Vou criar movimento cívico quando o PS me rejeitar oficialmente"
As eleições para a Concelhia do PS/Matosinhos deram vitória a Guilherme Pinto, presidente da Câmara para quem houve um "chumbo ao comportamento" de Narciso Miranda por "perturbar o bom funcionamento da Autarquia". Em causa, disse, estava a proximidade do ex-autarca a Alexandre Lopes, que assumiu o objectivo de Narciso voltar a ser presidente da Câmara. A resposta surge agora bem clara.
Narciso Miranda garante que será candidato à Câmara de Matosinhos no próximo ano. Mas como? O ex-autarca diz merecer o apoio do PS. Porém, caso as suas piores previsões se confirmem, revela que irá criar um movimento cívico para regressar à liderança. Ao actual presidente e respectiva gestão camarária, não poupa críticas.
Sente-se atingido pelo resultado nas eleições para o PS/Matosinhos?
Falemos claro e a verdade, o que é cada vez mais importante por parte de quem tem responsabilidade política. Não fui candidato, nem participei no acto eleitoral. Segui-o atentamente. Deitar poeira para os olhos, usando a mentira para afirmação política, não é o bom caminho.
Mas estava ao lado do candidato derrotado...
Este processo passou-me ao lado. Apenas sei que mais de 60% dos socialistas com cartão de militante em Matosinhos não participaram nestas eleições internas.
É público que Alexandre Lopes assumiu o apoio a uma candidatura sua à Câmara.
É absolutamente normal que as pessoas sérias, que fazem da política um exercício de cidadania e têm memória, continuem a olhar para mim como o rosto do projecto de sucesso que colocou, em nome do PS e durante muitos anos, Matosinhos no mapa da afirmação e como exemplo de gestão aberta e rigor na utilização dos dinheiros públicos.
Crê que, pelo menos, os 25% que votaram em Alexandre Lopes são a favor de uma lista sua à Autarquia?
Não sei o que pensam os 61% dos militantes que não votaram. Não sei o que pensam os que votaram numa ou outra candidatura. Só sei que estamos a falar de um universo de 3813 militantes do PS em 140 mil matosinhenses. E são estes, sejam do PS, do PSD, do PCP, do BE ou independentes, e particularmente aqueles que se distanciam cada vez mais dos partidos, que irão escolher o presidente da Câmara. É a eles que tenho dedicado a minha vida e atenção.
Então, já põe de parte uma candidatura pelo partido?
Não sei. É um problema que o aparelho do PS saberá resolver.
E se o partido não o quiser?
O que fiz pelo partido e, sobretudo, em nome do PS pelos matosinhenses, dá-me o direito e o dever de dizer que não mereço estes repugnantes ataques. Não me insultem só porque estou disponível para retomar a liderança de um projecto de sucesso. Nunca usei o ataque pessoal para fazer vencer o meu projecto. E continuarei a não usá-lo. Tanto mais que tenho o dever de honrar a memória dos meus pais, que sempre me ensinaram a ser bem educado e muito tolerante.
Ataque repugnante de quem?
Toda a entrevista do presidente da Câmara é pela negativa. Não há uma palavra sobre o projecto de Matosinhos. É um discurso condicionado por sombras e fantasmas, por quem o rodeia. Falta capacidade de liderança. A Câmara não anda bem. Não se afirma, não é reivindicativa, não executa, não há rigor na forma como se gastam os meios. E a gestão é feita na base das facilidades, de forma casuística. Não há obra. Não posso ser atacado por ser diferente e por dizer que estou disponível para retomar um projecto que conduziu Matosinhos ao progresso. E não preciso de atacar o presidente da Câmara para me afirmar e defender o concelho.
Porém, em tempos, disse que foi apunhalado pelas costas. Guilherme Pinto afirmou que foi traído por si.
Há muita falta de memória na política, nos políticos e também no PS. Quero olhar em frente.
Mas não quererá que olhem para si como alguém que traiu o presidente da Câmara, conforme ele o acusa
Só tenho uma cara. Os matosinhenses conhecem-me bem.
O PS é livre de rejeitar o seu nome para as autárquicas.
Se o aparelho do partido de Matosinhos continuar fechado, sem perceber a realidade sociológica do concelho, como acontece há pelo menos cinco anos; se o aparelho do PS do distrito continuar a actuar de forma redutora, assumem as consequências dos resultados que daí surgirão. Mas não vão conseguir retirar os meus direitos constitucionais. Há três anos, afastaram-me. Com isto estou a desmentir categoricamente a afirmação feita (por Renato Sampaio) de que, dentro do PS, sempre que um presidente da Câmara está disponível, é recandidato. E sou o único com provas dadas a todos os níveis, também no PS, que está a ser castigado.
Se não for pelo PS, será candidato independente...
Há três anos, com sentido de humildade política e pessoal, aceitei o afastamento dos dirigentes e respeitei o partido. Chegou a hora de respeitar a vontade da esmagadora maioria dos matosinhenses. Os sinais são evidentes. Não vou frustrar a expectativa do povo de Matosinhos. Por razões de honra e respeito para com os cidadãos, vou responder de forma clara e afirmativa às solicitações.
Se avançar como independente, sai definitivamente do partido?
Independentemente daquilo que vai acontecer, serei sempre socialista, de alma e coração. Ninguém pode pôr em causa a minha total dedicação. Estou disponível para continuar a servir o PS no sentido de retomar o projecto de sucesso. E acho que mereço o apoio do partido. Se o aparelho continuar a afastar-me, então serei candidato em nome das causas, valores e princípios, protagonizarei o projecto do socialismo democrático onde cabem todos os cidadãos. Vou criar um movimento cívico por Matosinhos. Só o farei após o aparelho do PS me rejeitar oficialmente. Será um movimento sustentado no quadro legal do país.
Portanto, haverá uma candidatura sua no próximo ano, sem dúvida alguma?
Sim, em nome da minha terra e dos matosinhenses. Desejavelmente pelo PS.
Fonte: JN, 12 de Abril de 2008