Vivem-se tempos perigosos...
A edição online do Jornal de Notícias traz-nos um artigo, que reproduzo aqui na integra, bastante esclarecedor sobre o actual ponto de situação das relações entre o Ocidente e a Rússia.
"Ferve no Mar Negro a nova guerra fria
Medvedev tenta obter de Hu Jintao apoio e esperança num eixo sino-russo
00h30m
PEDRO OLAVO SIMÕES
Vasos da guerra da OTAN rondam a Geórgia. Um navio atracou em Poti, com ajuda humanitária. Caro transporte de água mineral, ironiza o Kremlin, que busca o apoio de Pequim. No Tadjiquistão, Medvedev e Hu falaram de tudo.
Guerra Fria passou a ser, embora já o fosse há muito tempo, o temido revivalismo surgido no âmbito da crise na Geórgia. Ao reconhecer a independência das regiões separatistas (e pró-Moscovo) da Abkházia e da Ossétia do Sul, os russos não escolheram propriamente a confrontação ou isolamento, antes deram seguimento a um jogo que tem sido muito movimentado, ao longo dos anos, do outro lado do tabuleiro, em especial com as estratégias de alargamento ou de reenquadramento da Aliança Atlântica.
Antes do encontro entre os presidentes russo e chinês, ocorrido em Duchambé, a agência Nova China veiculara uma nota governamental, dando conta da "preocupação com os recentes desenvolvimentos na Ossétia do Sul e na Abkházia". Dmitri Medvedev, que tem reservada para a China a primeira grande visita oficial da sua presidência, encontrou Hu Jintao à margem de uma cimeira dos países da Organização de Cooperação de Xangai (China, Rússia e antigas repúblicas soviéticas da Ásia central). Tal como o antecessor, Vladimir Putin, o número um do Kremlin sonha com a criação de um eixo Moscovo-Pequim, como novo contraponto ao Ocidente liderado pelos Estados Unidos, mas a China remete-se ao silêncio e não está disposta a tomar posições precipitadas, até porque atravessa um processo de crescimento em que a ligação ao Ocidente é essencial.
O Ocidente continuou a pressionar a Rússia, designadamente através do ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, David Miliband, que aproveitou uma visita à Ucrânia (uma outra pedra no sapato de Moscovo, devido às aproximações à OTAN) para instar Moscovo a "não dar início" a uma nova guerra fria. A resposta pronta foi dada pelo porta-voz de Vladimir Putin, Dmitri Peskov: "A Rússia era e continuará a ser o último país do Mundo interessado numa repetição da guerra fria".
No fundo, vai-se assistindo a um vaivém de declarações mais ou menos sonantes, em que cada um dos lados em oposição responsabiliza o outro pela crise. Claro que essas coisas não se processam assim, e se a intervenção militar de Moscovo, a gota de água, pode ser entendida como a acção que desencadeou este clima, é absolutamente claro que o Ocidente tem pisando alguns calos de Moscovo, seja pelo alargamento da OTAN (e também da União Europeia, um fenómeno de certo modo paralelo), seja pelo sistema americano de defesa antimísseis, seja pela situação no Kosovo...
A ruptura entre a Rússia e a Geórgia, que deverá passar em breve com o fecho de representações diplomáticas, é, claramente, um detalhe no meio de um processo demasiado complexo e instável. A Ucrânia, cuja facção maioritária está ansiosa pela integração na OTAN (uma forma de sair de baixo do peso opressivo do gigante a oriente), é apontada por Nicolas Sarkozy, que preside à União Europeia, como um dos objectivos territoriais que se seguem à Ossétia do Sul e à Abkházia. O presidente ucraniano, Viktor Iuschenko, fala em "ameaça à paz na região e na Europa".
Em Poti, dizem os americanos, o navio "Dallas" descarregou água e alimentos. Mísseis, dizem alguns russos."
http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=1005711
Vamos lá ver no que é que isto tudo vai dar...