Porque é que certas coisas têm que ver com a liberdade
Na sequência da constrangedora passagem do director da ASAE, António Nunes, pela Assembleia da República, o grupo parlamentar do PS anunciou que ia legislar para proteger “os produtos alimentares típicos portugueses”. Não obstante a irracional defesa que José Sócrates veio depois fazer sobre a actuação da ASAE (chegando a afirmar que a oposição não pode “pôr em causa um organismo do Estado”!), o anúncio feito pelos deputados socialistas é o reconhecimento implícito de duas coisas: uma, que a ASAE está, de facto, a ameaçar a sobrevivência de vários produtos que fazem parte da culinária, dos hábitos alimentares e da própria cultura dos portugueses; e outra, que não foi possível meter na cabeça do seu director a noção mínima de bom-senso de que falou o Presidente da República. (…)
Uma geração que transforma a saúde de cada um na questão principal e obsessiva do dia-a-dia é uma geração sem causas e profundamente egoísta. É a mesma geração em que as mulheres não têm filhos para não estragarem a linha e a carreira, em que os políticos vivem deslumbrados com o que os fazedores de imagem lhes mandam fazer e se sentem obrigados a praticar desporto em público e fumarem às escondidas, em que os que se tomam por vedetas públicas correm a anunciar às ‘revistas sociais’ que têm um novo amor, com medo que a gente pense que estão sozinhos (como se não estivéssemos quase todos…), em que os ricos perderam qualquer vergonha e vivem nas «off-shores» e nas fundações para fugirem ao fisco e os banqueiros recebem fortunas para se irem embora e pararem de roubar os accionistas.
Esta é a cultura que está no poder, agora. Não admira que grande parte do mundo seja governada por simples oportunistas.
Fonte: Miguel Sousa Tavares, Expresso, 2 de Fevereiro de 08