Sapatos Voadores - O Desejo bate à Porta e a Culpa entra pela Janela - Cenas Cortadas 3
“Prometes ser eternamente fiel…unidos até que a morte vos separe”. Com esta lengalenga e com um amor que julgamos eterno, vamos todos contentes desfiando a nossa maratona do viver a dois. O pior, é que a tentação deve estar nos cromossomas, até já há estudos sobre isso, e na melhor das curvas já nos estamos a estampar. Nem que seja em pensamento.
Pois é disto que aqui se trata, do eterno problema de sermos seduzidos por uma parte que não faz parte do jogo que teimamos em jogar, dando assim inicio a um outro jogo, muito mais complicado pois as regras constam de um manual que todos têm escondido, logo ninguém aprende.
A cena cortada que vos trago baseia-se em 2 episódios que me contaram (atenção ao sublinhado, contaram-me, percebido?!), e ilustram uma simples situação em que a sedução entra pela porta a dentro. Como convidada não desejada, faz das suas e, mesmo que não atinja os seus fins, leva a que o factor culpa se instale e se meta os pés pelas mãos.
Para os cardíacos dos Lençóis, aviso que este é mais do que um autêntico King Size, é um King Kong Size, dando assim para cobrir uma cama para um qualquer harém que habite a fantasia de alguém.

3 O pecado nem sempre mora ao lado. Por vezes mora mesmo dentro de nós, ainda que calado, ainda que recalcado. A luta entre que o corpo pede e o que a razão determina, faz com que, por vezes, se entre num jogo de mea culpa que nos leva a situações muito mais complicadas do que realmente são.
"""
O ritmo frenético e repentino de Gonçalo indiciava que o final de tarde se anunciava. Era assim todos os dias. Depois de uma manhã tardia e muito passiva, e de uma tarde com almoço alargado, era vê-lo, mal davam as badaladas das cinco, todo cheio de energia a mexer em tudo e mais alguma coisa. As teclas do computador pareciam que entravam num jogo sadomasoquista, tal era a forma violenta e rápida com que ele as atacava. Não se sabia o que escrevia, mas por certo devia fazer parte de um código secreto, pois nunca ninguém viu resultado de tanto frenesim laboral. Viam sim, o ar atarefado de Gonçalo sempre que um colega preparava as coisas para se ir embora.
- Isto não há quem aguente, todos os dias a mesma coisa – repetia sistematicamente Gonçalo suspirando, em jeito de deixa teatral. – Lá vou ficar mais uma vez até às tantas.

Pedro tentava não lhe dar muito atenção para não ficar stressado. Não só porque isso o enervava, afinal Gonçalo podia ter feito tudo muito antes, como também havia outros que padeciam do mesmo mal e a probabilidade de lhe solicitarem qualquer coisa quando já estava de saída era muita. Mal teve tempo para pousar o pensamento. O telefone tocou.
- Pedro – ouviu do outro lado da linha o seu director – Podia chegar aqui ao meu gabinete! Precisamos de avaliar os últimos contratos ainda hoje. Diga à Mónica para vir também.
Gonçalo não percebeu o olhar furioso de Pedro, quando este passou pela frente da sua secretária e quase o fulminou, tanto que até tropeçou numa cadeira. Afinal que culpa tinha ele que o Director o tivesse convocado para uma reunião à ultima da hora? Mas Pedro estava convencido do contrário, cismava que sempre que o Gonçalo lhe dava aquele ataque trabalhador de fim de tarde criava no ar uma qualquer onda de telepatia com as chefias, que passado uns segundos estavam todos a fazer convocatórias para altas estratégias. Quase que jurava que havia uma conspiração. Tantas horas ali fechados, tanta conversa deitada fora e era preciso soar a campainha das cinco para que tudo fosse afectado por um estranho vírus trabalhador, qual fadinha amestrada que não pára quieta.
