Hoje quero contar-vos uma história. Uma história que fala de mim. De mim e do sentido da vida. De mim e de Ançã, a antiga vila onde nasci, conhecida pela pedra, há séculos utilizada na arquitectura e na escultura, pelos bolos típicos e por ser a terra do médico, escritor, dramaturgo e historiador Jaime Cortesão. Este não é, no entanto, o único escritor com origens na minha terra natal.
Ao lado da casa onde nasci, em pleno centro da vila, na Rua Jaime Cortesão, em frente ao pelourinho e ao Terreiro do Paço, situa-se a casa da família de outro grande escritor - Augusto Abelaira. Lembro-me tão bem de, na inocência dos meus primeiros anos, imaginar o que haveria para além das paredes da casa dos Abelaira.
Os meus pais contavam-me histórias de Cortesão e dos Abelaira. A minha mãe narrou, várias vezes, a visita que Jaime Cortesão fez a Ançã por ocasião da candidatura de Humberto Delgado à presidência da República (1958). Contava, então, a minha mãe como Jaime Cortesão se destacava entre a enorme multidão por ser muitíssimo alto.
Acerca dos Abelaira, uma família endinheirada, com traços de fidalguia, desvendava a minha mãe muitas histórias. Ainda me lembro da mais hilariante. É um episódio rocambolesco passado na casa de um dos Abelaira, e que durante muitos anos andou na boca de toda a gente e foi apresentada, como exemplo a evitar, às crianças dadas a maiores esquisitices.
Diz a história que esse Abelaira, homem a quem era difícil agradar, implicava frequentemente com a criada a propósito da alegada pouca limpeza da louça. Certo dia, quando se preparava para almoçar, perguntou à criada se o prato naquele dia estava bem lavado, ao que esta, prontamente, respondeu: “Está sim senhor. Lavei-o com sete águas e um esfregão”.
Convencido da limpeza do prato, comeu, de imediato, a refeição. No final, recomendou à criada que, daí em diante, lhe servisse as refeições em pratos igualmente asseados. Esta, mais uma vez, assentiu imediatamente ao pedido do patrão. Porém, à boa maneira dos primeiros filmes portugueses, a criada tinha a língua afiada e veio contar à vizinhança o seu inacreditável feito. O prato fora ‘lavado’ pelo cão! As sete águas eram a saliva do canino e o esfregão a língua do mesmo animal!
As histórias de José Abelaira – pai do escritor – eram, porém, diferentes. José Abelaira era um homem magro mas distinto, respeitado, de quem se dizia ter muita cultura. Lembro-me bem de ter perguntado ao meu pai o que era isso de ter muita cultura e do meu pai me ter explicado que era alguém que lia muitos livros e, por isso, sabia muitas coisas. Desde então imaginei que havia de ler todos os livros do mundo.
O meu pai confidenciou-me que, na casa de José Abelaira, havia uma biblioteca cheia de livros. Como me lembro de desejar conhecer aquela biblioteca! Enquanto as crianças da minha idade pediam bonecas ao Menino Jesus (naquele tempo as prendas eram poucas e ainda não se pediam ao Pai Natal) eu só pedia para ver a biblioteca de José Abelaira. E um dia vi. É das imagens mais nítidas da minha memória da infância.
As estantes de madeira de cor castanha cobriam as paredes e os livros enchiam todas as prateleiras desde o chão até ao tecto igualmente forrado de madeira. A secretária, igualmente de madeira de cor castanha, estava coberta de livros. Das duas cadeiras existentes junto à secretária, uma estava carregada de livros. No chão, também de madeira, amontoavam-se inúmeros livros.
Percebi, então, o que era uma biblioteca. Era uma sala mas não servia para estar, servia para guardar livros. Mais livros do que os meus olhos pequeninos conseguiam alcançar. E esta sala também não cheirava às flores secas que a minha mãe costumava deixar num cestinho em cima da mesa de centro. Cheirava às velhas roupas da minha bisavó que a minha mãe guardava na arca de madeira. Este cheiro enchia-me de alegria.
Depois daquele dia, a biblioteca passou a ser o meu espaço de eleição. Gostava de me sentar no chão a olhar para os livros; gostava de observar os livros amontoados no chão; gostava de ver a secretária coberta de livros; gostava de abrir e folhear os livros com cuidado; gostava daquele cheiro… Ainda consigo sentir aquele cheiro…
Quando penso na minha infância vêm-me à memória as idas a pé para a escola, o jogo do lencinho no recreio, os regressos à minha casa humilde, o sabor dos chocolates quadrados da lojinha da minha mãe, o chilrear dos periquitos do meu irmão, o som da motorizada do meu pai ao chegar do trabalho ao fim da tarde e o cheiro dos livros da biblioteca dos Abelaira. Percebo, então, como fui rica, muito rica, na minha infância.
Noémia Malva Novais
O poema que se segue, da autoria de Jaime Cortesão, fala da mesma riqueza. É engraçado… ele nasceu em Ançã… como eu.
Oração do Deus-Menino
Era noite; e por encanto
Eu nasci, raiou o Dia.
Sentiu meu pai que era Santo,
Minha mãe, Virgem-Maria.
As palhinhas de Belém
Me serviram de mantéu;
Mas minha mãe, por ser Mãe,
É a Rainha do Céu.
Nem há graça ambaladora,
Como a de mãe, quando cria;
É como Nossa Senhora,
Mãe de Deus, Ave-Maria!
Está no Céu o menino,
Quando sua mãe o embala.
Ouve-se o coro divino
Dos anjos, a acompanhá-la.
Como num altar de ermida,
Ando no teu coração;
Para ti sou mais que a vida
E trago o mundo na mão.
Não sei de pais, em verdade,
Mais pobrezinhos que os meus;
Mas o amor dá divindade,
E eu sou o filho de Deus!
Jaime Cortesão [Ançã, 1884-1960]