Pedaços Delirantes de Futuro - Quem Faz um Filho Fá-lo por Gosto
O futuro é já amanhã?! Não, o futuro começa hoje. Por muito que sejam encontrados novos caminhos, e o futuro vai estar cheio deles, eles começaram já a ser traçados neste nosso tempo.
Pensar que podemos vir a encontrar e traçar perspectivas é no fundo uma mera extensão das nossas angústias e dos nossos sonhos actuais. O Futuro, tal como o vemos, é uma paisagem acelerada dos passos que agora desenhamos. Quase todas as projecções de ficção científica foram sempre um redesenhar do que se vivia no momento. Talvez por isso, com o andar do tempo, em lugar nos parecerem mais reais elas acabam por trazer um ridículo quase burlesco.
Assim, com base nestes pressupostos, inicio mais uma série, a PDF.
Com Pedaços Delirantes de Futuro pretendo (oh maldita pretensão!) fazer um exercício amador sobre aquilo que podem ser os nossos cenários futuros, tendo em conta tudo aquilo que andamos a semear aqui neste nosso imenso cantinho.
Não sei se é para rir, se é para chorar. Talvez seja mesmo só para delirar.
Marty e Mag chegaram radiantes. Finalmente tinham feito aquilo que há muito ansiavam. Depois de muito pensar, foram nesse dia ao BioLab e depositaram respectivamente os espermatozóides e o óvulo de cada um. Agora era só chegar a casa e configurar o resto do processo. Porque quem faz um filho, além do gosto, tem que ter algum trabalho, ainda que simplificado com os novos sinais do tempo.
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Chegaram a casa relativamente cedo, mas não foram logo tratar do assunto. Prefiram primeiro relaxar um pouco e comer qualquer coisa. O computador central da casa detectou-os à chegada, abriu-lhe a porta e acendeu-lhe as luzes.
- Bem-vindos Marty e Mag, espero que tenham tido um bom dia – ouviram da voz do computador. – A temperatura da casa está a 23 graus. Têm 13 mails e 2 video-mensagens novas. Faltam 2 horas, 17 minutos e 12 segundos para começar o vosso programa preferido, caso não estejam disponíveis o mesmo será gravado automaticamente.
- Lembra-me para configurar outra voz ao computador, já estou farta de ouvir esta sonsa todos os dias – comentou Mag.
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- O que queres? – perguntou Marty na cozinha, junto ao pequeno painel do Frigodry, um aparelho que juntava o frigorifico e despensa, onde todos os produtos estão arrumados em pequenas prateleiras, nomeadamente em pequenos pacotes, geridos electronicamente.
- Qualquer coisa ligeira, coloca-me apenas 500 calorias – respondeu Mag enquanto ligava o ecrã-parede da sala com uma imagem de uma janela virada para um jardim tropical com um som intenso de chuva.
- Proteínas?
- Sim, mas vegetal, que já comi uma tablete com proteína animal ao almoço.
- Algum sabor especial?
- Não sei, acho que me apetecia assim algo suave, olha, põe peru vapor com manga.
- Temo que manga já não haja, temos que comprar. Também pedes sempre tudo com manga.
- Realmente é viciante, acho que tenho que fazer um pequeno programa de desintoxicação. Vou marcar uma consulta.
- Queres sólido ou líquido?
- Liquido, não estou para grandes mastigações.

Marty digitou os códigos representativos das escolhas, teve sorte ainda havia o sabor de manga, e de 2 pequenas torneiras na porta do Frigodry correu um liquido espesso que encheu 2 copos. Chegou à sala, Mag estava sentada no sofá envolvente, que adquiria diversas formas à medida das pessoas. Marty sentou-se, cada um bebeu o seu copo.
- Chuva? Estás muito bucólica – comentou Marty ao ver a chuva virtual a bater na janela que tinha sido criada automaticamente e onde se podia desfrutar de um bonito jardim tropical.
- Já estou cansada de tanto tempo seco, tenho saudades da chuva. Além disso o som da chuva é uma música terna.
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Marty e Mag foram depressa para a cama, queriam começar a tratar do assunto o mais depressa possível. Despiram-se e deitaram-se nuns lençóis térmicos, que aquecem ou arrefecem consoante a temperatura do ambiente, de forma a manter o corpo sempre com o calor adequado.
- Queres o comando light ou voice? – perguntou Marty quando ligou a Web Light Pro, uma versão de internet projectada, que derivava do computador central da casa.
- O voice não, senão não podemos falar entre nós. Já sabes que ele depois baralha tudo. Além disso faz-me sentir ridícula, lembra-me aqueles filmes de ficção científica do século passado em que as pessoas falavam para os computadores de uma forma amestrada.
Um holograma de um teclado foi projectado junto à cama. Ao fundo, num ecrã projectado da WLP, surgiu uma página do BioLab.
- Não seria melhor utilizar antes os óculos? – perguntou Marty.
- Não, quero que isto seja partilhado. Com os óculos ainda adormeces como o costume e eu penso que estás a ver o mesmo que eu e tu estás é ver para dentro.

