Manual do Engate - Como ter a Nicole Kidman caidinha a seus pés
Parece que existem 2 tipos de mulheres, as Deusas, que normalmente estão emolduradas em telas de cinema ou na mesa do restaurante lá bem ao fundo, e as Outras. Normalmente a rapaziada só se envolvia com estas últimas e sonhava, de vez em quando, com as primeiras. O máximo que se atingia era uma espreitadela no decote da Deusa do restaurante quando se ia à casa de banho, isto se ela não tivesse um paspalho de 1,80 e ombros largos pela frente, a servir de paredão.
©ª§¨
Escrevi no pretérito imperfeito porque parece que a partir da agora o presente vai ser mais que perfeito, pois não só podemos espreitar o decote à vontade, como também mergulhar nele e fazer dele a grande festa. Bom, convém arrefecer os ânimos e sair primeiro do restaurante, ou ainda se arriscam a fazer a festa numa esquadra de polícia, em que o maior volume saliente de um corpo que se encontra não fica propriamente ao nível do decote.
Mas dizia eu que a partir de agora tudo é diferente porque um tal Tony Clink escreveu um Manual do Engate e garante que qualquer um pode seduzir as mulheres mais bonitas, daquelas que nunca se imaginou ser capaz. Se ele, o Tony, diz, eu acredito.

©ª§¨
Como forma de matar o tempo em viagem compram-se umas revistas e jornais. Assim fiz, comprei a MAXMEN de Fevereiro, que tinha um suplemento, Manual do Engate do Mr. Tony, por mais 1,99 €, suplemento este que prometia o paraíso em termos de conquistas. Por amor de Deus, ter a Gisele Bundchen a meus pés pela módica quantia de 1, 99 quem é que ia recusar? Mesmo 3,99 que fossem, era um bom investimento.
©ª§¨
“Pense na mulher mais bonita que alguma vez conheceu. Agora pense nela a lamber os lábios muita suavemente com a ponta da língua, a tocar muito levemente no seu cotovelo, inclinando-se e suspirando sedutivamente no seu ouvido, esfregando-se na sua perna, implorando para voltarem para sua casa para que lhe possa dar o melhor momento da vida dela. Se quer tornar este sonho em realidade, continue a ler…” Começa assim a pérola do manual de instruções. Assim fiz, continuei a ler, não sem antes ter ido à procura de um dicionário para ver o que era suspirar sedutivamente, ainda por cima no ouvido, sabe-se lá o que isso poderia ser. Era melhor tomar alguns cuidados, não tivesse eu primeiro que fazer uma visita ao otorrino para por o aparelho em condições de receber semelhantes audições.
©ª§¨
Como sou pessoa de perseguir os sonhos, especialmente quando eles me são oferecidos em bandeja, qual hamburger com batatas fritas e bebida média, resolvi estudar a técnica do mestre Tony para finalmente construir a utopia masculina, um harém topo de gama mas em regime de separação de bens, que é como quem diz, um petisco de cada vez.
©ª§¨

Para começar reparei que o catedrático divide os homens em ADE (Artista do Engate) e CPF (Comum Paspalho Frustrado).
Os ADE são uma espécie de Adónis saídos de um Holmes Place, em que bebem testosterona ao pequeno-almoço para à noite terem la piu bella donna no seu leito. “Os ADE compreendem que todas as situações que envolvem mulheres atraentes são de foro sexual”.
©ª§¨
Os Paspalhos, que é como que diz, os CPF são uns caixas de óculos desastrados que não enxergam um pedaço de carne, perdão, de volúpia feminina há muito, para não dizerem nunca. “Não terão nunca a mínima hipótese de alguma vez conseguir com sucesso seduzir e satisfazer uma mulher”.
©ª§¨
Assim, sem mais nem menos, toda a classe masculina é taxada em 2 patamares únicos. Claro que quem não se incluir num destes 2 escalões de IRS (Impulso Redutor de Sexo) está feito, pois provavelmente fará parte de uma classe que gosta de pôr uma peruca e fazer imitações da Shirley Bassey ou então, ainda não descobriu, mas tem algures no corpo um fecho-eclair qualquer que, depois de aberto, faz descobrir por debaixo da sua pele aparentemente humana uma espécie de lagarto nojento, oriundo algures de Marte.
