Cut Scenes: Cenas Cortadas do Filmezinho das Nossas Vidas - 1 - Compras com Fim
Se a nossa vida fosse um filme seria por certo um filmezinho que passaria quase despercebido, a não ser para meia dúzia de espectadores que se sentam sempre nas primeiras filas da nossa sala de vivências. Por certo só as grandes personalidades teriam direito a um grande épico, daqueles de longas horas e que no final têm sempre direito a muitos prémios. Outros há, que mesmo não passando também um filmezinho, fazem-se aparecer com um bom conjunto de efeitos especiais para dar a sensação de grande espectáculo, e é vê-los sempre em festivais e eventos à procura de grandes holofotes. Mas esse brilho é sempre passageiro, pois as suas bobines acabam arrumadas, como nós, no velho armazém do esquecimento.
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Passando a vida para filme vamos apenas de deixando ficar no projector da memória apenas os factos importantes que marcaram a nossa rodagem. Todo o resto acaba por cair, na eterna mesa de montagem do tempo, constituindo, assim, um espólio enorme de cenas cortadas.
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Se os factos importantes são aquilo que é exibido na grande projecção, as cenas cortadas são os extras que realmente transformam o nosso DVD de memórias em algo diferente e verdadeiro único. Incluí-los é trazer uma outra cor, um outro brilho às imagens que são nossas e que não devem ficar caídas.
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Com este post inauguro mais um séria (incompleta, como sempre) a que chamo Cenas Cortadas. São pequenos contos (suspirem já os traumatizados dos lençóis!), short stories, a que eu chamo de historietas, e que ilustram alguns momentos caricatos que vivi, que vi ou que me contaram (a maioria). Claro que partindo de uma situação potencialmente real, nem sempre as presenciei, são depois coloridas com as minhas palavras e com a minha imaginação (ou a falta dela).
Espero apenas que os verdadeiros protagonistas nunca venham aqui ler, caso contrário, espera-me um pelotão de fuzilamento.
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A edição zero desta série fez apareceu no Post United Colors of Reveillon - Menu de Tradições (eu avisei), com a sua emissão experimental.
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1 Todos nós nos lembramos de um tempo em que se guardavam coisas para uma ocasião especial. O fato que não se vestia para que só fosse usado em caso de casamentos e baptizados. O pijama novo oferecido que ficava religiosamente arrumado num roupeiro para o caso de uma doença súbita aparecer e houvesse a necessidade de uma exposição pública, em hospital ou em casa, da nossa intimidade têxtil. A toalha de mesa em linho cru bordado que esperava, guardada numa gaveta do armário, uma qualquer visita importante que resolvesse aparecer. Uma roupa mais formal e em bom estado, que a partir de uma certa idade, fica estacionada à espera de ser o vestuário final.
Outros tempos nasceram. Afogados num mar de coisas à nossa disposição, não só não guardamos nada como compramos e usamos mais do que realmente precisamos, a fazer lembrar crianças gulosas que ainda não acabaram um doce e já pensam noutro. No entanto, algumas pessoas ainda fazem deste tempo o seu antigo tempo.
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Genoveva, apesar de continuar de boa saúde, sabia que os seus dias já não seriam muitos, afinal os seus 76 anos começavam a pesar. A ideia que tinha que se preparar para o dia final há muito que não a largava.
- Paula, tenho que lhe pedir um favor – disse Genoveva enquanto olhava para umas caixas de cartão que o seu filho Pedro tinha acabado de montar. – Um dia destes vai vir comigo às compras, pois eu tenho que fazer umas compras especiais.
Paula franziu a testa, em jeito de surpresa, pois não era Natal e a sua sogra, tirando essa época, há muito que tinha deixado de sair para fazer compras, a não ser que a arrastassem para uma visita a algum centro comercial novo, a fim de ela o conhecer. Normalmente ela acedia, perante o entusiasmo dos netos em querer levar a avó, mas bem que preferia ficar no seu sofá a ver televisão.
- Eu quando morrer não quero dar trabalho nenhum. Quero que tudo já esteja preparado. Assim quero ir comprar a roupa que vou levar vestida nesse dia. Estive a ver e não tenho nada de jeito.
- Por amor de Deus, vó Veva! – exclamou Paula estarrecida, não só com a morbidez da ideia, como também com a penosidade de ter que acompanhar a sogra numa sessão de compras com tal fim.
- Está decidido, eu vou comprar a roupa. Se não quiser vir, vou eu sozinha.
- Não é isso. Claro que vou. Agora não tem necessidade de estar a pensar nessas coisas, primeiro porque está aí muito boa, cheia de genica, e depois quem cá ficar que resolva o assunto.
