Porque não se cala Narciso Miranda?
O que quer afinal Narciso Miranda? Esta é a questão que anda no ar, e não é só nos corredores do Partido Socialista.
Depois aclamado como o "senhor e Matosinhos" pelas quase três décadas à frente da câmara; de ter sido apontado como símbolo do poder local; considerado um dos autarcas modelo do país; temido e respeitado, à sua vez, no interior do partido; premiado com um lugar de governante pelo amigo Guterres; ter regressado ao aconchego da autarquia e dar-se ao luxo de escolher o sucessor, não é fácil perceber-se o frenético rodopio em que decidiu agora meter-se.
Primeiro, porque o caminho escolhido tem claros contornos de corrida solitária, na qual apenas o próprio parece enxergar um percurso pejado de adversários e escolhos. Depois, porque invoca uma espécie de legitimidade natural cuja origem parece radicar tão-só na própria vontade. Por último, porque tudo assume contornos de uma espécie de ajuste de contas com o próprio passado para voltar atrás e refazer o percurso.
Homem de desafios, Narciso Miranda sempre mostrou saber escolher o caminho, pisar o terreno mais adequado, escolher os aliados. Só assim se explica uma carreira política como muitos poucos se poderão orgulhar, o apoio popular que sucessivamente foi sendo disputado por todos os líderes do partido, e a influência que indubitavelmente granjeou. A questão é que estes são caminhos que só se percorrem uma vez. Que não podem funcionar em circuito fechado ou ciclo repetitivo. E daí a perplexidade perante a ousadia do desafio a que parece ter-se lançado.
Nada disto pressupõe, no entanto, que não volte a desfrutar de uma onda de apoio popular, que volte a galvanizar-se com as multidões ou que seja capaz de sentir-se como peixe na água em nova corrida eleitoral e possa chegar à vitória. O país conhece já os casos de Oeiras, Felgueiras ou Gondomar, mas é precisamente por isso que é diferente e deixa lugar a todas as dúvidas o caso de Narciso Miranda.
É que enquanto naquelas situações se percebia claramente o porquê e as causas da rebelião dos candidatos em relação ao antigo partido, tudo parece ao contrário no caso de Matosinhos. O próprio Narciso se insinua por vezes como trunfo eleitoral do PS para uma eventual vitória noutros municípios do Grande Porto, deixando a ideia de que o partido não está zangado com ele mas que é ele que procura a zanga com o partido.
Também as críticas e desconsiderações com que tem procurado atingir o seu sucessor, acabam por se revelar de difícil compreensão, já que acaba assim por colocar em causa aquilo que, mais que uma opção, foi até uma imposição sua. Uma atitude tanto mais incompreensível já que, além de ter granjeado o apoio dos que se lhe opuseram, ninguém terá ouvido ate hoje a Guilherme Pinto qualquer palavra de desconsideração ou menos apreço em relação ao seu antecessor.
É por tudo isto que muitos dos seus camaradas se interrogam sentem vontade e lançar a Narciso Miranda o já celebrizado desabafo do rei de Espanha: Porque não te calas?
Fonte: Público, 22.03.2008, José Augusto Moreira