Títulos depressivos
Adoro ser português. Desejo que os meus netos sintam o mesmo. Contudo, ao ler os títulos de alguns jornais, se fosse mais novo, tal como meu pai fez em 1938, pegava na mala e partia. Em dois anos, Portugal conseguiu associar o crescimento económico a uma apreciável redução do défice. Este facto positivo mereceu o seguinte título de um semanário: ‘Défice de 3% compromete crescimento da economia’. A alternativa seria ‘Défice de 6% não compromete os fundos da UE’. Para eles, as reformas são tímidas. O crescimento económico insuficiente. O crescimento de 6% das exportações um desastre. A diminuição do défice uma tragédia. Gozam com o número de servidores do Estado, mas consideram o desemprego culpa exclusiva do Governo. Silenciam que cabe à iniciativa privada a criação de empregos. Baseados nas novas tecnologias, desenvolvem motivações sociais para o desânimo colectivo. Somos assim. Quando a selecção não era apurada, zurzia-se o treinador. Quando consegue passar, chateia-se o «mister» por não marcar golos. Se os nossos craques vencem folgadamente, os adversários não valiam nada. Se derrotam adversários de primeira água, jogaram mal. Há que dar a volta a esta mediática lusitana máquina depressiva. Não pelo elogio seboso dos misteres da política e da bola. Mas também não pela crítica bota abaixo. Pelo balanceamento entre os sucessos alcançados, os erros cometidos e os passos que ainda têm de ser dados. Pelo correcto enquadramento com os condicionalismos da envolvente política e económica internacional. Portugal não está isolado no mundo.
O orçamento está aprovado. As reformas definidas no início do mandato estão em condições de entrar na fase de cruzeiro. A presidência portuguesa está a chegar ao fim, libertando os governantes para as tarefas do país. Estamos a um mês do ano anterior às eleições. Não vai ser fácil. Será um ano de grandes incertezas internacionais e com fortes probabilidades de vários ajustes nas previsões. A luta política vai aquecer. Faço votos para que se desenvolva com elevação e sem ambiguidades. Sobretudo sem títulos jornalísticos e políticos alimentadores da máquina da depressão colectiva. Não serão os portugueses a ganhar com eles.
Fonte: Expresso, 1 de Dezembro de 07