I'm a Barbie Soul in the Barbie World - Cenas Cortadas 4
Vésperas de Natal. Centro comerciais. Uma mistura mais explosiva do que trinitroglicerina. Qualquer pessoa minimamente saudável deve fugir dela como o diabo da cruz. O pior é que mesmo batendo no peito e jurando nunca jamais, embarcamos mais depressa nesta combinação do que o Mário Lino com Alcochete.

Não adianta fugir, não há escapatória, como num filme de terror temos esse calvário à nossa espera. Há sempre um pendericalho de última hora que nos atira para lá. De um momento para o outro vimo-nos pior que Tarzan a percorrer a selva. Pena que não haja lianas para que se salte por cima de tudo e que as feras não obedeçam ao nosso grito. Pelo contrário, a própria selva encarrega-se ela de produzir uns gritos, vulgos cânticos de Natal, até à exaustão. Tanto que pavlovianamente, sempre que alguém por ventura murmura algo semelhante a Jingle Bells , somos tentados a virar o maior serial killer das redondezas
Já que o poeta diz que o Natal é quando um homem quiser, e porque o calor começa a apertar, nada melhor e mais refrescante do que introduzir um conto de natal. Neste não há velhinhos avarentos nem milagres licorosos, apenas um tipo à beira de um ataque de nervos.
Senhoras e senhores, mais uma entrega do Cenas Cortadas do Filmezinho das Nossas Vidas.
Com base em vários episódios que fui vivendo, bem exagerados, eis a última fatia da trilogia dedicada às compras (as outras 2 Aqui e Aqui ). Claro que não é uma compra qualquer, é a compra da boneca mais famosa do mundo, que só por si bem precisava de uma sessão de treino em acampamento militar antes de ser feita.

Repito o aviso de sempre, lá vem lençolada. Tem 4217 palavras e cheira-me que vai levar uns largos minutos a ler, se alguém chegar ao fim. Aceitam-se voluntários para cronometrar. Mesmo assim considero-me um rapaz sintético (não é para rir!).
4 Mais do que o simples desembrulhar de uma prenda, por vezes é o embrulhar que faz todo um acontecimento. Quando encolhemos os ombros e dizemos, oh, é giro, obrigado, não sabemos os reais dramas humanos que estão por detrás daquele pacote lindo com um laçarote. Com muito menos sofrimento há gente a combater em terras estranhas e a lutar com animais ferozes. Qualquer pé num centro comercial em vésperas de Natal transforma os arredores de Bagdad num passeio de monges tibetanos.
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O pior dos telefonemas para receber numa altura daquelas tinha acabado de acontecer. Pedro estava em pânico.
- Mas tem mesmo que ser? – perguntou ele.
- Tem – respondeu peremptoriamente Paula do outro lado da linha. – Amanhã é dia 24 e eu ainda não comprei a maldita boneca. Tu estás aí mesmo perto do shopping, não te custa nada, ainda por cima a sobrinha é tua.
- Mas aquilo vai estar um caos, estamos em véspera de Natal. Vão lá estar todos os tolinhos atrasados nas prendas a atropelarem-se uns aos outros.
- Não queres que eu vá sair de casa a esta hora à procura da boneca? Já corri seca e meca e não a encontrei. Numa loja de um outro centro disseram-me que nesse há.
- Mas não pode ser outra coisa?
- Por amor de Deus Pedro, já me chegou a cena do Natal passado com os crayons, em que já não sabia em que havia de dar um par de estalos primeiro, se na criancinha se na mãe da criancinha.
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E não tinha sido para menos. Bárbara, sobrinha de Pedro, ao ver mais um presente do género escolar, uma bonita caixa de crayons, depois de já ter recebido uma outra de guaches e 2 dicionários infantis naquela noite, explodiu e atirou a caixa pelos ares, gritando agarrada à cabeça, nos seus pequenos 6 anos, “ mas que mal fiz eu a Deus, para merecer isto, e logo na noite de natal?!”. Para agravar, a mãe da criança, disparava ela também frases do género, “mas que mal fiz eu a Deus para merecer uma filha como esta” enquanto despejava a sua carteira à procura da embalagem de Lexotans, o seu elixir das crises. Talvez por ser a noite do menino Jesus, Deus esteve bem de serviço naquela casa, pois não parava de ser chamado de urgência para prestar explicações, o pai, a fumar cigarros de seguida na varanda, vociferava também que mal tinha ele feito a Deus para lhe calhar na rifa uma mulher e uma filha destrambelhadas.
