SOL

Do «Estado de Bem-Estar» ao estado de boca aberta.

Se tivessemos que sintetizar com uma palavra a situação mental do cidadão médio português, não podia ser com a de indignação, mas antes com a de assombro. Só mentes privilegiadas conseguem explicar como podem permutar em tão pouco tempo os direitos e as condições de vida de uma sociedade cujas estruturas económicas caem como um castelo de cartas. Como não estar de boca aberta ? Tem-se a impressão de que vivemos debaixo de um guarda-chuva de falsidades e fraudes massivas que, ao perder um dos seus apoios, produziu uma estrepitosa caída em cadeia, levando por diante empresas de sectores estratégicos economicamente vitais, milhares de postos de trabalho, bem-estar e direitos humanos tão essenciais como o trabalho, a habitação, a educação, a sanidade…

É uma simplificação, evidentemente, mas parece que assistimos a uma terceira guerra mundial encoberta, na que se pratica o terror por uns meios menos primitivos e sanguinolentos ; como se outro grande ditador com personalidade difusa, que se esconde detrás da etérea denominação de «mercados», estivesse a realizar um labor de conquista ou reconquista de um território europeu, deixando à sua passagem populações dizimadas, territórios económicos devastados, e estados submetidos a uma suprema lei de depuração e de limpeza económica, ajoelhados ante os desejos de um monstro de mil cabeças. Se ressaltamos que os países mais cruelmente fustigados são os mediterrâneos, sulistas e de cultura cristã, metaforizando, podemos acrescentar que a depuração também é étnica.

É natural que quando os direitos se perdem de modo tão massivo os políticos se vejam obrigados a explicar as causas, mas que pedir a uma casta também confundida que, embora mostrando boas e patrióticas intenções, está boquiaberta como a população que a elegeu ? Que pedir a uns representantes que se sentem ultrapassados cada dia mais por pressões que substituem os velhos conceitos de declaração de guerra pelo de prima de risco, e ocupação do território pelo de intervenção ? Uma guerra por outros meios que, em Portugal, já originou cerca de 1 milhão de vítimas por outra forma de morte : o desemprego.

Engenharia financeira, que é um circuito de burlas que convertem o irreal em real, podia ser o nome do esquema conceptual em que se esconde um artifício de interesses que – salvo a um indignante círculo de privilegiados que ganham a soma dos salários de mil trabalhadores – não massacrou apenas as classes baixas, mas também as médias que, paradoxalmente, eram o colchão que blindava os principais beneficiários deste sistema e bastantes empresários que tinham depositado grande fé no mesmo. A sua intrepidez predatória faz com que o sistema se devora a si mesmo.

Corrupção é outra palavra com a que poderíamos  explicar o meio ambiente gerado por um sistema superneoliberal que promoveu estes excessos com a aquiescência dos poderes políticos democráticos. Seria melhor dizer «cleptocracia», um passo mais que consiste em montar um subsistema de corrupção, nepotismo, alteração da justiça, malversação de fundos, alteração do sentido de reconhecimento social dos méritos pessoais… Toda esta tramóia de falsidades, consentida enquanto não chegaram as vacas magras, está sujeita, agora, a recortes, a discriminações com países situados na lista negra da desconfiança, a desemprego,  a diminuições de direitos sociais e laborais…

Querem justificar estas medidas suscitando um sentido de culpa por excessos cometidos pelo «Estado do Bem-Estar». Por que é que estes neoterroristas engravatados não põem em causa os fundamentos do poder das finanças, única – ou, pelo menos, principal – causa deste debacle ?

 

F. F.

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A grande coligação franco-alemã.

 

Ontem, durante a sua conferência de imprensa com Angela Merkel, quando François Hollande lembrava que os dirigentes franceses e alemães tinham sido mais vezes de cores políticas diferentes do que da mesma, e que isso nunca os tinha impedido de trabalharem conjuntamente – e proveitosamente –, não eram apenas palavras. Não dizia senão a verdade. Quando a chanceler alemã sublinhava que as grandes coligações entre a direita e a esquerda não têm nada de excepcional na Alemanha, e que ela própria dirigiu uma, explicitava as alegações do presidente francês. Queria simplesmente dizer que não teria qualquer dificuldade, em particular, para encontrar os compromissos necessários com o novo chefe de Estado, e que a sua relação com ele não seria mais do que uma grande coligação franco-alemã entre uma França à esquerda e uma Alemanha à direita. Resumindo : do déjà vu de ambos lados do Reno. Depois dos gritos de alarme e de medo, constata-se, com efeito, que não é muito mais complicado do que isto ; tanto mais que a chanceler e o presidente souberam evitar as posturas infructuosas, irritantes  e desobstruir, desde já, as vias dos futuros compromissos. A senhora Merkel não injungiu François Hollande de assinar o Pacto Orçamental Europeu, que ele quer renegociar, mas lembrou unicamente, sem o dizer, através de uma mera enumeração de datas, que a assinatura da França estava comprometida.

Como o presidente francês, abriu a porta à possibilidade de ajudar a Grécia a encontrar os caminhos do crescimento e insistiu, sobretudo, na necessidade de estimular as economias europeias, o desejo fundamental de Hollande. Sem esconder que existem desacordos, Merkel mostrou os terrenos de entendimento estabelecidos e vindouros. Hollande não se demonstrou menos diplomático ; pronunciou a palavra renegociação, evidentemente, mas para acrescentar de imediato que as formas jurídicas a definir dependeriam dos progressos feitos sobre o fundo. Por outras palavras : deixou perceber que poderia assinar o presente Pacto Orçamental caso sejam adoptadas paralelamente pela União medidas de crescimento satisfatórias, o pré-requisito básico.

No seu discurso do Eliseu, de manhã, Hollande já tinha falado da necessária redução das dívidas públicas, marcando assim que não era um perdulário cego e que não desejava aumentar a dívida. Hollande não fez a menor alusão a uma redefinição do papel do Banco Central Europeu – o que seria um «pano vermelho» para a Alemanha – mas falou dos empréstimos europeus e disse, como a chanceler, que a Grécia não devia sair do Euro ; que é necessário ajudá-la, acrescentou, mas que, para isso, tem de respeitar os seus compromissos.

