SOL

Imagens caídas

Uma imagem vale mais do que mil palavras. Porque não fazer o contrário? Com as palavras construir e falar de imagens.

News

Aquilo - O outro Lado da Porta

Nunca pensara que uma coisa a pudesse assustar tanto, que olhar para ela sentisse uma sensação de medo aterrador e de náusea repulsiva ao mesmo tempo. Mas ali estava, sobre ela, sobre a cabeça dela, Aquilo, uma imagem horrível. Alice, saiu a correr, aos gritos, pela rua fora, deixando cair e a rolar pelo chão as maçãs, caríssimas, por sinal, que tinha acabado de comprar na única mercearia ainda existente no bairro.

 

- Malucas! – murmurou o merceeiro, enquanto se preparava para voltar a apanhar algumas das maçãs que não rebolaram pela rua abaixo, mas depressa foi interrompido nessa sua intenção. Olhou para o céu e viu Aquilo. Como homem, evitou dar uns gritos estridentes de medo, mas o seu coração quase que saiu pelo peito fora e foi fazer companhia às maçãs rolantes. Esmagado pela imagem horripilante que pairava sobre ele, recuou e encostou-se à banca da fruta, que tinha montando em frente à sua porta, mas o seu peso avantajado, pelos anos sofridos e por muita cerveja ao final da tarde, deitou abaixo toda aquela montra exterior de produtos agrícolas decorada com preços de saldo, julgava ele, em papel amarelo. No meio do caos da fruta a deslizar pela via, o merceeiro, perdeu o pudor e saiu, também ele, a correr e aos berros pela rua abaixo.

Alarmados pelo alarido, as pessoas começaram a sair à rua. Por momentos ficaram estáticas e mudas ao ver Aquilo, terrível e esmagador, sobre as suas cabeças. Depois, como marionetas de fio rasgado, começaram, em pânico, a correr de um lado para o outro, tontas, erráticas, numa berraria desafinada, tentando fechar-se em casa, janelas corridas, desaparecer nos carros, malditos motores que nunca pegam quando precisam, ou simplesmente fugir em passo rápido para um outro local em que não se vislumbrasse semelhante coisa. Depressa viram que não adiantava, a imponência de Aquilo fazia com que pudesse ser visto em qualquer parte da cidade.

 

- Fábio Alexandre, corre! – gritou uma mãe para uma criança que, indiferente a Aquilo e a todo aquele acontecimento, apanhava as maçãs que, por magia, tinham vindo a desfilar para o seu o chão. Ainda conseguiu trincar uma, antes da sua mãe o quase ter atirado em voo picado para dentro de casa.

Na tentativa de fuga, o choque entre os carros foi inevitável. Agora, mais do que o temor da ameaça que pairava sobre eles, era o pânico de estar enjaulados dentro chapa amolgada, sem possibilidade de fuga, sem forma de evitar que Aquilo os perseguisse.

 Um polícia tentou iniciar manobras de resgate dos acidentados, mas também não resistiu quando Aquilo se aproximou mais. Contra todas as regras profissionais, recuou e fugiu, mas antes chamou reforços por rádio. Era preciso um ataque urgente.

 

Finalmente um lugar. Vitória iniciou uma manobra complicada de estacionamento. Ao fim de alguns largos minutos conseguiu efectua-la, não sem antes barafustar com todas as pessoas que, descontroladamente, corriam e lhe atrapalharam a dita manobra. Antes de sair, retocou a maquilhagem, tinha que estar bonita para a reunião, era preciso impressionar, ela era uma mulher de sucesso e não podia desiludir em nenhum pormenor, aliás não sabia se aquele tom platinado de cabelo estava muito bem para a ocasião, loura nem sempre tem vantagem quando se quer ser determinada. Nem mesmo quando puxou o espelho, para não errar no contorno do baton, reparou que nele estava também reflectido todo um invulgar caos urbano. Descontraidamente, abriu a porta do carro e saiu.

- Parece impossível! – vociferou Vitória ao quase se ter despenhado no chão, por um dos seus belos saltos ter assente numa das muitas inquietas maçãs que habitavam o solo. – Só pode ser praga, já não me basta passar o dia a comer isto para manter a linha e tenho que levar logo com elas à saída do carro.

