SOL

E se os deputados apresentassem uma proposta de lei para trabalharmos apenas às terças, quartas e quintas?

Até há uns dias atrás, eu costumava dizer, com frequência, que já nada me espanta. Porém, quando ouvi, na TSF, que o deputado do PSD Guilherme Silva considerara que os plenários com votação, na Assembleia da República, deveriam ser reduzidos às terças, quartas e quintas-feiras, porque os deputados têm família, com a qual querem passar o fim-de-semana, percebi que, afinal, ainda há coisas que me espantam. Aliás, há coisas que me indignam.

Afinal de contas, não temos todos família, com a qual gostamos de passar os fins-de-semana? E os fins-de-semana não são apenas constituídos pelos dias de sábado e domingo? Ou será que, como sou distraída, foi, entretanto, publicada alguma lei que alarga o conceito de fim-de-semana, integrando também os dias de sexta e segunda-feira? Parece que não; parece que o fim-de-semana continua a ser só ao sábado e ao domingo.

 Assim sendo, que legitimidade têm os deputados (leia-se alguns) para pedir o que pediram? Será porque ganham pouco (3.700 euros mensais) e têm de manter a vida profissional? Será porque moram longe e têm de sair de Lisboa ao fim do dia de quinta-feira e regressar à capital durante o dia de segunda-feira? Será que gastam 24 horas de viagem a atravessar o país de norte a sul para passarem o fim-de-semana com a família?

 A resposta a estas perguntas é sempre não, daí que eu não entenda o que se passa na cabeça dos tais deputados. Aliás, há dias, num hospital público - enquanto gastei uma manhã à espera de uma consulta e, ao fim de quatro horas, soube, depois de perguntar, que o médico estava ausente - conheci um casal, que se fazia acompanhar pela neta de dois anos, e que, compreensivelmente, também não compreendem estes deputados.

A avó contou-me que a netinha dorme de mão dada com ela (a neta na caminha de grades e a avó na própria cama de braço estendido até ficar dormente...), porque a mãe é professora em Évora e o pai é professor em Bragança. Regressam a casa, em Viseu, às sextas-feiras, já noite avançada, e partem, invariavelmente, de lágrimas nos olhos, aos domingos, após o jantar. A menina pensa que os pais a abandonam e, diz o psicólogo que a acompanha, que ela se agarra à avó, porque tem medo de ser abandonada.

 Pois bem, esta avó, que comigo desabafou esta faceta da sua vida perante os olhos tristes do avô seu marido, não compreende os tais deputados. E o seu filho e a sua nora também não - assegurou-me a avó. Até porque os vencimentos dos dois (filho e nora) soma pouco mais de dois mil euros e, somadas as despesas de transportes e alojamento em duas cidades distintas, o montante auferido pelo casal desce para metade.

Agora, imaginemos que este casal decidia dar aulas apenas às terças, quartas e quintas, porque, afinal, tem, em casa, uma filha de dois anos à espera que venham passar o fim-de-semana? O que aconteceria aos seus alunos nos dois dias da semana em que não davam aulas. E o que aconteceria ao casal? É que os professores não podem faltar, mesmo que tenham família, com a qual queiram passar o fim-de-semana.

E os médicos, que, ao que parece, terão de começar a trabalhar mais horas e que já trabalham a maioria dos fins-de-semana? E os enfermeiros? E os bombeiros? E os motoristas dos autocarros? E os maquinistas e revisores da CP? E os homens do lixo? E os agentes da polícia? E os guardas prisionais? ... E os jornalistas que têm de dar estas notícias indignas em qualquer dos dias da semana? Será que podem todos, de uma só vez, começar apenas a trabalhar às terças, quartas e quintas sem perderem a parte correspondente do vencimento?

 Provavelmente, nem seria mal pensado. Os tais deputados até poderão apresentar uma proposta de lei que contemple a medida para todas as classes profissionais, instituindo a semana de três dias de trabalho. Assim, talvez até consigam o apoio da opinião pública portuguesa. Afinal somos, ou não somos, um bando de preguiçosos (como recentemente fomos rotulados?).

Mais palavras para quê? Estou indignada com tamanho dislate destes deputados. Assim vai a vida parlamentar nacional. Ainda bem que, pelo menos, ainda temos o direito à indignação!

                                                                                                                Noémia Malva Novais

Yes, we can!

Yes, we can! Barack Obama

Ontem, como hoje, e, por certo, no futuro, estarei com Barack Obama, porque Obama representa a esperança num mundo melhor, senão para mim, para os meus filhos e os filhos deles.

Já em Dezembro de 2007, numa entrevista (peculiar) que concedi ao jornal O Despertar, declarava, sem reservas, a minha preferência por Obama. Ora vejam:

 

17 perguntas a... Noémia Malva Novais

O diabo em pessoa: Eu (quando penso sobre o estado da nação).

Com o diabo no corpo: O poder.

O diabo que o carregue: Nem o diabo conseguiria carregar tal fardo.

Põe-me nos píncaros: O meu filho quando me chama queriduxa.

Santos vícios: Livros, papel, esferográfica.

Pecado sem remorsos: O original.

Problema insuperável: O facto de em terra de cegos quem tem olho ser rei.

Formiga ou cigarra? Ambas. Formiga, porque é necessário; cigarra sempre que é possível.

Telemóvel ou micro-ondas? Telemóvel 3G.

Vinho ou Coca-Cola? Sumo natural.

Hillary Clinton ou Al Gore? Barack Obama.

Nascer em berço de ouro? Não era mal pensado.

Quem tem filhos tem cadilhos? Quem não tem cadilhos tem.

O pior filme da minha vida: Algumas curtas-metragens da vida real.

Desporto detestável: Wrestling.

Data para esquecer: 28 de Abril de 1889 (Vimieiro, Santa Comba Dão)

Sem perdão: O perdão é o sal da vida.