Depois de um quadro ter sido traçado pelos dois dirigentes, são os seus colaboradores que vão ter de pôr em música uma mixagem – nada fácil de encontrar – de medidas liberais e keynesianas de relançamento económico. E, como se já estivesse feito, como se não houvesse a menor dúvida da sua viabilidade ou de um clash, a senhora Merkel acolheu favoravelmente a ideia adiantada pelo seu hóspede de um novo tratado bilateral ainda mais estreito entre a França e a Alemanha, os dois pilares da União.

Estes políticos são uns diplomatas maravilhosos.

 

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Que nojo me metem !

A minha perda de fé nos políticos não é de agora nem tem grande coisa que ver com a situação insustentável em que nos puseram. O que acontece é que, antes, desconfiava deles e, agora, manifestamente, metem-me nojo. Um nojo profundo que me faz virar os olhos com nostalgia na direcção de perversões que, parecendo menos recomendáveis, são, sem dúvida, mais decentes.

Presentemente, em certo ponto, até acho admirável o delinquente comum que rouba por necessidade, arrisca a pele e se expõe a passar uns longos anos na prisão. Nunca me senti enganado pelo delinquente, pela mulher da alcoceifa nem tampouco pelo junkie que me intimidava às noites porque sabia que o medo pode fazer de qualquer homem um ser razoável e compassivo. Faziam o seu trabalho e não surpreendiam ninguém. Os filhos da noite demonstraram-me que se pode ser indecente e eficaz ao mesmo tempo, do mesmo modo que o é o profiláctico abutre ao eliminar do campo a podridão dos cadáveres fermentados.

Ao contrário da inqualificável sordidez estéril da política, há em algumas especialidades do crime uma certa matiz de reequilíbrio moral, algo assim como um charuto ecológico. Houve alguns delinquentes que tinham acessos sentimentais de piedade para com as suas vítimas e sabiam desculpar-se. Estes indivíduos duros, em aparência frios e cruéis, chamam butim ao que os políticos, tão correctos e bem vestidos, chamam impostos. Na realidade, para mim, sempre houve pouca diferença entre os criminosos e os políticos, havendo mesmo uma ligeira vantagem a favor dos delinquentes. Com efeito, entre estes encontram-se indivíduos que, pelo menos, exercem a perversidade com imaginação, com criatividade ; não como os políticos que nos matracam incessantemente com a mesma postura e as mesmas frases.

Sempre desconfiei de quem se guia por cantilenas e desconfia da espontaneidade porque teme que o atraiçoe a franqueza, essa atitude que na vida política se considera quase uma patologia, uma debilidade imperdoável, algo de infeccioso que convém erradicar. O criminosos age motivado por uma necessidade imperiosa ou por um impulso incontrolável ; o político actua de maneira fingida e confusa, calculada, falsamente convencido de que o Zé Povinho não precisa de alguém que o administre, mas de alguém que o castigue. Só assim se pode perceber que a primeira tentação do político ao assumir o poder seja a de ditar leis restritivas da liberdade ou normas que causem sofrimento aos administrados. Disfrutam apertando as porcas ao cidadão. E incluso fazem tudo para o convencer de que é para seu bem que o prejudicam !

Nos tempos de crise como a que vivemos, em comparação com os políticos, os delinquentes comuns, agrupados numa silenciosa corte de proscritos com o seu orgulho, o seu amor-próprio e até a sua ética, converteram-se numa espécie de reserva moral ; transformaram o seu ofício numa espécie de humanismo mendicante, numa indústria atrevida e aleatória com escassos dividendos. Os políticos são outra coisa. Pretextando exercer um ofício eclesial em nome e representação do Zé Povinho, invadiram os territórios sagrados da delinquência comum, adjurando ordens contra os indigentes ; a sua hipocrisia e a sua higiene impedem-nos de admitir que a mendicidade seja a óbvia demonstração do seu rotundo fracasso. São, além disto, incapazes de admitir que, ainda que persigam os mesmos objectivos que os delinquentes, carecem da sua audácia, da sua dignidade e, particularmente, da sua vergonha.

 

J. L. A.

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Para quê festejar o 1° de Maio ?

Ao contrário da Santa Igreja, que enfrenta uma crise de vocações, o Santo Trabalho, apesar dos constantes constrangimentos da função, afixa um excedente de pretendentes em constante aumento. O Patriarca adianta que os homens não estão atentos à voz de Deus porque têm medo que lhes retire a liberdade ; o Patronato, que os trabalhadores têm de compreender e aceitar as razões pelas quais, friamente, lhes restitui a liberdade.

Para quê festejar então o 1° de Maio ? O próprio conceito de Festa do Trabalho não deixa de ser uma contradição terminológica. Trabalho e festa são ideias tão antagónicas como música militar, a neve negra ou a Justiça rápida, pelo que facilmente se compreenderá que a gente tenha resolvido esse contra-senso convertendo a festa do Santo Trabalho num fim-de-semana de repouso prolongado. São demasiados os descrentes que não vêem nenhuma razão para festejar o trabalho : uma maldição bíblica pela que se condena o homem a ganhar o pão com o suor da sua fronte. Não vejo, pois, por que criticar a atitude dos que descartam a reivindicação, preferindo, a despeito da crise, a vacação na praia.

Os sindicatos bem insistem em que o trabalho dignifica o ser humano e permite a sua realização como pessoa, ainda que a crescente afeição dos portugueses pelos jogos sugira que essas prédicas têm pouco eco entre a clientela.

Da intríseca perversidade do trabalho deram conta, em seus tempos, os cronistas do Antigo Testamento, que descreviam o Éden como uma espécie de asilo de anuitários que passavam os dias a lambê-la. Privados daquela idílica situação pela prevaricação de Adão e Eva, nós, os seus infelizes descendentes, sofremos da ominosa sentença do Supremo, que obriga a gente a vergar o lombo para ganhar o pão. O pão e pouco mais, naturalmente ; o que demonstra que o trabalho é coisa de pobres. Na realidade, a experiência mostra-nos que para ganhar para o chalé, o iate, o Mercedes e uma tranquilizadora conta bancária na Suiça se requerem outras habilidades que nada têm a ver com o trabalho e a achamboada transpiração que este acarreta às suas vítimas.

Apesar destas claras evidências, tende-se a valorizar o trabalho como uma virtude e não como um castigo. Nações povoadas por luteranos, calvinistas e outros hereges foram as primeiras a difundir estas teorias sacrílegas que triunfaram incluso no católico e outrora preguiçoso Portugal, onde, hoje, um emprego é a principal aspiração – para não dizer o sonho – de mais de 600 000 pessoas.

