Às Compras, Às compras, Sobre a Terra, Sobre o Mar! - Cenas Cortadas 2
Vai uma aposta?! Cortar o oxigénio ou o cartão de Crédito, em qual das 2 situações se dá primeiro uma entrada num Hospital para reanimação? Quase que arriscava a segunda, tal é o vicio de comprar e comprar. Compramos o que precisamos, o que não precisamos e aquilo que alguém nos fez crer que íamos precisar. Para satisfazer o vício temos que entrar nos “casais ventosos” do consumo, os ditos shoppings, enfrentar a selva dos consumidores concorrentes e fazer uma luta labiríntica para que os dealers satisfaçam os nossos desejos, antes que entremos numa convulsão de abstinência.
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Nessa nossa árdua tarefa vamo-nos deparando com determinadas situações que balançam entre o caricato e o ataque cardíaco histérico, sempre ao som das teclas dum Confirme, Ok, Código, Ok.
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Assim, retomo as Cenas Cortadas do Filmezinho das Nossa Vidas onde trago, com alguma imaginação pelo meio, passagens da minha passagem pelo submundo do consumo. Uma comédia pouco sexual numa tarde de Inverno.
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2 Os saldos são a época das pechinchas. Como se não bastasse tudo o que comprámos no Natal, em que o stock das nossas casas foi recheado das coisas mais desnecessárias ao efectivamente necessário elevado ao quadrado, desaguamos de imediato numa outra época em que voltamos a encontrar as mesmas coisas, mas agora a preços muito mais baratos, mostrando como fomos levados há meia dúzia de dias atrás. O pior de tudo, é que mesmo assim voltamos a comprar. Porque precisamos? Não, porque é mais barato. Grande fado, somando todos os baratos que adquirimos chegamos mais tarde à triste conclusão que afinal adquirimos um longo caro.
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Pedro e Paula finalmente conseguiram entrar no parque do centro comercial. Depois de terem perdido imenso tempo em ir levar o pequeno Miguel à casa da avó, não só para o pouparem da confusão, mas também para evitarem o seu eterno ataque súbito de pedir alguma coisa completamente despropositada, ainda tiveram que esperar quase uma hora para poderem entrar no piso -3 do mega parque de estacionamento, pois todos os outros estavam completos. O problema é que também este parecia estar cheio, apesar do indicador electrónico apontar o contrário. Ninguém compreende porque depois do tsunami de compras do natal, em que as pessoas se enchem de tudo e de nada, passado uns dias voltam todos em massa às catedrais das compras para se atafulharem de novas coisas. Paula jurava que estava a precisar de algumas peças novas de vestuário. Todas as manhãs abria o roupeiro e não via lá nada. Pedro jurava o contrário.
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Já tinham dado duas voltas ao piso – 3 e nada. De repente viram um senhor com um carrinho de compras dirigir-se a um automóvel. Antes de colocar qualquer compra no carro abriu a porta de trás e colocou a criança que o acompanhava no assento. Ia sair, pensaram Pedro e Paula. Foram de imediato para o seu lado a aguardar a sua saída. O senhor, com aspecto de ser avô da criança, colocou cada compra meticulosamente no carro, como se estivesse a arrumar já a própria despensa de casa. Depois de algum tempo, e também de algum desespero por parte do par candidato ao lugar de estacionamento, o Senhor do Lugar fechou a bagageira e dirigiu-se novamente para a porta de trás do carro. Para grande espanto de Pedro e Paula retirou a criança do carro e retomaram o caminho para o Centro novamente.
- Ah, estavam à minha espera?! Eu não vou sair – comentou o senhor quando passou por Pedro e Paula e os viu com um ar de quem ia explodir. – Se calhar por meter a criança no carro pensaram… sabem eu meto-o lá sempre, enquanto arrumo as compras, porque tenho medo que ele me fuja e se meta à frente dos carros. Já sabem como são as crianças…
Pedro nem deixou acabar a frase arrancou furiosamente. Não se sabe o que fez mais fumo, se os pneus se os seus olhos de tanta raiva.