 Há três anos, quando, em Portugal, ainda ninguém falava em Barack Obama, eu descobri, aquando de uma curta permanência nos EUA, o seu trabalho como senador. Desde então, segui, na medida do possível, o seu desempenho, antevendo que chegaria a presidente dos EUA. Partilhei, muitas vezes, essa minha opinião com o meu círculo de amigos.

Porém, confesso que, nessa época, não pensei que Barack Obama poderia vir a ser o PRÓXIMO presidente americano. Só mais tarde, há cerca de dois anos, comecei a entender que essa seria uma forte probabilidade. Bem, não sei se sentia que essa seria uma forte possibilidade ou se queria acreditar que seria mesmo possível.

Assim, quando Barack Obama se apresentou como candidato à presidência dos EUA, eu inscrevi-me, imediatamente, como sua apoiante no site da sua campanha. Sei que esta atitude pode ser considerada uma espécie de palermice mas a verdade é que, embora sabendo que não podia votar em Obama, sentia-me próxima dele e, desse modo, sentia-me próxima da perspectiva de um mundo melhor.

Diariamente, li todos os emails que recebi do seu staff e de alguns apoiantes célebres. Sei que estes emails foram enviados para mim e mais uns milhões de pessoas, porém, nunca me sentira tão bem por ser apenas UMA entre muitos MILHÕES unidos por uma CAUSA. Por isso, foi com uma enorme emoção que li o último email de Barack Obama na noite (em Portugal) em que se tornou Presidente dos EUA.

O email é o seguinte:

 Barack Obama to me  Nov 5


Noémia

I'm about to head to Grant Park to talk to everyone gathered there, but I wanted to write to you first.

We just made history.

And I don't want you to forget how we did it.

You made history every single day during this campaign -- every day you knocked on doors, made a donation, or talked to your family, friends, and neighbors about why you believe it's time for change.

I want to thank all of you who gave your time, talent, and passion to this campaign.

We have a lot of work to do to get our country back on track, and I'll be in touch soon about what comes next.

But I want to be very clear about one thing...

All of this happened because of you.

Thank you,

Barack

Espero que não tenha sido o último. Aguardo, impaciente, que a equipa de Obama e o próprio, continuem a enviar estes emails a nós milhões de cidadãos do mundo inteiro que, por uma vez, teríamos gostado de ser americanos. Obama concretizou o sonho americano, agora falta cumprir o sonho de um mundo onde a cor da pele não seja notícia, enfim, onde reine a harmonia e a PAZ..

Yes, we can!

                                                                                                                  Noémia Malva Novais

 

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Viagem ao "Mundo de Cartão" de André Sardet

André Sardet e o seu Mundo de Cartão

André SardetO cantor e compositor André Sardet acaba de nos surpreender com mais um magnífico trabalho discográfico. É um "Mundo de Cartão" que André Sardet nos apresenta numa espécie de visita guiada (sim, porque tem vários filmes) ao mundo da infância. Este "Mundo de Cartão" é para miúdos e graúdos, para todas as famílias que ainda gostam (e bem) de sonhar.Sleep

Aliás, este "Mundo de Cartão" é muito mais que um CD, muito mais que um vídeo, muito mais que um trabalho artístico. É um produto preocupado com o ambiente; é um disco preocupado, numa palavra, com o futuro. Visitando o site (www.mundodecartao.iol.pt), preferencialmente com os mais pequeninos por perto, recordamos o passado e adivinhamos o futuro, porque o site é o presente (no sentido literal da palavra).Gift

 Este novo trabalho de André Sardet é assumidamente um resultado da paternidade orgulhosa do cantor. Ainda bem! É um risco? Pode ser mas, creio, um risco calculado. E, se todos abrirmos o coração à "Maria Bailarina" e à "Boneca Joana", em representação de todas as Marias Bailarinas e de todas as Bonecas Joanas cor de chocolate deste mundo, esse risco não passará de uma miragem.Yes

Este "Mundo de Cartão" constitui uma óptima opção para presente de Natal. GiftAssim, já agora deixo uma sugestão ao André Sardet: pensa em pedir a uma artesã/um artesão para fazer umas Marias Bailarinas, umas Bonecas Joana, uns Zecas Bolachas,... fariam as delícias de todas as crianças deste país neste próximo Natal!

                                                                                                               Star Noémia Malva Novais

 

Atenção aos flanelinhas

O Cristo Rei 'abraça' todos, incluindo os flanelinhasDe regresso a Portugal, depois de um curto período em terras do Brasil, retomo o que escrevi ao iniciar este blogue - as crianças, se não são o melhor do mundo, são, seguramente, o melhor de nós próprios. As palavras não são minhas. São do prestigiado psicólogo Eduardo Sá. Eu adoptei-as e hoje recuperei-as, porque, depois do que vi no Rio de Janeiro, interrogo-me se as crianças também podem ser, tão só, o espelho de nós mesmos.

Senão vejamos: Se eu me tivesse limitado a aterrar no Rio de Janeiro, a abrir um mapa turístico da zona Sul (sim, porque a zona norte não vem no mapa), a visitar o Cristo Rei, a subir ao Pão de Açúcar, a passear no Calçadão de Copacabana, a apanhar banhos de Sol e a tomar um revigorante banho nas praias de Copacabana, Ipanema ou Leblon, a beber um copo nos bairros típicos da Lapa ou de Santa Teresa, a ouvir Bossa Nova no Bar do Vinícius ou a tomar uma refeição no Garota de Ipanema ficaria apenas com uma ideia magnífica do Rio de Janeiro.

Porém, como não me cingi a seguir o mapa, porque me interroguei sobre as razões que ditam o afastamento da zona norte do mapa turístico, porque parti à descoberta do Rio de Janeiro das favelas que se avistam, à distância, nos morros da cidade maravilhosa, das fábricas que, em conjunto com o intenso tráfego rodoviário, ajudam a criar o manto de poluição que se avista dos prédios mais altos da cidade e se sente nos olhos através de um persistente ardor, percebi que as crianças sujas das ruas de Copacabana, que não hesitam em furtar tudo o que mexe, são apenas o espelho da injustiça social característica da sociedade carioca.