Marty accionou a opção Baby Config e uma bela mulher, mais que perfeita, com a sigla BioLab inscrita num vestido vermelho de cetim, surgiu no ecrã. Com uma voz sedutora começou a fazer o inquérito.
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- Bem-vindo ao Baby Config do BioLab! Digite o código do seu programa de procriação diferida. |
- Sabes qual é? – perguntou Marty.
- Eu não. Não foste tu que ficaste com ele?
- Não.
- Passa-me aí o MultiCard, deve ter ficado registado aí.
Mag apanha uma espécie de cartão de crédito, um pouco maior, e passa-o a Marty, que faz aparecer um pequeno ecrã no cartão. Só que, para sua surpresa, em lugar do código eis que lhe aparece a imagem da sua sogra com um ar muito espantado.
- Toma, é a tua mãe.
- Era só o que faltava. Mamã estás a ouvir-me?
- Mag estás aí? – fala a mãe de Mag no pequeno monitor do cartão.
- Estou mamã, eu estou a vê-la.
- Ai filha, eu nunca mais me entendo com estas modernices. Não te vejo. Não podemos falar por um videofone?
- Mamã agora não é muito apropriado. Eu depois ligo mais tarde. Ouviu?

- Ouvir ainda oiço, só que não te vejo. Mas está bem, depois liga-me que eu preciso que me ajudes aqui numa coisa, o computador não se cala a dizer que está na hora de tomar o medicamento para os nervos e eu não o consigo desligar. Agora é que eu estou nervosa.
- E porque não toma o medicamento?
- Porque acabei ontem.
- Ah, se calhar foi o Marty que programou mal a prescrição. Mamã ainda tem a caixa do medicamento?
- Tenho, guardo sempre até comprar outra.
- Então faça assim, pegue na caixa e meta lá umas aspirinas, coloque no mesmo sítio do armário onde estava o medicamento dos nervos, feche a porta e conte até 10. Depois abra novamente o armário e tire de lá uma aspirina. O computador assim cala-se.
- Mas vou ter que tomar uma aspirina mesmo sem querer?
- Não mamã, o sistema não é assim tão inteligente, basta tirar o comprimido da caixa.
- Olha, eu por via das dúvidas vou tomar, até porque com toda esta algazarra já me começa a doer a cabeça. Não fui feita para estas modernices. Mesmo assim depois liga-me.
- Está mamã, eu ligo. Pega – disse Mag entregando de novo o MultiCard a Marty. – Estas coisas de pôr telemóvel num cartão que tem tudo e mais alguma coisa, é o que dá. No outro dia estava a pagar uma conta e no meio da transacção recebo uma ligação de uma colega. Foi giríssimo, a cara da Clair a dizer alô no meio da máquina!
Marty pega de novo no cartão, que agora acumula quase todas as funcionalidades diárias de uma pessoa, telemóvel, cartão de crédito, cartão de identificação pessoal e de local, chaves e ainda uma base de dados para recolher todos os dados que se precisam, desde as facturas das compras até dados de um laboratório. Quando tentou digitar o código, que encontrou armazenado no cartão, no pequeno monitor virtual projectado ao pé da cama a sessão da página do BioLab, ao fundo, já estava cancelada, pelo que teve que começar de novo.
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- Obrigado por ter escolhido os nossos serviços para a concepção diferida do vosso filho. Vamos dar inicio ao processo de programação. Responda a todas as questões. Se precisar de algum tempo para reflectir seleccione a opção Pause. Se precisar de mais esclarecimento sobre algumas características do vosso filho seleccione Help Baby. Obrigada. - Qual o sexo que desejam? Masculino digite 1, Feminino digite 2. |
- Então sempre, vamos pelo rapaz? – perguntou Marty. – Estaticamente há mais mulheres, assim será melhor contrapor.
- Sim, mas essa tendência vai ser invertida, desde que começou a procriação diferida, há cerca de 10 anos, a escolha passou a ser maioritariamente sexo masculino. Assim, daqui a 20 e tal anos, quando crescer e passar agir directamente no mundo, estará em concorrência maior com uma camada maior de homens, logo ser mulher vai ter vantagem.
- Mas havia tanta coisa que eu gostava de fazer com ele.
- Ai Marty, que bota-de-elástico! Hoje em dia rapazes e rapariga fazem as mesmas coisas. Vais ver que mesmo com uma menina não te vão faltar coisas para fazer.
- Principalmente a ti, que queres uma companhia para ir às compras. Bom, mas sobre as perspectivas de futuro és capaz de ter razão. Vamos escolher então a opção 2
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- Se desejarem que o vosso filho seja concebido apenas com as combinações possíveis do vosso genoma, escolher opção 1, se optarem pela possibilidade de haver manipulações genéticas, escolher opção 2. Se desejarem saber mais sobre o programa de procriação geneticamente modificada, escolham a opção Help Baby. |