©ª§¨
Aspirando eu a ser um ADE, se é que não sou já e ainda não me tinha apercebido, lancei mão ao Manual e resolvi estudar meticulosamente as 10 lições pospostas, que são nada mais do que as grandes 10 regras da sedução.
.
. 1. ESTEJA SEMPRE NO CONTROLO . |
.

Diz o mestre Tony que se quiser ser bem sucedido o homem tem que ter sempre o controlo de tudo. Começa-se por nós mesmo, depois a situação e a mulher e, finalmente, a relação.
©ª§¨
Para nos controlarmos a nós mesmos nunca podemos mostrar que estamos nervosos. Há que mostrar segurança mesmo que a casa esteja a vir a baixo no preciso momento em que estamos a começar a deglutir a presa. Então pânico é mesmo coisa banida do seu vocabulário, isso é mariquice de gajos com voz de barítonos.
.
- Fujam que o restaurante está arder!
- Calma boneca que tudo isto são só uns chamuscos. Até te vai ficar bem um tom mais torrado na tua linda pele.
©ª§¨
Como qualquer ser humano normal fica nervoso quando está a tentar conquistar uma coisa, a ansiedade do guerreiro, o melhor que tem a fazer, pensava eu, é tomar uns calmantes. Assim, antes de tudo, entra-se na farmácia e conjuntamente com os preservativos compra-se também uma caixa de Lexotan. Mas cuidado com a dose, não devemos exagerar ou ainda acordamos, depois de um longo sono, solitariamente com a cabeça na mesa de um restaurante, enquanto que um empregado passa uma esfregona no chão, já com quase todas as luzes apagadas e as cadeiras de pernas para o ar. O pior, é que a tal Deusa dos sonhos estará provavelmente acordar também, ao lado do dono do restaurante que se ofereceu para a levar a casa, depois de ela ter desconfiado que afinal o bom ouvinte que tinha encontrado naquela noite para toda a sua conversa era apenas um dorminhoco de olhos abertos.
©ª§¨
O Tony também refere que uma das formas de controlar a relação é nunca pagar as bebidas e o jantar à mulher. Confesso que esta instrução não me desagradou nestes tempos de crise, mas fiquei desconfiado se isto de querer mostrar que é um gajo que está acima da velha técnica de sedução de pagar uns copos, não é um pouco de sovinice. Cheira-me! Afinal eu até tenho prazer em pagar algo, mesmo que isso não implique um prazer posterior num leito de cetim. Aliás se implicasse, algo estaria complicado na minha vida, pois desde um pelotão militar a um conjunto de simpáticas velhinhas já estaria tudo na minha contabilidade de alcova.
©ª§¨
Mas pronto, ele disse, eu assim fiz. Para não cair em tentação levei o dinheirinho contado, pagava a minha parte e pronto. O pior é que ela, por não ter lido o manual, esperou no fim que eu pagasse. Cá para mim ela leu, sim, um outro manual, para aí da Cosmopolitan, em que dizia que é o cavalheiro que tem que pagar sempre a conta, pois além de esperar o meu pagamento também não levou nenhuns trocos. Ainda tentei convencer o empregado a fazer-me um desconto, mas não sortiu efeito, especialmente depois de ele descobrir que tinha sido eu a adormecer numa mesa na semana passada.
.
. 2. SEJA O MACHO DOMINANTE . |
.

O Manual recomenda a ver séries do National Geographic ou do Odisseia, para observar o comportamento do macho dominante, dado que é este que as fêmeas preferem. E porque preferem? Porque simplesmente é o gajo que faz mais sexo e elas gostam de alguém já rodado.
