SOL
mudámos de sítio
13 Setembro 07 10:43 | engrade | 0 Comentário(s)   

A partir de hoje mudamos de sítio e encerramos este blog.

Estamos em http://azorianos.blogspot.com

Agradecemos aos nossos leitores a atenção que nos dispensaram e esperamos contar com eles no novo endereço.

Três dias do Pico a São Miguel - um pesadelo!!!
28 Agosto 07 08:30 | engrade | 0 Comentário(s)   

A Atlanticoline está em maré de azar, porque o Ilha Azul encalhou na Praia da Graciosa, porto que não reune condições para receber aquele e outros navios. A culpa não é deste governo, é claro, mas não se poderá culpar, totalmente, o piloto que já se tinha recusado a fazer entrar aquele navio naquele porto.

Resultado: novos horários. E é sobre estes que, como os anteriores, volto a criticar. Um passageiro que tenha uma viagem de regresso, anteriormente marcada, entre Pico e São Miguel, terá de embarcar em São Roque na 3ª feira de manhã, ir às Velas e voltar à Horta, de onde o navio seguirá para as Flores. O passageiro do Pico, sai do navio com a viatura, e passa a tarde, a noite (terá de pernoitar num hotel e pagar a factura) e só sairá da Horta às 17h20 de quarta-feira directo à Praia da Vitória onde passará a noite no navio ou fora dele e por sua conta. No dia seguinte, quinta-feira, o passageiro que saíu do Pico terça-feira de manhã, chega a Ponta Delgada às 13h30. TRÊS DIAS DE VIAGEM DO PICO A SÃO MIGUEL.

Se o passageiro optar por tomar o barco quarta-feira à tarde na Horta, e viajar sem viatura, deixa o carro em cima do cais de São Roque, sujeitando-se a chegar a Ponta Delgada sem viatura e a recebê-la alguns dias depois, não se sabe quantos. Mais: terá de pagar a viagem do canal Pico-Faial na Transmaçor e ter os encómodos naturais de quem viaja com mala.

Digam lá se isto é boa gestão, se é dar atenção aos passageiros proporcionando-lhes viagens agradáveis? É uma situação extraordinária, é verdade. Mas quem gera mais tráfego deve merecer outra atenção. Pelos vistos só a Terceira é beneficiada com estes horários.O Pico e São Jorge são muito prejudicados e ninguém diz nada.

A Atlanticoline está, novamente, contra o PICO. Mais uma vez, ninguém diz nada e está tudo muito bem!?...

Pedra de toque: caminhos do Divino *-por Lélia P.S.Nunes
02 Agosto 07 08:26 | engrade | 0 Comentário(s)   

 “E depois as festas do Espírito Santo no Sul do Brasil,

 e em particular em Santa Catarina,

deixam-me sempre a sensação estranha

 de quem se confronta com uma realidade cultural

 e religiosa onde ainda é possível reconhecer

 o "nosso" naquilo que o tempo transformou

 numa coisa outra que já não nos pertence;

 é como se de repente descobrisse em corpos estranho

 as parcelas de alma que fomos perdendo pelo mundo

 ou que ao mundo fomos dando a ganhar."

 

                                                          Urbano Bettencourt,

                                                      poeta e ensaísta açoriano

 

 

     

O tambor ressoa forte e ritmado quebrando o silêncio da vila. Os sons da viola, rebeca e da alegre cantoria dos foliões ecoam por todos os recantos. Eis que surge, tremulando nas mãos da menina, a Bandeira do Divino, vermelha, fitas coloridas esvoaçantes e no alto do mastro a pomba branca.  Percorre casa por casa, como manda a tradição, pedindo oferenda para fazer a sua Festa, abençoando o homem, a mulher, a criança, o doente e a criação. Iluminando por onde passa, dá alento a quem precisa, enternecendo os corações e segue em frente pela estrada afora anunciando a Festa do Divino Espírito Santo. É o Ciclo do Divino que está apenas começando e que atingirá seu ápice no domingo de Pentecostes, quando, durante a celebração de missa solene, se realiza a cerimônia de coroação do Imperador. A investidura de um poder que não é de um, mas de todos – o Império da Igualdade que a cada ano se renova com muita devoção em louvor da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.

É a festa da partilha, do espírito solidário, da comunhão, da liberdade. É a festa da esperança de um mundo melhor, de uma nova era, do Amanhã de todos nós.

Caminhos do Divino – um olhar sobre a Festa do Espírito Santo em Santa Catarina é o título do livro de minha autoria que apresentei, publicamente na noite de 17 de maio p.passado. É fruto de um acalentado sonho que resultou num projeto de pesquisa desenhado no ano de 1987 e realizado em todo Estado de Santa Catarina e nos Açores. Foram dezenove anos partilhando da festa como devota do Divino, resgatando e registrando a história social, os símbolos, o ritual e as formas de celebração. O compromisso pessoal de reverenciar as raízes açorianas, que no século XVIII aportaram às terras catarinenses, e o seu legado cultural, cuja sobrevivência é visível por onde quer que caminhemos, foram a maior motivação  para o estudo da Festa do Divino Espírito Santo. Ao lado do compromisso moveu-me o ardente desejo de registrar histórias que faziam parte da minha história, das lembranças da minha infância em Tubarão, da menina que fui correndo de pés descalços atrás da Bandeira do Divino.

Acima de tudo, representa uma tentativa de melhor compreender a resultante desse destino coletivo dos quase seis mil açorianos que há duzentos cinqüenta e nove anos atravessaram o Atlântico, trazendo na bagagem os sonhos de liberdade, a saudade de suas ilhas deixadas para trás e o culto ao Espírito Santo e, sobretudo, de deixar registrado para as novas gerações como parte vital das nossas raízes e do que significou as andanças sem retorno e a saudade nunca suavizada, nem por carta ou por visitas, do povo açoriano em terras catarinenses, no Sul do Brasil ou na terra dos esquecidos como diziam nos Açores.