"""
- Lá fomos cravados mais uma vez – comentou Mónica ao entrar no minúsculo gabinete das fotocópias.
Pedro pressentiu que aquela avaliação comercial de última hora ia ser bastante complicada. Não porque os contratos fossem complexos, mas porque a presença de Mónica tudo apontava para isso, nomeadamente com aquela passagem por trás dele em que, por uma questão de espaço reduzido, toda ela se encostou ao seu corpo. Há algum tempo que havia uma certa atracção entre eles e que ambos tentavam controlar, aventuras com colegas de trabalho nunca dão bons resultados. Pelo menos Pedro tentava manter esse princípio, apesar de estar casado há alguns anos mantinha ainda um gosto forte por Paula, sua mulher. Mónica já tinha tido convicções mais fortes, mas agora que estava novamente livre começava a deixar fluir melhor as suas vontades secretas. Não eram assim tão secretas, pois todo o resto do pessoal já mandava umas bocas, tais eram os olhinhos que ela lhe fazia.
- Se era para ficarmos nesta figura, bem que podíamos trocar de posição, ao menos eu sempre tinha uma alegria – disse Pedro ao sentir Mónica completamente colada a ele por trás, na tentativa de passar para o outro lado para pegar numas pastas.
- Não me faças rir senão não consigo passar… acho que fiquei entalada.
- Entalada como?
- Acho que a fivela do meu cinto prendeu nas tuas calças.
- Eu não acredito. Tira isso – disse Pedro, voltando-se para trás.
- Pára, não te mexas! Que senti qualquer coisa a rasgar.
- Mau, mau! Vamos ficar assim eternamente?
- Deixa ver – Mónica encolheu a barriga para ver a razão do embaraço – Ai não, é pior! Foi a uma coisa metálica das tuas calças, sei lá, uma etiqueta ou uma mola, que prendeu na minha blusa. Ai, que me está a puxar as malhas todas!
Pedro inclinou-se para a frente, ficando debruçado sobre a máquina de fotocópias para Mónica manobrar melhor a grande operação de desenlaço.
- Não faças isso, que ainda rasgas mais! Desaperta as calças.
- Por amor de Deus, não me vais fazer baixar as calças.
- Pedro é a única maneira, desaperta as calças para eu depois meter as mãos e desensarilhar isto.
- Deixa rasgar um pouco e pronto.
- Nem penses, a blusa é nova, mesmo em saldos custou-me os olhos da cara.
- Só falta que no meio desta cena toda tenha aqui um fashion moment. Ora diz lá qual é a marca?!
- Não sejas parvo. Desaperta as calças que já estou a ficar com falta de ar.
Pedro desapertou as calças e voltou a debruçar-se sobre a máquina de fotocópias. Mónica baixou ligeiramente as calças de Pedro, deixando ver um pouco da sua roupa interior, e tentou desembaraçar a blusa.
- Com que então Calvin Klein, einh! – comentou Mónica ao ver o elástico dos boxers de Pedro.
- Deixa-te de comentários parvos e despacha-te. Se alguém nos vir nesta posição ridícula, o que é que não irá dizer?
"""
O problema é que viram mesmo e disseram muito. A empregada da limpeza entreabriu aporta da minúscula sala e viu Pedro e Mónica naquela situação caricata.
Ainda o primeiro contrato não estava a ser analisado, depois de terem saído apressadamente de pequeno gabinete, e já o resto do departamento estava ao corrente da notícia.
- É o que lhe digo, uma pouca-vergonha e daquelas barbudas. Ele estava deitado assim na máquina – e dona Amélia exemplificou sobre a secretária a suposta posição de Pedro, deixando assim ver a todos os presentes um pouco da suas coxas já pesadas de idade e de trabalho – com as calças todas para baixo e ela por trás dele.
- Mas ela fazia o quê? – perguntou Gonçalo quase a espumar de curiosidade.