Pedro bem que tentou manter o espírito de natal, comendo doces em ritmo acelerado, enquanto que Paula tentava controlar o pequeno Miguel que estava eufórico com todo o espectáculo da prima, mas a tarefa estava difícil. Em parte porque uma boa parte dos crayons tinham voado para a mesa dos doces e a rabanadas começavam a ostentar um colorido estranho, muito pouco natalício. O que restava da consoada foi salvo pela D. Genoveva, mãe de Pedro, que acalmou a neta ao lhe prometer um presente segredo que guardava numa caixa e que só elas as duas iam saber.
Mesmo assim não se podia dizer que tinha sido a pior noite de Natal de sempre, pois todos tinham na memória a consoada de há 2 anos quando o Miguel apanhou o trem de cozinha em miniatura, acabadinho de oferecer à prima, resolveu meter cada uma das mini-peças de alumínio na frincha da porta e, com o acto de abrir e fechar, deu uma nova forma aos objectos. É para alisá-las, foi a sua explicação técnica quando foi apanhado com as mãos na massa, neste caso no alumínio. Mas nem teve tempo para entrar em detalhes muito técnicos, pois uma impressão bem digital das mãos da mãe arrancou-o da sua tarefa de engenharia.

No hospital, o médico teve que retirar alguns restos de arroz-doce da cara da mãe da pequena Bárbara para a examinar, quando ela meia desfalecida lhe pousou numa maca. Afinal ter tomado uma dose exagerada de lexotans, para afogar a histeria estridente da filha ao ver o abate sucateiro do seu brinquedo, só podia acabar assim, a aterrar com a cabeça bem em cima da travessa do doce de natal, quando todos já estavam bem mais calmos. Uma lavagem ao estômago depois de uma consoada não é propriamente a melhor forma de acabar uma noite de Natal, inclusive para uma urgência hospitalar.
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- Mas tu não vês que tenho o Miguel no carro – insistia Pedro – e que não é o melhor sitio para o levar, especialmente nesta época.
- Pelo contrário, ele é uma excelente companhia – retorquiu Paula. – Chato como costuma ficar é um autêntico motor de aceleramento para nos pormos andar das compras mal se tenha o necessário nas mãos.
Era verdade. Ao contrário de outras crianças, Miguel detestava ir às compras, mesmo que fossem para ele, e impunha uma quota de aquisição, logo à partida, querendo saber quantos coisas iam comprar, quantidade que logo que ultrapassada era incessantemente avisada pela sua voz lamuriante até os nervos ficarem moídos e se desaparecer pela porta fora da loja.
- Mas eu não sei comprar bonecas – tentou uma última vez Pedro.
- Ó filho, isso é fácil, chegas lá e vás à zona das bonecas e procura a Barbie na Neve, pega na caixa e zás.

- Mas não há tamanhos diferentes nem roupas diferentes?
- Não, aquilo é tudo igual.
- E se não houver essa da neve, não pode ser outra?
- Nem penses, tem mesmo que ser a da neve, se fosse outra eu já tinha comprado. A miúda é essa que quer e já sabes, com o feitiozinho que tem, se não tem a maldita loura anoréctica com uns esquis nos pés amanhã ao desembrulhar as prendas, ainda nos arriscamos a levar todos com as rabanadas nas ventas. Isto, na melhor das hipóteses, porque na pior ainda temos um coma profundo da tua linda cunhada.
- Miguel, temos uma missão – avisou o pai quando entraram com o carro no parqueamento do centro comercial. – Vamos entrar na selva e enfrentar os leões para resgatar uma princesa oxigenada. Se conseguirmos sobreviver amanhã teremos prendas a dobrar.
- Ó pai, não inventes! – respondeu o miúdo já amuado – Eu já sabia que tínhamos que ir às compras, sempre compras, sempre compras.
- É rápido, é entrar num pé e sair noutro.
- Quantas coisas vais comprar?
- Uma, é só mesmo uma coisa.