A crise acabou por santificar o trabalho na medida em que conseguir um emprego actualmente se pode considerar um milagre e dos grandes. Depois de convertido em fardo bendito o que outrora foi maldição bíblica, seria de esperar que os devotos do Santo Trabalho festejassem de modo multitudinário a ocasião que o almanaque lhes oferece amanhã. O problema é que as tentações de um longo fim-de-semana são grandes e podem mesmo atenuar a fé dos mais crentes.

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Hollande, uma chance para Portugal ?

Todos sabemos que em Portugal as coisas nunca se fizeram nem são como nos outros países europeus. Não nos assemelhamos a nenhum em nada. As notícias dos acontecimentos chegam-nos uma, duas ou mais horas depois. Exageramos em tudo. Em todos os países há corrupção, maus políticos e indigentes – sem ir mais longe – mas nós temos mais.

A norte dos Pirenéus, há uma república consolidada com uns valores cidadãos perfeitamente arraigados e compartidos, apesar das diferenças ideológicas. Na extremidade sudoeste da Europa, uma república com todo o aspecto de uma interinidade problemática, como o demonstra o boicote da Associação 25 de Abril e de alguns homens políticos às comemorações do dia da Revolução dos Cravos. Actualmente, temos uma nova constatação dessas diferenças.

Em França, esperando que a segunda volta o confirme, parece destacar-se uma viragem à esquerda do eleitorado, enquanto que em Portugal se está à mercê de uma direita ultraliberal que põe em causa todos os direitos sociais que prometia respeitar. O resultado das eleições presidenciais francesas, seja ele qual for, é de uma grande importância para o futuro da União Europeia ; se ganham os socialistas, com o apoio do resto da esquerda e incluso de uma parte do Front National, romper-se-á o eixo franco-alemão (caricaturado com o Mercozy), e pôr-se-á em questão uma hipotética saída da crise com recortes brutais em sectores imprescindíveis e uns parâmetros de défice que agravam a depressão económica. Ao mesmo tempo, ter-se-á posto um termo à carreira de Sarkozy, um político trafulha, que denegriu a imagem da direita gaullista, de onde saíram dirigentes de grande estatura – e não só física - como o próprio De Gaulle, Pompidou e até os contestados Giscard e Chirac. A utilização perversa que este antigo ministro do Interior fez dos conflitos sociais, da aventura militar na Líbia e de alguns episódios de luta antiterrorista (não esclarecidos), a fim de seduzir alguns votantes da extrema direita, acabou por se virar contra ele.

Com o aumento do voto na extrema-direita,  não é apenas o futuro de Sarkozy que está em jogo no dia 6 de Maio ; a sua derrota fará explodir o partido gaullista que o apoia, a UMP. Já se especula que, no futuro, a direita francesa poderia formar um núcleo em torno do Front National e não do partido gaullista UMP, o partido que outrora se orgulhava da sua independência em relação a interesses estrangeiros (saída da OTAN) e mantinha uma política que protegia o papel central do Estado no económico e no social.

Até nisto, como não podia deixar de ser, nos distinguimos da França. A nossa extrema-direita, invisível, é muito mais eficaz : integrou-se desde o 25 de Abril nos dois partidos que constituem a direita portuguesa.

E assim vamos vivendo no nosso cantinho, à espera de D. Sebastião.

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Seja patriota : deixe-se morrer.

A gente vive mais tempo do que o aconselhado e não morre quando é devido, segundo acaba de descobrir com lógica consternação o Fundo Monetário Internacional.

Os hierarcas do FMI temem que a atitude pouco solidária dos que tardam em deixar este mundo cause graves danos à tesouraria dos Estados e às companhias de seguros incumbidas dos pagamentos das reformas desta parte da população pouco produtiva. Daí a fixar uma idade máxima de falecimento, é só um passo ; ainda que, felizmente, não encarem, para já, a aplicação de tal medida.

O que sugere o influente organismo, patroneado até há pouco pelo sátiro Dominique Strauss-Kahn, é dilatar de uns quantos anos a idade da reforma dos trabalhadores e, já que se está com a mão na massa, reduzir também o montante das reformas que possam cobrar futuramente. Mas isto já é, praticamente, coisa feita. O mais que poderia ocorrer agora era que nos prorrogassem até aos 70 ou 75 anos o direito à jubilação.

Estão descartadas, em qualquer caso, disposições mais extremas, como a retirada da pensão aos que insistam em viver mais do que a conta. O que não deixa de ser um alívio, dada a tendência dos governos a assumirem diligentemente como próprias as recomendações do FMI.

Curioso papel o deste organismo das Nações Unidas que nasceu com o propósito de facilitar o comércio internacional e – por assombroso que pareça – reduzir a pobreza no mundo. Estas benéficas intenções chocam, contudo, com a função de severa madrasta assumida pelo Fundo, sempre queixoso do muito que ganham os trabalhadores e do pouco que produzem em troca.

Os governos costumam seguir ao pé da letra estas observações : assim se explica que de há uns anos para cá não cessam de baixar os ordenados, engordar os horários de trabalho, emagrecer as pensões, abaratar os despedimentos e acrescentar anos ao calendário laboral dos pobres  trabalhadores.

Animado talvez por essa boa disposição dos governantes, o FMI deu agora mais um passo ao alertá-los do «risco» que supõe a circunstância inesperada – e, claramente, intolerável – de que à gente lhe tenha pegado o capricho de morrer mais tarde do que devia. Tamanha falta de solidariedade dos duradouros para com o resto da população deitou por terra os cálculos do Fundo ; de tal modo que os seus hierarcas começam a sentir nostalgia dos tempos medievais, quando a esperança de vida não ultrapassava os módicos quarenta anos.

Não se trata de que o FMI queira voltar à Idade Média ou aos tempos da escravatura ; ainda que às vezes o possa parecer. Talvez aconteça, simplesmente, que, à força de trabalharem todo o dia com números, inputs, outputs e balanças de pagamentos em desequilíbrio, os contabilistas desta poderosa organização tenham esquecido que, por detrás dos números, há pessoas ; pessoas que, egoistamente, esperam falecer o mais tarde possível, sem a menor consideração pelos governos e as asseguradoras. Por este andar, morrer vai passar a ser um acto de patriotismo.