São estas crianças o melhor da sociedade carioca? Ou são apenas o espelho da injustiça social que atravessa esta sociedade? Ou são, simultaneamente, o reflexo da injustiça social e, mesmo assim, o melhor desta sociedade? Estas e outras questões não cessam de me assaltar o pensamento. Regressei há três dias e a angústia mantem-se no meu espírito. Creio que foi por isso que a frase que se ouve repetidamente na gravação do metrô (não é erro ortográfico, é assim que se diz metro no Brasil) e se lê em alguns dos promocionais turísticos - Atenção aos flanelinhas -, ao invés de me causar receio, causou tristeza, angústia, uma sensação de mal-estar interior por nada poder fazer por estas crianças que, em cada dia, lutam pela sua sobrevivência.

O Rio de Janeiro é mesmo uma cidade maravilhosa mas a vida no Rio de Janeiro está muito longe de ser maravilhosa. E a culpa não é dos flanelinhas. Pois é, acabo de perceber que as crianças que correm pelas avenidas e ruas turísticas do Rio de Janeiro, vindas das favelas que cobrem os morros, apesar de furtarem tudo o que luz, se não são o que de melhor sobressai da sociedade carioca, são, pelo menos, o menor mal. Ainda assim, é triste. O cenário não é animador mas, mesmo assim, quero acreditar que as medidas educativas que estão a ser implementadas nas escolas das favelas acabarão por melhorar, a médio ou longo prazo, a vida destes flanelinhas.

Seria tão bom que um dia os flanelinhas, ditos meninos do mal, se transformassem em meninos do bem e o slogan mudasse para Atenção aos flanelinhas... hoje cidadãos do bem.

                                                                                                                    Noémia Malva Novais

A história de Aristides de Sousa Mendes contada às crianças

Aristides de Sousa Mendes na Galeria dos Heróis do Museu da Herança Judaica em NYSei que iniciei este blogue para aqui escrever as minhas reflexões acerca da literatura infantil e da infância mas hoje vou abrir uma excepção para dar a conhecer "A história do Cônsul Aristides de Sousa Mendes contada aos mais novos", um livro da autoria de Júlio Cruz editado pela Confraria de Saberes e Sabores da Beira "Grão Vasco".

Tendo como subtítulo "Uma vida pela vida", este breve livro, publicado em 2004, 'pinta', em palavras simples, o retrato do antigo cônsul de Portugal em Bordéus, que os judeus americanos quiseram imortalizar na Rescuers Gallery of the Museum of Jewish Heritage (Battery Park em Nova Iorque), onde 'depositaram' o livro de vistos do consulado de Portugal em Bordéus em 1940 cedido pelo nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Agora que a ideia de recuperação da Casa do Passal ganha novo alento, como evidencia o concerto que vai realizar-se no próximo domingo, pelas 16 horas, na Trindade, em Lisboa, o livro de Júlio Cruz ganha novo sentido, porquanto é necessário que os mais novos conheçam o exemplo de Aristides de Sousa Mendes e percebam que, por vezes, é fundamental prescindir do bem-estar pessoal e familiar em prol do bem comum e da humanidade.

É esse acto de consciência de Aristides de Sousa Mendes que pode ser mais facilmente transmitido às gerações mais novas se a Casa do Passal, antiga residência da família do cônsul, situada em Cabanas de Viriato, no concelho de Carregal do Sal, for recuperada e transformada num museu que, mais não será do que uma espécie de centro de memória do Holocausto, bem como do salvamento heróico de aproximadamente 30 mil pessoas, entre as quais cerca de 10 mil judeus.

A Casa do Passal foi morada atribulada de Aristides de Sousa Mendes, de sua esposa e seus 14 filhos e, após a morte do cônsul e da profunda pobreza em que a família mergulhou, entrou em ruínas. Actualmente, mesmo completamente degradado, o velho palacete continua a ser visitado por ex-refugiados e suas famílias que querem ver ou reviver a casa do homem que os salvou.

Ao avistar a Casa do Passal, contudo, a desilusão dos antigos refugiados e de seus familiares não poderia ser maior. Apesar de ter sido adquirida, em 2001, pela Fundação Aristides de Sousa Mendes, a Casa do Passal, outrora muito imponente e refúgio dos refugiados que aguardavam autorização de embarque para a América, tem continuado a degradar-se e os seus jardins foram transformados em silveirais.

Porém, se o concerto de domingo for um sucesso, e se outras iniciativas de angariação de fundos se sucederem, a Casa do Passal poderá dar lugar a um verdadeiro centro de memória do Holocausto e nos seus antigos jardins poderão vir a nascer novas árvores em honra do Schindler português, como acontece com as 20 árvores plantadas na Floresta dos Mártires, em Jerusalém.

                                                                                                                  Noémia Malva Novais

 

 

 

'Banho' de crianças na Charneca

Um slogan criado à base da ideia 'energia positiva' está agora muito na moda, daí que, os que não me conhecem, possam dizer que me estou a apropriar das palavras-chave da campanha da nossa Selecção e da nossa Galp para o Euro 2008. Mas, na verdade, não é assim. Os que me conhecem sabem que há muito que eu entendo que há, efectivamente, à nossa volta, muitas coisas que nos dão a energia positiva necessária para prosseguirmos, de cara levantada, a nossa caminhada.

As crianças são, para mim, um dos instrumentos essenciais dessa energia positiva. A companhia das crianças é uma das coisas mais maravilhosas. Daí que me arrepie sempre que ouço ou leio opiniões favoráveis à ideia de que os pais não devem fazer-se acompanhar pelos seus filhos nas idas, por exemplo, aos restaurantes. Perante esses comentários ocorre-me sempre que as crianças estão a ser comparadas aos cães e outros animais de companhia e isso deixa-me profundamente chocada.

