Taras e matemática, mais um pouco e dá internamento
Sempre fui reservado. Nunca pensei revelar em público alguma mania minha, muito menos uma tara. Todos nós as temos, mas daí a dizê-las à boca cheio vai uma légua submarina. Assim, num gesto de perfeita nudez, vou mostrar-me numa cena pouca digna, a de parameterizar coisas por tudo e por nada.
Cada louco com o seu tema, cantava o Serrat. Pois eu, que não canto, encanto talvez (!!!!!!!), tenho muito tema na minha dose de loucura quotidiana. Uma delas é brincar com números, melhor seria brincar com outras coisas, alguém dirá. Certo, mas uma coisa não impede a outra e a vida é feita de muitos tipos de brincadeiras, a única formula para trazermos a criança, que fomos em tempos, durante todo o percurso irritante da adultice até ao momento do cadafalso final. Caso contrário, não valeria a pena.
Para ilustrar a panca, eis aqui um exercício à volta das fitas nomeadas para o Óscar do Melhor Filme:
Filmes | B | A | P | C | S | D | E | Tot | Prob |
O Estranho Caso de Benjamin Button | 8 | 5 | 7 | 7,1 | 10 | 9 | 2 | 59,1 | 26% |
Frost/Nixon | 7 | 4 | 4 | 9,4 | 2 | 3 | 2 | 38,4 | 17% |
Milk | 5 | 7 | 6 | 8,9 | 4 | 7 | 6 | 42,9 | 19% |
The Reader | 7 | 4 | 3 | 5,7 | 2 | 5 | 1 | 35,7 | 15% |
Quem Quer Ser Milionário? | 4 | 8 | 10 | 8,8 | 7 | 7 | 4 | 54,8 | 24% |

Os Indicadores:
Bonitinho e Académico
A Academia gosta de coisas a puxar para os grandes dramas, épicos, biopics, apelar ao sentimento nobre, planos elaborados, fotografia bonitinha e interpretações arrebatadoras, tudo sem grandes sobressaltos. Exemplos máximos: Dança com Lobos, Paciente Inglês e Mente Brilhante. Valores: Entre 10, para o filme certinho, vindo do colégio com notas máximas, e 1, para o rebelde chumbado por faltas.
Por vezes a Academia gosta de dar numa de moderninha e dizer que está muito à frente, premiando alguma ousadia. O Silêncio dos Inocentes foi um pouco o percursor desta moda, mas ultimamente o Colisão e o Este país não é para Velhos mostra esta tendência. Valores: Entre 1, para o xarope, e 10, para aquele que é um soco no estômago.
O facto de vir já premiado é um factor importante na hora de votar. Ponderei por 3 as nomeações ao Óscar, 2 os prémios recebidos e 1 as restantes nomeações, reduzindo depois tudo a 10 com base na pontuação máxima.
| Osc | Prem | Nom | Tot | Pond. |
O Estranho Caso de Benjamin Button | 13 | 6 | 47 | 98 | 6,6 |
Frost/Nixon | 5 | 7 | 31 | 60 | 4,0 |
Milk | 8 | 15 | 38 | 92 | 6,2 |
The Reader | 5 | 4 | 21 | 44 | 3,0 |
Quem Quer Ser Bilionário? | 10 | 41 | 37 | 149 | 10,0 |
Média ponderada das estrelinhas que lhe deram lá pelas Américas. É o único cálculo que não é meu mas de outros tolos que se entretêm a fazer estas coisas na net. Antes isso que em medicamentos!
As intenções artísticas podem ser muitas, mas isto de dar prémios a filmes que a bilheteira resolveu pôr de castigo não faz bem à saúde, pelo que ter tido algum sucesso é também um factor a ter em conta. Assim, tendo partido do principio que a barreira dos 100 milhões de verdinhas era o tecto máximo e, em função do box Office, foram atribuídos Valores entre 1, para o sucesso tipo português, e 10, para o filme que desgastou hectares de milho para fazer pipocas.
Desgraçadinhos, Doentinhos e outros CoitaDinhos
Ter personagens maltratadas pela sociedade, que vão de deficientes a pobrezinhos, passando por prostitutas e alcoólicos, é quase sempre receita para o sucesso na academia, nomeadamente nos prémios interpretativos. Como uma coisa puxa a outra, também dá uma boa ajuda ao prémio do melhor filme. Valores entre 1, para um filme tipo Mourinho, e 10, para uma fita tipo Alzira a desgraçadinha, alcoólica, entrevadinha, abandonada, com uma doença incurável e com 10 filhos para criar.
Embirrações e Complicações
Abordar uma temática que cause um certo engolir em seco, ou ter personagens e actores que tenham algum atrito com o status quo hollywoodesco, não é boa política para o prémio. Lembram-se dos cowboys de Brokeback Moutain? Era tudo muito bom, muito bom, mas aquilo dos Marlboros Men andarem mais interessados em guardar o gado para lá do arco-íris do que fazer a barba com navalha, foi forte demais para a Academia e o Colisão levou a melhor, claro que também era um filme superior, mas isso agora não interessa nada. Valores entre 1, para um filme com a Madre Teresa, e 10, para uma fita com a Ministra da Educação.
No fim disto tudo apliquei a fórmula:
. (2xB+A+2xP+C+D)-E .
∑ ((2xB+A+2xP+C+D)-E)
E obtive, assim, a percentagem que determina a probabilidade do filme vencedor na noite dos Óscares.

Numa análise imediata podemos dizer que temos praticamente um empate técnico entre o Slumdog e o Benjamin Button, e que o The Reader vai ser o longo sorriso amarelo da noite, com excepção da Kate Winslet, mas isso já é outro departamento, os das interpretações. Ou será que Milk vai por a Academia a sair do armário? As hipóteses são menores, mas ainda assim está na corrida.

Pronto, já me posso vestir, que o tempo faz frio e ainda apanho uma constipação. Talvez volte a este nudismo pan-numérico para ilustrar a probabilidade dos actores e actrizes, ou, quiçá, porque não, calcular quantas vezes o Governador do Banco de Portugal vai dar palpites errados sobre a conjuntura nacional. Não seria melhor eu emigrar para a Patagónia?! Fico-me com esta dúvida metódica.