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Viagens no meu Partido

discussão e partilha de opiniões sobre política. by Celso Guedes de Carvalho
A Norte, nada se passa?

Há quem diga que o Norte, e o Porto em particular, se queixa demais do que não faz e, em vez de reagir e lutar contra as adversidades para as vencer e ultrapassar, se refugia na lamúria e no "sacudir a água do capote próprio", responsabilizando Lisboa e o Governo por tudo de negativo que aqui vem acontecendo de há umas décadas para cá. Não é bem assim, mas convém não desvalorizar a crítica, feita, quase sempre, a partir da construção mental centralista sedeada em Lisboa e apadrinhada pelos que daqui para lá vão e se "vendem" às benesses e mordomias geradas na capital.

 

Não há dúvida que o Porto, e o Norte, foram letalmente atingidos por dois passos estratégicos relevantes; o primeiro a adesão de Portugal à CEE, que esvaziou o Porto de sectores empregadores e de poder importantes, na finança e nos seguros, na energia, no despacho aduaneiro e, por arrastamento, na mudança de sede social de importantes empresas; o segundo e complementar deste primeiro nível de fragilização, a globalização e as consequências directas dela num tecido produtivo em dificuldades e sem capacidade de resposta e adaptação rápida ao aperto daqui derivado. Cumulativamente e convém não esquecer, as limitações territoriais administrativas do Porto, a falta de coesão e liderança política estável na Câmara, coincidente com este período temporal, e o envelhecimento e perda de dinâmica social e económica da população e do comércio da cidade, remeteram o Porto para uma subalternização afirmativa de que se não sai com facilidade nem só à custa de "doppings" milagrosos, venham de onde vierem.

 

É aqui que tem razão quem diz que o Porto não pode continuar a mortificar-se em posturas culpabilizantes de um "inimigo" que mexe os cordelinhos a partir do centralismo lisboeta protagonizado pelo Governo e pela Administração Central, ou desculpando-se pelo tardar da regionalização, pois sendo ambos os factores verdadeiros, não justificam, só por si, toda a moldura da situação que a cidade (e a região) vivem.

Ora isto parece ser o que se está a passar com os portuenses, em vez de reagirem e avançarem com soluções, ao nível da economia, do social e cultural e até do político, todos esperam que venha da Câmara a solução milagrosa, que tem de passar por ela mas não pode resumir-se exclusivamente a ela.

 

Há um problema de cidadania e de vontade própria que o Porto não pode ignorar e sem a resolução do qual não irá a lado algum.

 

A saída para os nossos problemas, precisa de ajuda e da solidariedade nacional e de outra atitude do Governo, mas não passa sem uma forte vontade e esforço próprios, ao nível das lideranças políticas e empresariais, mas, também, de todo o corpo social e cívico da cidade.

 

Que diabo, deixemo-nos de depressões e olhemos para aquilo que ainda estamos a tempo de fazer, alguma coisa por esta nossa velha cidade. Com lamúrias, mesmo que justificadas, é que não vamos lá.

 

Fonte: Gomes Fernandes, JN, 5 de Março de 2008

Posted: quarta-feira, 5 de Março de 2008 5:48 por celso
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