Em minha opinião, os pais devem fazer-se acompanhar dos filhos em todas as circunstâncias possíveis, de modo a possibilitar que os seus filhos aprendam a comportar-se adequadamente em todas as ocasiões e lugares. Claro que a aprendizagem desta capacidade pelas crianças exige dos pais um esforço acrescido, um investimento constante, enfim, até algum desgaste provocado pela necessidade de repetição e pelo eventual fracasso pontual.

É por assim pensar que gosto sempre muito de estar entre as crianças. Assim aconteceu na útlima sexta-feira, 9 de Maio, na Escola Básica Integrada Gualdim Pais, na Charneca, Pombal, em que recebi um carinhoso 'banho' de crianças. Em três sessões decorridas na biblioteca da escola participaram mais de uma centena de alunos, de diversas idades, de várias localidades, com múltiplos interesses e curiosidades distintas.

 No entanto, tinham, pelo menos, uma característica em comum: o carinho com que me presentearam. Dificilmente poderiam ter sido mais atenciosos, mais carinhosos, mais amorosos. Os seus professores tinham-lhes apresentado o meu primeiro livro infantil - Daniel e o Bicho da Lanterna - e, desse modo, aguçado o apetite para a conversa. Partindo da história, colocaram todas as questões que lhes 'assaltavam' o espírito.

Eu, muitas vezes surpreendida pela sua pertinência, respondi como soube. No final, os professores responsáveis pela iniciativa agradeceram a minha disponibilidade. Eu retribuí o agradecimento, dizendo, com total honestidade, que fora um prazer passar aquele dia entre as crianças. A minha editora, que me acompanhou nesta jornada, disse-me, quando ficámos a sós, que as sessões tinham sido um sucesso, que eu parecia ter feito este 'trabalho' toda a minha vida.

Na verdade, eu adorei. Regressei a casa com um 'reabastecimento' de energia positiva que dará para uns tempos. Só as crianças nos conseguem 'recarregar as baterias' com esta intensidade. Ainda que os órgãos de gestão da escola se tenham alheado da iniciativa... Ainda que a ida de escritores (Maria Teresa Maia Gonzales, Jessi Leal e eu) à escola, no âmbito da Feira do Livro, não tenha suscitado o seu interesse... As crianças compensaram-me com os seus sorrisos.

Noémia Malva Novais

 

As palavras são como fatias de melancia

Eu e a minha amiga jornalista Daniela SantiagoAs palavras são como fatias de melancia: doces e suculentas. Por isso, através das palavras é possível construir uma relação de amizade como a que eu criei com a jornalista Daniela Santiago. Aliás, a metáfora é da Daniela. Perdoem-me por não discorrer aqui acerca do modo como nos conhecemos e como construimos uma amizade recente mas que parece ser de sempre. Foi em nome dessa amizade que eu convidei a Daniela Santiago para apresentar o meu primeiro livro infantil na Fnac Colombo, em Lisboa.

 A Daniela Santiago falou da vantagem de dar colo e mimo às crianças, colocando, curiosamente, ou talvez não, a tónica num dos aspectos que fora enfatizado pelo psicólogo Eduardo Sá aquando da apresentação em Coimbra. Para a Daniela Santiago, mãe de uma menina de dois aninhos, receber carinho é das coisas mais naturais e saudáveis na vida de uma criança. Para a Daniela Santiago dar colo é, também, uma necessidade das mães e pais que vêem os seus filhos crescer 'demasiado' depressa, escapando-lhes do colo tão apreciado.

As suas palavras, nesta apresentação, foram mesmo doces e suculentas, como, aliás, são sempre as suas palavras para mim. Agora, fico à espera de um próximo livro da Daniela Santiago para devolver a simpatia e a generosidade desta apresentação. Por enquanto, fico com a certeza de que, se os amigos são a família que nós escolhemos, a Daniela é a irmã que eu não tinha até a ter conhecido. A minha filha mais velha aprecia a 'fortuna' de ter uma 'tia' como a Daniela. O meu filho mais novo quer muito conhecer a nova 'tia'.

As crianças precisam de referências saudáveis. Sejam os pais, os avós, os professores, os amigos dos pais... Os que os rodeiam são os seus modelos. Sendo assim, creio que temos de ter muito cuidado com os modelos que somos para as nossas crianças.

 

 

 

 

O cheiro dos livros

Eu na minha bibliotecaHoje quero contar-vos uma história. Uma história que fala de mim. De mim e do sentido da vida. De mim e de Ançã, a antiga vila onde nasci, conhecida pela pedra, há séculos utilizada na arquitectura e na escultura, pelos bolos típicos e por ser a terra do médico, escritor, dramaturgo e historiador Jaime Cortesão. Este não é, no entanto, o único escritor com origens na minha terra natal.

Ao lado da casa onde nasci, em pleno centro da vila, na Rua Jaime Cortesão, em frente ao pelourinho e ao Terreiro do Paço, situa-se a casa da família de outro grande escritor - Augusto Abelaira. Lembro-me tão bem de, na inocência dos meus primeiros anos, imaginar o que haveria para além das paredes da casa dos Abelaira.

Os meus pais contavam-me histórias de Cortesão e dos Abelaira. A minha mãe narrou, várias vezes, a visita que Jaime Cortesão fez a Ançã por ocasião da candidatura de Humberto Delgado à presidência da República (1958). Contava, então, a minha mãe como Jaime Cortesão se destacava entre a enorme multidão por ser muitíssimo alto.

Acerca dos Abelaira, uma família endinheirada, com traços de fidalguia, desvendava a minha mãe muitas histórias. Ainda me lembro da mais hilariante. É um episódio rocambolesco passado na casa de um dos Abelaira, e que durante muitos anos andou na boca de toda a gente e foi apresentada, como exemplo a evitar, às crianças dadas a maiores esquisitices.

Diz a história que esse Abelaira, homem a quem era difícil agradar, implicava frequentemente com a criada a propósito da alegada pouca limpeza da louça. Certo dia, quando se preparava para almoçar, perguntou à criada se o prato naquele dia estava bem lavado, ao que esta, prontamente, respondeu: “Está sim senhor. Lavei-o com sete águas e um esfregão”.