 

A. V.

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Viragem na democracia.

Algumas das diversas possibilidades, utilidades e vantagens da internet já foram demonstradas pelo mundo fora. A Primavera Árabe foi um dos mais recentes eventos apadrinhados pela Rede que originou (entre outras coisas) uma nova forma de intervir, ao lado dos partidos e dos sindicatos, na coisa pública. Mas existe outro fenómeno que deve tudo ao mesmo benfeitor : o partido alemão Os Piratas que, apesar do nome assustador, conseguiu, num abrir e fechar de olhos, colocar vários deputados em parlamentos regionais e se dispõe a entrar noutros.

Com a sua maneira singular de fazer política, Os Piratas são a perplexidade. Representam um sopro de ar fresco, como Os Verdes alemães há trinta anos. Estes, que começam a ser vistos como uns has been, mostram sérios sinais de desgaste desde que os seus temas (principalmente a defesa do meio ambiente) são desenvolvidos pelos partidos clássicos.  

Os Piratas trabalham com a net, que é como o seu líquido amniótico. Os seus militantes mexem-se no ciberespaço como o peixe na água. Ali, não há congressos de porta fechada para tomar decisões que afectam toda a militância. Tudo se faz com total transparência. Os debates são transmitidos pelas webcams à Rede de modo que nenhum afiliado se sinta excluído. Os canais digitais como Twitter ou o software de democracia directa Liquid Feedback servem para apresentar propostas e discuti-las entre todos os afiliados até à saciedade.

Os órgãos de direcção também não se parecem nada com os dos outros partidos. Ninguém quer passar por um profissional da política nem dar a impressão de se aferrar ao cargo. E, acima de tudo, tem que estar disposto a aguentar os ataques, muitas vezes virulentos, na Rede dos outros.

Os Piratas surpreendem muitas vezes os outros partidos com temas novos, especialmente os relacionados com a transparência, a gratuidade de internet, a protecção de dados e a rejeição das patentes ou dos direitos de propriedade intelectual. É nesta matéria que se sentem à vontade e que parece preocupá-los acima de tudo.

Outros assuntos fundamentais para um país, como a economia, as finanças ou a política exterior, parecem ser-lhes muito mais alheios. É uma das principais críticas que lhes fazem. Outros reprovam a cacofonia de vozes, a falta de filtros quando se trata de admitir os afiliados – o que explica a presença, logo corrigida, de indivíduos com simpatias neonazis – ou a dificuldade que demonstram em tomar decisões, consequência de uma democracia de base puxada a extremos estafantes.

Visionários ou ingénuos, egoístas ou pós-ideológicos, segundo o ângulo, estes filhos da revolução digital têm, pelo menos, a virtude de nos mostrar que a forma opaca de fazer política dos partidos tradicionais, as suas listas fechadas e bloqueadas, a disciplina de voto que exigem aos seus deputados e a excessiva afeição destes pelo assento, estejam no Governo ou na oposição, tende a converter-se em coisa do passado.

 

J. R.

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Magia estimuladora.

Circula por aí um livro intitulado «Os enganos da mente», escrito por dois neurocientíficos que utilizam as artimanhas da prestidigitação para estudarem o funcionamento do cérebro. O preocupante é que chegaram à conclusão de que estamos constituídos para sermos enganados e que, da mesma maneira que não conseguimos perceber como um ilusionista pode fazer desaparecer uma moça de um metro e setenta numa caixa de sapatos, qualquer pessoa é capaz de convencer outra de que precisa de comprar o endurecedor de glúteos do televendas ou de investir os 20 000 euros de poupança na compra de uma porta de garagem telecomandada, inventada por um tipo da aldeia onde ele nasceu.

Asseguram estes científicos (que se autodefinem como neurómagos) que nós, humanos, nos enganamos constantemente uns aos outros, algo facilmente perceptível (acho eu) e que não necessita de cinco anos de carreira e outros tantos de investigação.

Mas eles vão mais longe e afirmam que, como no ilusionismo, também existem astúcias na publicidade, numa negociação empresarial ou nas relações pessoais para que o nosso cérebro se despiste. Assim, é mais fácil que nos enganem se estamos a fazer várias coisas ao mesmo tempo, se não estamos suficientemente concentrados e se não temos memória suficiente para nos lembrarmos como nos foderam a última vez. O maior perigo, sem dúvida, é quando o nosso interlocutor é um ser encantador e simpático. Neste caso, dizem, o nosso cérebro torna-se mais propenso ao engano. É certamente por isso que, para venderem aspiradores, procuram sempre indivíduos muito bonitos, com lengalenga e sorriso perpétuo. Não é para me gabar, mas isto também o sabia, apesar de só ter a quarta classe. Fui interiorizando o processo sem precisar de manuais, depois de ver uma vez uma jovem encantadora desarmar um polícia que dois minutos antes me tinha multado sem contemplações. Para não falar de um dia que entrei num restaurante ao mesmo tempo que dois jovens pimpões : a empregada apenas me pôs o prato de fanecas diante depois de ter servido a sobremesa aos dois moços, com os quais não parara de gracejar.

Nada de novo, pois, ainda que seja de agradecer que a ciência corrobore o facto de que que todos estamos programados para que nos enganem com dois truquesitos de magia baratos. Pelo menos, quando leiamos ou ouçamos os políticos falar de crise, greves, subida da gasolina, ajustes, recortes, adequações ou optimização, ao menos saberemos que, se estamos como estamos, é porque os nossos cérebros estão feitos para crermos em tudo.

 

I. V.

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Prática vintage.