©ª§¨
Levei em conta a teoria e comecei por ver as séries referenciadas. Tive azar porque comecei logo por uma em que mostrava o comportamento do louva-a-deus. O macho fez toda a corte e tal, mas no fim acabou comido pela fêmea, e não foi propriamente em sentido figurado. Passaram depois para um documentário sobre as abelhas. Não me pareceu que a história de uma série de machos a trabalharem que nem uns escravos para uma tal rainha fosse um bom exemplo. Já estava a dar tudo como perdido, pois também já tinha papado mais uma série sobre aranhas e viúvas negras, quando finalmente apareceu um programa sobre leões. Reparei que eles afirmam o seu domínio com fortes rugidos e com um caminhar lento, mostrando quase que um movimento coreográfico dos seus músculos das coxas. Ainda por cima a fêmea acabava a caçar para ele, enquanto que o rei batia uma soneca debaixo de uma azinheira lá da savana. Gostei de cenário, inspirei-me e tentei mostrar ao mulherio, quando entrava no restaurante, quem era o macho dominante.
.
- Ouve lá o que te deu para vires andar como um parvo?
- Estás com assadura nos tomates? A andares assim!
.
Com estas observações dos meus amigos, fiquei um pouco desmotivado. Claro que eles não sabiam da técnica e por isso comentavam assim. As mulheres presentes na sala, por certo, ficaram impressionadas. O mesmo não posso dizer do empregado do restaurante que quase me pôs fora quando eu tentei mostrar o meu rugido para marcar território. Ainda por cima disse em bom som que só podia estar no seu karma como expiação, ter todas as semanas o mesmo cretino a torrar-lhe a paciência.
.
. 3. ESTEJA SEMPRE NO SEU MELHOR . |
.

Este capítulo começa bem, pois apesar de vir dizer que a aparência é essencial para uma boa conquista, vem depois esclarecer que o facto de ser baixo, gordo ou careca nada tem a ver com isso. O que conta é atitude e que com uma boa atitude as mulheres esquecem tudo isso. Não sei se o António Vitorino consegue um dia, com muito boa atitude, ter a Nicole Kidman de braço dado com ele, mas pronto, fica a ideia. Bem vistas as coisas seria sempre mais mão e cabeça dada, mas em nada diminui a confiança.
©ª§¨
Como não se pode arrancar o que nos foi dado fisicamente, pondo de lado as plásticas, devemos começar por mudar as coisas que realmente pudemos mudar, ou seja a farpela e alguma aparência física. Olá! O super machão vai começar a falar de trapos e de cremes? Será que afinal depois de muita parra vamos acabar numa uva de recomendação de sapatos Prada?
©ª§¨
Mas não, o homem atira-se primeiro à higiene pessoal. Diz ele que temos sair lavadinhos. E o que é isso? Tomar banho, lavar os dentes e usar uma roupa lavada sempre que sair para caçar a presa. Conclui-se então que o Tony sempre que sai para o seu escritório, ou lá o que quer seja onde o homem faz outro esforço diferente do enrolar com o sexo oposto, deve sair com um roupa de 3 quinze dias, comida entre os dentes e uma breve passagem por água, para não aumentar a despesa e ainda ser amigo do ambiente. Claro que quando o assunto é conquista ele perde a cabeça, dias não são dias, passa uma escova nos dentes, liga o esquentador por uns breves minutos para o banho, e cheira a roupa antes de a vestir para ter a certeza que foi à máquina.
©ª§¨
O problema é que isto não me trouxe grande novidade porque já uma tia-avó recomendava ao tio-avô que levasse sempre umas ceroulas lavadas, porque nunca se sabia quando um homem tinha que baixar as calças. Esta recomendação somada ao velho princípio que mesmo num romance platónico, quando se sai, por via das dúvidas, antes se deve lavar por cima e por baixo, passei à frente esta parte do capítulo. Afinal sempre me dei bem com a água e não era por estar prestes a entrar no Olimpo das Conquistas que ia esfregar melhor o corpo. Aguardava sim outras esfregas.
