CENSURA E CENSURA E CENSURA...
Em primeiro lugar quero agradecer-vos a amizade e confiança que em mim depositam. Espero que esteja tudo a correr bem convosco.
Se me permitem, vou tentar explicar em breves linhas o que me anda a deixar tão desesperado, à beira de um esgotamento nervoso:
Durante vários anos fui escrevendo sátiras no meu blogue “dissidencias”. Enquanto permaneci no anonimato, apenas sob o pseudónimo “dissidencias”, a Universidade do Minho não me disse nada, até porque desconhecia estes meus projectos criativos. Pouco a pouco comecei a aparecer em jornais e em programas de rádio onde falava destes meus trabalhos e quando sai do anonimato, um órgão da Universidade do Minho (em Dezembro 2007) decidiu que eu, Daniel Luís, desprestigiava a UM com as minhas crónicas satíricas (que já devem conhecer e que são inofensivas para a minha instituição, do meu ponto de vista), pelo que deveria encerrar o meu blogue e ainda deveria abster-me de participar em programas e iniciativas ligadas ao humor, porque um professor universitário deve manter uma imagem de grande respeito de si próprio e da instituição onde trabalha (veja-se o caso do Rui Zink, que muito admiro e que também de dedica ao humor e a sua instituição não o impede). Caso não seguisse essas orientações, seria alvo de processos disciplinares e judiciais porque estava a colocar em causa a boa imagem do meu departamento e da universidade, que são organismos sérios e que não podem ter no seu seio um profissional que escreve sátira política e social. Quem me transmitiu esta informação foi o meu Director. E esclareço aqui que nunca fiz qualquer sátira nem à minha instituição, nem aos meus colegas nem aos meus alunos, nem à instituição universitária, ao contrário do que o meu Departamento espalhou pela comunidade académica da UM. Claro que também tive muitos professores (fora do Departamento) que me apoiaram, uma vez que reconhecem que o Departamento a que pertenço é super-comportamental e ideologicamente muito conservador e surrealista.
A imprensa nacional e regional sempre transmitiu de mim uma imagem muito positiva junto da opinião pública. E este processo da minha instituição contra mim surgiu dias depois de vários jornais e revistas terem noticiado a minha participação num Seminário sobre o humor em Portugal, promovido pelo Ministério da Cultura, o qual foi transmitido na rádio (em Dezembro 2007), conforme devem saber, pelo menos aqueles que têm acompanhado o meu tortuoso percuso de uma espécie de escritor criativo.
Confrontado com esta decisão superior e com sérias ameaças das minhas hierarquias decidi acatar a superior decisão do órgão da Universidade do Minho e encerrei tudo e deixei de aceitar convites para participar em eventos humorísticos e criativos. Entretanto quando questionado porque me havia retirado radicalmente da escrita criativa, ia dando conta do que se tinha passado comigo, até que em Fevereiro de 2008, dei uma grande entrevista ao jornal COMUM, de alunos de Comunicação Social da UM , e a partir daí a notícia de que tinha sido censurado pela Universidade do Minho espalhou-se rapidamente por toda a comunicação social, e chegou, inclusive, à Globo no Brasil, e a Universidade do Minho passou a ser apelidada de “Universidade do Respeitinho”. Saíram dezenas de noticias no “Público”, “JN”, SOL, Diário Económico, e outros jornais, e a UM viu-se obrigada a rever a sua posição. O Reitor reuniu-se então comigo e autorizou-me a reabrir o que eu entendesse, pois segundo ele, a responsabilidade da decisão tinha sido de um órgão da UM e não dele enquanto Reitor. A partir daqui as coisas acalmaram nos Média, mas internamente continuei a ser perseguido e ostracizado e agora não me vão renovar o meu contrato de assistente, ao contrário do que fizeram a todos os meus colegas na mesma situação que eu, alegando que não atingi os objectivos de escrita de tese propostos pela minha orientadora de doutoramento.
Relembro dos alguns links para algumas noticias que saíram a este respeito:
Crónica de João Paulo Guerra (DE):
http://sorumbatico.blogspot.com/2008/02/censura.html
Maria Filomena Mónica (Meia-Hora, pp.2):
http://www.meiahora.pt/docs/185/mh158-lisboa.pdf
Manuel António Pina (JN):
http://unibomber.wordpress.com/2008/03/01/e-a-universidade-estupido/
Uma noticia que saiu no Público (O Público publicou mesmo várias noticias sobre a censura de que fui alvo):
http://abnoxio.weblog.com.pt/arquivo/2008/02/post_285
Movimento de apoio que muitos amigos constituiram há um ano, aqui a comunidade SOL:
http://sol.sapo.pt/blogs/anahory/archive/2008/02/29/Ainda-o-caso-DISSID_CA00_NCIAS_3A00_-Se-tem-d_FA00_vidas-e-pensa-ter_2D00_se-tratado-de-CENSURA-leia-este-post_210021002100_.aspx
Quanto aos links de apoio a Meia de Leite me dedicou aqui na comunidade SOL, infelizmente não encontro esses links. Peço que se alguém os encontrar, que os coloque aqui, nos comentários.