Mal teve tempo de se alinhar, tinha ficado um pouco descomposta com o desequilíbrio, sentiu uma sombra gigante sobre ela e, quando olhou para cima, ficou estarrecida. Só naquele momento reparou que toda aquela gente à sua volta se comportava de uma forma estranha e histérica por causa de Aquilo. Não quis, não pôde ser diferente, tudo era demasiado aterrador para ficar ali, conjuntamente com o resto da população começou uma fuga errante. Os saltos não ajudavam, primeiro tirou os sapatos e correu descalça com eles na mão, depois, contra toda uma dor profunda de se separar daquelas peças de renome, atirou-os para a berma, qualquer peso diminuía a velocidade, aquelas horas todas passadas com o personal trainer afinal não tinham ajudado em nada a sua forma física.

 

Um sem-abrigo, habituado a ter o frenesim da cidade como sua manta, ignorava a histeria instalada e manteve-se apático, no seu sono compulsivo de esquecer os dias, até levar com um dos sapatos de marca na cara. Meio sorumbático, tentou perceber o que se passava mas ficou confuso, um sapato de senhora, lindíssimo, tinha vindo aterrar até ele, maçãs e maçãs desaguavam nos seus pés. Será que estavam a chover presentes? Mas do céu não vinham dádivas, mas sim uma terrível criatura. Mesmo para ele, habituado a todas as alucinações desde há muito, perder a família num estúpido acidente de carro não tinha sido fácil, era apavorante ter que olhar para Aquilo. Pela primeira vez, desde há algum tempo, juntou-se à população e comungou com ela os mesmos actos, correr, tropeçar e gritar.

Sebastião, um executivo de topo, inclinou-se para trás, na sua cadeira de pele de topo, e congratulou-se consigo mesmo por ter fechado mais um negócio, também de topo, em pouco instantes, com uns simples cliques, comprara, fechara e fundira uma série de empresas, fundos e participações, algures numas ilhas paradisíacas no outro lado do Atlântico. Para enganar o estômago, pegou numa maçã verde, que a sua querida esposa lhe tinha colocado na pasta, agora ela andava com a mania que tinham que ter um vida saudável, enfim coisas de uma mulher sem mais nada em que pensar a não ser onde gastar o muito dinheiro que ele esforçadamente conseguia, felizmente que tinha os braços quentes de uma outra, mais carnal e menos retórica, para o satisfazer noutros processos também necessários à sua bela saúde. Ainda não tinha dado a segunda trinca, junto à janela larga de uma torre envidraçada, onde se sedeava a sua empresa de topo, quando se engasgou. Mesmo ali, do outro lado do vidro, quase junto ao seu nariz, estava Aquilo. Uma imagem demasiado aterrorizadora, para que ele conseguisse engolir o bocado de maçã que, entretanto com o susto, ficara entalado na garganta. A sufocar, sem conseguir pedir auxilio, Sebastião rolou no chão desesperadamente até ficar inerte. Tinha acabado de ser a primeira vítima da estranha assombração, ainda que ela nada tivesse feito, a não ser pairar do outro lado do vidro.

 

Em busca de protecção, muitas pessoas refugiaram-se na igreja, umas apenas para se ocultarem de Aquilo, como crianças debaixo da manta a esconderem-se do papão, outras para pedirem forças ao seu criador afim de enfrentarem o que viram. Mas foi em vão. De súbito, o tecto da igreja, com belos frescos, ficou transparente e surgiu, assim de novo, sobre as suas cabeças, a sombra de Aquilo, agora ainda maior, mais vigoroso. Olharam para o padre, como que à procura de uma salvação, mas ele, qual homem de carne e osso, também não conseguiu resistir ao temor. Com um telhado agora de vidro, não lhe restou outra alternativa senão fugir como todos os mortais.

Na praça, o local onde Aquilo se via melhor, um grupo militar de intervenção preparava-se para atacar. Às ordens do comandante iniciaram os disparos. Mas mal as primeiras rajadas saíram em direcção à criatura, os soldados começaram a cair. As balas, além de não trespassar o alvo, eram devolvidas, em ricochete, à origem.

O Presidente, no seu palácio político, enclausurou-se numa pequena sala na cave. Não queria olhar Aquilo, pelo que lhe tinham contando não ia aguentar ver. Se não conseguia arranjar uma forma de o aniquilar, então tinha que se encontrar uma forma de se sobreviver a ele, com ele. Chamou os seus colaboradores para decidirem como se podia viver com Aquilo. Como se podia arranjar uma forma simples de viver em que se ignorasse Aquilo? Enquanto que lá fora militares tentavam novas armas e a população, desesperada, continuava a fugir, o Presidente tentava arranjar uma solução, não para o eliminar, mas apenas para o contornar.    