- Não sejas mentiroso, nunca cumpres o que dizes. Quando dizes que são 4 ou 5, compras 10.
- Desta vez é mesmo uma, prometo.
Se tivesse que esperar por um lugar de estacionamento bem que podiam trazer já para ali o bacalhau com as couves, tal era a confusão para estacionar. Assim, armado em esperto distraído, parou o carro em cima de uma passagem interna de peões e saíram disparados, antes que viesse um segurança chamar à atenção.
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Quando entraram no piso principal do shopping quase que não conseguiram sair da escada rolante, tal era a multidão que circulava. Pedro deu a mão a Miguel para que não se perdesse e tentou seguir apressadamente para a grande loja de brinquedos. Pelo caminho reparou que estava ali uma loja de produtos naturais que vendia os filtros para a sua cafeteira da água. Resolveu entrar para comprar uma caixa.
- És sempre a mesma coisa, dizias que era só uma coisa, a porcaria da boneca, e já estamos aqui – barafustou Miguel mal entrou.
Pedro nem lhe respondeu, pegou nos filtros e dirigiu-se à caixa.
- Vou lhe dar estas amostras destes nossos produtos – disse a empregada enquanto lhe colocava uma série de pequenas embalagens num saco, junto aos filtros. – Agora temos uma linha de produtos de cosmética para homem muito boa, tudo com produtos naturais.
Pedro sorriu e agradeceu. Ele que não ligava muito a essas coisas de cremes achou piada terem-lhe oferecido as amostras, provavelmente a simpática e bonita empregada tinha-o achado um homem interessante e moderno. Mas o contentamento depressa lhe passou quando cá fora resolveu dar uma espreitadela aos produtos e viu que faziam parte do saco da oferta um creme anti-rugas, um outro para o anti-envelhecimento das mãos e ainda um gel reparador de idade. Afinal a simpática menina não o tinha achado um homem moderno e interessante, mas sim um tipo acabado e a precisar urgentemente de uma restauração.
- Ó pai, estás-me a aleijar a mão! – gritou Miguel ao sentir uma pressão enorme da mão do pai na sua, o que era simplesmente um sintoma da fúria com que ele agora caminhava pelo corredor, já que não podia voltar à loja e apertar o pescoço a quem lhe traçou um tão deprimente retrato.
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Quando entrou no palácio dos brinquedos Pedro depressa esqueceu o seu mau humor. Não porque ficasse propriamente bem disposto, mas porque foi substituído por um outro ainda pior, tal era o cenário dantesco que se apresentava a seus pés. Quando se fala a seus pés, não se fala metaforicamente. Crianças, com birras estridentes, rebolavam-se pelo chão por não conseguirem os brinquedos que pretendiam. Antigamente elas ficavam em casa à espera de um menino Jesus bondoso que lhes podia trazer um pouquinho dos seus sonhos. Agora, num tempo mais moderno e pragmático, não há que ficar à espera de um velhote pançudo vestido de vermelho, vindo sabe-se lá de onde, há que ir sim directamente à central de compras e aviar de vez os sonhos que se querem. Mas como nem sempre o tamanho dos seus sonhos é coerente com a dimensão da carteiras dos pais, há que fazer grandes manifestações de desagrado e nada melhor que fazer uma berraria deitados no chão, qual pose mais extremada de reivindicação sindical em tempo de lutas laborais.
- Xavier, tu vai-me pôr mão no teu filho! – pediu uma senhora, já com o penteado desalinhado e um pouco descontrolada, a um dos dois homens que caminhavam em passo calmo por um dos corredores. – Eu não o consigo travar, parece que está possuído, está-me para ali aos pinotes ao pé das bicicletas do action man. Diz que quer uma.
Mas o dito senhor, pai, tinha mais que em que pensar, havia uma grande estratégia futebolística do seu clube a discutir com a outra presença masculina que o acompanhava, e por isso encolheu o ombros e não deu ouvidos ao apelo da mãe da criança.