A juntar a isto tudo, recebi mesmo ameaças contra a minha própria vida, inclusive, da parte de um professor catedrático. Claro que o meu advogado recolheu todas as provas que conseguiu contra a UM. Apesar de terem alterado o conteúdo da acta à posteriori, para aligeirarem as coisas, o facto é que a acta dessa reunião diz expressamente que me aconselharam a fechar o blogue. Depois da reunião com o Reitor, decidi não avançar com processos contra ninguém e confiei que as coisas iriam acalmar, tal como me garantira o Reitor (numa reunião de Março de 2008). Mas fui ameaçado por uma série de professores do meu Departamento com processos judiciais, por supostamente lhes estar a prejudicar o seu bom nome, quando a única coisa que fiz foi defender-me da censura (e perseguição pidesca), escrita em acta, que eles me moveram.
Eis senão quando no último Conselho de Departamento de Sociologia da Educação e Administração Educacional, de dia 17 de Junho de 2009, os 14 Doutores do Conselho do meu Departamento decidiram, por unanimidade, recusar-me o pedido que eu havia feito de um biénio a que eu teria direito para concluir a minha tese de doutoramento, a pretexto do parecer negativo dado ao meu trabalho pela minha orientadora de doutoramento (a qual pedi para ser substituida há cerca de 20 meses atrás, por diversas incompatibilidades, pedido este que me foi negado).
Resultado prático desta decisão: dia 07 de Setembro termina o meu contrato de 6 anos com a UM e passo a ser mais um desempregado.
Estou revoltado porque sempre, mas sempre, o Conselho de Departamento tudo fez para manter os docentes, indo até ao limite da legalidade para favorecer e ajudar os membros do departamento a concluir a sua tese.
Todos os meus colegas de departamento tiveram direito ao biénio para concluir a tese de doutoramento, e a maior parte teve ainda direito a mais um ano lectivo para concluir a tese. Os meus colegas fizeram as suas teses em 8 a 9 anos (um inclusive, chegou aos 11 anos em trabalho de tese).
Entre outros infelizes exemplos, tive um colega que no fim do biénio (ou seja, já depois de 8 anos de "supostamente" estar a trabalhar na tese de doutoramento, pediu mais um ano lectivo para concluir o doutoramento, tendo o seu orientador dito em Conselho de Departamento que, apesar de não ter nenhuma linha escrita que lhe tivesse sido entregue pelo doutorando, que mesmo assim lhe concedia parecer positivo e o Conselho de Departamento foi solidário com ele).
Exemplos semelhantes a estes são frequentes e recorrentes no meu departamento, onde sempre tudo se fez para manter o corpo docente, recorrendo a estratagemas variados, para que ninguém se fosse embora. Outros colegas, além do biénio e de mais um ano lectivo, entregavam as suas teses incompletas, para cumprirem os prazos legais, mesmo no limite, para que o júri, devolvesse as teses e possibilitasse ao doutorando a revisão e a conclusão da tese. Neste último caso, o doutorando ganhava, em média, mais 6 meses para completar a tese.
Eu que entreguei um capitulo e mais um bocado de um outro capítulo da tese, possuindo, inclusive, um Projecto de Doutoramento muito bem elaborado do ponto de vista cientifico, acabei por ser vítima de um conjunto de doutores que desde o episódio "dissidencias" tudo fizeram para se livrarem de mim. Enquanto os meus restantes colegas foram sempre levados “nas palminhas das mãos”, por serem “cordeirinhos”, comigo têm-me perseguido porque acham que eu não devo ser um escritor criativo de sátira social e política.
Estou super-revoltado. Neste momento, encontro-me em consultas com o advogado do sindicato sobre os procedimentos que hei-de tomar, mas não está fora de hipótese avançar com várias Acções contra a UM, coisa que eu adoraria evitar, até porque queria estar disponível mentalmente para me dedicar ao meu filho de 9 anos e à minha mulher, que é invisual e é uma desempregada de longa duração. E desde esse triste episódio de censura já desenvolvi uma depressão nervosa provocada por tudo o que me fizeram no âmbito do processo "dissidencias", no ano em que a minha mulher fez um transplante à córnea, numa ano de crise de emprego, os doutores do meu departamento resolveram mostrar a sua máxima crueldade e dar-me o golpe de misericórdia fatal, recusando-me o biénio, sendo o primeiro docente a quem eles recusaram o biénio, porque alegam que eu não produzi trabalho suficiente para me darem o biénio, critério este que nunca foi tido em conta para com os meus outros colegas. Porque no meu departamento sempre houve um acordo em que prescindíamos de um ano de equiparação a bolseiro, e em contrapartida, nos dariam o biénio. E isto tudo por uma questão de gestão pedagógica das aulas, para que não houvesse sobrecarga de horário para ninguém. E agora fazem-me esta barbaridade apesar de eu apresentar trabalho. O meu director apenas me disse: a culpa foi da tua orientadora. Se assim foi, porque é que ele não me atribuiu outra orientadora quando eu lhe solicitei, em tempo útil, depois de ela ter feito uma peixeirada comigo, humilhando-me num corredor do meu instituto, frente a toda a gente? Se assim foi, porque razão resolveram os doutores do departamento votar em bloco, por unanimidade, a recusa do biénio a que, legalmente, tenho direito? Sem o biénio, o meu contrato termina a 7 de Setembro de 2009 e depois estou no desemprego.