Usada provocadoramente pelos adolescentes na borga desde que os primeiros supermercados viram o dia na Europa, conhecida e utilizada para matar a fome pelos que passaram por França, Holanda ou Dinamarca fugindo a ditadura salazarista, esta prática está novamente na moda, graças às situações desesperadas engendradas pelas dificuldades económicas. Mau sinal. Este uso consiste em abrir disfarçadamente uma lata de conservas dentro do supermercado e comer o conteúdo ali mesmo, com uns pedaços de pão de forma fresco retirados do saco. Quem diz conserva, diz umas fatias de presunto, umas rodelas de chouriço Revilla ou uma pasta de chocolate. Quando se passa pela caixa, em vez de se levar a comida no carrinho, leva-se no estômago, e talvez já a digerir. Consta que há inúmeras queixas provocadas por actos desta natureza, contra os quais pouco se pode fazer. Fome é fome e neste preciso momento há gente que não tem nada que meter na boca nem esperanças de resolver o problema. Mau sinal. Entre nós, contrariamente ao que se passa noutras sociedades, a solidariedade familiar ainda vai funcionando moderadamente. Contudo, as economias não são eternas e a reforma da avozinha não dá para fazer milagres. Quando há um problema no quarto de banho já ninguém chama o canalizador. Todos se estão a fazer meios electricistas, carpinteiros ou mecânicos. O bricolage, que durante os anos das vacas gordas era um passatempo de fim-de-semana, está-se a tornar uma necessidade peremptória. Eis outra coisa que está na moda : necessidade peremptória, signifique o que signifique peremptória.

O problema de tudo isto, segundo se deduz de conversas privadas com pessoas de carreira, é que não há terra à vista. Nem sequer pássaros, cuja presença poderia anunciar a proximidade de uma ilha. Em tal situação, quando o escorbuto começa a dizimar a tripulação e o desânimo se instala nos camarotes, precisa-se de um timoneiro que faculte segurança, que dê, pelo menos, a impressão de saber para onde nos dirigimos. As pessoas ouvem os telejornais todos os dias e, infelizmente, não ouvem nada disso. O furto por fome é uma forma de saqueio civilizada, mas não anuncia nada de bom.

 

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Beber ou conduzir, eis a questão !

O preço da gasolina não cessa de subir. Portanto, os aiatolas iranianos ainda não  fecharam a torneira do precioso bruto aos europeus. Parece mentira, mas vive-se num país onde fica mais caro dar de beber ao automóvel do que ao seu proprietário. Bem, o carburante ainda não alcançou o preço de um Château Latour ou de um Alvarinho, mas já iguala ou excede o de um vinho alentejano ordinário (do que bebe um amigo meu em Queluz), não revelando qualquer indício de querer estabilizar o preço algum dia.

Tudo isto está, decerto, relacionado com os mecanismos vagamente misteriosos que fixam os preços do solicitado combustível ; mecanismos estes que dão a alguns matéria para suspeitarem de acordos secretos entre as grandes companhias petrolíferas. Realmente, não é raro que os tribunais competentes investiguem para tentarem descobrir se os distribuidores pactuam entre eles as importações ; mas isto não é mais do que um mero detalhe da explicação. Mais incompreensível é o facto de a gasolina subir quando sobe o preço do petróleo e, ao contrário, não baixar – o que é ilógico – quando se reduz a cotização do barril de Brent. Os que sabem disto dizem que a compra do petróleo se realiza vários meses antes da gasolina ser posta à venda, circunstância que, naturalmente, deveria obrigar as companhias a diferirem as repercursões no seu custo quando sobe ou quando baixa. O surpreendente, sem dúvida, é que a subida do ouro negro se patenteia imediatamente nas bombas de gasolina, enquanto que a baixa demora vários meses, quando se verifica.

Os atacadistas de gasolina alegam, por sua vez, que o Estado também possui importantes interesses no negócio, pois recauda mais de metade do custo do litro. Os governantes não o negam, ainda que a miúdo se justifiquem com pretextos ridículos para meterem a mão nos bolsos dos contribuintes. As Finanças agrupam sob a rúbrica "especiais " os impostos que gravam o combustível que propulsa os automóveis e outras máquinas, o ingurgitado por via oral pelos seus condutores, assim como o cigarro que fumam. Explicava didacticamente um governante que a subida das taxas sobre o álcool e o tabaco ajudaria os adictos a libertarem-se do vício ; do mesmo modo que a subida do preço da gasolina reduziria inevitavelmente o uso do automóvel e, em consequência, a emissão de gazes com efeito de estufa. Só não se consola aquele que não quer.

Obrigados a deixarem o carro na casa por falta de dinheiro com que pagar o líquido que o faz andar, milhares de portugueses estariam a contribuir para a melhoria do meio ambiente do país  e a tornar o ar que se respira mais limpo. A crise deixa muitos portugueses sem emprego mas, em contrapartida, favorece e melhora a sua frágil saúde e reduz de modo categórico o número de acidentados do trabalho. Seja qual for a razão das subidas que anualmente vão enfunando o preço da gasolina, o certo é que os gastos suplementares estão a alterar a boa ordem das coisas. Tanto que já começa a sair mais oneroso o abastecimento do automóvel em bebida do que satisfazer as urgentes necessidades etílicas de quem o conduz. Como se, antigamente, o cavaleiro tivesse que se privar de uma parte do seu sustento para pagar a alfafa da cavalgadura.

 

A. V.

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Todos podres ?

 

É inverosímil o à-vontade com que os políticos acusados de corrupção e outras indelicadezas comparecem diante do juiz e estupefaciente a facilidade com que os cidadãos controlam o descontentamento, permanecendo impassíveis perante a reiteração de semelhantes casos. Às vezes, tem-se a sensação de que os políticos suspeitos não só desdenham sem o menor remorso os requerimentos judiciais como também semeiam sérias dúvidas sobre a possibilidade de serem os juizes a carregar com as responsabilidades das acções que empreendem. É tal a quantidade de políticos postos em causa - seja qual for a ideologia - que até se pode crer facilmente que um político acima de qualquer suspeita é considerado uma personagem molesta e com pouco futuro no ofício. Além disso, existe entre os políticos uma norma não escrita em virtude da qual se impõe o cerramento de fileiras e o apoio incondicional ao suspeito do bando, algo que dantes se considerava próprio das organizações de estirpe mafiosa. Naturalmente, a classe política é composta por uma maioria de mulheres e de homens de conduta imaculada ; gente com a consciência e a boca mais limpas que o cu. Mas não lhes adianta serem decentes enquanto não houver quem remova a camada de me*rda hierárquica que os impede de levantar a cabeça e respirar. Apesar de representarem uma percentagem reduzida, os políticos corruptos mancham e denigrem os restantes, do mesmo modo que se eclipsa inesperadamente o prestígio do afamado restaurante por causa da put* da mosca que apareceu a flutuar no consomê do seu melhor cliente.

Por vezes, dou comigo a pensar nos inconvenientes da consciência suja como, em determinado sentido, um conceito moral passado de moda. E, às tantas, é verdade.

