num anexo ou no andar de baixo junto a uma garagem. Guardariam aquilo para quê? Penso que serão gerações diferentes que por terem tido algumas privações, encaram o futuro com mais reserva. Talvez, não sei.

Abraço

# Janeiro 15, 2008 0:10

portocego said:

Olá Bp63

Mais uma bela história com "mortalhas" de fundo mas que, com a arte de escrever que lhe é tão própria, consegue dar movimento e cor a um tema que de outra forma seria paralisante...

No entanto, tudo isto faz parte dos pequenos filmes das vidas de todos nós e, por certo, poucas famílias portuguesas, não terão uma cena destas para contar. A diferença, essa reside na forma como é contada ou talvez no modo como tal postura é assumida, com a naturalidade e o entusiasmo com que a personagem Genoveva o faz, sem traumas...

Olhe, eu até penso que a ter-se essa preocupação, eu não a tenho(algum trapinho, já agora, em bom estado,  me hão-de colocar para ir até a pira e ser pó...), deve assumir-se com esse "savoir faire"do personagem, sem morbidez de preferência.

Agora uma outra questão é um outro guardar obcecadamente, coisas, roupas, utensílios; poupar móvéis com capas e capinhas... para parecer sempre novo. Os bens são para nos servirmos não para nos escravisarem.

Depois, aquele hábito que nos amortalha e eterniza, é o que de bem e de bom conseguimos fazer por cá.

Este seu escrever bem cuidado entra nesse rol de coisas boas, porque faz sentir-se a quem o lê.

Fico à espera da história seguinte. Prometo escrever menos...

Agraço,

Daniela

# Janeiro 15, 2008 14:56

portocego said:

"Este seu escrever... Faz sentir-se bem quem o lê" Desculpe a gralha.

# Janeiro 15, 2008 18:31

OSoleaLua said:

Alô Planeta BP63!!!!

Estás por aí, ou andas a escrever algum filme? Tu tens mas é de fazer uma escala em Hollywood. Com a greve dos argumentistas, ias ter trabalho que nunca mais acabava! Se calhar já andas pela naite da Ribeira a observar as personagens para te inspirares e por causa disso é que não tens tempo para levantar o prémio da viagem a Marte na Virgin Galatic. Olha que ele continua lá todinho à tua espera. é melhor que o levantes antes que crie teias de aranha. Não sei se tás a ver, um prémio daqueles com teias de aranha não bate a bota com a perdigota!!!

Confessa-me lá uma coisa aqui que ninguém nos ouve... Tu escolheste a Virgin Galatic por causa das massagens tântricas na planta dos pés, foi não foi?

A viagem a Marte é uma coisa do outro mundo, tu não tás a ver bem a cena, lá é tudo verde, a cor da esperança, nem sei porque é que dizem que aquilo é o planeta vermelho, os habitantes são todos verdes. Sabes qual é a capital de Marte? Alvaláxia. Aquilo é só filmes, tu ias gostar à brava de ir passar um fim de semana inteirinho a Marte. Vá põe-te a caminho... Vai lá levantar o prémio!

Quem te avisa amiga é!

Um beijo super aluacinado...

Lua

OSol & ALua, S.A.

# Janeiro 16, 2008 21:52

bp63 said:

Daniela

Em primeiro lugar obrigado pelas palavras e NÃO PROMETA ESCREVER MENOS.

Gosto de ler grandes comentários.

Realmente as histórias podem ter muitas cores e mesmo um assunto doloroso pode ser encarado de uma forma leve. Penso que a Genoveva nos ensinou isso.

O problema é que a leitura por vezes leva-nos para zonas diferentes do que realmente lá está, em face da nossa sensibilidade.

Quando me contaram a história verdadeira que está por detrás do conto ri-me imenso pelo burlesco do final, não pensando muito no facto de alguém comprar a forma de vestir a morte. Escrevi-o com satisfação num pequeno pedaço de tempo.

No entanto quando me preparava para o publicar aqui tive uma perda familiar e a forma como eu olhei a historieta já foi completamente diferente, inclusive estive para não o editar. Deixei passar mais uns dias para ver como olhava para o texto e ao vê-lo já mais leve, achei que merecia a pena trazê-lo para aqui.  

Quanto ao guardar eu sou mesmo do tipo, quase já saio da loja com as coisas postas.

Afinal que é que escreve demais? Smile

Abraço

# Janeiro 16, 2008 22:15

bp63 said:

Miss  Lua

Ando mesmo por cá, que a vida não está para brincadeiras. Se os fulanos lá andam sem receber um tostão pelo que escrevem então o melhor é ficar por aqui, assim como assim, também não recebo nada e não tenho que enfrentar o jet lag.

Por falar em jet lag ainda não fui levantar o prémio precisamente por isso. Deve dar uma pedrada das grandes ir até Marte. A Miss Lua não se apercebe porque já está a meio caminho.

Mas qualquer dia levanto voo, só que além duma massagem nos pés preciso dum bom jacuzzi. Espero é que as hospedeiras não sejam também verde, porque enjoado como costumo ficar não é bom auguro.

Bom Miss Lua mi aguardi, e já agora não ande tão cheia que isso faz mal à saúde. Consuma menos umas calorias de raios solares e ficará outra.

este terráqueo alucinado

# Janeiro 16, 2008 22:24

Anahory said:

Excelente esta história!!!!!!!!!!!!!

Adorei!!!

Beijos

Kiki

# Janeiro 17, 2008 20:52

bp63 said:

Obrigado Kiki.

Espero que goste da próxima, volta a ser novamente sobre compras mas destas vez mais felizes.

Beijos

# Janeiro 17, 2008 21:10
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