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JOSÉ SARAMAGO

Talvez, com o passar dos anos, a obra faça sobressair o autor e esquecer o homem, se bem que o mais natural seja sumir-se a obra e o homem e ficar, apenas e vagamente, o nome do autor.

Mas, independentemente da efemeridade das modas e da falível futurologia dos iluminados, este é o meu tempo e eu sentir-me-ia mal com a minha consciência se esquecesse, neste momento, todas as vítimas dos gulag, das purgas, dos genocídios, dos samizdat culturais e religiosos, desde Cuba à União Soviética, da Coreia do Norte à Venezuela, ou seja, de todas as vítimas da ideologia assassina por quem José Saramago, até à hora da sua morte, nunca verteu uma única lágrima ou sentiu um pingo de piedade ou arrependimento.

Não deixa, no entanto, de ser significativo do cinismo e da hipocrisia da nossa esquerda o apelo patético de Francisco Louçã para que o Presidente da República Cavaco Silva, que José Saramago abominava, estivesse presente no funeral.

Cavaco Silva teve, no entanto, a sensatez e a hombridade de não pôr os pés num funeral onde não era desejado por ninguém, a começar pelo defunto.

Quando o escritor é de esquerda, impõe-se que toda a gente esqueça o passado, mesmo o passado bastante recente, e lhe preste homenagem, independentemente da crueldade dos regimes que patrocinou, branqueou ou defendeu.

Mas se o escritor for de direita, o simples facto de ter lutado ao lado dos falangistas em 1936 é o bastante para que toda a esquerda (BE, PCP e PS) recuse, setenta e quatro anos depois, no nosso Parlamento, um simples voto de pesar pela sua morte, como aconteceu, no preciso dia em que faleceu José Saramago, com o voto de pesar pela morte de Couto dos Santos.

PRÓXIMO POST: 6ª FEIRA

Posted: sexta-feira, 25 de Junho de 2010 0:48 por contracorrente

Comentários

Partebilhas said:

Ora bem...

# Junho 29, 2010 0:54
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