Convencido da limpeza do prato, comeu, de imediato, a refeição. No final, recomendou à criada que, daí em diante, lhe servisse as refeições em pratos igualmente asseados. Esta, mais uma vez, assentiu imediatamente ao pedido do patrão. Porém, à boa maneira dos primeiros filmes portugueses, a criada tinha a língua afiada e veio contar à vizinhança o seu inacreditável feito. O prato fora ‘lavado’ pelo cão! As sete águas eram a saliva do canino e o esfregão a língua do mesmo animal!

As histórias de José Abelaira – pai do escritor – eram, porém, diferentes. José Abelaira era um homem magro mas distinto, respeitado, de quem se dizia ter muita cultura. Lembro-me bem de ter perguntado ao meu pai o que era isso de ter muita cultura e do meu pai me ter explicado que era alguém que lia muitos livros e, por isso, sabia muitas coisas. Desde então imaginei que havia de ler todos os livros do mundo.

O meu pai confidenciou-me que, na casa de José Abelaira, havia uma biblioteca cheia de livros. Como me lembro de desejar conhecer aquela biblioteca! Enquanto as crianças da minha idade pediam bonecas ao Menino Jesus (naquele tempo as prendas eram poucas e ainda não se pediam ao Pai Natal) eu só pedia para ver a biblioteca de José Abelaira. E um dia vi. É das imagens mais nítidas da minha memória da infância.

As estantes de madeira de cor castanha cobriam as paredes e os livros enchiam todas as prateleiras desde o chão até ao tecto igualmente forrado de madeira. A secretária, igualmente de madeira de cor castanha, estava coberta de livros. Das duas cadeiras existentes junto à secretária, uma estava carregada de livros. No chão, também de madeira, amontoavam-se inúmeros livros.

Percebi, então, o que era uma biblioteca. Era uma sala mas não servia para estar, servia para guardar livros. Mais livros do que os meus olhos pequeninos conseguiam alcançar. E esta sala também não cheirava às flores secas que a minha mãe costumava deixar num cestinho em cima da mesa de centro. Cheirava às velhas roupas da minha bisavó que a minha mãe guardava na arca de madeira. Este cheiro enchia-me de alegria.

Depois daquele dia, a biblioteca passou a ser o meu espaço de eleição. Gostava de me sentar no chão a olhar para os livros; gostava de observar os livros amontoados no chão; gostava de ver a secretária coberta de livros; gostava de abrir e folhear os livros com cuidado; gostava daquele cheiro… Ainda consigo sentir aquele cheiro…

Quando penso na minha infância vêm-me à memória as idas a pé para a escola, o jogo do lencinho no recreio, os regressos à minha casa humilde, o sabor dos chocolates quadrados da lojinha da minha mãe, o chilrear dos periquitos do meu irmão, o som da motorizada do meu pai ao chegar do trabalho ao fim da tarde e o cheiro dos livros da biblioteca dos Abelaira. Percebo, então, como fui rica, muito rica, na minha infância.

                                                                                                          Noémia Malva Novais

O poema que se segue, da autoria de Jaime Cortesão, fala da mesma riqueza. É engraçado… ele nasceu em Ançã… como eu.

Oração do Deus-Menino

 

Era noite; e por encanto

Eu nasci, raiou o Dia.

Sentiu meu pai que era Santo,

Minha mãe, Virgem-Maria.

 

As palhinhas de Belém

Me serviram de mantéu;

Mas minha mãe, por ser Mãe,

É a Rainha do Céu.

 

Nem há graça ambaladora,

Como a de mãe, quando cria;

É como Nossa Senhora,

Mãe de Deus, Ave-Maria!

 

Está no Céu o menino,

Quando sua mãe o embala.

Ouve-se o coro divino

Dos anjos, a acompanhá-la.

 

Como num altar de ermida,

Ando no teu coração;

Para ti sou mais que a vida

E trago o mundo na mão.

 

Não sei de pais, em verdade,

Mais pobrezinhos que os meus;

Mas o amor dá divindade,

E eu sou o filho de Deus!

 

Jaime Cortesão [Ançã, 1884-1960]

A avó

 A avó, que tem oitenta anos,

 Está tão fraca e velhinha!

 Teve tantos desenganos

Ficou branquinha, branquinha,

Com os desgostos humanos.

Hoje, na sua cadeira,

Repousa, pálida e fria,

Depois de tanta canseira:

E cochila todo o dia,

E cochila a noite inteira.

Às vezes, porém, o bando

Dos netos invade a sala . . .

Entram rindo e papagueando:

Este briga, aquele fala,

Aquele dança, pulando . . .

A velha acorda sorrindo,

E a alegria a transfigura;

Seu rosto fica mais lindo,

Vendo tanta travessura,

E tanto barulho ouvindo.

Chama os netos adorados,

Beija-os, e, tremulamente,

Passa os dedos engelhados,

Lentamente, lentamente,

Por seus cabelos, doirados.

Fica mais moça, e palpita,

E recupera a memória,

Quando um dos netinhos grita:

"Ó vovó! conte uma história!

Conte uma história  bonita!"

Então, com frases pausadas,

Conta historias de quimeras,

Em que há palácios de fadas,

E feiticeiras, e feras,

E princesas encantadas . . .

E os netinhos estremecem,

Os contos acompanhando,

E as travessuras esquecem,

— Até que, a fronte inclinando

Sobre o seu colo, adormecem . . .

                                Olavo Bilac

 

Que falta me fazem as minhas avós. Que falta que fazem aos meus filhos. Eles têm, felizmente, ainda as suas avós. Mas estas ainda não têm oitenta anos e as maravilhas da estética encobrem os cabelos brancos. São, porém, avós a quem sobra pouco tempo e paciência para contar histórias.