- Dez minutos à espera que o imbecil arrumasse as comprinhas todas direitinhas para depois ir outra vez passear – disse Paula, enquanto ruía as unhas para não sair do carro e começar à estalada ao pobre senhor. – Como eu gosto destes Mr. Security, deve ser do tipo que antes de dar uma queca dobra a roupinha toda muito bem.
Viram novamente uma pessoa a dirigir-se para um lugar de estacionamento.
- Vai sair? – perguntaram ambos em coro, o que quase assustou a senhora por ouvir a frase bem forte e em estereofonia. Mesmo assim ela acenou afirmativamente.
Não tinha muitas compras para colocar, apenas 2 sacos, o que indiciava uma certa rapidez. Engano. Depois de entrar no carro, a senhora procurou durante algum tempo um objecto que teimava em não encontrar. Quando o encontrou ainda foi tempo de se olhar no espelho e dar um jeito no cabelo. Finalmente a luz de marcha-atrás. Ela ia sair. E como ia sair! Ao contrário do que fazia supor encetou uma manobra complicada de marcha-atrás numa trajectória colidente com o carro de Pedro.
- Olha-me esta gaja, com tanto espaço para o outro lado tinha que fazer a manobra para aqui. Mulheres! Nunca acertam com uma marcha-atrás. – Resmungou Pedro. Paula fingiu que não ouviu. Pedro recuou um pouco para facilitar a manobra. Paula ruía ainda mais as unhas. Pedro voltou a recuar um pouco mais, porque o espaço para a senhora fazer a manobra ainda era insuficiente. Quando por fim ela conseguiu ter o carro em condições de arrancar, tinha um outro em frente que não a deixava prosseguir. Talvez por isso o terceiro carro não esperou mais e ocupou o lugar deixado livre pela senhora.
Antes de Pedro poder comentar o quer que fosse já Paula estava a bater com a porta do carro e a sair disparada em direcção ao ocupa motorizado que tinha agora aparecido. Nem que fosse com os dentes, como um doido qualquer dos records, mas ela havia de arrastar aquele carro do lugar que era seu.
- Se calhar estava à espera do lugar, não? – referiu o condutor ao sair. Paula ficou com todas as asneiras, que estavam em fila de espera na sua boca, entaladas. Não teve coragem. Do carro saiu um simpático casal, que se não fosse octogenário parecia que caminhava para lá ainda mais rapidamente do que o acto de rapina do estacionamento.
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Quando um jovem casal desceu a escada rolante e foi abordado por uma senhora que lhe ofereceu 5 euros pelo seu lugar de estacionamento, pensaram que era uma partida de um qualquer programa estúpido de televisão, ou que se tratava de uma louca, tal era o ar alucinado da proponente. Mas não, Paula estava mesmo decidida a arrancar um lugar de estacionamento a qualquer custo e nada melhor do que ficar ali, mesmo à entrada do parque, captar a sua presa. O casal acedeu, não se sabe se por temor de estar a ser filmado para televisão, se por temor de não contrariar alguém que parecia estar à beira da loucura.
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Quando finalmente Pedro e Paula pisaram terras do patamar de cima, já a hora de almoço ia alta.
- O melhor é comermos já qualquer coisa, para depois ficarmos com o resto da tarde livre para as compras.
Pedro tremeu quando ouviu aquilo do resto da tarde. Era sinal que a mesma ia ser muito longa, com um entrar e sair das lojas a um ritmo superior ao que um comum mortal, ele, aguentaria.
- Comemos uma sopa e uma salada, que além de ser mais rápido não faz tão mal como essas coisas todas gordurosas que andam por aqui.
O cenário piorava com mais esta sugestão de Paula. Bem que preferia as tais coisas cheias de colesterol a uma refeição dietista. Afinal não era ele que queria caber dentro uma blusa XS no início do Verão.
- Sim, mas com batatas fritas – precisou Pedro sobre a constituição do seu pedido, o que deixou a empregada não só de boca aberta como também algo desorientada, pois como ia ela registar aquele menu, nunca lhe tinham pedido sopa, salada e batatas fritas.