 

A. E. C.

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Madame la Directrice.

Uns dias atrás, li este artigo sobre Christine Lagarde, directora do Fundo Monetário Internacional, ou seja, uma das mulheres mais poderosas do mundo.

Depois de ter ocupado vários postos ministeriais em França, incluído o de Economia, aproveitou a defenestração do seu antecessor, Dominique Strauss Kahn, por aquele confuso flerte com uma empregada de quarto num hotel de Manhattan, para conseguir colocar-se à frente de um organismo que, entre outras actividades, se ocupa de nos apertar o cinto para sairmos da crise ou sair ela de nós.

« Madame la Directrice », como parece que a tratam os seus subordinados, aparenta os 56 anos que tem devido, em grande parte, à sua cabeleira totalmente branca e à sua propensão a quase não utilizar maquilhagem, o que não a impede de destilar essa classe e elegância de mulher bem francesa. Dizem que nem fuma, nem bebe, nem come carne ; que é muito trabalhadora, ambiciosa e inteligente. Depois de dois casamentos fracassados e dois filhos, mantém, há já vários anos, uma relação com um empresário marselhês ao que, desde que se mudou para Washington, só vê uma vez por mês. O homem deve ter algo de canalha, visto o teor da confissão que fez diante de jornalistas : « O meu cargo é ocupar-me do PIB, prazer interior bruto, da minha noiva ».

Quanto às suas afeições, além de praticar natação sincronizada quando era jovem, gosta de pesca submarina, de ioga e de jardinagem. À parte de que seja uma defensora do neoliberalismo económico, pois para isso está onde está, não há mais que dizer desta mulher até se olhar para o seu saco, a sua roupa e o seu trem de vida.

Quando foi nomeada à frente do FMI, a primeira coisa que esta mulher fez foi aumentar o salário para 418 000 € anuais, uma subida de 11% em relação ao seu antecessor. Não está nada mal para um organismo que nos obriga a manter uma austeridade maior do que a de um mosteiro cisterciense. Apesar da sua discrição, é habitual vê-la com trajes Chanel e é uma amante de jóias, algumas de preços proíbitivos. Tampouco economiza na sua vivenda. Quando chegou à capital estadunidense, contam que alugou uma habitação com um só quarto por 5 000 dólares mensais e comprou, em seguida, um apartamento numa zona singular, perto do edifício do FMI. Nada disto seria de estranhar noutra época, nem o seria agora se fosse uma actriz ou uma empresária de êxito. O problema é que ela simboliza a austeridade e os cortes draconianos numa Europa cada vez mais empobrecida, pelo que não seria demais que, antes de defender em público novos ajustes para a Grécia, deixasse na casa o saco Hermès cujo preço não é inferior a 6 000 euros. Pelo menos, para não provocar.

 

I. V.

 

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Nova religião.

O euro devora-nos como uma doença degenerativa. E parece não ter tratamento. Nenhuma das medicinas experimentadas na Grécia aliviou o paciente. Pelo contrário, depois de dois anos de técnicas invasivas, o país helénico encontra-se ao bordo do precipício, ardendo de febre pelos quatro costados e com o corpo repleto de escaras. O euro vai-lho comendo como a lepra, como o mal da pedra que borra o rosto das arquitecturas clássicas. O euro é um Deus de ficção, como todos, ao que é preciso alimentar, sem embargo, com sacrifícios reais. Já lhe oferecemos milhares de donzelas e de jovens atirados para o desemprego estrutural sem que a sua sede de sangue se atenue. Não há maneira de saciá-lo. O seu representante na Terra, Angela Merkel, revelou-se uma papisa de uma crueldade extrema à que não bastam nem as reformas laborais empreendidas nem os cortes na educação ou na saúde. Já temos uma geração sacrificada, uma geração perdida que se prostrou aos seus pés, para que faça com ela o que queira, mas não chega. Têm de morrer ainda muitos idosos por falta de assistência, têm de falecer todavia milhares de enfermos por falta de quirófanos, tem de deteriorar-se a educação até extremos desconhecidos para que o Deus Euro (a partir de agora com maiúscula) e a sua papisa Merkel se dêem por satisfeitos. Nem o Deus do Antigo Testamento, com o que era, lhe chega aos calcanhares em ferocidade, brutalidade, barbárie. Continuem a baixar as pensões e os ordenados, legalizem o horror de assédio empresarial, condenem à indigência 30% da população e depois veremos. A fúria do Deus Euro, desatada na Grécia, ameaça Portugal, Itália e Espanha. Passos Coelho, que quando estava na oposição falava como um ateu, já se prosternou diante da papisa implorando piedade. Faremos o que nos pedir para que a ira do seu Deus não nos atinja. Mas atinge-nos, e de que maneira ! Sempre se disse, porque há constância nisso, que nada provocou mais mortes ao longo da História do que as religiões. Também esta nova religião, e aparentemente laica, denominada Euro, está a ponto de acabar connosco.

 

J. J. Millás

 

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Sofrimentos insensatos (fim).

   O Fedelho seguiu-o até à porta das cortes e sentou-se ao lado. O Armindo foi trazendo toros de pinheiro e de carvalho até constituir um elevado monte. Depois, cuspiu nas mãos e, com o machado que era minuciosamente amolado pelo Salvador, foi rachando, fazendo com um toro quatro boas achas. A energia colossal que dele se desprendia atirava com as achas às viravoltas a uma distância considerável. Quando o machado rachava o toro, era na gente do lugar, nos pais da Lídia, no padre, na mãe, no pai, nos amigos, no velho pedinte, no destino... que ele pensava. Por causa deles, não pudera desenvolver aquela vitalidade admirável com a qual o seu coração se abraçara, se aninhara no da rapariga mais linda, mais angelical do lugar. Ele, aleijado, a risada dos apoucados, despertara sentimentos afectuosos, amorosos, numa moça que não tinha a menor dificuldade em encontrar alguém conveniente. E, isso, para ele, era a prova de que os sentimentos não precisam de olhos para se poderem revelar e ancorar. Só os que não têm sentimentos é que se guiam pelo olhar que, forçosamente, é falacioso e lhos desenvolve erroneamente.