Tenho para mim que, hoje em dia, os avós (avô e avó), por força da necessidade, trabalham cada vez mais até mais tarde, faltando-lhes tempo e paciência para aquele que desde sempre foi um dos maiores prazeres dos avós - mimar os netos.

É cada vez menor o número de avós que tem tempo para cuidar dos netos mas ainda os há. E os que há são uma espécie de unidade de cuidados intensivos onde a terapêutica são doses constantes de ternura, de carinho, de amor. Por isso, este poema é para esses avós.

 

                                                                         Noémia Malva Novais

 

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Quando as crianças brincam

Alegria

Quando as crianças brincam

E eu as oiço brincar,

Qualquer coisa em minha alma

Começa a se alegrar.

 

E toda aquela infância

Que não tive me vem,

Numa onda de alegria

Que não foi de ninguém.

 

Se quem fui é enigma,

E quem serei visão,

Quem sou ao menos sinta

Isto no coração.

 

             Fernando Pessoa - Cancioneiro

As crianças são o melhor de nós próprios

Eu com o psicólogo Eduardo SáO psicólogo Eduardo Sá disse aquando da apresentação de "Daniel e o Bicho da Lanterna" em Coimbra que as crianças, se não são o melhor do mundo, são seguramente o melhor de nós próprios. Esta afirmação, entre outras é certo, ficou gravada na minha memória. Lembro-me destas palavras quase todos os dias.

Ontem pensei nelas durante todo o dia. Estive na Feira do Livro de Condeixa, a convite da Câmara Municipal. Depois de ver os nomes dos escritores convidados, escritos em grandes parangonas no painel que se encontra à entrada da feira, interroguei-me sobre o que fazia, eu e o meu nome, ali. Afinal, hoje estará na feira a escritora Ana Maria Magalhães; amanhã estará o escritor Mário Cláudio; e seguir-se-ão muitos nomes ilustres.

Porém, assim que vi as crianças percebi... Era esperada por um grupo de 30 meninas e meninos de quatro e cinco anos, de olhar penetrante, com a curiosidade à flor da pele, cheios de vontade de partilhar comigo os seus sonhos e, especialmente, os seus pesadelos. A educadora tinha-lhes contado a história de "Daniel e o Bicho da Lanterna"... tinham gostado... senti que conseguira dar-lhes o melhor de mim própria.

Depois das dezenas de beijos e abraços com que estas crianças decidiram presentear-me, estava preparadíssima para o encontro com um grupo de 50 meninas e meninos com idades compreendidas entre os 7 e os 10 anos. Também eles já conheciam a história, quiseram contar-me os seus sonhos e pesadelos, bem como os seus desejos mais íntimos. Aliás, ofereceram-me desenhos inspirados na história.

No final do encontro, um dos meninos, de apenas nove anos, aproximou-se de mim, pediu-me um autógrafo e contou-me que quando for grande quer ser escritor. Reflecti que, dada a quantidade de livros que todos os dias se publicam em Portugal, provavelmente, o Renato (é este o seu nome) pensa que os escritores são todos ricos mas, afinal, quando quis saber por que deseja ser escritor respondeu-me: "gosto de ti, quero ser como tu".

Só lhe dei um abraço mas gostava de lhe ter dito tanta coisa! Só espero que o Renato continue a ter vontade de ser escritor quando for mais velho. Eu, para honrar os ensinamentos do 'padrinho' (Eduardo Sá assim se intitulou para grande alegria minha) do lançamento em Coimbra,  vou fazer a minha parte - dar o melhor de mim mesma em cada história, em cada encontro com crianças, em cada dia...

Não quero perder de vista o essencial: se as crianças são o melhor de nós próprios, nós temos de ser melhores em cada dia que passa. Temos de aprender a ver o que somos nos olhos das crianças que nos rodeiam.

                                                                                                                    Noémia Malva Novais

Daniel e o Bicho da Lanterna na RTP

Capa de Daniel e o Bicho da Lanternahttp://ww1.rtp.pt/multimedia/?tvprog=194558idpod=13006 é o endereço que devem visitar se desejarem ver o vídeo da reportagem que a jornalista Vanda Freire e o operador de imagem Fernando Andrade fizeram sobre os pesadelos nocturnos que afectam as crianças, especialmente entre os dois e os cinco anos. Partindo de Daniel e o Bicho da Lanterna, Vanda Freire fez quatro amorosos minutos de televisão.

Digamos que esta reportagem, para além do mais, foi, exactamente, ao encontro do que eu pretendi alcançar com o livro. Isto é, se, ao escrever esta história, tentei mostrar que ter medo é natural, o mesmo fez a Vanda Freire, mostrando que um simples boneco pendurado num quarto de dormir, e a sua sombra, aliada à imaginação fértil dos mais pequenos, pode ser assustador.

 Do mesmo modo que eu acentuo que o medo se combate com ternura, Vanda Freire também sublinha o 'poder' do afecto nesta espécie de medição de forças entre o medo dos 'sonhos maus' e o amor dos pais. A mensagem da reportagem é tão positiva que até a ideia do pesadelo é transformada numa coisa divertida pelo recurso imaginativo a uma imagem do célebre filme Monstros & Companhia.

                                                                                                                    Noémia Malva Novais

 

Daniel e o Bicho da Lanterna em destaque na FNAC Colombo

Daniel e o Bicho da Lanterna no Atrium Solum CoimbraQuando iniciei este blogue, estava longe de imaginar o alcance que ele teria em tão poucos dias.

 Na verdade, nem parei para pensar que aquilo que eu aqui escrevesse seria quase imediatamente lido por muitas pessoas. Mas ainda bem que assim aconteceu. Caso contrário, teria ficado a pensar, pensar... e ainda hoje não teria iniciado a minha incursão pela blogosfera na área da literatura infantil.

Pois, porque tenho um outro blogue dedicado à divulgação do meu trabalho académico na área da Comunicação e da História Contemporânea. Estou a pensar alojá-lo aqui no Sol mas, para já, se tiverem interesse em visitá-lo, o endereço é o seguinte: http://historiandoecomunicando.blogspot.com.