Depois de Paula ter barafustado que era uma vergonha comer batatas fritas com salada, tinha mesmo que levar uma pequena sapatada na mão quando tentou roubar uma ao pacote que Pedro segurava religiosamente. Ele riu-se. Ela fingiu ficar zangada, mas também se riu por dentro.
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Já tinham entrado e saído numa série de lojas quando Pedro tentou ficar preso a uma montra, onde vários televisores passavam um jogo de futebol.
- Pedro, poupa-me! – disse Paula arrastando-o de um pequeno aglomerado de homens estáticos, quase em estado de hipnose em frente a uma montra. – Não vais fazer a figura deprimente de ficar a ver jogos de futebol num corredor de um centro comercial enquanto a esponja anda a fazer compras. Só te falta arranjar um fato-de-treino.
- Bom, com a quantidade de lojas que já batemos bem que podíamos comprar um.
Paula, com aquele jeito eterno das mulheres segregarem os assuntos que não lhes interessam no momento, mais uma vez fingiu não ouvir e entrou de imediato numa grande loja de roupa, como que a dizer, ora aqui tens mais uma para falares com razão.
Pedro olhou para o cenário quase catastrófico da loja, uma pequena multidão mexia e remexia amontoados de roupa. Não imaginava como as próprias pessoas se encontravam ali dentro, quanto mais encontrar alguma peça de roupa. Mas logo de seguida teve a resposta, Paula encontrou de imediato uma peça no meio de um grande monte de vestuário avulso. Encontrou ela e uma outra mulher, pois ambas puxaram pela mesma peça. Sorriram-se, uma para a outra, com o incidente mas ambas não a largaram. Depois das cenas do estacionamento Paula não estava disposta a mais situações de stress. Mudou de estratégia.
- Pode ficar com ele – informou Paula, largando o vestido bourdeaux que lhe tinha saltado à vista naquele balcão e olhando de alto a baixo a sua concorrente. – Acho que esse número é capaz me ficar largo. Vou procurar algo mais pequeno e mais juvenil.
A outra senhora ainda balbuciou um tímido agradecimento, embora aquele gesto de boa vontade lhe tivesse trazido uma certa amargura. Mais uns minutos e o vestido já estava novamente pousado.

- Vai-me buscar aquele vestido bordeaux que aquela deixou ficar ali, enquanto eu vou experimentar esta blusa.
Pedro olhou para o vestido e verificou a etiqueta.
- Não achas que te vai ficar pequeno? – perguntou ele quando chegou ao vestiário.
- Não, isso é um M.
- Mas parece-me um M pequeno.
- Sim, mas eu estou mais magra. Não achas?
Merecia. Ele tinha ido buscar lenha para se queimar ao comentar tamanhos. Já sabia que vinha a aquela pergunta sacramental. Sabia também, que por muito esperto que tentasse ser, ia dar uma resposta errada, especialmente agora que ele notava uns gramas extraordinários a saírem por debaixo da lingerie que Paula exibia dentro do vestuário.
- Sim, talvez - respondeu Pedro.
- Bom, ou estou ou não estou, agora talvez é que não.
- Não, estás mais magra.
- Não parece, dizes que um vestido M não me serve.
- É que ele é mesmo muito pequeno. Sabes que eles agora só fazem roupas para anorécticas. Só isso, nada mais.
- Isso é ilusão tua, o tecido estica.
Mas parece que não esticou. Quando Paula pediu a Pedro para puxar o fecho e este o fez, depois de ela conter bem a respiração, ouviu-se um pequeno som indiciador de algo a descoser. Fez-se um breve silêncio entre ambos.
- Sabes – disse Pedro para amenizar - estes gajos para praticar estes preços poupam nas linhas, depois é o que dá.
Quem passava pela zona dos vestiários ficava intrigado com os sons de uns risos abafados que provinham dentro de uma cabine. Houve até que suspeitasse de outra coisa. Foram precisos uns largos minutos para que Pedro e Paula contivessem o ataque de riso que a suposta falta de linhas deu.
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- Gostava deste mas tem um defeito, está descosido aqui de lado – disse Paula à empregada enquanto pousava o vestido em cima do balcão. – Acho que vou procurar outra coisa.