- Marty isto nem tem discussão, quero a opção 2. Para alguma coisa há a ciência, para melhoramos as gerações futuras.
- Mas não era melhor ter um filho que fosse mesmo só nosso?
- E vai ser, mas com alguns melhoramentos. Além do mais é o que toda a gente faz, embora ninguém o assuma. Todos dizem que os filhinhos são só com os dados deles, que não houve modificação, mas depois é ver, só crianças perfeitas, todas lindas, louras e de olhos azuis ao lado de pais bem latinos.
- Bom, mais uma vontade à futura mamã.
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- Agora vamos escolher as principais características físicas do filho. Vão ser apresentadas várias imagens, escolha a que for a vossa preferida. Para ver a evolução da característica escolhida ao longo do tempo escolha a opção Time. Caso ela não seja do vosso agrado no processo de crescimento, seleccione Back e voltem a fazer a escolha. |

Marty e Mag passaram uma boa hora a fazer combinações de cabelos, cor de olhos, estrutura do rosto, alturas e outras características. Pelo meio acabaram por brincar com aquilo e fizeram uma série de combinações estranhas como se estivessem a conceber um cartoon.
- Não achas que está loura demais? – perguntou Marty ao ver o protótipo da sua filha.
- Está provado que as pessoas louras têm mais hipótese de sucesso, desde crianças. Deve ser uma questão de luz, são mais cativantes.
- Parece-me um pouco xenófoba essa consideração.
- Que disparate! É apenas uma constatação. Lembra-te do nosso tempo em que era tudo natural, quem eram sempre os mais queridinhos da turma? A malta mais loura. Uma pessoa mais morena é como as mulheres há uns anos atrás, com igual nível de competência tem que demonstrar muito mais para chegar lá.
- Mas isso é preconceito.
- Sei lá o que é, mas a vida é assim.
- Mas se daqui a uns tempos tudo for louro os morenos vão ser mais cobiçados, é uma questão de mercado, quando a oferta é menor sobe o valor.
- Deixa-te disso, acho que é uma coisa morfológica. Vê quem vende melhor, os modelos louros ou os morenos?
- Mas nós não somos louros, não vai dar nas vistas?
-Eu tenho uma tia que é muito loura, há sempre um gene perdido na família.
- O quê a tua tia Lídia? Olha logo quem, ilustrava perfeitamente as antigas anedotas de louras.

No final optaram pelo mais evidente, olhos e cabelos claros, pele branca mas não muito clara, por causa do efeito das radiações, e uma boa altura. Não repararam que a sua menina iria ser igual a tantas outras que também já tinham sido fabricadas, nem tão pouco que tinha um rosto muito familiar, não com eles, mas uma estrela de cinema que estava muito na moda. Pena que essa mesma estrela também era virtual.
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- Qual a sexualidade que preferem para o seu filho? Heterossexual escolha 1, Homossexual escolha 2, Bissexual escolha 3. Alertamos que esta escolha tem apenas uma taxa de sucesso de 70%, outros factores externos poderão determinar esta condição. |