Caminhos do Divino – um olhar sobre a Festa do Espírito Santo em Santa Catarina revela, no universo das tradições religiosas, nas múltiplas manifestações etnográficas e culturais, a forte presença do culto e das festas em honra ao Divino Espírito Santo nas comunidades litorâneas, onde a contribuição luso-açoriana floresceu, sendo elemento basilar na formação da sua identidade cultural.  Assim sendo, privilegiei os registros de memória coletiva, o “tecer junto” da tradição oral, repositório de crenças seculares, do saber feito de história, de experiências acumuladas, conservadas e reproduzidas sob diversos matizes e formas.

Nos caminhos percorridos por Santa Catarina identifiquei uma multiplicidade de aspectos na maneira de cultuar e celebrar o Divino Espírito Santo quer por acréscimos quer por supressões de elementos de seu ritual de celebração e no espaço da Festa com sua simbologia, significados, foliões, folguedos e arte efêmera. Diferentes na manifestação, iguais na essência, no aspecto nuclear, na mensagem, na simbologia e na finalidade.

Eis aqui o resultado desta caminhada apresentado numa abordagem histórico-cultural, dividido em duas partes. A primeira compreende um olhar sobre Santa Catarina e municípios em que a Festa se realiza com expressividade tradicional. A segunda refere-se aos caminhos do Divino abertos pela Ilha de Santa Catarina e continente fronteiriço, por Florianópolis, bairros e distritos, em seus aspectos mais significativos.  Procurei não somente me ater à descrição etnográfica da Festa, mas dar ênfase à participação de seus personagens centrais como os foliões, irmãos, festeiros e corte imperial. Ao cenário da festa adicionei a perspectiva geográfica, histórica, econômica e cultural do Estado de Santa Catarina, dos municípios e localidades mapeadas. Para, além disso, procurei destacar registros visuais e estéticos frutos do imaginário e da criação artística catarinense inspirada no fervor aos ícones simbólicos da Coroa do Espírito Santo e da Bandeira do Divino.

Olhares tecidos com fios de sonho, de esperança e de afetos levaram-me à descoberta dos caminhos do Divino e a registrar a crônica cultural das tradições do Espírito Santo que entre signos sagrados e profanos sobrevivem pela força do chamamento da alma coletiva, da memória dos sentimentos e pelo respeito às nossas raízes históricas num contínuo desafio às novas gerações.

Vale lembrar que há 260 anos, a 21 de outubro de 1747, no porto de Angra, Ilha Terceira, nas galeras Jesus, Maria, José e Sant`Anna e Senhor do Bonfim aconteceu a primeira partida de açorianos para o sul do Brasil. Era o começo de tudo. Da partida, da longa travessia por mares atlânticos e o começo da história por Caminhos do Divino.

 

Lélia Pereira da Silva Nunes

(*) – o texto integra a abertura da obra acima referenciada)   

Novos guetos às portas da cidade
25 Julho 07 12:01 | engrade | 0 Comentário(s)   

Várias dezenas de apartamentos construídos por uma empresa privada a mando da Câmara Municipal de Ponta Delgada, na canada Duarte Borges, São Roque, continuam fechados, aguardando que novos proprietários metam chaves à porta.

O empreendimento, a custos controlados, fica afastado de tudo e de todos, mas espreita o mar e os políticos/autarcas, demasiado lestos em tudo fazer com verbas comunitárias e impostos dos contribuintes.

Os fogos ali estão há demasiado tempo e não há quem lhes abra as janelas e as portas, deixe entrar uma aragem nova vinda do leste ou de oeste, onde o mundo caminha para novas formas de socialização, onde guetos como aqueles há muito foram banidos do convívio das populações mais carenciadas.

Na Canada Duarte Borges, mais abaixo, vão ser construidos mais 5 prédios, mas com instalações desportivas, recreativas e comerciais integradas.

Dois projectos diferentes para novas habitações sociais.

Já não sou republicano?
22 Julho 07 08:16 | engrade | 1 Comentário(s)   

Há dias precisei de uma certidão de nascimento para fins militares. Fui a uma conservatória e, em cinco minutos recebi o documento.

-Quanto é? - perguntei.

-São 16 euros e meio.

-Mas é para fins militares!...

-Agora já não há essas diferenças - informou a funcionária.

-Isto é um roubo! É um imposto encapotado!!! Metade de um dia de trabalho de milhares de pessoas - rematei, delicadamente à funcionária que me deu razão, e encolheu os ombros.

E eu fui à minha vida pensando no que me disse um amigo:

-Até nas partilhas o  Estado é herdeiro!...

Mas, afinal, é isto a REPÚBLICA? E eu que sou republicano convicto... Ou estou enganado nas minhas convicções?

Express Santorini sem emergência médica
18 Julho 07 03:35 | engrade | 1 Comentário(s)   

Nas viagens do passado fim de semana de e para Sta Maria ocorreram alguns casos de doença súbita. A Atlanticoline e as autoridades marítimas e portuárias, a quem cabe zelar pela segurança dos passageiros, não podem nem deve deixar passar esses casos sem tomar medidas, dado que os navios efectuam viagens demoradas.

1-O navio Express Santorini - será que o Ilha Azul também ? - não possui os mínimos equipamentos de emergência médica para fazer face a doenças súbitas passíveis de ocorrer em pessoas da terceira idade e não só;

2-Caso não viaje nenhum passageiro médico/a ou enfermeiro/a a bordo, o Santorini não possui pessoal minimamente habilitado para acorrer a casos de emergência, o que não se compreende.

