Um Homem não é de Ferro! - O capitalismo, a Paranóia e o Sexo (ou a falta dele)
Senhoras e senhores, está aberta a caça ao peru do ano! Mais do que encontrar o grande campeão de sucesso da temporada de Verão cinematográfica, vulgo blockbuster, a malta anima-se em descobrir quem vai dar com os burros na água depois de gastar um autêntico rio de milhões de verdinhas, ou seja, quem vai ser o peru com castanhas do ano, mais conhecido no meio do cinema como o turkey.

Com o Homem de Ferro, Iron Man, iniciou-se assim a temporada quente dos grandes filmes comerciais. Normalmente esta temporada costuma trazer os eternos pratos requentados, como é o caso do Indiana Jones, iguaria seguinte. No entanto, o filme de abertura não faz parte dessa ementa, pois trata-se da primeira adaptação ao grande ecrã do herói de banda desenhada da Marvel.
Claro que eu não fui ver o filme por vontade própria. Eu só lá pessoa de me meter numa sala de cinema para ver um tipo a voar com uma armadura medieval high-tec e à pancada com os outros! Isso é coisa de putos e de pessoal com gostos cinematográficos muito pouco elaborados. Eu gosto mesmo é de me enfiar numa sala e aborrecer-me até ao tutano, mas depois abrir a boca e soltar umas postas de pescada filosóficas, de fazer inveja a qualquer colega mais distraído.
Mas dizia eu?!...
Ah! Fui ver o filme e, como tenho a mania de ver o filmes em diferentes posições, inclusive de pernas para o ar – confesso que esta não costuma dar muito jeito, nem a mim nem ao pessoal que fica na fila detrás pois não acham piada àqueles números de circo numa sala de cinema, especialmente quando levo as meias rotas – encontrei alguns detalhes interessantes que passo a compartilhar.
Proletários de todos os filmes, uni-vos! |

Se um extraterrestre resolvesse apreciar algumas sociedades apenas pelas obras publicadas e pelos filmes que produz pensaria que a sociedade americana seria um pouco como um OMO comunista, Marxista mais Marxista não há!
Todos sabemos que toda a organização da sociedade americana está assente numa única pedra, o Capitalismo. Resta saber se as águas que banham essa pedra, de tão agitadas que andam, qualquer dia não a corroem e ainda teremos as esquinas das diversas Wall Streets todas a banhos, como se elas próprias fizessem parte de um blockbuster de Verão. Mas isso é matéria de outras salas, inclusive há aqui uma ao lado que está com uma sessão interessante sobre um Tsunami. Podem ir ver aqui, tem efeitos especiais de primeira água.

Bom, se há um sistema baseado no Capitalismo terá que haver pessoas que o alimentem, neste caso o Capitalista. Sabemos, pois vem em todos os manuais marxistas, cujo best-seller é um tal de Capital, que os capitalistas são gente que exploram o seu semelhante, na medida em que não sendo detentores dos alicerces de qualquer sociedade, o trabalho, retiram deste a mais-valia, hoje conhecida popularmente como lucro, e põem-na ao serviço, não da colectividade, mas sim do seu próprio bem-estar individual, isto mais coisa menos coisa, talvez para menos do que para mais.
Ora se virmos qualquer filme americano, o que é encontramos sempre? O Capitalista como o mau da fita, como o tipo que explora todos e que inclusive não tem escrúpulos de mandar contratar qualquer gangster ou grupo terrorista para despachar quem tiver imbuído de ideais de fraternidade social. Nem Lenine nem Karl Marx chegaram tão longe. Vamos a exemplos.
Lembram-se do filme uma Mulher de Sonho, com o tibetano Richard Gere e a sorridente Júlia Roberts? O que acontecia, era que o homem andava a comprar empresas falidas, para as fundir, despachar os trabalhadores e depois vendê-las novamente já muito mais magras mas mais valiosas. Mau este capitalista! Mas o que aconteceu? Eis que apareceu uma linda meretriz - daquelas que mesmo a minha avozinha que ia à missa 3 vezes por dia convidaria para tomar chá e, por certo, com quereria casar o neto – que além de andar a fazer compras por Rodeo Drive resolveu dar numa de bolchevista, talvez inspirada num Soviet Chic de um Versace, e convenceu o rapaz a ter pena dos trabalhadores. Claro que antes ainda o convidou para umas voltas e uns banhos num jacuzzi, que isto já se sabe, um homem não se convence de qualquer maneira. O certo é que o Capitalista mau ficou bom, fez uma trapaça nos outros capitalistas maus, e houve um final feliz, para ele que ficou com uma Cinderela cheia de curvas e para o pessoal trabalhador. É o que se pode chamar um autêntico sindicalismo glamouroso – Se a CGTP ou a UGT tivessem assim as pernas da Júlia e o imaginário dos argumentistas de Hollywood neste momento a Ministra da Educação e Mário Nogueira já estariam numa ilha a beber Margaritas e os profes portugueses estariam todos felizes a comer perdizes.
Wall Street, o filme, não teve um final tão feliz para o Capitalista Michael Douglas, que também queria fundir – no fundir é que este o ganho – pois não teve redenção e ficou mau como as cobras até ao último momento. Moral da história, foi pró anjinhos e na paz do senhor ficaram os trabalhadores das companhias de aviação, onde trabalhava o pai do protagonista que safou tudo. Digamos que aqui foi um socialismo mais nepotista, a lembrar paisagens tão nossas.
Bom, mas voltando ao mote da questão, o filme Iron Man. Mais uma vez Karl Mark baixou sobre os argumentistas. Ora vejamos, tínhamos uma menino rico capitalista, dono de um império que fabricava armas, que só queria o lucro e destruir tudo o que fosse para aumentar o seu mercado – isto lembra um outro filme já exibido nesta Sala – mas que um dia viu a luz, neste caso a sombra de uma caverna e resolveu desistir de tudo, não queria fabricar mais armas. Dedicou-se a causas mais nobres, construir um modelito em ferro que o levasse a ficar assim como uma espécie de Madre Teresa com acabamentos de M. Tatcher, ou seja, bom com os pobres e os oprimidos mas duro como o aço na queda e sempre pronto para um arraial de porrada.