Ainda a empregada estava a conferir o tamanho da descosedura e já Paula deitava o olho à única peça de roupa que estava arrumada nas prateleiras.
- Podia mostrar-me aquela camisola azul, se faz favor!
Realmente não fazia sentido estar ali aquela pobre peça tão solitária no cimo da prateleira, havia que a fazer descer para se envolver na orgia têxtil que vigorava por toda a loja.
- Não deve ser o seu tamanho – respondeu a empregada, não muito ciente do verdadeiro tamanho da camisola, mas sim da pouco vontade em desarrumar a última peça.
- Não? Mas eu gosto das camisolas largas.
- Sim, por certo, mas aquela é um tamanho S.
- E quem lhe disse que eu não visto S?
- Desculpe, eu só disse isso porque experimentou o vestido M.
- Mas ele até me estava um pouco largo.
- Sim, sim. Provavelmente a senhora que o vestiu anteriormente é que lhe devia estar um pouco apertado, pois até o descoseu.
Pedro sentiu saudades do tempo em que fumava. Estaria na altura em que ele, por certo, iria dizer que ia até lá fora fumar um cigarro. Mas não, não se lembrou de nenhuma desculpa e respirou fundo para testemunhar aquela troca de galhardetes entre Paula e a empregada. Já sabia que como iria terminar. Só se também as linhas não aguentassem é que aquela camisola não viria com ela, nem que fosse para oferecer. Não era uma empregada que lhe ia dizer que ela estava a precisar de uns tamanhos acima, logo agora que ela achava que estava mais magra. Eu quero é ver se ela quando tiver a minha idade ainda fala assim, ouviu Pedro ao sair de loja com o saco na mão, onde repousava a tal camisola azul.
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Quando Paula escolheu uma sapataria para entrar, Pedro agradeceu aos Deuses. Normalmente estas lojas tinham sempre uns bons sofás onde se sentava e, repousadamente, dava os seus sábios palpites enquanto Paula desfilava em frente a espelhos colocados no chão. Mas enganou-se. Fruto dum certo minimalismo decorativo, a loja apenas tinha um cadeirão, onde já estava, bem refastelada, uma senhora que não dava ares de se levantar tão depressa. Não só porque denotava também um certo cansaço, talvez derivado aos seus largos kilos a pedirem uma série de dietas em cadeia, como também tinha ao seu lado uma série de caixas de sapatos que um empregado todo solicito tentava calçar-lhe. Pedro teve, assim, que aguentar estoicamente a sessão de compras de pé.
Paula foi directa aos sapatos que lhe tinham ficado no olho ao passar por eles na montra. Experimentou, olhou, pediu opinião e gostou. Como qualquer mulher, apesar de ter gostado procurou outros também para experimentar e para pedir opinião. Pedro conhecedor do histórico costume, em que as mulheres acabam sempre por comprar os primeiros sapatos que experimentaram, que no fundo são os que tiveram o seu enamoramento na montra ou que lhes saltaram à vista na prateleira mal entraram, adoptou a técnica de elogiar sempre os primeiros.
- Não estão mal, mas os primeiros ficavam-te melhor e eram mais bonitos.
Tentava assim não só ganhar tempo, incentivando a uma desistência naquele campeonato de experimentação, como também poupar discussões futuras – Parece-me que tu gostavas mais dos outros, nunca gostas nada do que eu gosto. – Nada adiantou, a saga continuou até ter a seus pés um autêntico lago de sapatos, suas caixas e aqueles papéis irritantes que os enchem. O empregado, apesar de jovem, suava ao tentar contemporizar o voraz apetite sapateiro das duas mulheres na loja. A regra funcionou, Paula saiu da sapataria com os primeiros que tinha calçado e sobre os quais tinha recaído de imediato a sua paixão. O mesmo não pôde Pedro concluir relativamente à outra senhora que lá ficou, afundada no cadeirão, a experimentar mais sapatos, provavelmente até descansar completamente as suas pernas.
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A tarde estava no fim. Regressar a casa seria agora outro calvário.
- E que tal se víssemos um filme e jantássemos mais tarde? Fugíamos desta confusão do final de tarde. Eu telefone à tua mãe - propôs Paula.