Agora, o essencial: o livro Daniel e o Bicho da Lanterna. Para além de agradecer os comentários que por aqui vão ficando registados, gostaria de responder a quem quer saber onde se vende o livro. Na realidade, gostaria que a distribuição tivesse sido mais ampla mas, como está à venda em todas as FNAC's...

Como a FNAC Colombo foi o local escolhido para o lançamento em Lisboa (a 30 de Março último) e para a gravação das reportagens para a SIC e a SIC Notícias, o livro encontra-se aí em destaque, porém, como já referi, encontra-se em todas as outras FNAC's. Em Lisboa, é também possível encontrá-lo na Livraria Bulhosa. Em Coimbra, na Livraria Minerva.

Com muita pena minha, não se encontra à venda nas livrarias da Bertrand e da Almedina (questiúnculas da editora) mas, se pedirem, creio que encomendam junto da editora (MinervaCoimbra) e, talvez assim, até passem a vendê-lo. Era excelente!

O sucesso deste primeiro volume determinará, naturalmente, a continuação da colecção, logo, é fundamental que a primeira edição esgote. Esta primeira edição é de 2.000 exemplares e já foram vendidos cerca de 1500. Em apenas três meses e meio, e tendo em conta a enorme concorrência existente no mercado editorial infantil, creio que é um resultado muito auspicioso para o livrinho.

 Se estiverem interessados em saber mais deste Daniel e o Bicho da Lanterna podem 'bisbilhotar' o site da RTP e o programa Portugal em Directo de 14 de Abril. Na primeira parte, há um promo do livro feito pela jornalista Vanda Freire e, na segunda parte, há uma reportagem de quatro minutos, sobre o livro e a sua temática, magnificamente feita pela jornalista Vanda Freire e pelo operador de imagem Fernando Andrade.

Claro que também podem visitar os endereços que apresento no post sobre a SIC. A jornalista Inês Aflalo fez, igualmente, um trabalho brilhante e a SIC Notícias emitiu a reportagem, a abrir o programa Campeonato da Língua Portuguesa, durante uma semana! Foi espantoso. Não tenho palavras para agradecer a divulgação extraordinária que fizeram de Daniel e o Bicho da Lanterna.

                                                                                                                    Noémia Malva Novais

 

 

Entrevista ao Diário de Coimbra a propósito de Daniel e o Bicho da Lanterna

Foto Lusa da autoria do fotojornalista Paulo NovaisDiário de Coimbra - Que história apresenta “Daniel e o Bicho da Lanterna”?

Noémia Malva Novais (NMN) - É a história de um menino pequenino – o Daniel – que, como tantos outros meninos, tem um pesadelo, que lhe interrompe várias vezes o sono, e que acaba por o fazer pensar acerca do mundo dos sonhos. A moral da história é muito engraçada e, acima de tudo, pode ajudar as crianças que têm pesadelos.

DC - É dedicado a que público?

NMN - O livro foi escrito e ilustrado, especialmente, para as crianças até aos sete ou oito anos. Tem pouco texto em cada página, letras em tamanho grande, e umas ilustrações lindas desenhadas pela Inês Massano. Penso que as crianças que ainda não sabem ler vão gostar de ouvir a história contada pelos pais ou pelas educadoras e as que estão a começar a aprender as primeiras letras podem encontrar nesta história uma forma divertida de começar a ler.

DC - Que tema serve de base ao desenrolar da história?

NMN - Os pesadelos nocturnos que assustam as crianças e preocupam os pais, causando perturbações no sono de ambos.

DC - Qual o motivo que a levou a optar pela temática em questão?

NMN - O facto de ser mãe de duas crianças, a Catarina, de 12 anos, e o Daniel, de quatro anos. A Catarina, quando era mais pequena, acordava frequentemente, por volta das cinco da madrugada, assustada por um qualquer pesadelo. O Daniel sonha imenso, chega a falar em voz alta e, por vezes, chora. Esta história em concreto resulta, em certa medida, de um pesadelo do Daniel. Aliás, a moral da história é baseada na conclusão do Daniel acerca dos sonhos.

DC - Que personagens se poderão encontrar em “Daniel e o Bicho da Lanterna”?

NMN - O Daniel, a irmã Catarina e os pais. O facto de utilizar o nome dos meus filhos para os personagens principais e da história que protagonizam resultar, em certa medida, de acontecimentos vividos em família, não quer, no entanto, significar que é uma história autobiográfica. É uma ficção que assenta como uma luva na vida de muitas famílias onde há crianças pequeninas.

DC - Tratando-se este do segundo livro publicado, como foi escrever para um público mais jovem?

NMN - A decisão de escrever para crianças resultou do facto de constatar que as histórias existentes no mercado para as crianças mais pequenas são, por vezes, pouco cuidadas, quer em termos de conteúdo quer em termos de língua portuguesa. Claro que há muito boas histórias e autores muito bons, mas também há livros que mais não são do que séries televisivas passadas a papel impresso. E o mais preocupante é que são exactamente esses livros que mais vendem, porque a influência da televisão é fortíssima. Por isso, houve um dia em que, de repente, dei comigo a escrever esta história num bloco de apontamentos que trazia comigo. A decisão de publicar é que foi mais difícil. O ano passado publiquei o meu primeiro livro de carácter historiográfico, intitulado “João Chagas. A Diplomacia e a Guerra”, que foi distinguido com um prémio, pelo que tive algum receio de me envolver na literatura infantil. Na verdade, ainda não sei se foi uma boa opção mas, ao ver o livro nas mãos das crianças, sinto que foi uma decisão acertada.

DC - Qual a mensagem que pretende passar?

NMN - Penso que o livro transmite uma mensagem de tranquilidade às crianças e constitui-se como uma nova ‘ferramenta’ para os pais que têm de lidar com os pesadelos dos filhos.

DC - É um projecto para continuar?