Com tantos passageiros das mais variadas idades a efectuarem percursos longos de mais de 8 horas, HÁ QUE TOMAR PREVIDÊNCIAS IMEDIATAS, PARA QUE O PIOR NÃO ACONTEÇA.

A segurança dos passageiros não passa apenas pelas condições do navio, mas também pela resposta e atendimento mínimo eficazes em casos de saúde urgentes e imprevistos.

Transportar pessoas não é o mesmo que transportar gado para exportação.

A Visita de Cavaco
20 Junho 07 10:53 | engrade | 0 Comentário(s)   

O Presidente da República leva na sua comitiva a Washington e Nova Inglaterra, Carlos César, presidente do governo, Mota Amaral, ex-presidente do GRA e deputado e Berta Cabral Presidente da Associação de municípios dos Açores e Presidente do município de Ponta Delgada.

Esta atitude de rodear o "rei" dos cortesãos mais próximos da "plebe", denota que o PR tem alguma dificuldade no relacionamento com a comunidade emigrante da Nova Iglaterra.

Por outro lado, o facto de irem na comitiva três figuras políticas de áreas tão diversas, deixa entender que o PR pretende alimentar as divisões e transportá-las para a diáspora e que o poder local passou a ser também um "orgão de soberania" um aliado para o que der e vier.

Esta estratégia cavaquiana é o "déjá vu" da velha política repúblicana no seu pior...

Mil autarcas de todo o país encontram-se em Ponta Delgada
14 Junho 07 12:58 | engrade | 1 Comentário(s)   
por Lusa

Cerca de mil autarcas estão a partir de hoje em Ponta Delgada, Açores, para o XVII Congresso da Associação Nacional de Municípios Portugueses [ANMP), que vai pronunciar-se sobre as novas responsabilidades que as autarquias poderão assumir.

Educação, saúde, acção social e ambiente e ordenamento do território são as áreas em que os municípios se propõem assumir tarefas actualmente na posse da Administração Central e que têm estado a ser objecto de negociação com o Governo nos últimos meses.

O Governo pretende ter o processo de transferência de competências finalizado a tempo de o incluir já no próximo Orçamento de Estado (OE), mas ainda não há acordos fechados, o que tem levado a ANMP a criticar a "lentidão" com que está a decorrer.

"A ANMP está disponível a aceitar novas competências desde o congresso de há dois anos, em que o primeiro-ministro se disponibilizou a negociar connosco", disse quarta-feira à agência Lusa o presidente da associação, Fernando Ruas.

Neste encontro, os municípios vão dizer o que pretendem assumir e em que condições, não estando ainda quantificadas as verbas envolvidas, sublinhou Fernando Ruas, adiantando que face à posição do congresso é que serão trabalhadas as estimativas.

Na área da Educação, uma das medidas que as autarquias se propõem assumir é o transporte escolar dos alunos do 3º ciclo, à semelhança do que fazem para os 1º e 2º ciclos e que se torna mais necessária com o encerramento de escolas, exemplificou.

A nova lei das finanças locais, que entrou em vigor no início do ano, contempla pela primeira vez a criação de um Fundo Social Municipal, suportado por verbas a transferir anualmente do Orçamento de Estado, que devem aplicadas na saúde, educação e acção social.

Todos os anos há uma negociação com o Governo para o desenvolvimento de actividades extracurriculares (inglês, música e desporto) e o objectivo agora é alargar aos 278 municípios do continente o que muitos já estão a fazer neste domínio, bem como clarificar na lei quais serão as novas competências dos municípios em cada área.

Quando se iniciaram os primeiros contactos para negociar este processo, o então ministro da tutela, António Costa, garantiu que as novas competências seriam acompanhadas do respectivo pacote financeiro.

António Costa saiu do Governo para se candidatar pelo PS à Câmara de Lisboa, mas manteve-se o secretário de Estado da Administração Local, Eduardo Cabrita, agora na dependência directa do primeiro-ministro, José Sócrates, que já se reuniu com a direcção da ANMP este mês.

Fernando Ruas afirmou que o congresso vai ser fundamentalmente dedicado à reflexão sobre estas matérias, embora haja outros pontos em agenda, como a nova legislação para as áreas metropolitanas e o associativismo municipal, o Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN), que enquadra os fundos comunitários para o período 2007-2013, e a polémica da lei das finanças locais, que a ANMP continua a contestar.

Umas das secções mais concorridas do congresso promete ser a dedicada ao ambiente e ordenamento do território, com muitos congressistas inscritos.

Neste plano, ainda não houve qualquer reunião com o Governo, segundo Fernando Ruas.

Os autarcas defendem a simplificação dos processos para que os Planos Directores Municipais (PDM), que regulam o uso do solo, não demorem oito anos a ser revistos e os Planos de Pormenor não levem quatro anos a ser concluídos.

"Às vezes, pensa-se que os municípios só querem mais dinheiro, mas isto não envolve verbas", referiu.

A ANMP tem ainda uma proposta para a criação de um Plano de Pormenor Estratégico, um instrumento considerado essencial pelas autarquias, que teria de ser executado em 45 dias para potenciar investimentos de grande relevância num concelho.

Os trabalhos começam hoje no Teatro Micaelense, com a acreditação dos cerca de 800 congressistas e reunião da Comissão Organizadora, estando a abertura marcada para sexta-feira de manhã, com a presença do presidente da Assembleia da República, Jaime Gama.

O encerramento, sábado, será feito pelo ministro do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional, Francisco Nunes Correia.

No âmbito da cooperação, vai participar neste congresso uma delegação dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

A minha homenagem ao Dr. Aníbal Furtado Lima
10 Junho 07 07:30 | engrade | 2 Comentário(s)   

O Dr. Aníbal Furtado Lima foi condecorado pelo Presidente da República no dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Nada mais justo e só pecou por tardar este reconhecimento para com um homem que deixa à Diocese o seu património adquirido ao longo de uma vida.