- Mexia nele por detrás. Olhe, eu fiquei tão embasbacada que nem vi bem. Nem sabia que se faziam coisas dessas, um homem deitado e uma mulher por detrás. E logo o Dr. Pedro, um rapaz tão pacato.
- São os piores, Amélia, são os piores – acrescentou uma ex-secretária de direcção, agora promovida a telefonista. – No meu prédio tenho um vizinho que parece que não parte um prato, mas depois vamos a ver, aquilo na casa dele é um entra e sai. Acho que até orgias já lá houve.
- Ó Clementina, como sabe? – perguntou ironicamente um dos participantes no debate. – Já entrou nalguma?
- Deixe-se de gracinhas. Há coisas que sabem. Uma vizinha que vive por baixo farta-se de ouvir coisas.
- Bom, mas se diz que são orgias é porque ouvem uns sons, assim tipo grupo coral. Uns aiiiiii, outros uiiii!
- Com vocês homens, nunca se pode conversar.
- Eu bem dizia que aquela ideia de pôr as coisas da limpeza na mesma sala das fotocópias não ia dar bom resultado. Vou-me sentar que até estou com falta de ar – rematou a testemunha da cena da sala das fotocópias, enquanto procurava uma cadeira.
Nesse momento o grupo dividiu-se em dois blocos sexistas, homens para um lado, mulheres para outros. O assunto, esse era o mesmo.
"""
Pedro e Mónica, na reunião, não imaginavam o que já se passava pela empresa. Se eles soubessem tinham, por certo, uma explicação porque é que sentiam as orelhas a arder. Especialmente Pedro, que além das orelhas sentia outras partes do corpo a incendiar. Mesmo sentindo-se desconfortável por Mónica ter visto a sua roupa interior, toda a sua temperatura subia ao relembrar o pequeno toque acidental da mão de Mónica num pequeno milímetro da sua pele, quando ela tentava desembaraçar a blusa das suas calças.
- Pedro, está alguma coisa errada nestes contratos? – perguntou o director.
- Não, acho que está tudo certo.
- Ó homem, você está vermelho que nem um pimentão, está à bica de ter um ataque de suor.
- É que está aqui muito calor.
- Você tem é que ir ao médico, esta sala tem o ar condicionado avariado e está aqui um frio dos diabos.

Mónica riu-se e tentou dar um toque de cumplicidade na perna de Pedro, por debaixo da mesa, o que tornou a situação ainda mais desconfortável com a subida da dita temperatura, especialmente quando a reunião acabou e Pedro teve que permanecer sentado para não ser visível o quanto o seu termóstato ainda evidenciava sinais de uma febre feliz.
- Pedro, ainda fica? – questionou o director vendo que Pedro permanecia estático, sentado à mesa. – Olhe que já é tarde.
Pedro apanhou uma das pastas, colocou-a no colo e levantou-se com ela, sempre a ocultar uma parte das suas calças.
- Já é muito tarde, dás-me boleia – pediu Mónica ainda antes de saírem.
Até quando ia ele resistir? A noite prometia continuar complicada.
"""
No carro, Pedro tentava conduzir concentradamente ao mesmo tempo que falava sem parar, uma conversa sem muito nexo. Procurava assim, que o incidente do final de tarde não fosse invocado. Mas Mónica interrompeu a sua estratégia.
- Era só o que faltava, soltou-se uma malha – disse ela enquanto subia ligeiramente a saia e mostrava as suas belas pernas revestidas por umas meias pretas. – Com aquela brincadeira toda e tanto roça, roça, deve ter puxado uma malha. Agora tenho um foguete enorme.
Pedro olhou de lado e verificou que as pernas de Mónica estavam quase todas descobertas. Quase que jurava que não via malha nenhuma solta nas meias.
- Olha para a frente que ainda te despistas… além disso agora não tens nenhuma pasta para pôr à frente das calças.
- Pensas que eu sou o quê? Algum tarado que mal vê um par de pernas fica logo a espumar?
