SOL

Pedra de toque: caminhos do Divino *-por Lélia P.S.Nunes

Publicação: 02 Agosto 07 08:26 | engrade 

 “E depois as festas do Espírito Santo no Sul do Brasil,

 e em particular em Santa Catarina,

deixam-me sempre a sensação estranha

 de quem se confronta com uma realidade cultural

 e religiosa onde ainda é possível reconhecer

 o "nosso" naquilo que o tempo transformou

 numa coisa outra que já não nos pertence;

 é como se de repente descobrisse em corpos estranho

 as parcelas de alma que fomos perdendo pelo mundo

 ou que ao mundo fomos dando a ganhar."

 

                                                          Urbano Bettencourt,

                                                      poeta e ensaísta açoriano

 

 

     

O tambor ressoa forte e ritmado quebrando o silêncio da vila. Os sons da viola, rebeca e da alegre cantoria dos foliões ecoam por todos os recantos. Eis que surge, tremulando nas mãos da menina, a Bandeira do Divino, vermelha, fitas coloridas esvoaçantes e no alto do mastro a pomba branca.  Percorre casa por casa, como manda a tradição, pedindo oferenda para fazer a sua Festa, abençoando o homem, a mulher, a criança, o doente e a criação. Iluminando por onde passa, dá alento a quem precisa, enternecendo os corações e segue em frente pela estrada afora anunciando a Festa do Divino Espírito Santo. É o Ciclo do Divino que está apenas começando e que atingirá seu ápice no domingo de Pentecostes, quando, durante a celebração de missa solene, se realiza a cerimônia de coroação do Imperador. A investidura de um poder que não é de um, mas de todos – o Império da Igualdade que a cada ano se renova com muita devoção em louvor da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.

É a festa da partilha, do espírito solidário, da comunhão, da liberdade. É a festa da esperança de um mundo melhor, de uma nova era, do Amanhã de todos nós.

Caminhos do Divino – um olhar sobre a Festa do Espírito Santo em Santa Catarina é o título do livro de minha autoria que apresentei, publicamente na noite de 17 de maio p.passado. É fruto de um acalentado sonho que resultou num projeto de pesquisa desenhado no ano de 1987 e realizado em todo Estado de Santa Catarina e nos Açores. Foram dezenove anos partilhando da festa como devota do Divino, resgatando e registrando a história social, os símbolos, o ritual e as formas de celebração. O compromisso pessoal de reverenciar as raízes açorianas, que no século XVIII aportaram às terras catarinenses, e o seu legado cultural, cuja sobrevivência é visível por onde quer que caminhemos, foram a maior motivação  para o estudo da Festa do Divino Espírito Santo. Ao lado do compromisso moveu-me o ardente desejo de registrar histórias que faziam parte da minha história, das lembranças da minha infância em Tubarão, da menina que fui correndo de pés descalços atrás da Bandeira do Divino.

Acima de tudo, representa uma tentativa de melhor compreender a resultante desse destino coletivo dos quase seis mil açorianos que há duzentos cinqüenta e nove anos atravessaram o Atlântico, trazendo na bagagem os sonhos de liberdade, a saudade de suas ilhas deixadas para trás e o culto ao Espírito Santo e, sobretudo, de deixar registrado para as novas gerações como parte vital das nossas raízes e do que significou as andanças sem retorno e a saudade nunca suavizada, nem por carta ou por visitas, do povo açoriano em terras catarinenses, no Sul do Brasil ou na terra dos esquecidos como diziam nos Açores.

Caminhos do Divino – um olhar sobre a Festa do Espírito Santo em Santa Catarina revela, no universo das tradições religiosas, nas múltiplas manifestações etnográficas e culturais, a forte presença do culto e das festas em honra ao Divino Espírito Santo nas comunidades litorâneas, onde a contribuição luso-açoriana floresceu, sendo elemento basilar na formação da sua identidade cultural.  Assim sendo, privilegiei os registros de memória coletiva, o “tecer junto” da tradição oral, repositório de crenças seculares, do saber feito de história, de experiências acumuladas, conservadas e reproduzidas sob diversos matizes e formas.

Nos caminhos percorridos por Santa Catarina identifiquei uma multiplicidade de aspectos na maneira de cultuar e celebrar o Divino Espírito Santo quer por acréscimos quer por supressões de elementos de seu ritual de celebração e no espaço da Festa com sua simbologia, significados, foliões, folguedos e arte efêmera. Diferentes na manifestação, iguais na essência, no aspecto nuclear, na mensagem, na simbologia e na finalidade.

Eis aqui o resultado desta caminhada apresentado numa abordagem histórico-cultural, dividido em duas partes. A primeira compreende um olhar sobre Santa Catarina e municípios em que a Festa se realiza com expressividade tradicional. A segunda refere-se aos caminhos do Divino abertos pela Ilha de Santa Catarina e continente fronteiriço, por Florianópolis, bairros e distritos, em seus aspectos mais significativos.  Procurei não somente me ater à descrição etnográfica da Festa, mas dar ênfase à participação de seus personagens centrais como os foliões, irmãos, festeiros e corte imperial. Ao cenário da festa adicionei a perspectiva geográfica, histórica, econômica e cultural do Estado de Santa Catarina, dos municípios e localidades mapeadas. Para, além disso, procurei destacar registros visuais e estéticos frutos do imaginário e da criação artística catarinense inspirada no fervor aos ícones simbólicos da Coroa do Espírito Santo e da Bandeira do Divino.

Olhares tecidos com fios de sonho, de esperança e de afetos levaram-me à descoberta dos caminhos do Divino e a registrar a crônica cultural das tradições do Espírito Santo que entre signos sagrados e profanos sobrevivem pela força do chamamento da alma coletiva, da memória dos sentimentos e pelo respeito às nossas raízes históricas num contínuo desafio às novas gerações.

Vale lembrar que há 260 anos, a 21 de outubro de 1747, no porto de Angra, Ilha Terceira, nas galeras Jesus, Maria, José e Sant`Anna e Senhor do Bonfim aconteceu a primeira partida de açorianos para o sul do Brasil. Era o começo de tudo. Da partida, da longa travessia por mares atlânticos e o começo da história por Caminhos do Divino.

 

Lélia Pereira da Silva Nunes

(*) – o texto integra a abertura da obra acima referenciada)   

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