- Pronto, está resolvido. Diga-me só quando é que lhe dá jeito.
Sem mais conversas Genoveva foi para o quarto arrumar as caixas de cartão. Paula compreendeu, então, porque a sogra fez questão de comprar aquelas caixas aquando de uma visita a uma grande loja de coisas para casa. Logo ela que dizia que para casa não comprava mais nada pois já tinha tralha que chegasse.
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Paula e Genoveva entraram na enésima loja de roupa.
Genoveva dirigiu-se logo apressadamente ao local dos vestidos e começou a escolher. Paula procurou imediatamente uma cadeira para se sentar, estava exausta. Como podia alguém andar a escolher roupa para quando morresse, se estava como uma energia alucinante? Ela entrava e saia das lojas com mais fulgor do que uma adolescente a escolher a toillete para levar à primeira festa que vai sem os pais.
Genoveva vestiu uma série de vestidos. Via-se ao espelho, rodopiava para ver o efeito e caminhava até perto da sua nora para que ela lhe desse a sua opinião. Esta, sempre sentada, ia abanando a cabeça afirmativamente ou negativamente, não percebendo muito bem o porquê de tanta escolha.
- Este faz-me um pouco gorda, não faz? – perguntou Genoveva.
- Não, cai-lhe lindamente – respondeu a empregada, que julgava que se trava da escolha de uma roupa para uma cerimónia um pouco mais viva do que aquela a que realmente se destinava.
- Sempre quis ter um vestido assim – referiu Genoveva ao colocar um com umas flores alaranjadas bem grandes. – Mas é capaz de não ficar muito bem.
Paula estava para morrer. A sua sogra, que nunca a viu vestir outras cores que não o sóbrio cinzento e azul-escuro, estava ali à sua frente com um lindo vestido branco com flores laranja, toda sorridente como se fosse embarcar para a Jamaica. A sua boca quase que se esteve para abrir e dizer, não fica não, especialmente não vai ligar nada bem com os tons da madeira do caixão. Mas segurou-se.
- Se calhar não é muito próprio – comentou Paula.
- Tem razão – concordou Genoveva num tom melancólico, deixando, assim, escapar um certo desapontamento por aquele pequeno sonho ter sido desfeito na única oportunidade confessa que teve para o realizar.
Depois de mais umas provas, Genoveva encontrou finalmente um vestido azul-marinho liso que poderia ser a escolha acertada. Caminhou mais uma vez bem airosa na sua passerelle improvisada, sentia-se uma verdadeira modelo, até Paula, mas já não levava o sorriso estampado que tinha quando vestiu o das flores laranjas.
- Que tal?
- Bom, esse fica-lhe a matar – respondeu Paula, quase que trincando a língua ao tentar travar a palavra matar, pois no momento em que a proferiu reparou que não era a palavra adequada às circunstâncias.
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Já com o vestido azul e todo um conjunto de acessórios e complementos, dirigiram-se à última loja, uma sapataria.
Enquanto a sogra ia calçando sapatos, Paula, aproveitava e experimentava também umas sandálias, as férias estavam quase à porta e havia que ganhar tempo.
Mais uma vez Genoveva andava de um lado para o outro, saltitando, a experimentar e a ver o efeito dos sapatos. Depois de já ter experimentado uma boa dúzia deles fixou-se nuns azuis.
- Eu gosto muito destes, mas não sei não. Acho que me magoam um pouco ao andar.
Paula pousa definitivamente na prateleira, num gesto bem enérgico e estridente, as sandálias que tinha acabado de experimentar e, cansada de tanto fashion choice, olhou seriamente a sua sogra.
- Mas servem-lhe?
- Servem, só que me magoam um pouco aqui atrás.
- Bom, vamos lá ver, se é para o que é, esteja descansada que nesse dia não lhe vão magoar de certeza, ou muito me engano ou não vai precisar de dar um passo com eles.
- Pois é! – respondeu tristemente Genoveva, caindo finalmente em si, tudo o que tinha andado a comprar com tanto gosto era apenas um conjunto de coisas que quando as fosse usar já não faziam nenhum sentido para ela, tinha ando a comprar o seu fim. – Levo estes, então.
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Chegaram a casa num perfeito silêncio. Genoveva arrumou todas as compras nas tais caixas de cartão e foi fazer o jantar, que o filho e o neto estavam à espera dos seus petiscos e ela não gostavam que a sua gente saísse dali de barriga vazia.
Ninguém percebeu porque no meio jantar e perante a observação do neto, que queria outros ténis porque os que tinha andavam a magoá-lo, Paula e Genoveva explodiram a rir sem conseguir parar.
Nessa noite lavaram a loiça as duas juntas.