Mentiras Reais - As Máscaras do Outro lado do Espelho
Uma imagem vale mais do que 1000 palavras. E porque não fazer o contrário? Com as palavras construir imagens. Diz uma palerma qualquer por aí. Mas a construção ou a queda de imagens pelas palavras aproxima-nos da verdade ou da mentira? Não será que por detrás de uma simples imagem, em que os pixels se definem por questões semânticas, se esconde uma complexa máscara? Talvez!

O mundo virtual abriu portas a novos mundos. O maior, talvez o maior importante, foi a vasta janela que escancarou à pessoa anónima para que ela, não só pudesse espreitar os mundos que outros lhe pintaram, como colorir todos os seus próprios universos, através de uma interacção directa.
De um momento para outro, quem sempre viveu fechado nas suas armaduras psicológicas, pôde mostrar-se de diferentes maneiras, abrindo caminho a um palco onde começaram a desfilar personagens escondidas.
Através dos chats, e com o escudo protector do nick, iniciou-se a primeira fase desta nova conquista. Simples e sem muitos truques aparentes, foi a fast perfomance deste novo espectáculo do fingidor, que finge tão-somente a dor que deveras sente.
Mas essa forma imediata de ser Rudolfo Valentino ou Jessica Rabit, já para não falar de um Zéze Camarinha ou de uma Mata Hari, tornou-se rapidamente obsoleta, de tão insatisfatória. Havia necessidade de meter num armário a bonecada mais primária e tirar de lá algo mais elaborado, que ficasse bem neste teatro virtual, espelho de um outro que vive eternamente de uma estreia adiada. Florbelas Espancas, Professores Marcelos, Gabrieis G. Marquez, Maludas, mais do que avatares, eram assim ícones desejados para incorporar. Então, eis que surge um novo domínio, o Blogue, que permitiu mais uma conquista no novo universo, agora mais intelectual, mais substantiva, e dar início a uma invulgar passerelle de figuras abstractas.
Com os Blogues, aquilo que era um privilégio de uma casta erudita ou profissional, ficou aparentemente ao alcance de qualquer um. Assim, a trupe a que eu já chamei os Talentos Anónimos Reunidos (Ou o dia em que The Blog Killed The Newspaper Star), rompeu por aí fora, aos saltos e aos pinotes, desfilando palavras e imagens de todas as cores. Talentosas ou não, as suas.
Anónimos ou não, com ou sem avatares, os post emergem aos molhos, construindo uma personalidade própria, ganhando por vezes uma vida para além do seu criador, como se fossem pequenos Frankensteins. Mas a criatura tem mesmo corpo ou é apenas uma máscara do criador. Voluntária ou involuntária? Eis a questão!
Independentemente do conteúdo de cada um, o que é certo é que neste cosmo cibernético surge um Carnaval de Veneza todos os dias. Máscaras para se falar da verdade, máscaras para construir a mentira. No fundo é sempre uma outra máscara que acaba por ser pintada, a das mentiras reais.
Provavelmente muitos, para não dizer a maior parte, andarão a fazer passar por aqui uma simples água cristalina do seu rio, mas não deixa se interessante analisar aqueles outros que largam as simples margens do seu percurso e criam um autêntico oceano em cima de um palco. Sem grandes rigores, sem grandes amplitudes, eis as principais máscaras que julgo habitarem a peça que vamos escrevendo todos os dias.

Ela quis conhecê-lo. A força das suas palavras, a determinação das suas ideias, fazia dele um homem invulgar. Muito diferente de todos o que ela conhecia, as imagens que ressaltavam da sua e-literatura era a de uma homem sensível nos aspectos mais intelectuais mas muito viril nos actos que parecia defender. Talvez por isso, quando marcaram um encontro, ela pensou que lhe ia aparecer uma mistura de George Clooney – num percebi porque é que as mulheres, sempre que idealizam um gajo interessante, pensam neste tipo como referência - com Jude Law. Mas mal ele se aproximou, com o objecto senha de identificação, ela verificou que estava afinal num outro filme, um de género mais pesado, talvez até num de terror ou então de inspiração de um velho conto francês. Ele poderia ter mesmo desempenhado o papel de Quasímodo em qualquer versão da velha história de Notredame.
Com caricatura ou não, o que é certo é que através das palavras que vão caindo, as pessoas constroem imagens etéreas que depois não correspondem à verdadeira dimensão daquela que lhe está realmente esculpida a nível pessoal.
Qual Cyrano de Berjerac, são as suas palavras que seduzem ou iludem. Numa espécie de impressionismo virtual, os diversos pontos coloridos das palavras formam à distância uma figura e um conceito, que não sendo muito reveladores, não deixam de aparentar um rosto, o rosto que se quer ver. Este tipo de mascara é quase sempre involuntária e resulta, simplesmente, da eterna ilusão da leitura. A mesma que nos cria a perpetua desilusão ao vermos um filme do qual lemos antecipadamente o livro que o inspirou.

