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Viagens no meu Partido

discussão e partilha de opiniões sobre política. by Celso Guedes de Carvalho
Causas da cidade

Já aqui o referi mas volto ao assunto o Porto precisa de uma grande causa que seja galvanizadora para virar o estado de espírito deprimido que parece ter tomado conta da cidade. Todos o sentem e alguns atribuem-no, penso que com pouca justiça, ao estilo de governação municipal da actual maioria, em particular ao presidente Rui Rio, mas a questão é mais profunda e não fica por aqui nem tem só um responsável.

 

Há perda de protagonismo e importância da cidade e há realidades novas que lhe estão a passar à porta e esta não tem tido o condão de saber aproveitar.

 

Refiro alguns temas que, se fossem bem aproveitados e geridos, numa estratégia de interesse local e regional a prazo, sem preocupações de calendários eleitorais e controlo de poder político-partidário, poderiam estruturar a rede de objectivos e a estratégia para os alcançar

 

O primeiro é o potencial universitário da cidade, mesmo considerada num território mais amplo que os seus limites administrativos, e que lhe coloca cá dentro qualquer coisa como 1/5 da população, neste caso jovem e dinâmica e com capacidade técnica e cultural relevante. Aliado, este potencial, a uma reconhecida qualidade científica e de investigação que, por vezes, passa ao lado de quem governa e movimenta o quotidiano da cidade. O que quer dizer que a Câmara e a Junta Metropolitana têm de explicar todas as capacidades de parceria com este potencial universitário, técnico, científico e cultural.

 

O segundo é o potencial do seu património histórico e edificado antigo e o que daí poderia derivar em termos económico-sociais ligados ao turismo cultural e à promoção da imagem da cidade como destino, o que passa por maior empenho no projecto de reabilitação da Baixa portuense, ampliando os desafios na conquista de mais parcerias que os privados, o que exige da Câmara, Poder e Oposição, maior imaginação e agressividade na procura das mesmas. Custa ver edifícios públicos relevantes e marcantes na cidade cair aos bocados e falar-se, por ex., na construção concentrada e "no buraco da agulha" de uma "cidade judicial". Será que a Câmara não tem nada a dizer a isto e assiste, abulicamente, à degradação acelerada de edifícios que ainda há vinte anos funcionavam activamente? É a este sentido integrado do património edificado que a Câmara, em representação dos interesses da cidade, deve estar atenta e activa.

 

O terceiro, eminentemente político mas que não pode ser esquecido, o problema da regionalização e o papel que o Porto nele pode desempenhar e as vantagens estratégicas que dele pode retirar. À partida, há alargado acordo sobre o tema, mas, na prática, o tempo passa e o centralismo cada vez suga mais valências que a cidade possuiu e de que precisa, todas elas contribuindo para enfraquecer o potencial de capitalidade regional que o Porto tem. E a questão está mesmo aqui, se a regionalização, a vir e quando vier, ainda o faz a tempo de assegurar este potencial de capitalidade, não só interno mas na euro-região ibérica do Norte-Galiza.

 

Tenho muitas dúvidas sobre isto, dado o diferente potencial de crescimento e afirmação dos dois territórios fronteiriços, com o Norte de cabeça no Porto a perder todos os dias força na relação económico-social e até cultural de vizinhança. Só não vê quem não quer ou se resigna a um triste e medíocre futuro, como parece acontecer com a classe política portuense, que se contenta só por estar no poder, mesmo que ele valha menos cada dia que passa.

 

São questões que deixam outras e importantes de fora, mas que a crónica não pode deixar de reflectir e trazer à preocupação e espírito crítico dos leitores. Cruzar os braços ou fazer de conta que os problemas não existem nunca resolveu nada!

 

Fonte: Gomes Fernandes, JN, 6 de Fevereiro de 2008

Posted: quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2008 9:41 por celso

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