Não importa se esta decisão do capitalista, agora bom, era mais uma das suas excentricidades, nem que milhares de trabalhadores fossem para a rua porque a fábrica fecharia. Ele agora é bom e está ao lado dos oprimidos, isso é que é importante. Mas estes devaneios só podem sair de um capitalista Old Money, filhinho do papá, porque os New Money, como suaram as estopinhas para lá chegar e não tiveram nenhuma herança que lhe facilitasse a vida, vão resistir, não largam o osso, e vão querer segurar a fábrica. Logo o que vamos ter? Um capitalista regenerado, de porte aristocrático, e um capitalista igual a si mesmo, novo-rico e ambicioso, que depois de ter sido ele a fazer o império para o menino do papá, não o quer largar, nem que para isso tenha que se associar aos ainda mais maus, uma gente lá dos Orientes. Assim, eis que surge, qual tragédia grega, uma luta entre iguais, pseudo-pai e pseudo-filho a disputarem a sua criação. Ainda dizem que o cinema comercial é pimba. Isto é Shakespear e do bom! Otelo de aço!
Com isto revelei um pouco o final do filme, mas também ninguém que me lê – se é que ainda alguém está a ler neste momento - o vai ver, a não ser um certo doido azul que anda por aqui, mas como é capaz de adormecer pelo meio quando o vir em DVD, nem vai reparar.
Para concluir, não deixa de ser interessante que o país anfitrião de todos os capitalismos, encerre nos seus filmes sempre uma moral anti-capitalista. Andará por ali uma má consciência recalcada? Ou será que o socialismo é afinal apenas uma história de encantar e por isso fica melhor na fotografia?
Ó Papão sai de cima do telhado e deixa dormir o menino descansado! |

Por vezes já nem sei se são os filmes americanos que precisam de medos, se são os próprios americanos que não sabem viver sem eles.
Na história original do Iron Man o tipo despachava Vietcongs. Agora anda às cabeçadas com pessoal com ar de taliban.
Depois da guerra-fria o que seria do cinema sem a Al Quaeda e Associados?
Em tempos cheguei a pensar que afinal os americanos gostavam do comunismo só para terem enredo nos filmes de acção. Quando caiu o muro devem ter-se sentido órfãos. Em quem vamos malhar agora?
Felizmente, ou infelizmente, a História arranjou-lhe sucedâneo à altura, e o terrorismo de cunho islamita tornou-se no herdeiro dos bons vilões sociais. Por vezes temo, que muito do que aconteceu na nossa História recente, tenha sido inspirado em muitos filmes de baixa categoria. Woddy Allen disse, inclusive, que no 11 de Setembro decalcaram apenas o imaginário de um mau blockbuster de Verão.
Mas será que os americanos precisam de ter só um papão no cinema, ou precisam de ter sempre uma paranóia para expurgarem os seus próprios medos, para não falar dos mercados?