   Uma cidade em estado de sítio, virada de pernas para o ar. Aquilo permanecia ali, estático, silencioso, sobre a urbe, como se a estivesse a iluminar.

Como tinha surgido aquela coisa que a todos amedrontava? De onde tinha surgido aquele espelho gigante, com uma moldura barroca dourada, que devolvia, numa escala colossal, a imagem de cada um, fria, real, sem manipulações nem transfigurações, apenas eles mesmos em ponto grande. A imagem que ninguém queria ver.

 

Alheios a tudo isto, um casal desnudado, estendido numa pequena toalha no meio das dunas, enrolava os seus corpos numa coreografia lasciva de desejo intenso. Tinham faltado ao trabalho naquela tarde para porem em dia as suas doutrinas de amantes. Depois de terem começado por trincar uma maçã, partilhada pedaço a pedaço na boca de ambos, depressa se envolveram em gestos sensuais de deslindar cada poro do mapa epidérmico do amor.

 

Talvez pelo facto do prazer ser a única linguagem que naquele momento decifravam, nem se aperceberam, num primeiro tempo, que o tal espelho colossal, de imagens desmedidas, também pairava sobre eles. Quando finalmente notaram a assombração que provinha do céu, riram-se e gostaram do que viram. Uma grande imagem dos seus corpos, quentes e entrelaçados, como cordas de marinheiro, era mostrada dentro daquele rectângulo dourado. Cada gesto, cada movimento impetuoso, era devolvido num detalhe exacerbado de dimensão. Esta situação não só não os assustou, como lhe excitou ainda mais o desejo, o que levou a uma cadência acelerada dos movimentos corporais e, finalmente, a um clímax, tão profundo e magnânimo como a imagem descomunal que era reflectida. Os gritos, agora não de medo, mas de prazer magnificente, ecoaram por toda a praia e foram fortes demais para o espelho voador que, face a tão lascivos decibéis, se desfez em milhares de partículas sobre o mar.

 

Nunca ninguém percebeu como Aquilo se pulverizou de um momento para o outro. Na cidade, tudo voltou ao normal, poucos ou quase nenhuns falam do que aconteceu e do que viram reflectido naquela tarde. A vida, para bem de todos, assim pensavam eles, confinou o seu ritmo banal. O preço das maçãs não parava de subir, estavam pela hora da morte, pelo menos Alice assim o dizia.

vvv

Uma homenagem, enviesada, como sempre, a um filme que é da melhores metáforas sobre os medos que se escondem em cada um, nomeadamente os medos dos novos tempos, A Guerra dos Mundos de Steven Spielberg.

Posted: domingo, 22 de Fevereiro de 2009 18:59 por bp63
Arquivado em: , ,

Comentários

bp63 said:

Esta historieta teve uma primeira versão, mais curta e burlesca, em que o elemento assustador era apenas um balão gigante com a cara de uma figura televisiva, que publicitava um novo programa.

# Fevereiro 22, 2009 19:40

bp63 said:

[YouTube:cWf7tAfLrA8]

# Fevereiro 22, 2009 19:41

PSCGF said:

Bp,

Extraordinário.

O amor é e será sempre a unica imagem real do ser humano. O sentir e viver esse sentir , é a essencia humana e não existe espelho nenhum, que por mais que distorça a imagem , a consiga denegrir.

A imagem real da maioria dos seres humanos , vazios por dentro e enfiados em coletes de frustações, proibições e restrições sociais , devolve num espelho imagens inacreditáveis ...Imagens reais , que muitos não desejam ver.

Beijinhos

Paula

# Fevereiro 22, 2009 20:15

bp63 said:

Paula,

Ora deixa-me lá discordar de "tu" :)

É que eu acho que o genuíno, o mais libertador, não é propriamente o amor (apesar de algumas vezes, o ser) mas sim o prazer.

Só os verdadeiros amantes falam a verdade, se forem fruto de uma relação dita de amor, tudo bem, ainda melhor, mas se não forem não deixam de ter verdade nos seus códigos.

O prazer é aquilo que mais nos aproxima com o nosso verdadeiro eu. Ninguém mente ao prazer. Ao amor, infelizmente, muitas vezes.

Nota: Com este comentário acho que acabei por retirar toda uma possível visão que as pessoas tivessem da minha história. Não sei se o edito. Edito, não edito?

Ok, lá vai.

Beijo

# Fevereiro 22, 2009 20:26

PSCGF said:

:)

Acabas-te de retirar sim! Ès demais! Eu discordo !