©ª§¨
No visual ele recomenda uma roupa discreta. Nada de Armanis porque dá um ar esbanjador, refere. O homem tem mesmo medo que lhe peçam para puxar os cordões à bolsa. A camisa com colarinho aberto até ao meio, a mostrar a corrente de ouro, também deve ser posta de parte. Vá lá, o homem pelo menos não põe as meninas a render, ao menos isso. Ou seja, nem vir directamente da Moda Lisboa, nem de uma tasca de Alfama, devemos, assim, ter um ar casual. Até aqui tudo bem. Abri o guarda-roupa e não me faltavam calças pretas e camisas lisas de cor discretas. Tinha os adereços necessários para a próxima tentativa de trazer a deusa mais loura dos arrabaldes.
©ª§¨
Se na roupa ele se portou a altura, tinha que borrar a escrita ao recomendar um perfume que não fosse muito forte. Afinal muito machão, muito machão, mas tinha que vir com a mariquice de se perfumar ao sair de casa. Homem que é homem não precisa de cheiros de adereço, as suas ferormonas já devem ser suficientes para pôr todas as fêmeas a guinchar. Quanto muito entra-se lá no estábulo da avó e rebola-se na palha que faz a cama do gado. Se as mulheres tiverem realmente a estirpe com que são descritas no manual, aquele cheiro a cavalo vai pô-las fora de si. E ficaram. Ficaram elas e todo o pessoal do restaurante, mal eu entrei. Acho mesmo que a casa de banho teve uma lotação esgotada de imediato.
.
.

“Os machos dominantes nunca questionam se são suficientemente bons para determinada mulher; questionam é se a mulher é suficientemente boa para eles. Eles nunca oferecem nada a uma mulher. Não estão a vender-se a si próprios, estão a tentar descobrir o que essa mulher lhe pode oferecer.”
©ª§¨
Uma coisa é certa, o Tony é um tipo coerente. Ele não se cala que não se oferece nada a uma mulher, que elas é que têm que dar, etc. Gastar o que quer seja com as suas conquistas não é água da sua praia para este rapaz. Será que escreveu o manual para ganhar uns cobres, quando estava no desemprego ?
©ª§¨
A confiança é a base de toda a conquista. Temos que chegar ao pé delas com aquele ar de quem é ministro, temos o povo lá fora aos urros, mas ainda assim estamos convencidos que somos muito bons. Caso contrário, ficamos nervosos e depois há que atacar nos calmantes, com as consequências que todos conhecemos.
©ª§¨
Uma forma de ganhar confiança é dizermos para nós mesmos “Eu sou a melhor coisa que aconteceu a esta mulher. Eu sou a experiência perfeita para esta mulher”. Assim fiz. Entrei na casa de banho do restaurante e, ao espelho, disse em voz alta e várias vezes a bendita frase. Estava a ficar convencido. Quando dei por mim estava um fulano, que tinha saído de uma das divisórias, a olhar para mim.
- Estou a ver que o meu amigo também andou a ler o Segredo, mas numa versão para gajos. Que edição é?
Não tivesse entrado um tipo a vomitar a casa de banho inteira, eu ainda lá estava a ouvir teorias da atracção australianas.
©ª§¨
Quando regressei à sala, escolhi a melhor loura presente, daquelas que vão directamente para suplementos de revista, mesmo sem ter protagonizado telenovelas idiotas, e avancei para ela com um ar triunfante, a pensar como ela iria ficar em êxtase com os orgasmos que eu lhe ia dar (sic Tony). Mesmo assim achei que todo o ar de confiança que lhe transmitia poderia não ser suficiente para ela captar, pois poderia não o saber traduzir a mensagem, afinal, todos nós sabemos que as loiras têm problemas com tradutores. Querendo dizer uma frase arrebatadora, que ilustrasse a minha grande confiança e introduzisse a minha abordagem, confundi a frase de sustentação psicológica, que recitava em pensamento, com a frase que devia produzir oralmente e acabei por lhe falar dos guinchos que ia dar com o orgasmo.