Falta agora que a Diocese reconheça que, aos olhos de Deus, os actos de desprendimento, de solidariedade humana e de repartição dos bens, praticados por tantos homens e as mulheres suplantam e perdoam os pecados que uma moral pseudo-evangélica e uma pregação atemorizadora e impiedosa sobre o inferno, fez crer tratar-se da única via para a salvação.

Falta agora que outras instituições locais e regionais admitam também que o Dr. Furtado Lima foi e é um exemplo de clínico que a tantos doentes devolveu a saúde, ap contrário de tantos outros que cuidaram sobretudo de açambarcar milhões.   

Os erros e as virtudes do 6 de Junho?
06 Junho 07 04:07 | engrade | 0 Comentário(s)   

O 6 de Junho já não faz parte da história autonómica recente dos Açores? Já ninguém se lembra que foram presas pessoas que defendiam " a livre administração dos Açores pelos açorianos" contra a o poder avassalador do PCP e que houve comunistas perseguidos e "extraditados"por independentistas ou seus lacaios? Para quando uma discussão séria, mas SÉRIA sobre as motivações deste movimento separatista que deu, mais rapidamente, origem à autonomia constitucional que hoje temos?

Onde está o Dr. José de Almeida, lider incontestado da FLA, cuja lucidez intelectual e determinação habituou os açorianos a respeitá-lo?

Ou será que o 6 de Junho padece ainda do crime de DELITO DE OPINIÂO que a república e a autonomia se recusam a perdoar e reconhecer?

A quantos afirmam, seriamente, convicções políticas diferentes e respeitam a opinião dos outros e o exercício democrático da cidadania, sejam eles: independentistas, sociais-democratas, democratas cristãos, socialistas e comunistas, devem os poderes políticos e os cidadãos em geral respeito, mesmo que constrariem as opiniões reinantes e afrontem o statu quo.

ver também: http://activismodesofa.blogspot.com

 

O fim de um ciclo festivo
04 Junho 07 12:04 | engrade | 0 Comentário(s)   

Terminou hoje o ciclo festivo do Espírito Santo, com o Império da Trindade.

Em todas as Ilhas, o Divino impera com os seus dons e infunde nos crentes o apelo à partilha.

Tal como ontem em horas de amargura, mantem-se hoje a mesma fé que irradia nos impérios que decorrem nos Açores, Nos Estados Unidos da Nova Inglaterra à Califórnia, dum extremo ao outro do Canadá e do Sul ao Norte do Brasil.

O Espírito Santo - coroa, pomba ou estandarte/bandeira - acompanha sempre os açorianos.

 

Havemos de lutar e de fazer valer as nossa razões!
28 Maio 07 11:22 | engrade | 0 Comentário(s)   

O presidente do Governo Regional afirmou, hoje, o seu  “orgulho” de ser açoriano, justificando tal sentimento com motivos que vão para além dos feitos realizados por numerosas figuras ilustres originárias das ilhas.

 

“O nosso orgulho de açorianos” alicerça-se, também, nas “capacidades que temos evidenciado em realizações e transformações” operadas no arquipélago, acrescentou Carlos César, na sessão solene comemorativa do Dia da Região.

 

“Há mais de três décadas que, dia a dia, apiados na solidariedade nacional e na europeia e, sobretudo, nos nossos saberes, construímos um espaço de crescimento e de sustentabilidade no sentido da realização e do bem comum”, sublinhou o chefe do executivo, para quem os Açores já conseguiram “tantas mudanças e tantos avanços”.

 

“Mas tal não significa que alcançamos a prosperidade que almejamos. Os açorianos e o meu Governo sabem que há muito ainda para fazer, de modo a assegurar um patamar económico e social ao nível dos padrões da União Europeia”, afirmou, ao reiterar a aposta do executivo num desenvolvimento alargado ao conjunto das nove ilhas.

 

Carlos César referiu-se, também, à estratégia que o Governo tem vindo a adoptar e que vai prosseguir nos vários sectores económicos e sociais, prevendo, importantes desenvolvimentos, nos próximos meses, em matéria de aprofundamento e consolidação da autonomia.

 

Depois de concluídos, de forma favorável aos Açores, os processo de revisão da Lei de Finanças das Regiões Autónomas e de aprovação do quadro de financiamentos comunitários até 2013,  a Região espera concretizar, em sede da revisão do seu Estatuto, novos objectivos no domínio de reforço dos seus poderes, precisou.

 

O chefe do executivo saudou, também, as cerca de trinta personalidades destacadas com as Insignias Honoríficas Açorianas, entregues na sessão,  destacando, em particular,  a figura de Jaime Gama, o actual presidente da Assembleia da República, presente nos festejos.

 

Entre as personalidades distinguidas figuraram o presidente do Parlamento nacional Jaime Gama, a cantora Nelly Furtado, o avançado internacional de futebol Pedro Resendes (Pauleta), o Prémio Nobel da Medicina, Craig Mello, e Alvarino Pinheiro, ex-deputado regional e dirigente histórico do CDS/PP nos Açores. 

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Revisão do Estatuto

O presidente do Governo Regional dos Açores alertou, hoje, para a necessidade de se “agarrar”,  na revisão do Estatuto da Região, as oportunidade criadas pela última alteração constitucional quanto a um novo “paradigma competencial” em matéria de autonomias.

 

Em “virtude da alteração do paradigma competencial ao nível legislativo que a última revisão constitucional nos trouxe, devemos agarrar essa oportunidade e retirar dela todas as consequências positivas”, adevertiu Carlos César, na sessão solene comemorativa do Dia da Região Autonoma dos Açores, em São Roque do Pico.