- Eu cá não sei, mas se por lhe ter posto a mão na perna, na brincadeira, a temperatura subiu o que subiu, imagino como pode ficar agora com tanta paisagem.
- Não sejas parva.
- Olhe, o menino para a próxima traga umas calças mais escuras e menos apertadas.
-Agora vou ficar o tarado do serviço. Não vês que aquilo foi uma reacção nervosa.
- Já lhe ouvir chamar muita coisa, agora nervos é a primeira vez.
Pedro não respondeu e fez-se silêncio, que permaneceu até chegarem ao primeiro local de destino, a casa de Mónica.
- Ok rapaz, obrigado por me trazeres.
- De nada, foi um prazer – riram-se com o sentido da palavra.
- Sou boa mas não tanto, uma coisa mínima e já foi um prazer, imagino o que seria se houvesse mais, saías disparado pelo tejadilho.
- Também sou bom, mas não tanto, acho que me ficava só pelo sair através do pára-brisas.
- Quero ver isso.
- Primeiro tenho que fazer um seguro.
- Está, então depois avisa, que é para eu me preparar. Olha, para eu trazer os meus sapatos vermelhos… Hoje perdi a cabeça e à hora de almoço comprei uns sapatos vermelhos. Sempre quis uns. Não para ir trabalhar, claro, mas para ir para a noite.
- Tem cuidado, não te ponham umas notinhas no decote.
- Que conservador! Lá por serem vermelhos não quer dizer que fique com um ar de ataque. São bem giros. Queres ver?
Mas Pedro nem teve tempo de responder. Mónica levantou-se e passou para o assento de trás, onde estava o saco com os sapatos. Nesse movimento acabou por ficar novamente entalada entre os dois assentos da frente, e com a sua parte traseira ao nível da cara de Pedro.
- Bom, dois entalanços num dia é demais – barafustou Mónica entre risos.
- O que vale é que desta vez sou eu quem está por detrás, pode ser que a felicidade seja maior.
- Não te armes em esperto, que eu neste momento sou uma mulher desprotegida.
Mónica lá conseguiu passar. Retirou os sapatos vermelhos de um saco branco e mostrou-os.
- São giros – comentou Pedro por cortesia.

Mónica quis que ele apreciasse bem os sapatos e resolveu calçá-los. Para que fosse bem notória a exposição, inclinou-se para trás e levantou as pernas no ar, deixando ver na contraluz da iluminação nocturna as suas longilíneas pernas vestidas de preto a serem coroadas por uns sapatos vermelhos de tacão alto. Pedro estava à beira de recomeçar com os ataques de suor que já o tinham visitado na reunião. Mónica, quase deitada no banco, divertia-se com o seu pedalar no vazio até que, entre as suas pernas, avistou alguém lá fora.
- Mer.da, está ali o meu ex e o meu pai.
Num gesto repentino, sentou-se no banco descalçou-se e saiu porta fora, arrastando o saco e a carteira, sem dizer boa noite.
Pedro arrancou com o carro. O pai de Mónica ficou orgulhoso da sua menina, que chegava a casa numa boleia vinda no banco de trás.
"""
Nem Paula, nem Pedro apreciavam voltinhas de carro ao Domingo à tarde, mas nesse dia ao almoço, Deolinda, mãe de Paula, fez questão de saber que estava a precisar de apanhar ar.
- Mas ó mãe, ao domingo há tanta confusão e eu estou tão cansada.
- E eu não estou? Uma semana aqui fechada, a tomar conta do teu filho. Eles entram de férias e nós é que amargamos.
- A falar assim, até parece que não gosta de estar com o seu neto.
- Gostar até gosto, não gosto é de vir de minha casa e ficar aqui fechada a fazer de sopeira para o menino. Tu põe-me mão nele, que está a ficar muito mal-educado.

- Missão a cumprir – anunciou Paula ao entrar no quarto, onde Pedro se preparava para fazer o seu sacramental descanso pós almoço de domingo. – A mãe está a ficar com um péssimo humor, há que levá-la a arejar.