Mas será que a máscara é mesmo sempre involuntária? Não gostamos nós de projectar nos outros uma imagem agradável?
Até podemos durante um tempo produzir luz hipnotizadora, no entanto, mesmo escudados no socialmente correcto, é difícil manter o show em cena durante uma grande temporada. Num momento mais quente, quebra-se o espelho das palavras e o nariz do Cyrano começa a espreitar, mostrando assim que o tal rosto de Christian de Neuvillette, um Adónis idealizado, era meramente uma miragem.
Aos lermos o que cada um escreve, não só fica a porta aberta para que todas as imaginações possam entrar, como também se liberta a doce brisa de todas as seduções. Será que podemos contrariar isso? Penso que não, pois seria impedir as pessoas de exercerem a maior das liberdades, o pensamento.
Apesar de tudo, mesmo com as possíveis armadilhas da sedução a serem accionadas, não podemos esquecer que alma verdadeira é de Cyrano e ele está lá sempre no que escreveu. Cristian é apenas um corpo que o desejo das palavras teceu.

Felizmente que os cromossomas que aportam consigo trazem também com eles esta genética portuguesa de brandos costumes e de uma certa rebeldia cobarde. Caso contrário, estariam a subir ao telhado de um edifício, mais perto das estrelas, e a disparar nos pobres transeuntes que passariam na rua.
Não se sabe se por uma vida triste, recalcada e sem horizontes, ou se pura e simplesmente por um feitio adquirido em doses de má educação maciça que lhe foram servidas ao longo do tempo, o certo é que foram adquirindo estranhos hábitos, nomeadamente o de vestirem a papel de um terrível mauzão, sempre que escondidos num anonimato virtual.
Lembra-me um tipo de colegas escolares que se escondiam atrás dos mais altos, para dizer, bate, afinfa-lhe que o gajo é um palerma, lá vem o mariquinhas passa-lhe uma rasteira, olha a boazona apalpa-lhe o rabo, and so one, and so one …!
O problema é que o tempo passa depressa e eles deixam de ter os amiguinhos corpulentos para se esconderam e fazerem de carpideira venenosa. Enfrentar a vida como ela é não é fácil, especialmente porque as nossas fraquezas não podem ser ter eternamente almofadadas. Daí, aparecer um meio onde se pode exorcizar todos os fantasmas que habitam as mansões empoeiradas da psique, foi um autêntico achado.

Sem a necessidade de subirem ao tal telhado para dizimarem fisicamente quem quer seja, depois de se sentirem eles próprios dizimados com o seu fracasso, podem agora, munidos de um avatar e um nick, chamar a si o Mr. Hyde escondido em cada um e, qual menino endiabrado por detrás da janela a atirar ovos aos passeantes, começar a fazer partidas ridículas no mundo cibernético.
Divertem-se não só a dificultar a vida aos outros, como a ridicularizá-la segundo um padrão ainda mais ridículo, o seu. Das várias armas apresentadas o insulto está sempre a mão, quando o Mr. Hyde é um bocadinho mais pseudo corajoso e resolve mostrar-se, ainda que mascarado. Quando a cobardia é total, nem o avatar se mostra, a sua arma preferida tem silenciador para disparar sobre os objectos que apanha sem ser detectado. Por vezes, quase que é audível o seu riso miudinho perante as malandrices que faz. Mas é um riso triste, é um riso só.
Mr Hyde vive num universo pouco luminoso. Todas as estrelas são poucas para alimentar a sua máscara. Um dia, quando crescer, verá que o seu prazer pode também advir do compartilhar um outro alguém sem máscara, na nudez conjunta da sua vivência. Nirvana, afinal, pode estar nas estrelas, mas só naquelas que ele próprio irá criar.