 

Para o chefe do excutivo é preciso que o novo Estatuto Político-Administrativo dos Açores se assuma como “ uma verdadeira Carta Autonómica, fixando novos conceitos de garantia dos direitos políticos da Região, como os princípios do adquirido autonómico, da preferência do Direito Regional, da continuidade territorial, da cooperação e da subsidiariedade”.

 

“O exercício da democracia participativa por parte dos açorianos deverá, igualmente, sair reforçado desta reforma estatutária, através da regulamentação do referendo regional e da consagração da iniciativa legislativa popular”, afirmou Carlos César, que defendeu, também, a reformulação, mediante o adequado expediente técnico, do círculo eleitoral dos açorianos não residentes para o Parlamento regional (em nome das convicções e da homenagem à diáspora açoriana).

 

Para o presidente do Governo, o novo Estatuto deve consagrar, igualmente, “novas formas de cooperação e de delegação de competências, entre os Governos da Região e da República”, as quais terão de ser potenciadas “sem complexos, inclusive ao nível da política externa”.

 

Importa, ainda,  “densificar” o direito dos Açores na “participação e co-definição de grandes opções da República, designadamente o decorrente da sua vertente marítima e atlântica e das suas relações específicas e naturais com instituições e regiões da Europa, bem como com outras regiões e países na área da Macaronésia ou do continente americano”, sublinhou.

 

Por via da revisão estatutária, os Açores devem consagrar, igualmente,  “a prerrogativa da criação de entidades administrativas independentes e de provedores sectoriais regionais, sem temer preconceitos centralistas de entidades ou órgãos já existentes”, propôs Carlos Cérsar, para que é, ainda, fundamental garantir o direito de auto-regulação do estatuto dos titulares dos órgãos de governo próprio e a limitação de mandatos do presidente do Governo Regional.

 

“Sei que nesta matéria de reforma estatutária estamos a ser ambiciosos, mas a nossa ambição não é indistinta da nossa responsabilidade e maturidade autonómicas, sobre as quais, é bom que se diga, não conhecemos ninguém, fora da nossa Região, que nos dê lições”, considerou o chefe do executivo, ao admitir que face às propostas que avançou se ficará a saber “se o legislador constituinte leva a sério a última revisão constitucional que aprovou, ou se, pelo contrário, enganou [as regiões autónomas] ou pretende estimular a via interpretativa restritiva que o Tribunal Constitucional recentemente reinventou”.

 

Mas “se for este o caso, teremos, todos, que voltar atrás, exigindo, com o brio que for preciso, uma nova revisão constitucional clarificadora, para podermos então caminhar construtivamente e em frente”, advertiu.

 

Face ao enquadramento que referiu, Carlos César admitiu que o processo de revisão estatutária em curso é “especialmente complexo, podendo até ser polémico, porque encontrará, certamente, como tem acontecido muitas vezes, gente com convicções democráticas muito parciais, avessa à consideração das especificidades insulares na pluralidade nacional, e muitos espíritos turvos”.

 

Mas, como sempre, “havemos de lutar e de fazer valer as nossas razões, ancorados no valor da nossa visão do interesse nacional, com a força do nosso discernimento e com o brilho da nossa unidade”, assegurou.

 
 
GaCS/AP

 

 
 
A fronteira ocidental da Europa são os Açores
20 Maio 07 11:11 | engrade | 4 Comentário(s)   
C.César propõe projecção atlântica europeia para prioridade da presidência portuguesa
 

O presidente do Governo dos Açores propôs, hoje, para prioridades da presidência portuguesa da União Europeia, no segundo semestre deste ano, matérias como a projecção atlântica europeia e as políticas comunitárias referentes ao mar.

 

Falando num jantar que ofereceu no Palácio de Sant’Ana, em Ponta Delgada, a propósito das celebrações do Dia da Marinha, Carlos César sublinhou que Portugal deve privilegiar a abordagem dessas questões, a par do tratamento de assuntos de interesse comum ao conjunto dos Estados-membros, caso do Tratado da União ou da cooperação com outros espaços.

 

Numa iniciativa em que participaram o ministro da Defesa Nacional, Nuno Serveriano Teixeira, e o chefe do Estado-Maior da Armada, almirante Melo Gomes, além de altos dirigentes militares, o presidente do Governo expressou, também, satisfação pela escolha do arquipélago para comemoração do dia do “primeiro ramo das Forças Armadas”.

 

Carlos César alegou que se tratou de uma escolha acertada, pois não há no País outra região para a qual o mar tenha mais importância e significado.

 

Na sua intervenção, o ministro da Defesa realçou o valor estratégico dos Açores, que se tem revelado e mantidos desde os tempos da expansão portuguesa até à actualidade. E “quando Portugal quer dar centralidade à sua política marítima, há muito que aprender” com o arquipélago, afirmou Nuno Severiano Teixeira, para quem a identidade nacional tem muito a ver com o mar.

(fonte: GACS)

 
"Lugares, Sombras e Afectos" texto de Lélia P.S.Nunes
15 Maio 07 04:18 | engrade | 1 Comentário(s)   
 

                                        O poeta goza deste incomparável privilégio

de poder ser, a seu bel prazer, ele próprio e outrem.

Como essas almas errantes procuram um corpo, ele entra,

quando quer, na personagem de cada um”.

(Baudelaire, in: Petits poèmes en prose –XII, “Les Foules”)

 


Um domingo outonal, cinzento, cheio de nuvens carregadas sufocando a tarde que passa sem pressa, numa ”lezera” só, que até o Vento Sul, velho companheiro, chega lânguido e num afago ao pé do ouvido geme sedutoras fantasias e sussurra mil segredos de longínquas geografias, de terras de brumas, negras, num sopro equóreo das espumas como cantou Cruz e Sousa em onomatopéias de sua voz e sons peregrinos da imensidão. Chega chiando e cantando novidades da primavera insular, falando da íntima cumplicidade entre as letras e as linhas que falam da vida, da paixão, do sofrer, do chorar, do sorrir, de encontros, de partidas, do mar e de cenários telúricos retratados nos textos poéticos de Urbano Bettencourt e desenhados pela pena apaixonada de Seixas Peixoto.