No prazer ninguem mente, sim. Mas no amor, pode-se mentir , mas garanto que não por muito tempo. E quando os dois estão aliados, sem mentira , é amor verdadeiro.

Quem tem um PT , está sempre em boa forma fisica ! :)

Esta só cai agora , para te chatear , pois tu sabias quando escreves-te que eu falaria nisto :)

Beijinhos

Paula

# Fevereiro 22, 2009 20:33

bp63 said:

Paula

Não sabia que ias falar, mas que me ri quando escrevi as palavras PT lá isso ri.

Tinha que pôr um pouco de humor numa história tão cinzenta, a Victoria distraida está lá para isso. Foi a única coisa que restou da primeira versão burlesca.

Claro que o melhor de tudo é o amor verdadeiro, mas isso além de ser uma lotaria, quando aparece é quase sempre como uma gripe de inverno, todos a apanhamos mas é sempre passageira.

Bjs

# Fevereiro 22, 2009 20:57

bp63 said:

Ah, uma coisa que me esqueci de dizer e que devia FIGURAR NO TOPO DOS COMENTÁRIOS:

As pinturas que ilustram, são de Francis Bacon (2), da colecção "os Papas", e de Rene Magritte (1), o The Son of Man, provavelmente o seu quadro mais famoso. Ele definiu-o como: "Tudo o que vemos esconde outra coisa, e nós queremos sempre ver o que está escondido pelo que vemos". Poderia ser inclusive este o subtitulo do post.

As fotos, como sempre, são avulsas repescadas deste Babel cibernético, onde não foram feitas citações dos autores.

# Fevereiro 22, 2009 22:03

portocego said:

Eu sabia que viria encontrar algo sobre algum filme de excelência. Juro que fiz um esforço para ver os Óscars mas o João Pestana atrasado não deu. Depois pensei - amanhã leio a crítica BP...)

Agora mais a sério. Quando estava a ler este seu poste ia fazendo algum paralelo com o "desemprego e agricultura de subsistência". Que ideia mais estapafúrdica, dirá...! A verdade é que naquele diálogo sobre o fantasma do desemprego, eu tive a sensação que aquela criatura estava apavorada como quem tivesse visto o fantasma desta sua história.

É preciso alheamento em doses colossais, para não se entrar em paranóia.Alheamento consciente, pensado (parece contraditório), apoiado em crenças, amor, prazer, fé, esperança, o que cada um for capaz e melhor contribua e funcione como antídoto contra o pânico, o fantasma, o alucinogénico prontinho a actuar nos nossos tempos.

Um abraço e boa semana,

Daniela

# Fevereiro 23, 2009 11:01

Lucat said:

Olá BP.

Não sei bem o que pensar sobre esta história. Não sei bem se também fugiria d'Aquilo. É que eu tenho a mania que sou curiosa e Aquilo intrigou-me. Diga-me uma coisa, o BP fugiria d'Aquilo ou esperava para ver no que dava?

Um abraço :))

Luísa

# Fevereiro 23, 2009 11:38

bluewater68 said:

bp63,

lá que seja uma homenagem ao "Guerra dos Mundos", tudo bem. Mas quando aparece o casal desnudado, e a vitória do amor sobre Aquilo, só me posso lembrar do "Acontecimento". E mais, tens a certeza que todo o texto não é uma homenagem ao "Acontecimento"? :)

Olha que alguns talvez usassem a ampliação descomunal para a extracção de aguns pontos negros.

Uma Igreja com telhado de vidro? Foi coincidência, face aos recentes acontecimentos da Figueira da Foz?

E na troca de ideias entre ti e a Paula, eu questiono «Ninguém mente ao prazer» Não? Pensava que era isso que por vezes as mulheres faziam com mestria.

Abraço

P.S: Calculo que este dia seja sempre complicado por causa do directo anterior

# Fevereiro 23, 2009 16:15

Tozzola said:

Eu também gosto mais de filmes de acção. A história do casal, que o BW refere, faz-me lembrar aquela do Dia da Independência: depois de um ataque generalizado, bem coordenado e com um poderio gigantesco, nada como um bom vírus informático para estragar toda a estratégia...

Prefiro a Guerra dos Mundos de 53, sem o espalhafato dos special effects digitais.

E acho que o prazer é como a gelatina: treme mas não cai.

Abraço

# Fevereiro 23, 2009 16:32

bp63 said:

Daniela

É sempre interessante ver o que cada um vê naquilo que pusemos para ser visto. Assim, o Aquilo aos seus olhos foi transformado no fantasma que assola este tempo, em que cada vez mais as perspectivas são negativas.