©ª§¨
Acabou por não dar nenhum. Não porque eu não tivesse mostrado grande auto confiança, nem que ela não a tivesse sentido na abordagem, mas sim porque o tal sujeito do Segredo, que parece estar sempre como uma alma penada a vigiar tudo, apareceu por trás, e ainda captou melhor a mensagem, o que o levou a exercer o seu direito de audição prévia ali mesmo em pleno restaurante e na minha cara, num sentido pouco figurado. Bem que tentei chamá-lo à razão dizendo que o Segredo é uma filosofia de paz com os outros e que segundo a teoria da atracção, ou lá o que é, tudo o que fazemos recebemos de volta. Mas parece que ele não leu bem essa edição e não ficou lá muito preocupado que o encontrão que me deu o tivesse depois de volta numa outra reincarnação. Nem ele, nem o empregado, que fez questão de dar também uma ajudinha, ao repetir a dose e colocar-me bem longe daquele espaço. Alguma coisa está errada nesta teoria do que o se faz se tem depois de volta, pois eu depois do primeiro encontrão o outro que foi devolvido foi de novo a mim mesmo e porta fora.
..
. 5. TENHA SEMPRE A DISPOSIÇÃO MENTAL CERTA . |
.

Confesso que depois de ter que estar sempre no controlo de tudo, qual sapo à espera da sua mosca voadora, de ter que ser o macho dominante, de ter que me aprimorar ao máximo na figura e de ter gritar não sei quantos chavões de auto estima para estar confiante, a minha disposição mental começava a ficar cansada. No entanto reparei que o meu querido Tony também aparentava algum esgotamento, pois a diferença entre este quinto capítulo e o 4º ou o 1º não parecia ser nenhuma. Afinal todos falam do mesmo tipo de controlo emocional. Seria apenas um reforço de ideias ou um encher chouriços? Fiquei na dúvida.
©ª§¨
Mas pronto, fiz um esforço e há que avançar mais um pouco nesta gloriosa tarefa de ter a maior pérola feminina enrolada nos meus lençóis. Por falar nisso, já troquei uma flanela aos quadrados azuis e amarelos por um verdadeiro cetim vermelho choque. Não há nada como preparar o ninho de amor. Estranho é que a empregada, de anos na casa, nunca mais apareceu. Ainda tentei telefonar a perguntar o que se passava, mas foi o marido dela que me atendeu e estava um pouco irritado, não sei porquê, dizia qualquer coisa que a mulher dele não trabalhava num bordel. Ainda estou para perceber. Assim como a boca da empregada nova que arranjei, toda modernaça e com um sotaque exótico, que mal entrou no quarto, olhou para os lençóis, e disse logo que o fazia falta ali era uns espelhos no tecto.
©ª§¨
Seguindo a bíblia do Mr. Clink, tentei então estar com a disposição mental certa, até porque ia começar a noite mais uma vez no mesmo restaurante e precisava de um alto astral, nem que fosse só para suportar o olhar assassino da empregadagem para comigo.
Neste capítulo ele começa por falar do corredor da morte, um local onde os paspalhos se encurralam nas discotecas à espera das donzelas que nunca mais passam. Ele diz que devemos fugir desse local tenebroso e ir de encontro, bem no centro da pista, a todas as mulheres lindas que esperam por nós. Não é ficar encostado à parede a bater o ritmo com uma perna, como se tivéssemos com uma pequena ameaça de ataque epiléptico, que se vai conseguir petiscar alguma coisa. Há que ir para a pista e, qual Travolta, mostrar quem é o rei da dança e o dono das dançarinas, no fundo o tal macho dominante, mas só que mais ritmado.
Mas vamos lá ver, chegar a uma discoteca e começar a dançar, mesmo não sendo para qualquer um, é fácil para muitos, logo é difícil de cativar a Miss Playboy de Janeiro das redondezas. O melhor é fazer uma coisa com maior impacto, que arrase logo que os pezitos comecem a soltar os seus primeiros movimentos. Que melhor sitio do que o restaurante para fazer isso, tem musica, tem espaço, mulheres lindas e, o melhor de tudo, não tem outros machos dançarinos a fazer concorrência.
