Cuidado com os rapazes que são amigos do QREN
Só a Regionalização permitirá a "emancipação política" do Norte, era o título que encabeçava a notícia que o JN publicou ontem sobre o terceiro encontro "Porto Cidade Região", que também ontem terminou no Palácio da Bolsa.
Nada mais verdadeiro.
Quando até já é possível ouvir Rui Rio, anteriormente grande opositor desta reforma política, defender a necessidade de combater a macrocefalia da capital, parece ter chegado o momento, por muitos sonhado há vários anos, de pelo menos entre nós termos um consenso favorável à imprescindível necessidade de implantar a Regionalização.
Aproveitar os milhões do QREN foi outro dos imperativos apontados por Carlos Lage, líder (ainda nomeado...) da Comissão de Coordenação da Região Norte.
Nem mais nem menos do que mais um motivo para obrigar a que seja feita a diferença. Dizer que os milhões do QREN vão para o Norte, ou ter os milhões do QREN disponíveis para esta Região geridos por gente e instituições políticas do Norte, parece apenas uma subtil diferença de terminologia, mas faz toda a diferença.
O que ao Norte interessa e o Norte tem que defender é que os critérios de escolha e aplicação dos milhões do QREN na Região Norte sejam da responsabilidade de gente do Norte e sediada no Norte.
O passado conta-nos estórias de dinheiro prometido ao Norte que só no papel foi destinado ao Norte, porque depois ficaram só aparências desvirtuadas por intermediários da capital que sonegaram a maior fatia do bolo e aplicaram as sobras das maneiras que mais lhe convieram.
Deixemo-nos de cerimónias. Independentemente do embrulho, há gente e empresas no Norte tão capazes e eficientes como as de Lisboa, para quase todas as áreas e ainda por cima na maior parte dos casos, mais baratas, sobretudo se as operações forem desencadeadas no Norte.
Mesmo no que toca ao QREN fico furioso quando vejo alguns amigos meus dizerem que são obrigados a arranjar consultores e consultoras de Lisboa, porque são os que mais facilmente têm acesso a influências e lobby junto dos decisores da atribuição dos fundos comunitários.
Pela parte que me toca e em função das pessoas que conheço nessas instituições, apetece-me dizer que neste caso do QREN é um mito que não podemos nem devemos alimentar.
Contava-se uma estória, que vale o que vale, que andava um pessoal menor a esmifrar dinheiro a uns clubes de futebol pequenos de divisões inferiores, com a garantia de que tinham capacidade para influenciar os resultados, em virtude de serem amigos do F.C. Porto e do seu presidente. Atestariam isso com fotos a seu lado que exibiam sem problema.
Como é evidente, era tudo mentira, mas quando por acaso o clube ganhava, apareciam a cobrar os serviços que na verdade nunca tinham prestado.
Cuidado meus amigos das empresas do Norte, não vá andarem por aí nos consultores e nos gabinetes de advogados da capital, que vos convencem que são íntimos dos responsáveis dos fundos comunitários e na verdade nem sequer os conhecem.
Como quem é capaz destes ditos é normalmente gente que não confia na sua competência, vamos nós confiar neles?
Como dizem sempre com muita graça os actores do Tele Rural da Praça da Alegria da RTP, cuidado com os rapazes que dizem que são amigos dos outros rapazes do QREN...
Manuel Serrão escreve no JN, semanalmente, às quartas-feiras
Fonte: JN, 30 de Janeiro de 2008