Não sei se o que paira sobre estes campos de Portugal é algo como aquilo, mas que há um espectro difícil de aguentar há. Talvez a verdade seja a melhor forma de o agarrar. Mas como alguém disse uma boa mentira é melhor que uma má verdade, é por aí que as pessoas vão.

Abraço

# Fevereiro 23, 2009 18:45

bp63 said:

Luisa

Tenho dias. Se calhar nuns fugiria a 7 pés porque não queria enxergar nem um poro da minha pele relectida, até era capaz disparar sobre o camafeu do espelho.

Outrros dias era capaz de ficar ali a ver, qual narciso, o tal personagem iria fazer.

Abraço

# Fevereiro 23, 2009 18:48

bp63 said:

Blue

A manhã foi complicada, mas agora já se aguenta (também a velhice já não me permitiu ver tudo até ao fim, mas também a partir de uma certa altura era previsível tudo).

Quanto a isto ter a ver com o Acontecimento. Oh que tristeza, esforça-se um homem para escrever uma linda (deixa-me pôr o adjectivo, que preciso) metáfora e depois vem alguém associar isto a uma coisa tão nim.

Queria falar sobre os medos que se escondem debaixo de nós (como a Guerra dos Mundos aflorava) e não de uma causa ecológica. E não há vitória do amor (será que fui delicodoce demais na descrição do acto), mas sim do prazer, os bacanos são amantes, estavam ali para celebrar o desejo e não o dia dos namorados num jardim.

Quanto a isso de elas mentirem nessa matéria, perfeitamente de acordo, mas quando falo da verdade do prazer é da verdade para elas mesmos. Uma mulher pode mentir para ela mesmo sobre o amor (pensa que é amada mas não é) mas sobre o prazer não, sabe se tem ou não tem. Porque o que as pessoas fugiam era da mentira que contavam a elas mesmas, daí não poderem ver o resultado.

Mas Acontecimento, não! Pim!

:)

Abraço

# Fevereiro 23, 2009 18:56

bp63 said:

Tozolla

Os efeitos especiais são apenas fruto da evolução do tempo, hoje um filme de acção passa sempre por lá, é como comprar um carro novo e não ter ar condicionado, CD, etc, podemos achar muito bonito os de colecção mas para o dia dia queremos um com todo o conforto.

Gostei dessa, da gelatina e do prazer.

Abraço

# Fevereiro 23, 2009 18:58

bluewater68 said:

:) não foste delicodoce e eu é que li na diagonal esta parte «Talvez pelo facto do prazer ser a única linguagem que naquele momento decifravam». Mas no resto, desculpa lá, mas eu só penso no "Acontecimento". Então eles passavam o filme todo a fugir aterrorizados D'Aquilo, sem perceberem o que estava a acontecer. No "Guerra dos Mundos" do Spielberg - não a versão rádio original - os aterrorizados até sabiam do que fugiam, mas no "Acontecimento" era o medo total do desconhecido.

Mas Acontecimento, não! Pim! :)

Pior fiz eu que comprei esse DVD.

# Fevereiro 23, 2009 19:30

bp63 said:

Mas quem te disse que eles fogem do desconhecido, eles fogem de algo que eles reconhecem bem, eles próprios, a sua imagem que acham monstruosa.

Em certa medida, na G dos Mundos, elas fogem de algo monstruoso mas que não entendem,no Acontecimento fogem nem sei muito bem de quê, de uma aragem talvez.

Ok, se calhar devia ter-me ficado pela versão burlesca da história, em que as pessoas fugiam de um outdoor-balão com o novo programa da TG.

# Fevereiro 23, 2009 20:17

KURIOSO said:

bp,

Pois eu também pensei que Aquilo era a CRISE.

Só que o espelho é muito mais subtil. Foi de facto a feira das vaidades(que o espelho ajuda a criar) e a recusa de aceitarmos a realidade (que o espelho reflecte) que nos conduziu a este beco.

E depois lembrei-me de outro facto que pode ser significativo. Na crise de 29, os banqueiros, provavelmente senhores com algum resquício de honra, foram os primeiros a suicidar-se. Nesta crise, que eu saiba, a única vitima voluntária foi um industrial Alemão que não resistiu ao fracasso da especulação à volta da Volkswagen.

Meu caro, para descobrir a vergonha nos financeiros actuais não chega um espelho. Talvez um microscópio electrónico...