- Por amor de Deus, sair por aí num Domingo à tarde é pior do que um dia de trabalho.
- Pedro, ela está a ficar impaciente. Eu conheço a minha mãe, se ela começa a ficar assim não tarda muito e zás, faz as malas e vai para casa dela. Não te esqueças que o Miguel ainda tem mais uma semana de férias. Estás preparado para o aturar tu?
- Minha querida, já estou no carro – disse Pedro enquanto dava um pulo para fora da cama.
"""
E já estava mesmo quando chegaram os outros três, Paula, Miguel e Deolinda, todos com um ar de poucos amigos, facto reforçado quando todos bateram com força a porta do carro. Miguel foi o único que foi repreendido.
- Miguel, isso não é para partir – ralhou Pedro.
- Logo hoje que ia dar um filme tão bom – resmungou Miguel.
- Ó filho, é só dar uma voltinha e já voltamos.
- Mas porquê, não estávamos bem em casa?
- Não vês que há que levar a velha a passear? – rematou ironicamente Deolinda.
Pedro não sabia que destino havia de tomar. Paula também não o ajudou, preferiu continuar a roer as unhas para se controlar, avó e neto não se calavam e não paravam de implicar um com outro.
- Fecha o vidro que está um ar frio – pediu Deolinda. – Isto amanhã vai chover.
- Sabe lá a avó.
- Meu filho, fica sabendo que a partir de uma certa idade as nossas articulações são mais certeiras que qualquer boletim meteorológico.

Pedro procurou um caminho à beira-mar, mesmo que houvesse muito trânsito sempre tinham uma paisagem agradável. O problema é que nem a paisagem era agradável como pensava, nem tinha grande possibilidade de variar. Quase que se diria que já tinham tido a oportunidade de saber de cor o nº de azulejos de um prédio, tal era o tempo que permaneciam parados. Inclusive Deolinda já tinha assinalado que havia umas cortinas no dito prédio que precisavam de ser lavadas.
- Confusão por confusão, sempre era melhor um centro comercial, ao menos ia vendo umas montras.
- Também acho mãe – concordou Paula, quebrando um longo silêncio.
- Pena que quando eu perguntei, toda a gente tenha ficado calada – contra atacou Pedro, vendo que as baterias se tenham virado contra ele.
- Eu disse onde queria ir, queria ir ao cinema – rectificou Miguel.
- Por amor de Deus, uma semana encerrada em casa e ia agora fechar-me numa sala escura. Não fiz mal a ninguém para me porem de castigo, se bem que o tirarem-me do sossego da minha casa não anda muito longe disso.
- Por favor mãe, a falar assim até parece que não gosta de estar na nossa casa.
- Minha filha, quando tiveres a minha idade e te vierem arrancar à tua vidinha normal para te enfiarem num apartamento numa cidade enorme a tomar conta de uma criança, fala comigo. Não é nada contra ti meu querido… mas tinha sido muito melhor ele ter ido para minha casa, não faltava espaço para correr.
- Mas sabe que o Miguel não queria ir.
- Pois é, fazem-lhe as vontades todas. Onde é que já se viu uma criança preferir ficar trancada num apartamento em lugar de se ir divertir no campo?!
- Eu não tinha computador em casa da avó.
- Computador, computador! É por causa dessas coisas que estás como estás.
- Ó avó, agora não se vive sem computadores.
- Pois não, eu até estou a pensar comprar um para tratar das minhas couves. Não sei como não vêem que essas coisas só fazem mal, o dia todo sempre ligados àquilo, cheio de radiações. É por isso que há as doenças que há.
- Agora tudo tem computadores, até o carro do meu pai tem.
- Não me digas uma coisa dessas, se calhar é por isso que fico com dores de cabeça sempre que entro nele.