Escolher o filme. Normalmente Pedro escolhia o filme desde que não houvesse zumbindo intelectual. Azar, havia. Alguém devia ter recomendado o último filme de Woody Allen, Paula insistia para o ver.
- Pronto, tem estrelinhas há que ver. Quem foi a sabichona que desta vez te recomendou?
- Por acaso foi um sabichão. Mas tu até gostavas do Woddy Allen.
- Disseste bem, gostava, mas agora ou a paciência já não é muita ou ele já não é o que era. Mas pronto, se tem que ser, tem muita força. Bom, mas temos que comer qualquer coisa antes.
- Pedro já não há tempo. A sessão está quase a começar.
- Então vou comprar pipocas, com o estômago vazio é que eu não vou.
- Sabes que detesto estar no cinema com alguém a comer pipocas ao lado.
- Então devias ficar em casa, porque isso é quase impossível.
Se bem o disse melhor o fez. Como a fome era muita, Pedro comprou um pacote dos grandes, mesmo sabendo que no final iria ficar bastante enjoado.
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Ao entrar na sala reparou que os restantes espectadores olharam para ele e para o seu amado pacote com um ar reprovador. Pedro procurou desesperadamente alguém na sala que estivesse acompanhado com o mesmo objecto de milho expandido, precisava de um certo companheirismo para não se sentir um autêntico alien naquela nave cheia de pessoas de ar circunspecto e de idade já relevante. Conseguiu finalmente vislumbrar no fim da sala um sujeito enfiado pela cadeira abaixo a trincar pipocas quase que clandestinamente. Trocaram um olhar cúmplice de miúdos perdidos. Talvez por isso Pedro não reparou no degrau, tropeçou e entornou seguramente mais de metade do pacote de pipocas.
- Lembra-me para a próxima deixar-te a ti em casa da tua mãe e trazer o miúdo, sou capaz de passar menos vergonhas – atacou de imediato Paula.
Pedro olhou desolado o monte de pipocas no chão, hesitando o que fazer.
- Bom, se atreves a baixar e apanhar as pipocas do chão vais ver o filme sozinho, este e todos os outros.
- E isto fica aqui?
- Não, mete no bolso. O que queres fazer? Nem uma empregada vais encontrar agora. Deixa lá que as pessoas quando entram numa sala de cinema vêm com os olhos postos no chão por causa do escuro e tomam cuidado. Não são como alguns parolos que vêm a olhar para o balão.
Mas Paula estava enganada. Não faltaram retardados que, ao entrarem, pisaram as benditas pipocas, o que além do barulho do milho a ser esmagado provocava outro tipo de sons menos próprios, nomeadamente as vociferações sobre o suposto autor daquilo.
Pedro tentou comer o máximo de pipocas durante os longos anúncios de início mas não conseguiu completar a tarefa. Mal pôs à boca um pedaço de pipocas, durante os primeiros fotogramas projectados do filme, sentiu, mesmo através do escuro, o olhar fulminante dos seus companheiros de sala. Adoptou a estratégia de esperar pelas cenas com um som mais alto para comer o que lhe faltava. O problema era que o filme tinha longos silêncios ou diálogos sem muito alarido. Mal ouvia uns acordes de música, zás, pipocas na boca. Não resultava, pois a banda sonora apenas tinha umas breves notas musicais, o que não dava tempo suficiente para mastigar. Assim, Pedro deixava derreter na boca as pipocas, como se uma pastilha elástica se tratasse, para não se ouvir o som crocante do trincar. Com tanta concentração naquela técnica de mastigação silenciosa, perdeu o fio ao filme e acabou por adormecer.
- Poupa-me a qualquer comentário teu sobre o filme – disse Paula quando as luzes se acenderam ao som da música final. – Dormiste o tempo todo, parece impossível!
- E tu gostaste?
- Sabes, tenho estado aqui a pensar, eu vou lá trocar a blusa azul, nem sequer gosto muito dela.
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Genoveva não percebeu muito bem porque razão o filho e a nora lhe entraram em casa com tão mau humor. Afinal tinham ido só os dois a passear.