No filme Iron Man, a determinada altura, quando ele já está bonzinho e a malhar nos maus, ele luta contra o seu próprio armamento, pois os terroristas estão armados com os produtos que ele mesmo tinha fabricado. Ou seja, quem combate a América utiliza também as armas que a América lhe vende. A brincar, a brincar, penso que é este o grande dilema da corrida ao armamento e dos eternos conflitos internacionais. A indústria de armamento, por ser poderosíssima, e estar nas mãos de privados, precisa de mercado para escoar produto, e o seu mercado chama-se Guerra. Penso que é fácil de entender. Resolver é que vai ser mais complicado. Quanto vale num PIB este negócio? Vão até à tal sala que falei acima e vejam o filme que lá está com esta matéria.

Não precisamos de Capitalistas Arrependidos, isso é nos filmes, mas precisávamos de governantes que olhassem o problema de frente e, sem medos, disciplinassem e controlassem essa indústria. Há áreas em que o liberalismo tem que ficar à porta, mesmo quando a casa em questão tem o nome de economia de mercado.
Caso contrário, vamos levar a vida a inventar papões. Podem dar muito jeito aos filmes mas confesso que na vida real atrapalham um pouco.
Sexo? Só depois do casamento! |
Apesar da personagem principal do filme ter alguma piada e alguma originalidade, em relação a outro tipo de heróis - o tipo é cretino, irreverente e não lhe foi dada nenhuma força especial, a não ser a sua inteligência – não consegue, no entanto, escapar ao eterno cliché amoroso da paixão impossível ou não consumada.
C’um raio! Porque será que estes super-heróis nunca podem ser felizes no amor? Há sempre qualquer coisa que se atravessa e nunca os deixa consumar. Começamos a ficar um pouco cansados.
Não venham dizer, que é para criar suspense, tipo Floribela, para ansiarmos muito para que aconteça algo. Está mais que provado que nos filmes de sexo com conversa o pessoal acelera logo o DVD para passar à frente a alta literatura e chegar aos finalmente, por isso não venham com o encher chouriços.
Li uma vez, se não li passo a ler, que um tipo que tem uma loura brasa a atirar-se a ele constantemente e não faz nada, pois pára sempre no último momento, não é cavalheiro nem é tímido, é apenas gay.

Sobre os heróis não ponho a mão no fogo, até porque não fui eu que os inventei, mas sobre os argumentistas tenho algumas dúvidas, ai tenho, tenho! Será que pelo facto da donzela nunca acabar nos lençóis do herói não aportará por ali nada de recalcado, do género, se eu não o posso ter, não vai ser a tipa que o vai desfrutar?!
Escrevam eles um dia uma história com um super-herói que goste de sexo alternativo e vão ver como não vai haver pruridos com a consumação, ou muito me engano, ou ele nos primeiros 30 minutos já vai estar na caminha com o louro que é mordomo.
Vamos lá gente, já não há paciência para tanta castidade. Mesmo superes, eles têm direito ao amor. Vamos lá ver, um homem não é de ferro!
No final disto, quem chegou aqui, é capaz de perguntar, e o filme, que tal é o filme?
Bom, lembram-se daquela velha piada super machista sobre as mulheres, em que se dizia que elas são como os CD’s, por quase de uma ou duas músicas boas, temos que gramar com o disco todo? É algo assim, tem boas cenas mas temos que levar com o filme todo, o que sendo mais de 2 horas nem sempre apetece.
Robert Downey Jr. vai bem, fazendo dele mesmo, como sempre. Boémio, irreverente e tal, vai fazendo das suas.
Gwyneth Paltrow está ali de sopeira. Isto de estar nos 40 e com uma família para sustentar é o que dá, há que se fazer à vida e aproveitar o que lhe aparece, mesmo que sejam papeis que qualquer candidata a pin up faria. É assim minha menina, a vida custa a todos!
Jeff Bridges, vem fazer o eterno vilão do actor consagrado. Não pode haver um grande actor que não tenha feito um grande vilão num filme de super-heróis. Vem em todos os manuais.
Por falar em manuais, vamos lá ver se o prontuário que contém as receitas de sucesso de Verão acertou e não produziu algo que vá azedar nas bilheteiras.