Aquário Voador
Pretendia voar. Patético, como sempre, não reparou que asas eram apenas um sonho de dias em que água parecia ser mais leve e, por ser inflamada com palavras anis, sincera. Apenas barbatanas, tristes e trapalhonas, emergiam do seu corpo que, nem de vinho nem de mosto, fazia as piruetas por detrás de um vidro posto.
Um vidro ao gosto, deslize na água, criava o sentido daquele aquário onde entornava os seus dias, enquanto outros, ao longe, desfaziam o seu tempo à mesa sofisticada das ideias. Filosofias mal passadas, com legumes psicológicos ao vapor.
Nem as ondas que batiam traziam espuma, apenas desfaziam ecos no vidro pelas vagas hertzianas de telemóveis banais, a esconder o medo grelhado dos sinais.
Má sorte ter nascido peixe de aquário. Melhor seria ter vivido num mar de prontuário, aquacultura de solário, sempre acabaria, um dia, num prato quente de pensamentos frios, a ornamentar um qualquer restaurante vazio.
Ridículo é mesmo querer voar, quando apenas se tem um copo para se afogar. De pé alto para não destoar.
