?Suspender as privatizações
O PS vai hoje entregar, ao executivo camarário, uma proposta de recomendação para a “imediata suspensão de todos os processos de privatização dos espaços públicos da cidade” do Porto.
“Vivemos hoje um instante decisivo no Porto. É um momento de afirmação da cidade, em que toda a oposição [PS, CDU e BE] se deve unir aos diferentes movimentos associativos e reivindicativos da cidade, como aqueles que surgiram pela preservação do mercado do Bolhão”, afirma Francisco Assis, num encontro que juntou especialistas do urbanismo, dirigentes do partido e jornalistas, ontem, nas imediações da Praça de Lisboa, um dos espaços da cidade “ameaçados” pela privatização.
Os espaços que serão alvo de privatização – “todos os equipamento públicos da cidade do Porto passarão para a mão de privados”, resumiu Matos Fernandes, um dos vereadores socialistas – representam “um grande potencial para o turismo urbano da cidade, que tem ganho um novo volume com a ajuda dos voos low cost [baixo custo]”, sintetiza José Rio Fernandes, geógrafo, um dos técnicos ouvidos na manhã de ontem pelos vereadores socialistas. Como exemplo, apresenta o Mercado do Bolhão.
“Quando um turista procura uma cidade para passar férias, vai procurar os mercados de frescos e os monumentos da cidade. O turismo urbano tem aumentado na cidade do Porto, e procuram mais o comércio de rua que os shoppings”, sustenta. “Não pode ser tudo plastificado”, afirma. Se ocorrer, Rio Fernandes compara o feito a “um inferno”.
“Quando a gestão do Estado é ineficiente, isso não quer dizer que se entregue os imóveis a privados. A privatização não deve ser um álibi”, destacou o geógrafo, salvaguardando que não tem “qualquer preconceito em relação aos privados e ao Estado”.
Mas “o que é um bom negócio?”, inquire Rio Fernandes. “Rui Rio é um economista, tem uma visão excessivamente contabilística, numa lógica de provincianismo, novo riquismo e falta de cultura”.
O geógrafo não condena todas as privatizações que estão ser levadas a cabo e aponta o caso do Mercado Ferreira Borges como exemplar. “O Ferreira Borges nunca funcionou como mercado, na vertente que conhecemos noutros locais, como o Bolhão ou Bom Sucesso. Acho bem que a Câmara tenha concessionado a privados o Ferreira Borges para lhe dar uso, reutilizá-lo. Mas o Bolhão foi construído para ser um mercado, foi melhorado para continuar a ser um mercado e continua ainda a sê-lo. Tem uma dimensão física e funcional que deve continuar a ser explorado e um aspecto emotivo, por estar no coração da cidade”, revela.
No que diz respeito ao centenário Mercado do Bolhão, “fazer mais um shopping é um erro crasso”. Até porque “a lógica do fachadismo [manter apenas a fachada original] já não é viável”. “O mais interessante no mercado é o seu interior e não a fachada. E diz que se vai construir mais estacionamento. Para quê? Há muito à volta”, avança.
O arquitecto Correia Fernandes lembra que “no primeiro mandato, o Dr. Rio era contra os senhores do imobiliário, que era necessário pôr cobro a isso. Contudo, com o segundo mandato, houve uma volta de 180 graus, com a entrega de tudo a privados. Olhe, o Bolhão teve o azar de estar à mão”, opina. O arquitecto reconhece que estas entregas só mostram “o quanto o Dr. Rio gosta de Donas Elviras e detesta os edifícios” públicos.
João Seixas, economista e geógrafo urbano, defende que a energia própria do Porto “deve ser revitalizada através deste espaço do Bolhão. A responsabilidade de quem governa a cidade deve abraçar este desafio [de preservação do Bolhão] com os dois braços”, diz, afirmando, contudo, que “o Porto é hoje uma cidade demitida das suas responsabilidades”.
“O caminho que está a ser seguido é o caminho mais pimba, mais banal, mais provinciano e caro a longo prazo”, revela Seixas, apontando “a cidade de Barcelona, com a preservação dos seus mercados de frescos” como um exemplo a seguir.
Fonte: O Primeiro de Janeiro, 19 de Fevereiro de 2008