SOL

"Lugares, Sombras e Afectos" texto de Lélia P.S.Nunes

Publicação: 15 Maio 07 04:18 | engrade 
 

                                        O poeta goza deste incomparável privilégio

de poder ser, a seu bel prazer, ele próprio e outrem.

Como essas almas errantes procuram um corpo, ele entra,

quando quer, na personagem de cada um”.

(Baudelaire, in: Petits poèmes en prose –XII, “Les Foules”)

 


Um domingo outonal, cinzento, cheio de nuvens carregadas sufocando a tarde que passa sem pressa, numa ”lezera” só, que até o Vento Sul, velho companheiro, chega lânguido e num afago ao pé do ouvido geme sedutoras fantasias e sussurra mil segredos de longínquas geografias, de terras de brumas, negras, num sopro equóreo das espumas como cantou Cruz e Sousa em onomatopéias de sua voz e sons peregrinos da imensidão. Chega chiando e cantando novidades da primavera insular, falando da íntima cumplicidade entre as letras e as linhas que falam da vida, da paixão, do sofrer, do chorar, do sorrir, de encontros, de partidas, do mar e de cenários telúricos retratados nos textos poéticos de Urbano Bettencourt e desenhados pela pena apaixonada de Seixas Peixoto.

Foi assim que recebi, na Ilha de Santa Catarina, Lugares, Sombras e Afectos, de autoria do reconhecido poeta Urbano Bettencourt. Não pegou carona e nem veio ao sabor do vento. Atravessou o espaço que nos separa em tempo real, apesar do fuso horário, flanando nas asas do correio eletrônico.

Admirável resultado. Uma arte de poetar segura, um percurso com imagens ora sedutoras, ora ternas, carregadas de metáforas que intrigam, provocam e conquistam o leitor. Mas, se para Mallarmé, deve sempre haver enigma na poesia, Urbano Bettencourt com astúcia arma um constante desafio e leva-nos a degustar com calma, assimilando palavra por palavra, sílabas, sentidos, sentimentos quase numa ruminação da instigante busca na percepção das vertentes sugeridas ou a desvendar.

Um desafio que está no próprio título: Lugares, Sombras e Afectos. Está tudo ali. Tão simples como o ato de abrir uma janela para contemplar o mar em ruidoso colóquio amoroso com as pedras negras do Calhau. Tão essencial como a essencialidade das três palavras que encerram o maior significado desse círculo tríade formado por lugares de vivências plenas, de partilhas do seu íntimo e da matemática dos afetos potencializados e exteriorizados no lapidar da palavra. Dá mostras, desde o título plural, do seu gosto de lutar com as palavras e de dizê-las por inteiro, num estilo que lhe é peculiar.

Seixas Peixoto, o artista da cidade do Porto que há muito se enamorou por São Jorge e hoje namora a ilha em quadros, como conta Onésimo T. Almeida (Onze Prosemas e um final merencórico, 2004:28) e o próprio pintor, que considera os Açores o destino que melhor acolhe sua alma, acompanha Urbano Bettencourt neste percurso. Um a pintar poemas, outro a escrever pinturas. Da pena de Seixas Peixoto a primeira leitura dos seus textos em linhas e traços singelos, firmes e cheios de paixão a emoldurar os poemas num encontro de linhas e letras. Tangido pela sensibilidade, usa da pena para expressar, no tom negro da rocha vulcânica, em linhas oníricas a criação poética igualmente onírica e lírica. Cumplicidade pura de traços, caracteres, vozes e olhares como revela o autor da página vestibulanda: Afinal, há por detrás de tudo isso mais de uma década de convivência e cumplicidades (...), estes terão sido anos em que pintor e poeta puderam, em certa medida, ler o mundo pelos olhos um do outro, e nesse jogo cruzaram cercas e fronteiras em busca de um espaço de criação e liberdade. Está dito. Ambos estetas por definição que deixam descortinar a vida na plenitude da sua arte.

No texto inaugural, a apresentação embrenha-se em trilhas d’alma, visita cenários de infância, na casa ancestral do Calhau, na freguesia da Piedade, na Ilha do Pico. Numa imersão visceral no microcosmo, busca respostas nas lembranças de ontem. O poeta onisciente metamorfoseia-se na figura terna do avô, António de Ávila Bettencourt, o traz do passado, dá-lhe voz e o faz portador das respostas às suas indagações e inquietudes do presente e perscruta o amanhã, em depoimento poético de compreensão da vida e da alma humana, num olhar de dentro desse universo endógeno. Pela mão do avô, caminha por sua memória e sentimentos, desafia fantasmas interiores, regressa cheio de saudades e afetos a lugares e sombras de suas ilhas.