O que fizeram agora comigo não constituiu surpresa para muitos professores da UM (já mo expressaram directamente esta sua opinião, porque sabiam já que à primeira oportunidade o meu Departamento me meteria na rua), e que me apoiam, porque me dizem que eles só estavam à espera que o meu contrato chegasse ao fim para me meterem do departamento para fora, porque depois do que se passou no ano passado, deficilmente me manteriam no Departamento.
Conheci a natureza cruel dos doutores do meu Departamento, lá isso conheci. E dizia-me o Reitor, há 1 ano atrás, que nada de mal me iria acontecer, pois iria ser tudo resolvido a bem. E, pelos vistos, foi... mas foi a bem de um bando de cruéis doutores que me enviaram para o desemprego com uma frieza e calculismo digno de um filme de terror e de perseguição politica e ideológica.
Parece que afinal a Universidade do Minho privilegia o pensamento único em vez do pensamento divergente. Parece que, afinal, quem ouse contestar o status quo político e social vigente numa dada sociedade (ainda que em jeito de brincadeira), é perseguido e destruído. Felizmente, que tenho também professores na UM que me apoiam, mas infelizmente o meu destino… a decisão de me renovarem ou não o contrato… a decisão de me darem ou não o biénio para concluir o doutoramento… depende dos doutores do meu departamento, que estão determinados em se ver livres de mim, por um motivo que só tem a ver com a minha vida pessoal (os meus textos criativos), aproveitando o facto de estar a chegar ao fim o meu contrato para me “despacharem” para o desemprego.
O Reitor da UM há um atrás garantiu-me que tudo iria correr bem, depois de se ver confrontado com as acusações de censura por parte da comunicação social. O meu departamento não tem sequer em conta as minhas qualidades pedagógicas e cientificas de professor. Porque sei que marquei muitas gerações de alunos, com muita dedicação e, é claro, que gostava de receber uma palavra de carinho, alguma acção de apoio desses alunos. Mas também sei e compreendo que nos dias que correm haja muitos alunos e ex-alunos com medo de dar a cara, com medo de represálias Estou desesperado e com um sentimento de injustiça muito grande a corroer-me a alma, que me destrói, e isto passados 35 anos da Revolução de Abril. Como é possível isto acontecer? Eu sempre fui solidário para os meus colegas em formação, em doutoramento, chegando a dar aulas por eles, a apoiá-los no que me era possível e eles sabem isso. Não compreendo a tamanha falta de solidariedade manifestada para comigo neste hora crítica- Apenas posso depreender que os doutores mais novos ou quiseram fazer a vontade aos mais velhos ou então se trata de uma retaliação em grupo pelo que aconteceu no ano passado, em que o Conselho de Departamento claramente me censurou.
Estou nervoso, pois não tenho outra forma de sustento, além de que me sinto tristemente injustiçado por esta situação provocada por quem acha que pode exercer o poder absoluto sobre os mais fracos.
Se não se quiserem mobilizarem para me dar apoio, eu compreenderei perfeitamente, porque hoje em dia vivemos tempos sem plena liberdade de expressão e todos podem sofrer represálias. Fica à vossa consideração e consciência fazerem ou não alguma acção de protesto por me terem recusado o biénio de forma injusta (atirando-me para o desemprego), como vingança do que aconteceu o ano passado.
Mesmo assim, alguns amigos e amigas com muita coragem, sem medo de dar a cara na luta pela liberdade de expressão em Portugal, criaram uma página de apoio no Facebook:
http://www.facebook.com/group.php?gid=99524567266
http://www.twibes.com/group/danielluis
Beijinhos e abraços para todos e muito obrigado por terem lido esta longa carta, mais em jeito de desabafo, mas também como pedido de desesperada ajuda e ânimo.
Daniel Luís
(Assistente do Departamento de Sociologia da Educação e Administração Educacional do Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho, até 07 de Setembro de 2009)
NOTA FINAL: Baixei-me tanto, mas tanto, que acedi a publicar esta nota forçada no meu blogue há um ano atrás: http://sol.sapo.pt/blogs/dissidencias/archive/2008/02/28/Nota-Informativa.aspx