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Viagens no meu Partido

discussão e partilha de opiniões sobre política. by Celso Guedes de Carvalho
"Fui traído por Narciso de forma desonesta"

Sucedeu a Narciso Miranda na Câmara de Matosinhos e, agora, a Manuel Seabra à frente dos destinos da Comissão Política Concelhia do PS. Cargo que, outrora, já ocupou. Tal como aconteceu no partido, o autarca quer repetir o mandato na Autarquia. A dificultar-lhe a vida, a ameaça independente de Narciso Miranda, que teve nestas eleições concelhias Alexandre Lopes a defendê-lo nas urnas.

 

Uma vez na liderança do PS/Matosinhos, Guilherme Pinto quebra a reserva que tem mantido sobre Narciso Miranda, para acusá-lo de traição e de ter lançado a ameaça de candidatura independente à Câmara para influenciar os resultados. Os militantes, conclui, "chumbaram o comportamento" do ex-autarca.

 

Como interpreta o resultado na eleição da Concelhia?

Primeiro, algumas constatações. Esta foi a maior participação de sempre numas eleições para a Concelhia e a escolha do presidente da Comissão Política foi a que obteve o melhor resultado. Nunca houve tantos votos expressos numa candidatura como desta vez.

 

A percentagem do seu adversário subiu face à votação de há dois anos. O que mudou?

Há dois anos, não estava nada em jogo. Agora, estavam a minha proposta de nos concentrarmos no apoio ao Governo e ao desempenho do PS na Autarquia, e a proposta do meu adversário de colocar Narciso Miranda como candidato. O que estava em jogo, desta vez, eram duas alternativas bem distintas, entre a estratégia proposta pelo presidente da Câmara e um regresso ao passado que tem, obviamente, um valor simbólico muito maior.

 

A escolha era entre si e Narciso Miranda?

Obviamente.

 

O seu antecessor foi, portanto, derrotado nesta eleição?

Os militantes perceberam muito bem o que estava em causa. E, se tivermos em conta que foi no período de campanha que o meu camarada se disponibilizou publicamente para ser candidato à Câmara pelo PS ou como independente, penso que, ao votar, tiveram isso presente e, de algum modo, deram uma resposta.

 

Que resposta? Mostraram que não querem uma candidatura de Narciso Miranda?

Na sua resposta, o que o PS entendeu foi que candidaturas antes do tempo são um mau serviço prestado a Matosinhos. Falaremos nelas daqui a um ano.

 

Então, admite que o eleitorado socialista possa querer uma lista do ex-autarca?

Não. Acho que se revê por inteiro na actual liderança da Câmara e do PS. E, neste momento, o partido, por 75% no universo geral e 90% na maioria das secções, entendeu que o apoio ao presidente da Câmara era o que devia dar.

 

Que leitura deveria fazer Narciso desta votação? Deveria esquecer a ideia de ser candidato?

Narciso Miranda fez campanha. Escolheu o momento das eleições da Concelhia para manifestar a disponibilidade da sua candidatura à Autarquia. Fê-lo em todos os órgãos de comunicação social. E a única coisa que julgo é que deveria respeitar os resultados. Tentar desvalorizá-los ou denegrir o partido, como o tenho visto fazer, é um sinal de desrespeito pela democracia.

 

 

 

Que atitude seria respeitadora desse resultado?

Uma atitude de contenção, no sentido de deixar que o projecto político que sucedeu ao que ele encabeçou, durante 30 anos, possa fazer o seu caminho até ao momento das escolhas e decisões.

 

Então, não é só o timing que está a ser aqui penalizado?

Há o chumbo de um comportamento porque os militantes do PS, de alguma forma, disseram ao meu camarada Narciso que não apreciam a forma como, desde o início do mandato, tem vindo a perturbar a actuação da Câmara.

 

Portanto, chumbaram o comportamento de Narciso?

Na minha opinião, sim.

 

Mostrou intenção de se recandidatar à Câmara. Uma lista independente é ameaça à sua reeleição, pelo menos com maioria absoluta?

Não acho que exista ameaça. Do ponto de vista da democracia, quanto maior for o leque de escolhas melhor. Julgo é que não há razões para alterar o percurso, porque o projecto que o PS construiu em Matosinhos está a ser bem servido com a actual liderança na Câmara. Perante os dados que estão, hoje, em cima da mesa, creio que não faria sentido que a aposta não fosse a minha candidatura. Porém, também não faz sentido discutir isso nesta altura. E a única coisa que exijo, e não tenho tido por parte de alguns camaradas, é que não perturbem o funcionamento da Câmara.

 

Por que Narciso lançou essa possibilidade agora ?

Para fazer prova de vida e influenciar os resultados da Concelhia.

 

A ameaça de candidatura é real? O que move Narciso?

O grande defeito dele é que nunca se sabe muito bem o que quer ou pensa. Repare, estava cansado da Autarquia, foi para o Governo. Regressou para criar uma crise profunda entre ele e Manuel Seabra, que ele tinha apontado como sucessor. Há três anos, disse que queria sair e apontou-me como sucessor. E agora está a tentar criar uma crise entre mim e ele próprio. Por último, ele tinha a percepção que tinha sido maltratado pelo partido, mas, no entanto, oiço-o dizer com frequência que recusou vários cargos.

 

Sente-se traído ou sente que traiu alguém?

Sinto-me desiludido. Pela lealdade que tive para com ele durante 16 anos, merecia que não começasse, de imediato, a destruir a minha imagem e trabalho ao fim de dois meses. É um comportamento que não tem perdão.

 

Narciso diz-se traído pelo acordo entre si e Manuel Seabra, após as autárquicas.

Só alguém que não tem o menor sentido da política ou que quer criar pretextos é que não percebe que um presidente de Câmara não poderia começar logo o mandato a entrar em conflitos com o partido. Fiz um acordo para haver paz. Correu muito bem, excepto no facto de Narciso ter aproveitado para, a partir daí, justificar um conjunto de coisas sem justificação. Não levo a bem que, ao fim de dois meses, me tenha traído de uma forma desonesta.

 

Fonte: JN, 10 de Abril de 2008

Posted: quinta-feira, 10 de Abril de 2008 4:12 por celso

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