O Coelhinho Que Nasceu Numa Couve
Era
uma vez um coelhinho que nasceu numa couve. Como os pais do coelhinho nunca
mais aparecessem, a couve passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se
tratasse.
Com
ervinhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando o coelhinho
dentro do seu seio até que ele passou a procurar a sua própria alimentação.
O
coelhinho, que tinha um coração muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve
lhe dedicava considerava-a como sua verdadeira mãe.
A
mãe couve e o seu filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia
uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras.
O
coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam tudo o que era verde
cobriu com o seu próprio corpo o corpo da mãe couve e assim conseguiu que os
gafanhotos pouco dano lhe fizessem.
Quando
aqueles insectos daninhos levantaram voo os campos em volta passaram a ser um
imenso deserto de areias e pedra.
O
pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas proximidades da sua mãe couve,
teve de se deslocar para muitos quilómetros de distância a fim de procurar
comida.
Mas
já nada havia que se pudesse mastigar sobre aquelas terras.
Passaram
muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro e faminto.
Então
a mãe couve disse-lhe assim:
–
Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar o lugar aos novos, por
isso só vejo uma solução; assim como tu viveste durante algum tempo no meu seio,
passarei a ser eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu
quero dizer?
O
pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande tristeza na alma, não teve
outro remédio, comeu a mãe.
Pedro Oom
in, “Duas histórias para crianças (emancipadas) que ilustram a diferença
entre o Amor Filial e o Amor Conjugal" (Magistralmente declamado por
Mário Viegas, em Humores, 1980)
(& etc n.º 3, Lisboa, 14 de
Fevereiro, 1973; mais tarde incluído em Actuação Escrita 1: Lisboa, & etc,
1980)