NMN - O “Daniel e o Bicho da Lanterna” é o primeiro livro de uma nova colecção denominada Letras Pequenas editada pela MinervaCoimbra. Se este primeiro livro tiver sucesso, poder-se-ão seguir outras histórias protagonizadas pelo Daniel. Eu tenho várias histórias escritas mas só será possível prosseguir a colecção se este livro for aceite pelo mercado.

NOTA: Agradeço muito esta entrevista à jornalista Carina Leal. Quem diria que um dia a minha ex-pupila (estagiária) iria entrevistar-me? Pois é, director oblige. As perguntas foram difíceis mas certeiras.

                                                                                                              Noémia Malva Novais

Entrevista ao jornal Centro a propósito de Daniel e o Bicho da Lanterna

Eu e os livros- É jornalista, escreveu um livro de carácter historiográfico e agora estreia-se na literatura infantil. A escrita é a constante da sua vida?

Noémia Malva Novais (NMN) – Sim, será pelo menos uma das constantes da minha vida. Mas é, acima de tudo, uma necessidade. Só muito dificilmente conseguiria viver sem ler e escrever. Costumo dizer que os meus únicos vícios são a leitura e a escrita.

 

- Depois de um livro de história contemporânea, que foi mesmo premiado, como é que surge este livro infantil?

NMN – Pois, não foi uma decisão fácil. Efectivamente, o ano passado publiquei o meu primeiro livro – “João Chagas. A Diplomacia e a Guerra” -, que foi distinguido com a 1.ª menção especial do Prémio Aristides Sousa Mendes, da Associação dos Diplomatas Portugueses, pelo que tive algum receio de me envolver na literatura infantil. Na verdade, ainda não sei, mas quando vejo o livro nas mãos das crianças, sinto que foi uma decisão acertada.

 

- Que história conta “Daniel e o bicho da lanterna”?

NMN – A história desenrola-se à volta de um menino pequenino – o Daniel – que tem um pesadelo, que lhe interrompe várias vezes o sono, e que acaba por o fazer pensar acerca do mundo dos sonhos. A moral da história é muito bonita e vai poder ser descoberta por todos os que lerem o livro.

 

- O que vai escrever a seguir ao “Daniel e o bicho da lanterna”?

NMN – O “Daniel e o bicho da lanterna” é o primeiro livro de uma nova colecção editada pela MinervaCoimbra. Se este primeiro livro tiver sucesso, poder-se-ão seguir outras histórias protagonizadas pelo Daniel. O mercado é que vai decidir o futuro da colecção. Eu tenho várias histórias escritas mas com a concorrência que há no mercado…

 

- É o facto de haver muitos títulos infantis no mercado que a assusta?

NMN – O facto de haver muitos títulos infantis no mercado não me assusta, apenas me preocupa, porque a esses títulos nem sempre correspondem conteúdos com qualidade. Uma consulta rápida de alguns números desses títulos mostra que há livros que são apenas séries de televisão passadas a papel impresso, sem os necessários cuidados com a língua portuguesa. No entanto, são esses títulos que vendem mais, porque a maioria dos pais e das crianças é influenciada pela televisão.

 

- Quer dizer que o “Daniel e o bicho da lanterna” é mais aconselhável do que esses livros resultantes de séries televisivas?

NMN – Seria presunção da minha parte achar que este livro é mais interessante do que qualquer outro do seu género. Porém, posso garantir que esta história, bem como as histórias que poderão seguir-se, são escritas com muito cuidado, a pensar nas crianças pequeninas que as vão ouvir e até a pensar nos pais que têm pouco tempo para contar uma história aos filhos.

 

- A quem se destina este livro?

NMN – É um livro especialmente criado para crianças até aos sete ou oito anos, desde os pequeninos que ainda não sabem ler até aos que estão a aprender as primeiras letras e a tentar que elas façam sentido umas com as outras. O livro tem pouco texto em cada página, letras grandes, e umas ilustrações lindas desenhadas pela Inês Massano… penso que as crianças gostam.

 

- Vai abandonar o jornalismo e a investigação para se dedicar apenas à literatura infantil?

NMN – Não. Eu nem sei se já comecei a dedicar-me à literatura infantil. Só sei que escrevi um livro pequenino para crianças pequeninas. Se é, ou não, literatura não sei. A literatura é uma coisa muito séria que eu ainda não sei se sei fazer. Quanto à outra parte da sua pergunta, a minha actividade jornalística está, temporariamente, arrumada, porque como estou a preparar o doutoramento em Comunicação na Universidade Nova de Lisboa e sou bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, não posso exercer outra actividade. A investigação, seja em História Contemporânea, seja em Ciências da Comunicação, vai continuar, até por força do doutoramento.

 

- Sente-se mais jornalista, mais investigadora ou mais escritora?

NMN – Não sei. Acho que não são áreas incompatíveis. Penso mesmo que se complementam. Eu vejo-me como uma comunicadora; como alguém que tem necessidade de investigar, escrever as conclusões dessa investigação e depois comunicar essas mesmas conclusões. Ainda há dias criei um blogue precisamente para isso e denominei-o ‘historiandoEcomunicando’ por isso mesmo. Creio que no momento actual, em que se fala tanto de flexibilidade, não é difícil as pessoas aceitarem que eu trabalhe várias escritas.

 

NOTA: Agradeço muito esta entrevista ao jornalista Jorge Castilho. Esta foi a primeira entrevista por mim concedida a um jornal. Foi um tanto estranho. Eu, uma jornalista habituada a entrevistar escritores (Augusto Abelaira, António Lobo Antunes, Mário Cláudio, Dolores Soler-Espiauba, Artur Portela, Rui Zinc, Pio Abreu, Manuel Alegre, ...), de repente, ser entrevistada. Entretanto, seguiram-se outras entrevistas a jornais, rádios e tv's. Agora é menos estranho. Como diria Fernando Pessoa (ele a propósito da Coca-Cola), primeiro estranha-se, depois entranha-se. Bem, falta uma entrevista ao Sol (risos).

                                                                                  Noémia Malva Novais

 

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