Abraço.    

# Fevereiro 23, 2009 22:59

bp63 said:

Kurioso

Aquilo pode ser o que se quiser. Porque não a crise? É apenas um espelho que nos devolve aquilo que não queremos ver.

Mas se os banqueiros de agora se suicidassem como poderia ir ele depois gozar as fortunas que ainda sim, secretamente, guardam no bolso. Acho que aprederam com os anos, a ruina vai ser o que estão no patamar abaixo.

Abraço

# Fevereiro 24, 2009 12:00

josefadobidos said:

Bp

Há uma moral no amor, sim. O que é feio não desaparece, apenas se integra, porque faz parte.

O nosso lado lunar está cá, e é preciso olhar para os nossos próprios olhos e ver que Aquilo é nosso,

crescer não é deixar de ter defeitos, mas uma possibilidade de aprender a reconhecê-los e aceitar.

A ambição de ser perfeito é a maior fonte de dor e desamor que existe. Quanto mais depressa se percebe que Aquilo está dentro de nós e não fora, melhor.

Mas não é que seja fácil.

Grande história.

Beijos

Jo

# Fevereiro 24, 2009 18:44

josefadobidos said:

Quanto à morte....

Há partes nossas que precisam morrer, e nós de as matar, ou deixá-las morrer,

se queremos olhar para o espelho, e conseguir ver, o que o espelho nos devolve, e não o que queremos ver.

Entendi este conto como uma metáfora de Carnaval.

As máscaras desmascaram mais do que disfarçam. E o mais cego continua sempre a ser, aquele ou Aquilo que não quer ver.

# Fevereiro 24, 2009 18:53

josefadobidos said:

Não sei se consegui transmitir o que queria dizer... tanta conversa para te dizer que gosto destes teus contos românticos!!!!

: ))))

# Fevereiro 24, 2009 18:54

camionista said:

bp:

Já sabe que não sou cinéfilo. E não será por falta de gosto, talvez de disponibilidade. Fico-me, assim, pela impressão que me causou o seu relato.

É impressionante a maneira como se vai adensando o  clima dramático, suavizado com aquela nota humorística da rapariga de saltos altos.

E a conclusão é sólida, faz todo o sentido.

Já sabe: opinião de "expert"... rsss

Abraço

# Fevereiro 24, 2009 19:50

gomes2000 said:

olá bp'zito

muito bem! Acredita que estava a ler o texto e também associei aquilo à crise ou a assim... Mas o que surgiu foi surpreendente e vendo bem, Aquilo só podia ser algo assim!

Bem, a propósito de alguns comentários também;

- eu também tenho dias em que penso que Aquilo não me ia assustar nada! Depende... Noutros fugia a "sete pés" ou morria sufocada com um bocado de maçã e a propósito já ia morrendo com um pedacito desses entalado!!!

- o prazer é verdadeiro. Se é fingido, então a imagem em Aquilo seria assustadora certamente.

- na noite dos óscares também me lembrei do bp!!!

E pronto, fico-me por aqui, hoje só tive tempo para uma visita e vim aqui! Gostei. Beijinhos e uma óptima quarta, quinta, ...

# Fevereiro 25, 2009 17:18

gomes2000 said:

Esqueci-me de mencionar o facto de ter reparado que escolheste pessoas muito diferentes e de várias classes. Todas se assustaram.

Os amantes podiam ser qualquer um deles. Certo?!

Joquitas...

# Fevereiro 25, 2009 20:21

bp63 said:

Jo

Gostei muito das tuas re-escritas dos conto, porque é sempre disso que se trata quando se dá a visão do que se lê, reescrever aquilo que ficou meio (mal) escrito.

Um conto de Carnaval? Why not? Esconder e mostrar, mentira e verdade faz tudo parte de um cortejo de foliões tristes que vamos criando dia após dia.

Beijo

# Fevereiro 25, 2009 21:45

bp63 said:

Camionista

Pois impressões é mesmo isso, criar uma nota da forma como olhamos e venha daí o expert :)

Abraço

# Fevereiro 25, 2009 21:46

bp63 said:

Gomezita

A mentira, as mascaras, o medo, tudo isso está ao alcance de todos, é o mais democrático possivel. Daí a tal amostra.

Os amantes estava para além disso. Amavam apenas, nus para não haver fotografia social sobre eles.

Afinal fugimos todos um pouco de Aquilo.

Beijo

# Fevereiro 25, 2009 21:49
Para comentar necessita de estar registado