Sofrimentos insensatos (fim).
O Fedelho seguiu-o até à porta das cortes e sentou-se ao lado. O Armindo foi trazendo toros de pinheiro e de carvalho até constituir um elevado monte. Depois, cuspiu nas mãos e, com o machado que era minuciosamente amolado pelo Salvador, foi rachando, fazendo com um toro quatro boas achas. A energia colossal que dele se desprendia atirava com as achas às viravoltas a uma distância considerável. Quando o machado rachava o toro, era na gente do lugar, nos pais da Lídia, no padre, na mãe, no pai, nos amigos, no velho pedinte, no destino... que ele pensava. Por causa deles, não pudera desenvolver aquela vitalidade admirável com a qual o seu coração se abraçara, se aninhara no da rapariga mais linda, mais angelical do lugar. Ele, aleijado, a risada dos apoucados, despertara sentimentos afectuosos, amorosos, numa moça que não tinha a menor dificuldade em encontrar alguém conveniente. E, isso, para ele, era a prova de que os sentimentos não precisam de olhos para se poderem revelar e ancorar. Só os que não têm sentimentos é que se guiam pelo olhar que, forçosamente, é falacioso e lhos desenvolve erroneamente.
Detestava esta gente toda como nunca pensara que fosse possível detestar alguém. Sentia-se roubado. Tinham-no desbulhado, despido da única coisa para a qual o seu infortúnio não era uma atrofia. Percebeu que a pouca dignidade e respeito que lhe tinham deixado não eram mais do que um véu tão transparente e fino, que a mais derisória corrente de ar não tinha qualquer dificuldade em precipitar. Como no mundo animal, os mais vulneráveis são sempre os primeiros a cair. Já não tinha importância nenhuma para ele.
À medida que ia estilhaçando os toros, crescia nele a sensação de que, finalmente, começava a saborear este sofrimento abjecto, consubstancial. Quanto mais aumentava o ódio monstruoso e a aversão que sentia por quem lhe tinha feito mal, por quem o tinha vilipendiado, mais o gozo e o sarcasmo o exaltavam, imaginando a cara assombrada que as velhas do lugar, meias beatas, meias pitonisas, afixariam. Já as ouvia bisbilhotar entre elas: “Eu bem vo-lo dizia que ele não era muito correito.” Ou: “Aquele rapaz não era obra de Deus, já o sabia.”
Transpirava por todos os poros, mas rachou os toros sem fazer uma pausa até acabar. Em seguida, depois de limpar o suor da testa com a manga da camisa, amontoou as achas dentro da corte, por cima de muitas outras. Depois, encheu a caneca de lata do vinho verde fresco e espumoso de que tanto gostava e que esvaziou em poucas goladas. Fez estalar a língua e ficou uns instantes a olhar para o tecto da corte. O Fedelho, deitado sobre as patas dianteiras, seguira tudo o que o seu amigo fizera e, durante o tempo todo, não tinha mexido, como se o instinto lhe permitisse farejar os fatais pensamentos que ferviam no espírito do rapaz. O sol tinha desaparecido e o dia, sem fazer barulho, ia penetrando fortemente no crepúsculo. Era quase noite quando subiu as escaleiras e fez a porta queixar-se mais uma vez.
XXV
Na manhã seguinte, a Palmira pôs-se a pé à hora habitual. Estava um pouco arreliada porque fora acordada de noite pelos uivos inabituais do Fedelho. Preparou as sopas de cevada com leite que comeu com calma e indiferença, a pensar, como sempre, nas tarefas ordinárias que a esperavam. Lavou a sua malga, o prato e a tigela que o Armindo deixara por cima da mesa naquela noite. Estava mesmo cansado, pensou, lembramdo-se dele, pois ficara a dormir. Deu uma olhadela na mãe que ressonava e fez chorar mais uma vez a porta da casa. O ar era fresco e um vento fraco, mas cortante, puxava, no céu, grandes núvens sujas, como que lavadas de tinta. Desceu as escaleiras pausadamente e dirigiu-se para a corte onde tinha as cordas e a foucinha. Deitou a mão à chave mas constatou logo que a porta não tinha sido fechada à chave. Empurrou-a mas não passou do limiar. Na ponta duma corda, pendia o corpo do Armindo, inerte. A seus pés, deitado, o Fedelho, que a fitava atentamente.
Epílogo.
Deus ouviu as preces reiteradas da Delfina, consentindo-lhe abraçar, mais cedo do que ela pensava, o seu querido Belardo pela última vez, e conduzindo-a, fortuitamente, numa completa ataraxia, durante uma soneca na sua deificada cadeira, para junto do seu “Bilinho”, algumas semanas mais tarde.
O Belardo, por sua vez, à vista dos nefastos acontecimentos, decidiu pôr ponto final às estadias fora da terra para se ocupar da esposa atrabiliária que, desde que o filho se suprimiu, deixou totalmente de falar, afastando-se ainda mais do homem e de todos.
A Áurea acabou por casar e, vista a indiferença com que era recebida pelos pais asténicos, acabou por espaçar gradualmente as vindas a Orjás.
Quanto à Lídia, ficou solteira e a sua mãe acabou por expirar. O pai substitui-a na cama pouco tempo depois. Era vista frequentemente no caminho do moinho do “tio” Júlio, instalada no muro, por debaixo do velho carvalho, onde estivera sentada pela última vez com o Armindo. Falava animadamente com um interlocutor invisível, dando esporadicamente extravagantes gargalhadas, seguidas de estranhos e prolongados prantos convulsivos. Incontestavelmente, não se tinha acomodado da morte do rapaz. Diziam que tinha “virado da cabeça”.
Dedicado aos meus amigos do Monte.
Julho de 2010.
António El Cambório.