- Nesta não me levas, muita modernidade, muita modernidade mas prefiro que seja hetro – avisou Marty.
- Também concordo, apesar de depender da profissão que possa vir a ter. Se fosse artista talvez ser homo lhe fizesse bem, têm uma sensibilidade diferente e são tão divertidos.
- Mas escolhemos uma rapariga, não um rapaz. Não me parece que as mulheres gay sejam assim tão sensíveis.
- Que quadrado que és Marty. Olha que normalmente as lesbo são mulheres de sucesso.
- Sim, mas hetro é melhor, sempre terá as coisas mais facilitadas.
- Concordo, até porque agora com esta possibilidade de programação a homossexualidade está em vias de extinção, pois ninguém escolhe essa opção. Daqui a uns a anos vão ser uns bichos raros, só mesmo aqueles que acabam por ser por outros motivos.
- Engraçado que numa altura em que parecia que o preconceito estava vencido, tudo voltou ao princípio.
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- Em seguida vamos apresentar todas as doenças potencialmente hereditárias do vosso código genético. Confirme ou modifique as percentagens. |

Esta era uma opção que já podiam ter posto de preenchimento automático. Colocaram tudo a zeros. Esqueceram-se que existem doenças que são importantes para fortalecer o organismo perante outras ameaças. Ficou uma criança completamente clean mas muito pouco imune.
- Fiquei um bocado deprimida. Nem sabia que era portadora de tanta doença. Grava-me esses dados que vou apresentar isso ao meu médico, vou ter que fazer alguma coisa.
- Ter probabilidade não significa ter. Não comeces já com as tuas coisas.
- Nós somos de uma geração que nasceu com todos os defeitos, por isso temos que nos cuidar.
- Sim querida, especialmente a cabecinha.
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- A apetência para uma profissão depende em 63% das competências adquiridas durante o processo de crescimento. No entanto pode determinar desde já alguma das apetências natas através do desenvolvimento de um conjunto de inteligências. Distribua os 100 pontos pelas diversas inteligências apresentadas. |

- Eu aqui nesta matéria tenho algumas dúvidas – observou Marty. - Ao estarmos a forçar determinadas vocações podemos estar a afastar outras que seriam natas
- Sim, mas convém tomar já algumas precauções. Já viste se dá para uma daquelas coisas que não tem aplicação, o que não falta agora são profissões a acabar.
- A tecnologia está a ser um pau de 2 bicos, está a estourar com imensas profissões.
- Artista, por exemplo, só mesmo para filhos de pais ricos. Os computadores fazem tudo e cada um virou o seu próprio artista. Olha eu, que sempre quis ser actriz, se tivesse seguido esse sonho o que é que eu hoje fazia?
- Fazias apenas a voz, pois hoje em dia as grandes vedetas são todas digitais.
- E mesmo a voz é uma questão de tempo pois já há reproduções muito boas. Então o que fazemos?
- Vamos fazer uma distribuição equitativa, depois quando crescer executamos outros programas.
- Sim, mas vamos privilegiar a inteligência matemática, que potencia qualquer coisa.
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- Chegou ao fim do Config Baby, as suas escolhas irão ser avaliadas e dentro de 24h serão contactados para definirem o momento da fecundação. A BioLab informa que caso prefira a gestação externa poderá contactar o nosso departamento New Mother para esse efeito. Obrigada pela sua preferência. |

- Isso não quero, quero ser eu a gerar a nossa criança.
- Também não queria, quero que ela comece a crescer à moda antiga. Aliás essa técnica das crianças geradas externamente ainda não está muito aperfeiçoada, já houve casos que correram mal.
- Penso que a BioLab nem tem cá essa técnica, acho que manda para fora para serem geradas noutros laboratórios.
- Esse programa é mesmo só para VIP’s que não querem perder a linha.
- Acho que também é utilizado pelas super executivas, que assim não perdem tempo. Mas eu não, eu quero sentir a criança cá dentro, sentir a barriga a crescer.
- Até porque vais ter uma barriguinha super gira.
Marty faz uma festa na barriga de Mag, deu-lhe um beijo como se a criança já lá estivesse. Riram-se e abraçaram-se.

Martim e Margarida uniram a nudez dos abraços e nem repararam como os lençóis começaram a baixar automaticamente a temperatura, para fazer face ao calor elevado que detectaram nos seus corpos entrelaçados. Fizeram amor como há muito não faziam. Afinal não era para menos, tinham acabado de fazer um filho, e com muito gosto.