   Detestava esta gente toda como nunca pensara que fosse possível detestar alguém. Sentia-se roubado. Tinham-no desbulhado, despido da única coisa para a qual o seu infortúnio não era uma atrofia. Percebeu que a pouca dignidade e respeito que lhe tinham deixado não eram mais do que um véu tão transparente e fino, que a mais derisória corrente de ar não tinha qualquer dificuldade em precipitar. Como no mundo animal, os mais vulneráveis são sempre os primeiros a cair. Já não tinha importância nenhuma para ele.

   À medida que ia estilhaçando os toros, crescia nele a sensação de que, finalmente,  começava a saborear este sofrimento abjecto, consubstancial. Quanto mais aumentava o ódio monstruoso e a aversão que sentia por quem lhe tinha feito mal, por quem o tinha vilipendiado, mais o gozo e o sarcasmo o exaltavam, imaginando a cara assombrada que as velhas do lugar, meias beatas, meias pitonisas, afixariam. Já as ouvia bisbilhotar entre elas: “Eu bem vo-lo dizia que ele não era muito correito.” Ou: “Aquele rapaz não era obra de Deus, já o sabia.”

   Transpirava por todos os poros, mas rachou os toros sem fazer uma pausa até acabar. Em seguida, depois de limpar o suor da testa com a manga da camisa, amontoou as achas dentro da corte, por cima de muitas outras. Depois, encheu a caneca de lata do vinho verde fresco e espumoso de que tanto gostava e que esvaziou em poucas goladas. Fez estalar a língua e ficou uns instantes a olhar para o tecto da corte. O Fedelho, deitado sobre as patas dianteiras, seguira tudo o que o seu amigo fizera e, durante o tempo todo, não tinha mexido, como se o instinto lhe permitisse farejar os fatais pensamentos que ferviam no espírito do rapaz. O sol tinha desaparecido e o dia, sem fazer barulho, ia penetrando fortemente no crepúsculo. Era quase noite quando subiu as escaleiras e fez a porta queixar-se mais uma vez.

XXV

   Na manhã seguinte, a Palmira pôs-se a pé à hora habitual. Estava um pouco arreliada porque fora acordada de noite pelos uivos inabituais do Fedelho. Preparou as sopas de cevada com leite que comeu com calma e indiferença, a pensar, como sempre, nas tarefas ordinárias que a esperavam. Lavou a sua malga, o prato e a tigela que o Armindo deixara por cima da mesa naquela noite. Estava mesmo cansado, pensou, lembramdo-se dele, pois ficara a dormir. Deu uma olhadela na mãe que ressonava e fez chorar mais uma vez a porta da casa. O ar era fresco e um vento fraco, mas cortante, puxava, no céu, grandes núvens sujas, como que lavadas de tinta. Desceu as escaleiras pausadamente e dirigiu-se para a corte onde tinha as cordas e a foucinha. Deitou a mão à chave mas constatou logo que a porta não tinha sido fechada à chave. Empurrou-a mas não passou do limiar. Na ponta duma corda, pendia o corpo do Armindo, inerte. A seus pés, deitado, o Fedelho, que a fitava atentamente.

 

Epílogo.

 

   Deus ouviu as preces reiteradas da Delfina, consentindo-lhe abraçar, mais cedo do que ela pensava, o seu querido Belardo pela última vez, e conduzindo-a, fortuitamente, numa completa ataraxia, durante uma soneca na sua deificada cadeira, para junto do seu “Bilinho”, algumas semanas mais tarde.

   O Belardo, por sua vez, à vista dos nefastos acontecimentos, decidiu pôr ponto final às estadias fora da terra para se ocupar da esposa atrabiliária que, desde que o filho se suprimiu, deixou totalmente de falar, afastando-se ainda mais do homem e de todos.

   A Áurea acabou por casar e, vista a indiferença com que era recebida pelos pais asténicos, acabou por  espaçar gradualmente as vindas a Orjás.  

   Quanto à Lídia, ficou solteira e a sua mãe acabou por expirar. O pai substitui-a na cama pouco tempo depois. Era vista frequentemente no caminho do moinho do “tio” Júlio, instalada no muro, por debaixo do velho carvalho, onde estivera sentada pela última vez com o Armindo. Falava animadamente com um interlocutor invisível, dando esporadicamente extravagantes gargalhadas, seguidas de estranhos e prolongados prantos convulsivos. Incontestavelmente, não se tinha acomodado da morte do rapaz. Diziam que tinha “virado da cabeça”. 

 

Dedicado aos meus amigos do Monte.  

 

Julho de 2010.

António El Cambório.

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Sofrimentos insensatos 23.

XXIV

   O Fedelho punha-se todos os dias à espera do Armindo e do gado diante do portão de ferro. Como todos os cães, pressentia a presença deles uns minutos antes destes entrarem por ele adentro. Sabia que não tardariam e quanto mais perto os sentia, com mais intensidade abanava o rabo.

   Naquela casa, tudo estava ordenado, regulado. Todos sabiam o lugar que ocupavam, quais eram as suas tarefas e quando deviam ser feitas. Os dias repetiam-se há muito e cada vez se pareciam mais.

   Depois de o rapaz abrir o portão e os animais terem entrado, o cão, abanando o toco, esfregou-se insistentemente contra ele. Dava a impressão que entrevia o desgosto que submergia o seu amigo, o seu companheiro, e queria confortá-lo. O Armindo fechou as portas das cortes e agarrou no Fedelho que levou no colo até ao cimo das escadas. Entrou e fechou a porta cujos gonzos não deixaram de pedir sebo mais uma vez. A avó estava sentada na sua cadeira, toda risonha, e a mãe, à mesa, virada para ela. Deu-lhe a impressão que tinha interrompido a conversa que, à primeira vista, devia ser cordial. Sem uma palavra, arrumou o pau ao lado da porta, o saco por cima do móvel e dependurou o casaco no pau. Cansado, puxou uma cadeira e sentou-se, a olhar para a avó, silencioso.

   O seu espírito estava longe, divagava, confuso, perdido, no meio de um espesso nevoeiro. As fontes latejavam-lhe continuamente. Passou uma mão pela testa exsudada. Ficou-lhe ensopada e enxugou-a dissimuladamente na manga da camisa. A agitação desmedida provocou sempre nele um excesso de transpiração que o indispunha. Por momentos, instintivamente, continuava a pensar na Lídia e o sangue, ardente, ria no seu corpo. Fragmentos absurdos de frases da conversa que tivera com a rapariga não deixavam de lhe molestar o desvairado espírito. À primeira vista, o seu aspecto não revelava nada do ferimento secreto que o devorava, mas não estava suficientemente dissimulado para conseguir iludir o penetrante olhar e o acerado faro da avó.