Mas o computador do carro não foi suficiente para alertar Pedro que o palerma da frente afinal não tinha arrancado e que voltava a ficar parado bruscamente, se calhar a olhar o carro do outro lado que parecia avariado ou, então, comunicava com sinais de fumo. Travou profundamente. Deolinda soltou um grito, mais de susto do que de dor ao ter batido com a cabeça no banco da frente.

- Se em lugar de computadores tivesse condutores em condições era bem melhor.
Pedro nem sequer prestou muita atenção ao comentário demolidor da sogra, estava completamente em pânico. Não pela travagem, que evitou qualquer colisão, mas porque, com o impulso da paragem brusca, um sapato vermelho tinha rolado por debaixo do seu assento.
"""
Pedro voltou aos suores. Agora não por um involuntário reflexo de prazer, mas porque ficou nos braços de uma situação muito comprometedora. Como ia ele explicar a presença de um sapato de senhora, ainda por cima vermelho, por debaixo do assento? Quem iria acreditar que não se tinha passado nada, e que era apenas um acidente com um saco de compras de uma colega? Ainda para mais o humor de todos os ocupantes estava com um nível bastante gélido e afiado, que a crucificação em praça pública era o mínimo que ele podia esperar.
Discretamente Pedro conseguiu empurrar um pouco o sapato para debaixo do assento. O problema é que bastava um pequeno movimento do carro e ele voltava a dar o ar da sua graça, como se de repente tivesse ganho vida e estivesse ali para o tramar. Tinha que se desfazer do sapato quanto antes. Se bem o pensou, melhor o decidiu. De repente, encostou o carro.
- Vamos parar já aqui.
- Aqui? – questionou Paula. – O que tem isto aqui para ver?
- Pasto, agora é que sinto que vieram pastar a velha – ajudou Deolinda à festa. – Nem vou sair, com esse pasto todo aí fora vou dar cabo das meias.
Pedro não reagiu às considerações. Abriu a porta e, vendo que ninguém estava a olhar, agarrou no maldito sapato e deixou-o cair discretamente para fora do carro. Mal cumpriu a missão de resgate da sua dignidade e de dispersão do objecto maléfico, voltou a fechar a porta.
- Afinal têm razão, isto não é nada agradável e está a ficar frio.
- Pai! – gritou Miguel quando viu o carro a arrancar, levantado uma enorme poeira.
Com o alívio de se ter safado e com a pressa em sair dali, Pedro nem reparou que Miguel tinha sido o único que tinha chegado a sair do carro e que estava lá fora. Vi-o pelo espelho a acenar, uns poucos metros à frente. Voltou a fazer uma travagem brusca. Deolinda voltou a bater com a cabeça no assento da frente.
- A continuar assim antes de chegar a casa deixem-me num hospital, vou precisar de umas boas radiografias.
Um solitário sapato vermelho ficou abandonado naquela berma de estrada, enquanto que o carro retomava a longa fila de trânsito que teimava em pintar aquela tarde de domingo.
"""
- Eu bem dizia que mais valia ficar em casa – comentou Miguel ao começarem a entrar na garagem do prédio.
- Tens razão meu neto, afinal deixámos de ficar fechados dentro de casa para ficarmos fechados dentro de um carro.
- Vá lá, correu mal, mas pronto! – tentou Paula contemporizar o desânimo. – Sempre apanhamos um ar diferente, condicionado do carro, mas ainda assim diferente.
Pedro ansiava por se atirar para cima da cama e ficar assim até ao jantar. Hoje não contavam com ele nas tarefas domésticas. O estado de nervos que viveu com o sapato perdido tinha-o posto de rastos, parecia que tinha levado uma pancadaria, e da grande. Estacionou o carro no lugar que lhe era reservado na sua garagem.
- Ajudem-me aqui que me falta um sapato – disse Deolinda enquanto se baixava dentro do carro.
- Que sapato mãe?
- Que sapato?! O meu, de quem havia de ser? Estavam a magoar-me e descalcei-os. Agora só encontro um.
