31 de Janeiro
Faz hoje 116 anos que, na madrugada nevoenta e chuvosa, o Batalhão de Caçadores 9, parte do Regimento de Infantaria 10, e soldados da Guarda Fiscal se reuniram no Campo de Santo Ovídio. Eram três horas daquela "noite de sonho, noite de anelo, em que pelo ar espesso perpassou a cândida imagem da liberdade e fulgurou crepitante o clarão sagrado do futuro", conforme diria Sampaio Bruno, quando o punhado de homens comandados pelos capitão Leitão, tenente Coelho e alferes Malheiro se preparou para dar expressão cívica ao sobressalto patriótico provocado na população pelo Ultimatum inglês de 1890. Afronta que viria popularizar o movimento republicano e serviria para despoletar como "verdadeiro acto de impaciência" nacional a Revolução do Porto, preparada pelo menos a partir de Setembro de 1890 através de reuniões de sargentos e cabos, nas instalações do jornal "A República Portuguesa".
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Às 6 horas, os revoltosos iniciaram a descida da Rua do Almada, entre cânticos patrióticos e aclamações da população, soltando vivas à República e ao exército, na direcção da Praça de D. Pedro "O ruído de passos de uma multidão em movimento invade a rua do Almada. Um colossal clamor, vindo do Campo, sobe nos enevoados ares, como a aclamação de um povo de crentes a uma divindade prestigiosa: - Viva a república!", escreveu Carlos Malheiro Dias que, sendo monárquico, é bem mais objectivo e sincero que certos autores que procuraram apoucar os acontecimentos.
Na Praça, da varanda da Câmara, os chefes civis da revolução hastearam uma bandeira vermelha e verde e, pela voz de Alves da Veiga, declararam abolida a Monarquia e proclamaram o governo provisório da República.
No seguimento, às 8 da manhã, os revoltosos iniciaram a subida da Rua de Santo António, acompanhados pela multidão, vitoriando a República. Iam a meio quando a Guarda Municipal, entrincheirada na varanda de pedra das escadas de Santo Ildefonso, os recebeu com uma descarga de espingardas. "Os populares fugiram espavoridos, loucos de terror, mas os soldados responderam à descarga e sustentaram o tiroteio. Alguns caíram feridos, outros mortos. O sangue salpicava as pedras da rua. O fragor das detonações, dos gritos e dos gemidos lancinantes horrorizava", escreveu Alberto Pimentel.
"Soldados e civis procuraram então refúgio no edifício da Câmara, onde a Guarda Municipal, utilizando Artilharia, os forçou à rendição. Oficialmente houve 12 mortos e 40 feridos. No entanto, a opinião geral sustenta a existência de número muito superior de vítimas. " Os homens que fizeram o 31 de Janeiro seriam julgados a bordo de navios de guerra ao largo de Leixões. Eram, além dos civis, 505 militares, e acabaram - condenados alguns a duras penas de prisão ou degredo -, 23 sargentos, 49 cabos, 163 soldados e 3 oficiais. Foram vencidos mas os seus ideais frutificariam 19 anos depois, com a implantação da República.
Num prédio da Praça dos Poveiros existe a seguinte lápide Casa onde foi fundado o Centro Democrático Federal 15 de Novembro cuja bandeira foi astiada no edifício da Câmara Municipal do Porto na revolução de 31 de Janeiro de 1891".
O edifício está quase arruinado e a lápide mal se lê. Quando lá passo, não deixo de pensar a cidade da democracia e do liberalismo, que viu nascer as revoluções de 1820, 1826, 1836, 1846, 1891 e 1927 (contra a Ditadura) não deveria instalar nesta casa - devidamente reconstruída - o pequeno museu que contasse a história do 31 de Janeiro e da sua bandeira? Não deveria assinalar e celebrar a memória de um tempo de homens com os olhos no futuro da Pátria? Mas isto sou eu com manias numa "República" de onde os ideais e valores republicanos foram mandados para o caixote do lixo. Para que não viessem incomodar demasiado as consciências - e os negócios.