Pedro quase que deu um salto, com o susto, quando viu uma fila de bicicletas desabar, como um jogo de dominó, e deitar abaixo um escaparate cheio de pequenas figuras do filme de animação de grande sucesso desse Natal. Na verdade, mais do que o estrondo e do que a sementeira de bonecos pelo chão, foi um autêntico exorcismo que ali se passou. A suposta criança possuída, motora de todo aquele acontecimento em cadeia, ficou imediatamente calada e correu de mansinho para o pé de sua mãe, qual anjinho devolvido aos céus. Enquanto os empregados aflitos avaliavam a dimensão da tragédia daquele tsunami biciclético, a família abençoada com a expulsão dos maus espíritos que tinham baixado no seu petiz, prontamente abandonou o recinto, talvez para ir dar graças divinas pela bênção, nem que seja a de não ter pago os prejuízos causados.
Pedro avançou pé ante pé no meio daqueles caos, não queria, qual Gulliver, esmagar as pequenas criaturas de propileno que agora habitavam aquele chão. Miguel não foi tão generoso e gostou de ouvir os seus pequenos pés a dizimar aquela pequena população, como se um autêntico Godzila se tratasse.
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Lá estava ela. Numa zona com grandes letras cor-de-rosa, a anunciar o império Barbie, no meio de uma prateleira, uma pequena embalagem parecia dizer qualquer coisa de Neve. Se fosse um filme, Pedro caminharia em slow motion ao som da música de Vangelis, Chariots of fire, até erguer na mão triunfante, a bendita boneca. Mas não era um filme, ou pelo menos este. Se calhar devia ser uma versão mais pós-moderna de Aliens, pois no momento em que Pedro se preparava para colocar na sua mão a caixa rosa com uma boneca loura e um par de skis, eis que uma outra loura, bem mais pesada, arrancou completamente da prateleira o seu troféu.
- Olha que gira, vou levar mais esta – comentou euforicamente uma senhora com um louro tão platinado quanto a boneca, mas com uma figura muito menos esguia, ainda que a roupa não tivesse tido conhecimento desse pequeno pormenor, tal eram os bocados de carne que lhe sobravam de um mini blusa e umas calças de Lycra bem justas.
Pedro não conseguia fechar a boca. Não porque tivesse ficado siderado com a figura da senhora, mas porque os seus olhos saltitavam entre a caixa, quase sua, refém daquela versão instantânea da Miss Piggy e uma prateleira vazia, onde não restava nenhum vestígio de quaisquer férias na neve da sua querida Barbie.
- Nádia, olha o que encontrei aqui – disse a senhora voltando-se para uma menina de peso, uma autêntica versão em miniatura da mãe. – A Barbie na neve. Vais ficar com mais esta na tua colecção.

Mas a miúda não prestou muita atenção à mãe, preferiu antes dirigir-se a Miguel, que estava de volta de uma casa da Barbie, a abrir e a fechar as janelas. Ainda que a casa fosse de exposição a pequena não gostou muito de ver por ali um menino à volta de coisas de menina e tentou empurrá-lo. Pedro não prestou muita atenção no segundo assalto que aquela família feminina estava a fazer aos varões da sua estirpe. Ele vasculhava a prateleira à procura de uma caixa perdida. Por fim encontrou uma, mas o seu contentamento foi efémero, pois dentro da caixa já rolava um braço solto da serena Barbie.
- Meu Deus, se me atrevo a levar isto ainda acaba a noite de Natal com uma corporação de bombeiros em casa a apagar um fogo – pensou Pedrou ao olhar para o bracinho que rebolava dentro da caixa.
Miguel, que já tinha mandado abaixo umas portadas de tanto abrir e fechar com força, enfiou uma mão numa das janelas da casa e acenou ao pai, mas este, quase em transe com tudo o que lhe estava a acontecer, nem reparou. Tão pouco viu que a menina furiosa com a apropriação de Miguel à casa, resolveu dar-lhe novamente um empurrão, desta vez com mais força, o que fez com que o pobre miúdo largasse o pequeno condomínio de quatro assoalhadas.

Não contente com a sua conquista de território a guerrilheira Kátia resolveu ela também enfiar a mão na janela e fazer adeus à sua mãe. O problema é que tanto a sua mão como o seu pulso, apesar da tenra idade, já apresentavam algumas dimensões generosas e, se foi difícil entrar, tornou-se quase impossível sair. Ao tentar desesperadamente tirar a mão da janela toda a casa tremia como se tivesse no meio de um epicentro sísmico. Mas por muito que tentasse o sucesso era nulo. Kátia desatou num choro e a chamar pela mãe.