Foi assim que recebi, na Ilha de Santa Catarina, Lugares, Sombras e Afectos, de autoria do reconhecido poeta Urbano Bettencourt. Não pegou carona e nem veio ao sabor do vento. Atravessou o espaço que nos separa em tempo real, apesar do fuso horário, flanando nas asas do correio eletrônico.

Admirável resultado. Uma arte de poetar segura, um percurso com imagens ora sedutoras, ora ternas, carregadas de metáforas que intrigam, provocam e conquistam o leitor. Mas, se para Mallarmé, deve sempre haver enigma na poesia, Urbano Bettencourt com astúcia arma um constante desafio e leva-nos a degustar com calma, assimilando palavra por palavra, sílabas, sentidos, sentimentos quase numa ruminação da instigante busca na percepção das vertentes sugeridas ou a desvendar.

Um desafio que está no próprio título: Lugares, Sombras e Afectos. Está tudo ali. Tão simples como o ato de abrir uma janela para contemplar o mar em ruidoso colóquio amoroso com as pedras negras do Calhau. Tão essencial como a essencialidade das três palavras que encerram o maior significado desse círculo tríade formado por lugares de vivências plenas, de partilhas do seu íntimo e da matemática dos afetos potencializados e exteriorizados no lapidar da palavra. Dá mostras, desde o título plural, do seu gosto de lutar com as palavras e de dizê-las por inteiro, num estilo que lhe é peculiar.

Seixas Peixoto, o artista da cidade do Porto que há muito se enamorou por São Jorge e hoje namora a ilha em quadros, como conta Onésimo T. Almeida (Onze Prosemas e um final merencórico, 2004:28) e o próprio pintor, que considera os Açores o destino que melhor acolhe sua alma, acompanha Urbano Bettencourt neste percurso. Um a pintar poemas, outro a escrever pinturas. Da pena de Seixas Peixoto a primeira leitura dos seus textos em linhas e traços singelos, firmes e cheios de paixão a emoldurar os poemas num encontro de linhas e letras. Tangido pela sensibilidade, usa da pena para expressar, no tom negro da rocha vulcânica, em linhas oníricas a criação poética igualmente onírica e lírica. Cumplicidade pura de traços, caracteres, vozes e olhares como revela o autor da página vestibulanda: Afinal, há por detrás de tudo isso mais de uma década de convivência e cumplicidades (...), estes terão sido anos em que pintor e poeta puderam, em certa medida, ler o mundo pelos olhos um do outro, e nesse jogo cruzaram cercas e fronteiras em busca de um espaço de criação e liberdade. Está dito. Ambos estetas por definição que deixam descortinar a vida na plenitude da sua arte.

No texto inaugural, a apresentação embrenha-se em trilhas d’alma, visita cenários de infância, na casa ancestral do Calhau, na freguesia da Piedade, na Ilha do Pico. Numa imersão visceral no microcosmo, busca respostas nas lembranças de ontem. O poeta onisciente metamorfoseia-se na figura terna do avô, António de Ávila Bettencourt, o traz do passado, dá-lhe voz e o faz portador das respostas às suas indagações e inquietudes do presente e perscruta o amanhã, em depoimento poético de compreensão da vida e da alma humana, num olhar de dentro desse universo endógeno. Pela mão do avô, caminha por sua memória e sentimentos, desafia fantasmas interiores, regressa cheio de saudades e afetos a lugares e sombras de suas ilhas.

Na tessitura da obra, o entrelaçamento de fios tecidos pelo poeta. Suspensos fios ou em trama bordados nas lembranças tomadas pelo espírito do lugar, por mundos circundantes, pela saudade ancorada na sua história de vida e em geografias partilhadas, como no tributo de amor a Ilha de São Jorge; um sentimento que já expressara, anteriormente, em O Gosto das Palavras III (1999), na crônica, em que relata a rápida visita à Ilha. Agora, o faz de forma pungente em “Urzelina”, esta freguesia que conheceu dias de inferno em 1808 e sentiu o aroma cítrico dos laranjais a penetrar-lhe os poros em dias de Maio:

São de fogo ainda os olhos

dos peixes sob estas águas rubras

em mil oitocentos e oito,

e selectas as laranjas

desse Maio, suspensas

entre ramo e o gesto de colhê-las

( Laranjas de sangue

quem as colherá?

Nanja o Roberto,

que não é de cá).

(...)

No desenho de Seixas Peixoto, a expressão desse amor. Lê-se o poema, encontra-se o desenho. Olha-se o desenho, descobre-se o poema e o próprio poeta. Sim, nada de assombros. Não se trata de mera semelhança, é o próprio Urbano sob a ótica de Seixas Peixoto, inserido no contexto pictórico da obra.

Outra vez, o Pico ao fundo, majestoso, as laranjas em fios pendentes, a pena do pintor onipresente, e as bagagens depositadas ao chão, cenário de “Postal de São Jorge”, essa ilha mítica de tantas histórias fiadas à luz do luar ou do lume, noite adentro. Sim, o jeito de estar daquela ilha sem pressa vendo a sombra do tempo passar, pintada com muito humor.

Em poesia o que se lê não são apenas palavras escritas, grafadas e o que elas evocam. É muito mais. Busca-se ampliar ao máximo o significado dos vocábulos e sintagmas. Urbano Bettencourt mostra com seu talento e, também, com labor poético, a sua busca, e sugere outros, por meio do ritmo das frases, das figuras de linguagens, das alusões e das dissimulações que fazem pensar na questão da heteronímia, que na literatura portuguesa tem em Fernando Pessoa uma referência.