©ª§¨
O problema era saber com que música eu devia fazer a minha entrada triunfante bem no centro do restaurante, que mesmo não sendo pista de baile, dava um certo jeito para tal. As musicas de fundo destes espaços não costumam dar grande ajuda para uns bons passos de dança, mesmo que o bailarino estivesse com a confiança ao rubro. Quando estava com toda a concentração mental positiva, a pensar frases do tipo, qualquer destas mulheres lindas é pouco para mim mas eu vou tê-las todas, surgiu uma música que puxava à dança. Mas depois pensei, hum, um fulano saltar para o meio de um restaurante a dançar Madonna não vai colar muito bem, cá para mim ainda pensam que alguém deve ter deixado aberta a porta do armário. Resolvi esperar pela próxima mas ainda foi pior. Não é que, numa onda revivalista resolveram colocar o I Will Survive da velhinha Gloria Gaynor. Bom, se eu me atrevesse a dançar com o dedo mindinho que fosse, por certo, teria logo ali um convite para sair no próximo Gay Pride.
©ª§¨
Estava a desesperar. A disposição mental certa estava a ir embora e não havia meio de aparecer o toque adequado para eu brilhar. Finalmente uns acordes de uma música bem batida em que o fulano gritava Sex Bomb, Sex Bomb! Zás, num salto atirei-me para a improvisada pista e comecei o meu exercício de movimentos bens ritmados. Reparei que quando exercia uns movimentos pélvicos bem exuberantes o mulherio já não fechava a boca. Agora só tinha que escolher a minha presa e, qual macho dominante, avançar para ela e arrebatá-la para a pista. Era o meu momento de glória. Verifiquei que havia uma loura, de catálogo de moda, numa mesa onde só havia mulheres. Alvo certo, não corria o risco de me enganar e ir buscar uma que atrás trouxesse como brinde um idiota qualquer com o Segredo atravessado. Avancei para ela.
©ª§¨
Ainda tinha uns bons metros para percorrer, sempre a ritmar, quando fui travado por um corpo pluridimensional, algo que caído ao mar levava o Greenpeace a fazer, por certo, grandes campanhas, se não fosse para salvar mais uma espécie de peso em extinção, seria pelo menos para salvar o próprio mar de um lixo giganuclear. Uma americana XXXXL, entusiasmada com o meu numerito e com uns bons decilitros de tinto português que já tinha emborcado, resolveu atracar-se a mim e fazer também a festa. Baseado na lição nº 1 tentei não perder o controlo, resolvi fazer um passo de dança bem complexo, cheio de rodopios, para a deixar KO e, assim, eu ficar livre para o meu ataque. Se calhar exagerei na complexidade. A mulher saiu-me disparada pelo restaurante a dentro e foi aterrar no meio de uma outra mesa que se preparava para saborear uns mexilhões na cataplana. Digo preparavam porque acabaram por se ficar pela intenção, pois a cataplana voou e digamos que houve uma distribuição muito democrática dos mexilhões pela sala.
©ª§¨
Com uma coisa eu podia estar feliz ao estar cá fora do restaurante. Era dos poucos que tinha a farpela sem qualquer vestígio de mexilhões à la marinera. O mesmo não se podia dizer do pessoal que me acompanhava. Talvez por isso nem repararam que um empregado do restaurante saiu disparado na sua mota em direcção a não sei onde. Melhor dizendo faço uma pequena ideia, porque ainda o ouvi dizer, à porta do restaurante, que ia imediatamente a uma sessão espírita a ver se o livravam de um encosto que o perseguia há umas semanas no restaurante.
………………
.
Pronto e foram estas a minhas aventuras nas primeiras cinco lições do grande mestre Tony Clink. Numa próxima conto o resultado das restantes cinco, se sobreviver.
.
Até agora ainda não tive muito sucesso, é certo, mas tenho fé, tenho a tal confiança que me foi confiada pelo meu mestre, que ainda hei-de ser el gran conquistador.
.
Apesar da loura divina ainda cá não estar, de uma coisa posso já me orgulhar, devo ser das poucas pessoas que tem a foto à entrada de um restaurante como o Cretino do Mês.