- Ai, que a minha menina está entalada! – gritou a mãe, que prontamente se dirigiu para o local do acidente doméstico, em versão miniatura.
Mas nem com a ajuda da mãe se conseguiu chegar a bom porto. Katia permanecia com a sua rechonchuda mão enfiada na janela do quarto do primeiro andar da mansão rosa. Havia que chamar reforços. Primeiro um empregado, depois pai e irmão, chamados de urgência pelo telemóvel, que estariam num outro sector da loja.
- O melhor é pôr água com sabão – sugeriu o pai.
- Mas onde se vai arranjar água? – rebateu o empregado. - As torneiras da casa não funcionam.
- Não se arme em engraçadinho, que eu arranco já a porcaria da janela.
- Pode arrancar, só que vai ter que pagar a casa.
- E se comprássemos a casa? – sugeriu o irmão. – Assim levávamos como está, com a Katia pendurada, e depois em casa com jeito desmontava-se a janela.
O pior não foi a criança ter sugerido uma ideia meia cretina. O pior foi todos pararem para pensar se realmente não seria boa ideia. A mesma só não avançou porque afinal a Kátia, por momentos aparentada a Martim Moniz, já tinha uma bendita casa quase igual no seu quarto.
- Só os cortinados e o papel da parede são diferentes – afiançava a Mãe.
Não havia outra alternativa, só mesmo ensaboando o pulso e a mão a libertação era possível. Mas como fazer isso?
Enquanto acertavam detalhes sobre o resgate da princesa das masmorras janeleiras, Pedro num gesto súbito, mas que nada o orgulhou, passou pelo local onde estava repousada a primeira boneca, que tinha sido quase sua, e fez a troca com a outra meio desmembrada. Sentiu-se um autêntico agente secreto a trocar mensagens.
Mal fez o câmbio, pegou no braço de Miguel deu-lhe um beijo e arrancou-o dali. Ele nem percebeu o porquê do gesto meigo do pai, nem porque estava a ser considerado o grande herói.
Pelo caminho, Pedro ainda assistiu à procissão da menina pela loja fora, todos com a casa às costas para a casa de banho. Pai e empregado seguravam na casa ao alto, mãe segurava a filha no colo, esta seguia pegada ao objecto e o irmão ria com todo o cenário. Mas não era o único, uma grande parte da loja ria com todo aquele desfile estranho em que uma casa parecia ir voar com uma miúda dependurada.
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A linha da meta final parecia avistar-se, com a fila de caixas já no horizonte, ainda que esse mesmo horizonte estivesse bem encoberto com a multidão que o envolvia. Antes que começasse a suspirar pelo tempo que ia perder até conseguir pagar, Pedro deu por falta de Miguel. Era só o que faltava, depois de ter conquistado a pulso o troféu louro perdia agora o outro, menos louro, mais irrequieto mas muito mais importante. Já a suar, encontrar uma criança naquele caos seria tarefa difícil, começou a percorrer os corredores à procura do filho. Não foi preciso andar muito, ele estava bem parado em frente a uma vitrina, como se tivesse ficado colado ao chão por força de uma onda hipnótica.

- Pai, olha o relógio do Starwars! – apontou Miguel, com o dedo e com o olhar radiante, para o escaparate, onde além do relógio figurava uma série de bonecos do filme. – Eu quero um!
Pedro antes de ralhar por ele se ter perdido ou mesmo de responder negativamente à proposta, deu uma olhadela ao objecto causador daquele incidente, especialmente ao preço, mas não gostou do que viu.
- Nem pensar, isso custa uma fortuna. É um roubo.
- Mas eu quero!
- Amanhã o pai Natal vai trazer muita coisa. Não vamos agora entrar em mais despesas.
- Mas é isto que eu quero – continuou Miguel já com as lágrimas nos olhos.
- Como tu me fizeste prometer, só viemos comprar uma coisa. Já compramos, agora vamos embora.
- Não sejas mentiroso, tu já compraste outra coisa.
- Isso não conta.
- É sempre assim, só para mim é que conta.
- Não há mais discussão, vamos embora!
