A Bela de um Dia como os Outros - RAP
Com tantos prémios e galas de mérito é pena que ainda não tenham instituído um troféu para a mãe que consegue levantar duas crianças perdidas de sono, obrigá-las a higienizarem-se, dar-lhes de comer, ajudá-las a vestir, verificar o estado de todo o espólio escolar, metê-las no carro, enfrentar umas longas filas de trânsito e estar à porta da escola 5 minutos antes de tocar a campainha. Tudo isto em menos de hora e meia e antes de estar à beira de pregar um bom par de estalos a cada uma delas por nunca lhe obedecerem. Assim pensava Laura, todos os dias quando pintava esta rotina na sua tela doméstica.

- Mãe, compra-me o GTA 4! – pediu Gabriel ainda antes de sair do carro, à porta da escola.
- Tu deves pensar que eu ando a roubar! – respondeu-lhe Laura enquanto verificava se não ficava nada esquecido no banco traseiro. – Além do mais, esses jogos só trazem maus exemplos com toda aquela violência gratuita. Portem-se bem!
Laura arrancou a toda a velocidade. O tempo parecia que lhe fugia, especialmente naquele dia especial. Perto de casa, parou o carro e dirigiu-se à loja onde costumava comprar as verduras e as frutas. Ficou escandalizada com os preços.
- Assim, não vai dar! – desabafou ela consigo mesma. – Qualquer dia não se consegue comprar nada com estes preços.

Mas o apocalipse monetário depressa foi esquecido quando se olhou no vidro da montra e viu uma imagem bastante desalinhada. O eterno furacão da saída apressada de casa arrastava-a sempre para essa paisagem descomposta, que só depois, no regresso, tinha um arranjo mais cuidado. Mas naquele dia, não esteve para menos, entrou de imediato num cabeleireiro e pediu um tratamento de choque. Nem as empregadas, habituadas a todos os cromas capilares possíveis, queriam acreditar quando viram a cor de cabelo alourado que Laura escolheu. Ela queria mesmo uma mudança forte.
Ao chegar a casa quase que não se reconheceu quando se viu reflectida no espelho, mas era assim que se queria sentir. Pegou num conjunto de maquilhagem, ainda quase intacto, e empreendeu mais uma transformação, através de um longo trabalho de definição de cores e traços no seu rosto. No fim gostou da imagem sofisticada que o espelho lhe devolveu.
O guarda-roupa não lhe mostrava grande oferta, mas Laura também não ficou preocupada, sabia o que queria vestir naquele dia. Escolheu de imediato um conjunto vermelho-púrpura, que tinha mandado fazer na sua antiga modista e que era a cópia exacta de uma peça assinada por um grande estilista internacional. Inclusive tinha chapéu a condizer. Estava guardado para uma ocasião especial, e ela ia ser hoje.

Nos sapatos hesitou mais um pouco, pois não sabia se aqueles vermelhos escuros, os seus preferidos, seriam os mais adequados, por ostentarem uns saltos demasiado altos. Mesmo assim, com todos os contras, acabou por optar por esses, afinal não ia estragar toda a composição com uns simples sapatos rasos. Podiam não dar muito jeito e até serem cansativos, mas uns bons saltos altos davam sempre uma outra elegância.
Antes de sair de casa olhou-se novamente no espelho. Estava irreconhecível naquele seu porte. Sentiu-se bela e poderosa, como convinha. Também um pouco nervosa, mas isso era normal, pois apesar de ser um dia como os outros, havia nele algo de muito importante e excitante.
Quando entrou no banco sentiu que todos olharam para ela. Também não era para menos, não era todos os dias que entrava uma elegante e sofisticada mulher vestida de vermelho, como se fosse para uma festa da alta sociedade, pelas instalações adentro, ocultando misteriosamente o rosto num longo chapéu a condizer.
Quando se aproximou do balcão, sorriu e abriu a sua pequena bolsa de veludo.
- Quietos! – gritou Laura, depois de ter tirado uma pistola e de a apontar a quem estava à sua frente. – Isto é um assalto!
vvv

Neste RAP (Rápidas, Anacrónicas e Pérfidas) uma homenagem, mesmo muito anacrónica e enviesada, à Catherine Deneuve em La Belle du Jour.