   -- Estás cansado, não Mindo ? – perguntou-lhe a avó, não sem uma ponta de ironia.

   A velhota percebera que o rapaz estava contrariado, mas, apesar da sua perspicácia, não podia imaginar a que ponto a exasperação o comia. Confuso, sorriu e, sem olhar para a avó, respondeu-lhe que sim. Revoltava-o não lhe poder dizer a verdade pois conhecia a sua extraordinária susceptibilidade e não queria vê-la atormentada.

   A Palmira, que desde que o filho entrara não mexera nem dissera uma palavra, levantou-se e, com a calma crónica que a distinguia, dirigiu-se para os quartos.

   Ficaram os dois, em silêncio. A avó observou-o calmamente uns segundos e, vendo que o rapaz, triste, não tirava os olhos do chão, disse-lhe no tom afável e adocicado como só ela sabia exteriorizar:

   -- Sabes, meu Mindinho, a tua mãe recebeu hoje uma carta do teu pai que eu esperava ha muito. Ai que saudades tenho dele ! Que Deus no-lo traga passar o Natal a Orjás, meu filho. Passa tanto tempo sem vir à terra !

   Voltou a esboçar um sorriso e, embora sem vontade, levantou o olhar do chão e fixou-o confusamente na avó, cujos olhos, cintilantes de felicidade, davam a impressão de querer saltar das órbitas ressequidas. Não se sentia nada bem. Levantou-se com incongruência, e depois de ver que restava um pouco de vinho na caneca, deitou-o numa tigela que esvaziou imediatamente. Se estivesse só, tinha dado uma boa golada na garrafa de aguardente que se encontrava no armário da sala. Precisava de um estímulo vigoroso.

   Apareceu a mãe com a carta na mão e entregou-lha. A Palmira não fora à escola. O rapaz abriu-a meticulosamente com um canivete e leu-a em voz alta. As duas mulheres estavam inquietas, mas não era pelas mesmas razões. Quando leu a passagem em que o Belardo anunciava a sua chegada para o 21 do mês de dezembro a Delfina louvou o Senhor fazendo o sinal da cruz e a sua cara fendeu-se num enorme e aprazível sorriso de contentamento e alívio. 

   -- Deus ouviu-me. Não me quer levar antes de o ver pela última vez – comentou.

   A cara da Palmira não manifestava qualquer alívio ou alegria. A novidade, aparentemente, não tinha excitado qualquer contentamento na mulher. Já nada exercia fosse o que fosse sobre ela. A ausência contínua do Belardo acabara por criar nela uma sensação de derrelicção que, por sua vez, a foi tornando indiferente, desmazelada a tudo e a todos com o decorrer dos anos. Ninguém partilhava com ela a mágoa que o aborrecimento lhe proporcionava. A solidão das pessoas dá cabo de tudo, amolece a terra e faz perder a alma aos seres. É a desgraça suprema. Eram tantas as dores e as lágrimas que a tinham afogado, que o amor, há muito neglijado, se extinguira e transformara em cinzas. Para ela, o marido não passava de um estranho que se vinha intrometer, por umas semanas, na sua vida rotineira, na parte mais íntima do seu corpo, mais por necessidade do que por amor e ao qual tinha que se abaixar. A sua presença era um estorvo, um obstáculo. Foram tantos os anos que passou sem ele que se alegrava de nada mais possuir em comum com este homem e de poder odiá-lo libremente. Sentia-se forte, pois já nada mais tinha para perder. Era tempo de cessar de pensar e de se acomodar, da maneira mais superficial, às circunstâncias.

   A impertinência da missiva exprimiu-se através do silêncio glacial que se prolongou depois do termo da sua leitura. O Armindo estendeu a carta à mãe, baixou a cabeça, fincou o queixo no punho, sem manifestar nada de patente e ficou a olhar para a lareira, trepidando, como se estivesse avinhado. A Palmira agarrou na carta e dirigiu-se novamente para o quarto onde a tinha ido buscar. Apenas se ouvia o estalido da lenha no lume.

   A pobre Delfina não deixou que lhe enlutassem o momento de grande alegria que não tinha há anos e que tanto desejava. A atitude da filha não a espantava absolutamente nada pois os acontecimentos sobrepunham-se num lapso de tempo demasiado curto. Os aborrecimentos ainda estavam fortemente vivos e a fobia que certamente se apoderara dela não ia ser fácil de evaquar tão depressa.

   -- Tu não ficaste contente, Mindo  ? – perguntou ao neto.

   -- Fiquei, avó, mas estou cansado.

   -- Os teus olhos estão tristes. Tu não estás bem ?

   Não tivera coragem para levantar os olhos da lareira e enfrentar o olhar cordial mas circunspecto da avó que não ficara nada satisfeita com a resposta. Gostaria tanto de ter a coragem necessária para lhe contar a pena funesta que se apoderara dele, o envenenava e o impelia a destruir-se. Era um jovem e, portanto, naquele momento, parecia mais velho do que a avó que tinha cinco vezes a sua idade. É bem verdade que a pior velhice é a do estado de espírito, que corroi, que se alimenta de desgostos e que definha as pessoas brutalmente. Tinha que sair, que respirar. Não queria aviltar o contentamento, a felicidade que a notícia da vinda do pai tinha prodigado à sua avó. Levantou-se delicadamente, baixou-se diante dela e agarrou-lhe nas mãos cadavéricas que acarinhou.

   -- Avó, não faça caso de mim que eu ando aborrecido mas isto não é nada. O que quero é que você esteja contente por o meu pai enfim vir. Vou ir para o quinteiro rachar lenha, que me vai fazer bem.

   Sentiu um desdém aflitivo por si. Que coisa estranha ! Havia muito que se prometera honestidade, confiança e harmonia assíduas entre as palavras, os actos e a sua pessoa, que se jurara nunca mascarar os seus pensamentos e eis que, fortuitamente, se pusera a seguir as pegadas da mentira, a glorificar a hipocrisia, a erigir sebes de sorrisos e a forçar os olhos e os lábios a exibirem uma felicidade inexistente. A verdade fazia-o corar e exasperava-o. Tinha vergonha de se ter deixado subjugar pelos sentimentos.

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