Pedro pegou na mão de Miguel e arrastou-o para as caixas, como quem arrasta uma mula teimosa empancada. Este, por não ter forças para resistir, canalizou toda a sua energia para a garganta e, para grande espanto do pai, resolveu mostrar a toda a gente como ainda estava bem treinado no choro birrento.
- Ah, um menino tão grande a chorar! – comentou a empregada da caixa, quando viu Miguel naquele estado choroso. – Assim ficas feio.
- Ora, e tu és gorda – respondeu prontamente Miguel suspendendo de imediato o ataque de choro.

- Eu sei que sou, mas não precisavas dizer – referiu timidamente a empregada, colocando os olhos apenas nas teclas da máquina, como a tentar ocultar os seus largos kilos, que de um momento para outro foram desnudados.
- Miguel, isso diz-se? – ralhou Pedro já a caminho do carro. – Não se diz que é gorda.
- Mas ó pai, ela é.
- Mas não se diz, não se diz a ninguém que é gordo.
- Mas eu disse a verdade.
- Não digas, fica calado.
- Então queres que eu minta?
- Não, quero que fiques calado.
- Ah, ela pode dizer que eu sou feio e eu não posso dizer que ela é gorda, quando ela é mesmo gorda.
- Mau, mau, mau! Estamos a desconversar. Há situações na vida que não podemos dizer a verdade.
- Sempre a mesma coisa, se minto é porque minto, se digo a verdade é porque digo a verdade.
Pedro só ansiava por um bom sofá, longe de tudo aquilo, para afogar toda a neura com que foi presenteado naquele fim de tarde. Talvez por isso mal se apanhou no carro tentou sair dali o mais depressa possível. Tão depressa que nem viu um sinal.

- Pai, passaste um sinal vermelho – apontou de imediato Miguel.
- Olha, vai fazer queixa à polícia – respondeu Pedro sem paciência para mais observações.
Miguel devia ter assumido que queria ser um menino bem comportado a partir daquela altura, fazendo sempre o que lhe mandavam, pois mal pararam num novo semáforo cumpriu a recomendação que o pai lhe fizera.
- Olhe, o meu pai passou um sinal vermelho – gritou Miguel, depois de ter baixado o vidro do carro, a um polícia que estava junto ao semáforo.
Pedro e o polícia olharam um para o outro. Não só ambos fingiram que não ouviram, como o olhar do polícia denunciou um certo suspiro, como quem diz, lá em casa tenho um ainda pior.
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E a famosa Barbie teve a sua noite de encanto. Tanto encanto que quase acabavam em desencanto. Por muito que fosse o contentamento da pequena Bárbara perante a boneca, o facto de a receber em triplicado depressa trouxe aquele ambiente bem poético de um contentamento descontente.
- Na minha vida nunca nada dá certo, sou uma infeliz! – berrava ela agarrada à cabeça pela sala fora, como se fosse um adulto numa marcação teatral trágica, perante a visão triplicada da sua Barbie e a Neve.
A avó apanhava as pobres bonecas do chão, para não serem pisadas pelo andamento desenfreado da neta, e tentava convencê-la como era bom ter em triplicado um desejo, assim a Barbie tinha 2 irmãs gémeas.
- Mas onde é que já se viu a Barbie com irmãs, ela é filha única como eu – reagiu ainda pior a eterna azarada de natal.
Os outros habitantes daquela noite barafustavam entre si pela descoordenação, era preciso azar os 2 tios e o pai terem a mesma pontaria. Felizmente que a mãe de Bárbara nada daquilo assistiu, pois a combinação do Lexotan, que tomara bem antes por via das dúvidas, com um bom vinho tinto que acompanhou o bacalhau resultou num sono bem profundo.
Feliz estava apenas Miguel com o seu relógio do Starwars. O seu pai acabara por ter ido bem cedinho, naquela manhã, comprá-lo, enfrentando de novo o inferno que ele já tratava por tu cá tu lá. Pedro estava tão feliz por ter sobrevivido a tudo, que nem se importou muito com os cinco pares de meias, uma gravata fluorescente e uma camisola que não lhe servia, que recebeu nessa noite. Paz aos homens de boa vontade, e ele tinha tido mesmo muita.