Na tessitura da obra, o entrelaçamento de fios tecidos pelo poeta. Suspensos fios ou em trama bordados nas lembranças tomadas pelo espírito do lugar, por mundos circundantes, pela saudade ancorada na sua história de vida e em geografias partilhadas, como no tributo de amor a Ilha de São Jorge; um sentimento que já expressara, anteriormente, em O Gosto das Palavras III (1999), na crônica, em que relata a rápida visita à Ilha. Agora, o faz de forma pungente em “Urzelina”, esta freguesia que conheceu dias de inferno em 1808 e sentiu o aroma cítrico dos laranjais a penetrar-lhe os poros em dias de Maio:

São de fogo ainda os olhos

dos peixes sob estas águas rubras

em mil oitocentos e oito,

e selectas as laranjas

desse Maio, suspensas

entre ramo e o gesto de colhê-las

( Laranjas de sangue

quem as colherá?

Nanja o Roberto,

que não é de cá).

(...)

No desenho de Seixas Peixoto, a expressão desse amor. Lê-se o poema, encontra-se o desenho. Olha-se o desenho, descobre-se o poema e o próprio poeta. Sim, nada de assombros. Não se trata de mera semelhança, é o próprio Urbano sob a ótica de Seixas Peixoto, inserido no contexto pictórico da obra.

Outra vez, o Pico ao fundo, majestoso, as laranjas em fios pendentes, a pena do pintor onipresente, e as bagagens depositadas ao chão, cenário de “Postal de São Jorge”, essa ilha mítica de tantas histórias fiadas à luz do luar ou do lume, noite adentro. Sim, o jeito de estar daquela ilha sem pressa vendo a sombra do tempo passar, pintada com muito humor.

Em poesia o que se lê não são apenas palavras escritas, grafadas e o que elas evocam. É muito mais. Busca-se ampliar ao máximo o significado dos vocábulos e sintagmas. Urbano Bettencourt mostra com seu talento e, também, com labor poético, a sua busca, e sugere outros, por meio do ritmo das frases, das figuras de linguagens, das alusões e das dissimulações que fazem pensar na questão da heteronímia, que na literatura portuguesa tem em Fernando Pessoa uma referência.

Uma poesia que se espraia, que navega livre em mar revolto, alto mar de profundidades rochosas ou de alva areia e vai banhar-se em ondas salgadas de saudades em outras terras e continente – o africano, que é um pouco seu também. Da singular mundividência, poemas que abraçam, que enlaçam como pontes de afetos fecundos e remetem a distanciamentos ou a desejável aproximação, em intimidade com as Ilhas numa viagem para dentro de si e da terra –“da ilha e para ilha” (e para além).

Aí está o poeta frente a outras latitudes, a pensar na pluralidade cultural, a comungar a diversidade, a viajar por portos de suas memórias e atracar ou a percorrer lugares de vivências: a Guiné (“A persistência da memória”), as Canárias, de “La Gomera”:

Uma ilha assim, só perfil

e nome

ou lume de farol fugaz,

é um gomo de mistério

na sua casca de cinza

e noite.

(...)

 

É claro, e Cabo Verde “uma (con)sequência” (onde o poeta vai encontrar também um Calhau, tão íntimo e despojado como aquele em que nasceu nos Açores), em laços de afinidades, de trocas substanciais, de intertextualidades e imaginários insulares históricos da Macaronésia. Momentos intensos, convivências, fortes o suficiente para marcarem para todo o sempre a sua trajetória de vida. É o que revela em “Um fio de água ou de música” em texto sobre uma noite passada em Mindelo, nas suas linhas derradeiras: Já não presenciarei esse momento, mas posso, intimamente, antecipá-lo e torná-lo meu também, graças às breves frases musicais que agora flutuam e se consomem na manhã de domingo e me ligarão para sempre a Cabo Verde.

Uma profunda ternura que vem da escrita, mesmo no humor, na sátira e na sutil ironia, no jeito de olhar o ser humano, sobre e em qualquer circunstância. Um olhar que vai mais além e que reafirma valores preciosos da vida, do ser, do estar, de identidade, de dignidade, de lealdade, de amizades cristalizadas como a espelhada em “Variações (em tom menor, é claro) sobre a poesia de Eduardo Bettencourt Pinto”. Trata-se, com certeza, de variações em tom maior. Num crescente “allegro”, em três tons, no compasso de vivências, marcadas pelo ponteiro do metrônomo da vida. Para completar, encontra-se guarida no próprio Eduardo Bettencourt Pinto, na frase citada por Daniel de Sá, em recente crônica e que me atrevo copiar: A mais profunda solidão poderá tomar forma de ave e desaparecer na brancura da página.