Bem-vindos ao Táxi de Portugal!
Talvez seja mais a anti-mascara das máscaras, tiram uma para colocar a outra, a mais verdadeira. Por vezes, o mundo lá fora ainda os vai vendo com alguma naturalidade e algum sorriso na cara, mas no espaço sideral, mal embarcam na nave digital, arruma-se a máscara, que ainda tem alguns laivos de alegria que compõe os seus dias, e solta-se uma outra, a mais real, fria e amargurada.
Um cenário desolado, em que tudo está mal e ninguém vê, só cheio de gente ruim que ninguém repara, repleto de péssimas ideias que ninguém alcança, é sempre a sua tela. Daltónico compulsivo, pensa pintar uma colorida paisagem mas nunca abandona o preto e branco da sua paleta, nunca há espaço entre o sim e o não.
É Governo? Sou contra. É sobrinho de uma irmã do tio do motorista do Governo? É gente do pior. A esquerda? É má, porque este Governo é de esquerda. O Governo vai mudar para direita? É mau na mesma, isto não tem compostura. Em resumo todos os idiotas do mundo e atrasados mentais vão para o Governo, qualquer que ele seja. Os inteligentes estão todos cá fora anónimos, a comentar.
Louvar o que quer seja é tarefa difícil, para não dizer quase impossível. O importante é dizer mal, dissecar a incompetência de quem decide e levantar todos os problemas que existem perante qualquer situação. Soluções? - a assobiar para o lado - Bom, isso é mais complicado! À parte das eternas limpezas generalistas, em que barcos e terras distantes são instrumentos equivalentes a grandes baldes com detergente, nunca sai uma solução arrojada que permita encarar de frente o problema. Vem à memória sempre aquele velho princípio do se só vês problemas e nunca uma solução, então é porque fazes parte do problema.
Em nome do combate ao politicamente correcto e do exercitar uma certa rebeldia colocam ou despem a sua máscara e ficam orgulhosos das suas ideias. Mas a nova máscara que vão construindo tem apenas reflexos de correntes já vindas de longe e que há muito perderam o rasgo de inovação na História. Afinal temos que aprender a inventar um novo tempo a cada momento e transformar os nossos erros em novas peças adequadas ao caminho que agora calcamos. Estamos em tempo de reciclagem, my friends!
Lá fora não é só a chuva que cai. O mundo também. O seu.
Quando escolhe as palavras para desfilarem, primeiro no seu monitor, depois numa página electrónica residente algures num endereço cibernético, sente que não é desse cinzento que elas vão ser feitas. Não porque que queira construir uma personagem simétrica ao seu estado de espírito, não porque queira arquitectar a mentira, mas apenas porque precisa de criar uma ilusão, a dele mesmo, como se uma catarse fosse.
O e-clown semeia ou colhe o riso? O Chaplin precisa de sentir risos para não chorar. Mas mesmo na gargalhada da palavra há sempre um olhar triste que não se esconde totalmente, pois entre os próprios risos há espaços onde é visível o traço da melancolia.
Ao observarmos os contornos da sua máscara, verificamos que eles são apenas feitos das linhas trémulas que as suas palavras traçam. Aparentemente vão desaguar numa praia cómica natural, que parece reflectir a próprio água do seu criador. Mas se olharmos bem, lá no fundo, está um rio perdido e amargo que, ao ficar retido na represa ensolarada das palavras, apenas se transformou num lago feliz para não morrer no mar.
Mesmo quando tropeça e a plateia ri, há tristeza no olhar de Chaplin.
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Não pretendo aqui fazer uma critica à mascara, apenas trazer um olhar contemplativo sobre a sua própria sombra. Até porque a máscara é apenas uma ponte com o outro lado de cada um. Um lado construído com a imagem das palavras ou com ausência delas.
Mas fica sempre a questão:
Será que nos despimos por detrás das palavras ou nos vestimos com elas?