- Veja bem que ele tem que estar por aí.
- Miguel ajuda aqui a avó a procurar.
Mas Miguel já estava fora do carro a correr para o elevador.
- Não está aqui, já vi bem – continuou Deolinda, já de joelhos e com a cabeça enfiada quase debaixo dos assentos.
- Deixe cá ver, que eu procuro – prontificou-se Pedro para ajudar, agarrando Deolinda por um braço para ficar com o caminho livre.
Nesse momento Pedro ficou gelado. Voltaram os suores. Deolinda tinha calçado num pé um lindo e vistoso sapato vermelho.
"""
- Ó mãe tem a certeza que trazia o sapato? – interrogava Paula, desesperada com a procura, depois de quase já terem virado o carro do avesso.
- Tu nem me perguntes uma coisa dessas. Tu achas que eu saía de casa só com um sapato? Não estou assim tão taralhouca.
- Mas ó mãe, o carro não tem buracos. Ele tinha que estar aqui, ainda por cima vermelho devia ver-se bem. Também não sei o que lhe deu para vir com uns sapatos vermelhos.
- Tinha que os calçar. A maluca da tua cunhada resolveu oferecer-me uns sapatos vermelhos, o que hei-de fazer? O teu pai disse logo que ao pé dele não calçava isso. Mas pronto, como ele ficou lá na terra, resolvi aproveitar agora para os estrear aqui na cidade. Tenho que ser uma mulher moderna. Olha tão moderna, que até virei Cinderela!

Pedro nem reparou que as duas mulheres já se riam com a situação. Ainda nem queria acreditar que tudo aquilo lhe tinha acontecido. Como podia adivinhar que afinal o sapato vermelho maroto que ganhou vida debaixo do seu assento, era da sua sogra e não da atrevida da sua colega. Jamais lhe passou pela cabeça que aquela senhora sexagenária tivesse saído nuns lindos sapatos vermelhos de camurça.
- Só pode ter sido o Miguel, foi o único a sair do carro.
Ainda Deolinda não tinha acabado a frase e já Paula estava em direcção ao elevador para arrastar Miguel por uma orelha até ao carro.
- Eu não fiz nada, eu não fiz nada! – gritava Miguel.
Bem que lhe exigiam uma reposta sobre o que tinha feito ao sapato da avó, mas Miguel nada conseguia dizer, ele mal conseguia perceber o que se passava.
- Vá lá, não estejas assim com o miúdo – pediu Pedro – isso não leva a lado nenhum.
- Não leva? Então ele atirou ou escondeu o sapato da avó e não se faz nada? – contrapõe Paula.
- Não se sabe se foi ele.
- Bom, a mãe não veio ao pé-coxinho e o carro não tem buracos, então quem foi? Foste tu?
- Eu volto lá a ver se está lá o sapato – rematou Pedro, para não ter que responder à questão da propriedade da autoria do rapto do calçado.
- Pedro, por amor de Deus! Deixe lá o sapato, não vale tanto, eu nem gostava deles.
Deram-se por vencidos. Abandonaram as buscas e rumaram ao apartamento. Miguel levava as orelhas a arder.
- Vai já para o quarto! – ordenou Paula mal entraram em casa. – Não há televisão, nem jantar.
- Também não é preciso tanto – voltou a contemporizar Pedro.
- Sinceramente Pedro, não te percebo. Costumas ser tão exigente e hoje tudo é desculpas pró menino.
- Não vais deixar a criança sem jantar?
- Claro que não, mas não vai sentar-se à mesa. Ele tem que aprender.
"""
Miguel não percebeu porque o seu pai lhe foi levar ao quarto o jantar e ficou com ele um longo tempo a jogar. Gostou muito daquela cumplicidade com o pai naquela noite, ainda que não tenha entendido o porquê.
- Que domingo! – suspiraram todos ao deitar, ainda que por razões completamente diferentes.