Ainda em versos de ternura infinita, de intensa intimidade, deixa fluir a voz do poeta-pai no amoroso diálogo com suas filhas em imagens que falam de si com alma desnuda. Uma poesia que cresce à sombra de lugares e afetos.

Leia-se em “De Luz e Sombras” :

Talvez não saiba dizer-te como doíam

os meus catorze anos,

nesse tempo em que também eu procurava

o lugar onde melhor situasse

o meu corpo e o meu olhar

sobre as coisas,

ou como a vida sempre me pareceu

mais estreita que o meu desejo

e nesse conflito o mundo era apenas um jogo

de sombras lançadas contra a luz que eu buscava.

(...)

Esta é, efetivamente, uma poesia de regressos e reencontros, de pertencer a um lugar, de quimeras e de realidades de ontem, de hoje e de amanhã que chegam na escrita e no desenho retratando momentos de plenitude como os movimentos sublimes de “As quatro Estações” de Vivaldi, uma após a outra, todas com suavidade, intensidade e paixão.

Na apresentação do conjunto de “Alguns poemas de Wang Yong” suas palavras tocam por ele, numa linguagem expressiva e numa forma mais contida, econômica e que, por isso mesmo, diz muito mais. Tal como em “Seqüência breve amatória-2 ”.


Há uma lua no lago do teu peito,

uma flor de lótus entre os dedos.


Que rio sulca os teus flancos

buscando as pedras e os frutos?


As rosas-de-junho acendem a manhã,

uma lágrima as devolve à cinza do abismo.


Os Paraísos Superficiais”, título que dá nome a um conjunto de três poemas, carregados de metáforas de notável complexidade como Baudelaire utiliza em “Les Paradis artificiels”(1858), satisfações momentâneas para fugir da mesmice existencial, independente das consequências. Um canto do vate num viés de ironias, de perspicácia com sabor ilhéu, colocado de forma jocosa, caricata, frontal na crítica e verdadeira no ser.

Poeta consistente, original e coerente na defesa da territorialidade da literatura açoriana (a que Vamberto Freitas chama de uma estética da territorialidade, in: A Ilha em Frente,1999:15-29) , numa compreensão do sentido de pertencer a um território que tem o mar por fronteira, que é referência da sua identidade cultural. Enfim, por ser parte do cânone literário de dentro e fora dos Açores, por outros mundos, sociedades e culturas.

Ao seu lado, a pena de Seixas Peixoto navega livre, corporifica nos traços a poesia visual, numa comunhão plástica que acrescenta e desvenda a sua alma e a do poeta que conhece tão bem. Uma sinfonia de encontros, de cumplicidade dos olhares que transparecem na pungência dos desenhos, ali ilustrados, a dar vida às formas e figuras que emergem da criação poética de Urbano Bettencourt. Uma dicotomia que deve continuar... Mas isto já são “milhas contadas” como diz o dito popular e que Dias de Melo eternizou.

Voltei ao texto, vezes sem conta, num “torna-viagem”, e me impregnei com a sua voz, deixei a mente livre, a emoção tomar conta e senti a ressonância das fagulhas polissêmicas do poema/poeta por inteiro.

De “Como se o mar não fora”

(...)

Elas também por mim passaram, e as mãos

que partiam o pão

desenhavam de igual modo os Anjos do Fogo

e a sua perdição;

mas hoje redimem-se

no gesto que em mim repetem de tocar de leve a pele

dos figos, a sua flor mais secreta.



Ou ainda como em “Fragmentos encontrados numa garrafa dada à costa” e que abre o conjunto dos textos poéticos Lugares, Sombras e Afectos:


  1. Traziam a tenda Pela tarde

a sombra crescia sobre os corpos


- que história morre agora

nesta página?

 


  1. Assim perdia o derradeiro aceno

passara o tempo do amor e do vento


- foi isto em que porto

em que morte?


 

Um livro que continuou junto mesmo depois da última página, alimentando a alma e aguardando em ponto de espera, porque Urbano Bettencourt terá sempre muito que dizer na sala de aula, como professor de Literatura Açoriana e de outras Literaturas, e como poeta na prosa ou no verso.

Lélia Pereira da Silva Nunes

Ilha de Santa Catarina

11 de abril de 2005

Comentários

# HelderFraguas said on Maio 16, 2007 22:28:

Parabéns!

Gostei muito do seu texto.

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