Uma poesia que se espraia, que navega livre em mar revolto, alto mar de profundidades rochosas ou de alva areia e vai banhar-se em ondas salgadas de saudades em outras terras e continente – o africano, que é um pouco seu também. Da singular mundividência, poemas que abraçam, que enlaçam como pontes de afetos fecundos e remetem a distanciamentos ou a desejável aproximação, em intimidade com as Ilhas numa viagem para dentro de si e da terra –“da ilha e para ilha” (e para além).

Aí está o poeta frente a outras latitudes, a pensar na pluralidade cultural, a comungar a diversidade, a viajar por portos de suas memórias e atracar ou a percorrer lugares de vivências: a Guiné (“A persistência da memória”), as Canárias, de “La Gomera”:

Uma ilha assim, só perfil

e nome

ou lume de farol fugaz,

é um gomo de mistério

na sua casca de cinza

e noite.

(...)

 

É claro, e Cabo Verde “uma (con)sequência” (onde o poeta vai encontrar também um Calhau, tão íntimo e despojado como aquele em que nasceu nos Açores), em laços de afinidades, de trocas substanciais, de intertextualidades e imaginários insulares históricos da Macaronésia. Momentos intensos, convivências, fortes o suficiente para marcarem para todo o sempre a sua trajetória de vida. É o que revela em “Um fio de água ou de música” em texto sobre uma noite passada em Mindelo, nas suas linhas derradeiras: Já não presenciarei esse momento, mas posso, intimamente, antecipá-lo e torná-lo meu também, graças às breves frases musicais que agora flutuam e se consomem na manhã de domingo e me ligarão para sempre a Cabo Verde.

Uma profunda ternura que vem da escrita, mesmo no humor, na sátira e na sutil ironia, no jeito de olhar o ser humano, sobre e em qualquer circunstância. Um olhar que vai mais além e que reafirma valores preciosos da vida, do ser, do estar, de identidade, de dignidade, de lealdade, de amizades cristalizadas como a espelhada em “Variações (em tom menor, é claro) sobre a poesia de Eduardo Bettencourt Pinto”. Trata-se, com certeza, de variações em tom maior. Num crescente “allegro”, em três tons, no compasso de vivências, marcadas pelo ponteiro do metrônomo da vida. Para completar, encontra-se guarida no próprio Eduardo Bettencourt Pinto, na frase citada por Daniel de Sá, em recente crônica e que me atrevo copiar: A mais profunda solidão poderá tomar forma de ave e desaparecer na brancura da página.

Ainda em versos de ternura infinita, de intensa intimidade, deixa fluir a voz do poeta-pai no amoroso diálogo com suas filhas em imagens que falam de si com alma desnuda. Uma poesia que cresce à sombra de lugares e afetos.

Leia-se em “De Luz e Sombras” :

Talvez não saiba dizer-te como doíam

os meus catorze anos,

nesse tempo em que também eu procurava

o lugar onde melhor situasse

o meu corpo e o meu olhar

sobre as coisas,

ou como a vida sempre me pareceu

mais estreita que o meu desejo

e nesse conflito o mundo era apenas um jogo

de sombras lançadas contra a luz que eu buscava.

(...)

Esta é, efetivamente, uma poesia de regressos e reencontros, de pertencer a um lugar, de quimeras e de realidades de ontem, de hoje e de amanhã que chegam na escrita e no desenho retratando momentos de plenitude como os movimentos sublimes de “As quatro Estações” de Vivaldi, uma após a outra, todas com suavidade, intensidade e paixão.

Na apresentação do conjunto de “Alguns poemas de Wang Yong” suas palavras tocam por ele, numa linguagem expressiva e numa forma mais contida, econômica e que, por isso mesmo, diz muito mais. Tal como em “Seqüência breve amatória-2 ”.


Há uma lua no lago do teu peito,

uma flor de lótus entre os dedos.


Que rio sulca os teus flancos

buscando as pedras e os frutos?


As rosas-de-junho acendem a manhã,

uma lágrima as devolve à cinza do abismo.


Os Paraísos Superficiais”, título que dá nome a um conjunto de três poemas, carregados de metáforas de notável complexidade como Baudelaire utiliza em “Les Paradis artificiels”(1858), satisfações momentâneas para fugir da mesmice existencial, independente das consequências. Um canto do vate num viés de ironias, de perspicácia com sabor ilhéu, colocado de forma jocosa, caricata, frontal na crítica e verdadeira no ser.

Poeta consistente, original e coerente na defesa da territorialidade da literatura açoriana (a que Vamberto Freitas chama de uma estética da territorialidade, in: A Ilha em Frente,1999:15-29) , numa compreensão do sentido de pertencer a um território que tem o mar por fronteira, que é referência da sua identidade cultural. Enfim, por ser parte do cânone literário de dentro e fora dos Açores, por outros mundos, sociedades e culturas.

Ao seu lado, a pena de Seixas Peixoto navega livre, corporifica nos traços a poesia visual, numa comunhão plástica que acrescenta e desvenda a sua alma e a do poeta que conhece tão bem. Uma sinfonia de encontros, de cumplicidade dos olhares que transparecem na pungência dos desenhos, ali ilustrados, a dar vida às formas e figuras que emergem da criação poética de Urbano Bettencourt. Uma dicotomia que deve continuar... Mas isto já são “milhas contadas” como diz o dito popular e que Dias de Melo eternizou.

Voltei ao texto, vezes sem conta, num “torna-viagem”, e me impregnei com a sua voz, deixei a mente livre, a emoção tomar conta e senti a ressonância das fagulhas polissêmicas do poema/poeta por inteiro.

De “Como se o mar não fora”

(...)

