A força da vida

A edição do dia 17 do Público traz-nos esta notícia:
“Ainda vamos mergulhar na cratera de Bikini
Nicolau Ferreira
Uma equipa de cientistas foi ver se existia vida na cratera de Bikini e descobriu uma floresta cheia de movimento. Uma descoberta que prova a capacidade de resistência dos corais.
Ainda não é possível fazer mergulho no atol de Bikini, mas para lá se caminha.
Uma explosão nuclear não é só um cogumelo. Pode ser muito fumo a emergir de sete palmeiras na orla de uma ilha, subitamente arrebatadas por uma força incrível que as faz vergar. Ou o céu azul do Pacífico substituído por uma luz intensa, branca, amarela, laranja. Ou ainda a formação imediata de uma cratera com quase dois quilómetros de diâmetro no mar.
Castle Bravo foi tudo isso. O maior ensaio nuclear da história dos Estados Unidos lançou no atol de Bikini, no arquipélago das ilhas Marshall no Pacífico, uma bomba com 15 megatoneladas de capacidade explosiva, muito mais poderosa do que a que foi enviada para Hiroxima.
A 1 de Março de 1954 o que não ficou filmado foi a vaporização de um mundo subaquático. Um mundo preenchido por muitas espécies de corais e peixes e substituído num piscar de olhos por um buraco com 73 metros de profundidade.
Passado meio século depois do último teste nuclear que os EUA fizeram na região, uma equipa de cientistas de vários países foi ver se existia vida na cratera. Descobriram uma floresta no mar cheia de movimento, próspera.
Uma paisagem lunar?
A pedido do governo das ilhas Marshall, formou-se um grupo de cientistas para investigar o estado da cratera. Um dos objectivos era tentar perceber se seria possível criar ali uma pequena indústria de mergulho.
Os investigadores vindos da Alemanha, Itália, Havai, Austrália e das próprias ilhas Marshall mergulharam na cratera. "Não sabia o que esperar", disse à Reuters Zoe Richards, da Universidade de James Cook, da Austrália, "talvez algum tipo de paisagem lunar, mas foi incrível".
A investigadora, que trabalha no Centre of Excellence for Coral Reefs, ficou fascinada: "Nunca vi corais que crescessem como árvores, fora das ilhas Marshall." No recife encontrou corais com oito metros de altura e com troncos com 30 centímetros de espessura. "Vimos comunidades que não eram muito diferentes de qualquer outro recife, com bastantes peixes e corais", descreveu a cientista. "Algumas das colónias individuais eram surpreendentes."
Os corais são animais do mesmo grupo a que pertencem as anémonas. Mas têm particularidades que os tornam únicos: produzem um esqueleto exterior composto por carbonato de cálcio que vai crescendo. Quando há um grande número de corais do tipo rochoso, dizemos que estamos perante um recife, conjunto que toma a designação de atol quando tem uma forma circular.
Pacífico nuclear
Mas o ensaio de 1954 ficou também gravado na memória devido aos erros científicos: a potência da bomba de hidrogénio lançada foi duas vezes e meia superior ao que os cientistas esperavam. Assim, as ilhas que estavam à volta receberam uma onda de calor com 55 mil graus Célsius e a explosão fez tremer ilhas a 200 quilómetros de distância. A nuvem em forma de cogumelo que se formou alcançou uma altitude de 100 quilómetros, lançando partículas radioactivas que chegaram à Austrália e ao Japão.
Mas este foi só um dos 23 testes que os EUA realizaram no atol, entre 1946 e 1958, quando as experiências finalmente cessaram. As 20 pequenas ilhas que formam Bikini tinham cerca de 200 habitantes que foram deslocados antes de os americanos iniciarem os testes. Regressaram em 1969 mas foram obrigados a abandonar as ilhas novamente em 1978 por causa dos níveis de radiação.
O Castle Bravo não foi a maior bomba que o homem testou. A 30 de Outubro de 1961 a ex-URSS fez explodir a quatro quilómetros de altitude na zona do Árctico a Tsar Bomb, que detonou com a força de 50 megatoneladas. Dois anos depois, iniciou-se o controlo dos testes nucleares.
Desde o início dos anos 50 que os defensores do controlo das armas nucleares pediam também a paragem dos testes nucleares. Em 1963, foi assinado o tratado parcial para acabar com os testes nucleares, que proibia os ensaios na atmosfera, na água e no espaço, permitindo só os ensaios no solo. Actualmente, trabalha-se para ratificação do Tratado de Interdição Completa de Ensaios Nucleares, um texto adoptado pelas Nações Unidas em 1996.
Uma ilha deserta
Durante 50 anos o atol de Bikini esteve praticamente sem movimento. Os primeiros centímetros de solo ficaram carregados de elementos radioactivos apesar de os EUA lançarem várias campanhas de limpeza ao longo de décadas para apagarem os vestígios dos testes.
Debaixo do mar, a vida recuperou mais rapidamente. As espécies que estavam nas zonas vizinhas voltaram à cratera através das correntes marinhas. Richards alega que, depois de um evento destrutivo com aquela magnitude, esta descoberta prova a capacidade de resistência dos corais. Ainda assim, existem factos irreversíveis. Comparado com estudos feitos antes dos ensaios atómicos, 42 espécies não foram encontradas e 28 estão localmente extintas.
Quanto ao futuro dos corais, nada está garantido. A próxima ameaça anda por aí - o aquecimento global. "Está a decorrer uma luta e sem descanso", diz Zoe. Como aconteceu com a radiação, mais uma vez a natureza será obrigada a transformar-se. “
Ao ler esta notícia não pude deixar de fazer a associação ao livro “O Mundo Sem Nós”, de Alan Weisman, cuja leitura recomendo vivamente e que nos fala exactamente da questão central desta notícia sobre o atol de Bikini: por mais que maltratemos a natureza, a vida acaba sempre por voltar.
Não deixa de ser um sinal de esperança, mas é também simultaneamente um sério aviso à “navegação”: algumas espécies ficam pelo caminho…