Elas também por mim passaram, e as mãos

que partiam o pão

desenhavam de igual modo os Anjos do Fogo

e a sua perdição;

mas hoje redimem-se

no gesto que em mim repetem de tocar de leve a pele

dos figos, a sua flor mais secreta.



Ou ainda como em “Fragmentos encontrados numa garrafa dada à costa” e que abre o conjunto dos textos poéticos Lugares, Sombras e Afectos:


  1. Traziam a tenda Pela tarde

a sombra crescia sobre os corpos


- que história morre agora

nesta página?

 


  1. Assim perdia o derradeiro aceno

passara o tempo do amor e do vento


- foi isto em que porto

em que morte?


 

Um livro que continuou junto mesmo depois da última página, alimentando a alma e aguardando em ponto de espera, porque Urbano Bettencourt terá sempre muito que dizer na sala de aula, como professor de Literatura Açoriana e de outras Literaturas, e como poeta na prosa ou no verso.

Lélia Pereira da Silva Nunes

Ilha de Santa Catarina

11 de abril de 2005

Carta para Adelaide
15 Maio 07 04:03 | engrade | 0 Comentário(s)   

Por gentil atenção da Direção Regional das Comunidades chegou-me às mãos o teu livro “Sorriso Por Dentro Da Noite”. Já lera muito sobre ele e sabia da imensa repercussão que vem causando nos meios literários açorianos e não só. Pois, jornais do continente português, suplementos literários e escritores como Daniel de Sá, Katherine Vaz, Álamo Oliveira, Ana Marques Gastão, Luiz Antônio de Assis Brasil, entre outros escreveram sobre teu belíssimo livro.

Assim, não constituiu nenhuma surpresa o que o adentrar nas suas páginas me revelou. Até porque há muitos anos conheço a professora Adelaide, a investigadora competente, a profissional dedicada e preocupada com as mazelas sociais tendo desenvolvido um reconhecido trabalho quando esteve à frente do Instituto de Acção Social da Região Autónoma dos Açores.

Mas, esta Adelaide eu não conhecia. Não conhecia a mulher sensível que no seu romance de estréia desvenda as angústias, o desabrochar e as descobertas de Xana – menina e mulher. Adelaide e Xana, uma e outra, frente a frente ou dentro por dentro.

Uma escrita cheia de ternura, mas não leve. Achei forte, um suspiro fundo,não consegui nem respirar a pausa da vírgula. Denso do princípio ao fim. Um lamento. E, lamento não tem música que embale.

A autora transvestida, ora na roupagem da personagem ora sendo voz da narradora, se revela por inteiro partilhando histórias de vida, sentimentos tão seus numa corrente de lavas vulcânicas a inundar o mar e ali se perpetuar no correr do tempo, endurecendo, plasmando o cerne, sem contudo empedernir o coração da mulher.

Desnuda toda uma comunidade com o vigor da palavra escrita, numa crítica social profunda aos estereótipos sociais e culturais que permeiam o viver apartado de afectos partidos, distantes e postos em outras geografias tendo o mar pelo meio. No mosaico das emoções desvenda a alma das gentes, do lugar e da Ilha. Fala de ausências e presenças, de sonhos, de voos alçados pelo imaginário, de esperanças misturadas aos anseios da descoberta do mundo maiúsculo, finito e infinito no perpassar do tempo. Fala do pequeno mundo de Xana, sufocada em seu microcosmo, na cegueira de uma freguesia presa num emaranhados de fios urdidos em códigos sociais e morais, em suas crenças e valores coletivos.

Com firmeza conduz a narrativa e transita, livremente, rompendo círculos desse universo, na complexa teia de relações sociais, na construção de cada personagem e de histórias alimentadas por lembranças ou registros das suas memórias e vivências na Achadinha, no extremo da Ilha de São Miguel. Mostra com sabedoria e emoção profunda os caminhos de tantas vidas marcadas pelo fenômeno da emigração, pelo multiculturalismo, por conflitos sociais, pela condição de estar na Ilha ou fora dela ou, ainda, pelo retornar.

Adelaide, não quero aqui reflectir sobre a questão da diáspora a que teu livro necessariamente nos remete. Pois, teu romance fez-me sentir dentro de um mundo onde a fronteira entre a realidade e a ficção é muitíssimo tênue. Onde o mundo real e o surreal se encontram não no vazio dos dias, mas no olhar de dentro, da alma, que reflete a esperança, a centelha da vida.

Quero pensar na mulher e nas mulheres outras que passaram a vida olhando o tempo passar sem saírem de seus casulos, hermeticamente fechados, sem darem a chance de se descobrirem, de se conhecerem, nos seus encantos e desencantos, nos seus sorrisos e lágrimas choradas, no corpo adormecido e nunca despertado pelo toque da paixão, na palavra não dita, no carinho não recebido, ansiado infinitamente e desprezado vezes sem fim.

Sim. Quantas outras Xanas, botão entreaberto ou rosa mulher, depositaram suas esperanças e sonhos nas mãos deste imenso mar circundante? Quantas? Nem o vento, nem a gaivota que risca o céu ligeiro em voos rasantes, nem a onda que castiga a pedra revela. Só o mar crispado, indomável em suas andanças e retornos. Só o mar cavado que abraça as Ilhas e que assusta o homem com seus rumores. Só o mar sereno, amante, conhece e guardou para si o sorriso de Xana nas suas entranhas, na noite abissal e o reteve como um relicário sagrado. Tantos sentimentos traduzidos na música suave e triste da tua palavra escrita e que, afinal, emerge neste lindo “Sorriso Por dentro da Noite”, e como bem escreveu T.S.Eliot, por ti citado, “(...) gerando lilases em terra morta, misturando memória e desejos, caldeando raízes adormecidas com chuvas primaveris (...)”

Amei !

Bem hajas sempre!

Lélia P.S.Nunes

Ilha de Santa Catarina, Setembro de 2005

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