São 11 da noite…estou cansadíssimo…ontem trabalhei mais de 16 horas e hoje ainda vão ser mais!...Por isso é que ainda não publiquei o que queria…No entanto, e como o prometido é devido, vou tentar escrever algumas Histórias da minha Vida e ao mesmo tempo trabalhando…Sei que alguns não me acreditarão, que vão dizer que minto…ou que invento…não faz mal, eu sei a verdade, e isso é quanto basta….Mais uma vez as minhas desculpas pelo “atraso” (odeio chegar/fazer “atrasado”)…Também, desculpem a minha gramática…foram muitos anos “lá fora”, mas estou a melhorar!...Aqui ficam algumas, e só algumas, muito poucas, histórias da minha Vida…:
FRANÇA – O HOMEM DO BURRO…
Já lá vão uns longos anos, vivia eu em Marselha (e em Toulon, e em Gemenos, e em…), quando, um certo dia, “teso-que-nem-um-carapau”, deambulava pelas ruas, já noite, á procura de trabalho…sim, trabalho…não emprego!...Estava a cerca de 10 km de casa…
Cansado, desesperado e frustrado…não desistia!...A certa altura, ao “virar-da-esquina”, e para meu espanto (!), dei “de caras” com um velhote que usava um “sombrero” na cabeça e estava acompanhado de um burro que parecia tão velho quanto o dono…apesar da minha situação económica não “ser dada” a grandes alegrias, não pude evitar um sorriso tipo “Mona Lisa”…disse “Bon soir…” ao senhor e segui o meu caminho…
Uns minutos mais tarde, NÃO SEI COMO FOI POSSIVÉL, e, ao virar uma outra esquina, dei, novamente, de “caras” com o mesmo velhote….Fiquei surpreso, até um pouco assustado…senti como que um arrepio da nuca ao fundo das minhas costas…eu caminho depressa, especialmente quando está frio, o que era o caso!...quando vi o homem pela primeira vez, minutos antes, parecia que ele mal se podia mexer…como era possível ele estar ali?
Como que por instinto comecei a atravessar a rua…então ele disse (em francês, óbvio):…”Senhor, tenho aqui umas coisas para si…umas coisas que são suas…”…eu virei-me e olhei para o velhote, que estava ali a sorrir para mim…Curioso que sou, dirigi-me até ele…
Ele continuou…: “Olhe, primeiro quero dar-lhe estes rebuçados que são caseiros, faço-os eu mesmo!”…eu agradeci e guardei-os…”deito-os fora mais tarde…”, pensei eu, não querendo ser mal educado…Então ele disse:…”Também lhe quero dar este livro…é importante que o leia…”…
Eu olhei para o livro…capa azul escura, com uns dizeres a dourado, cerca de 4 cm de espessura..Eu pensei:…”Isto é coisa de testemunhas de Jeová…”, mas, novamente, agradeci e guardei o livro…Disse “boa noite e adeus” e parti…
Uns metros mais adiante, estando eu, curioso que sou, a desfolhar o livro, reparei (como não??) que, página-sim-página-não, o mesmo continha dinheiro…notas, muitas notas…contei cerca de 500 francos (mas tinha mais)…a minha fortuna pessoal e TOTAL, era, nessa altura, de 8 francos!!!...Senti-me tentado a fugir “dali pra fora”…No entanto a minha “consciência” (a minha consciência é muito estúpida…!) não mo permitiu!...Eu pensei que aquele dinheiro, era, provavelmente, a “reforma” do velhote e que ele a tinha posto naquele livro por engano…
Voltei para trás e disse-lhe o que se tinha passado, o que eu tinha encontrado…Ele respondeu-me assim….:”Não…esse livro é para si tal e qual como está..com tudo o que tem dentro…eu, quando o vi, há uns minutos atrás, sabia que este livro era para si…também sabia que você está numa situação desesperada e que tem pensado em suicidar-se…leve o livro meu amigo…”
Eu, agradeci, e parti…confuso, pensativo e com uma enorme sensação de humildade…
Agora o ENIGMA:…eu, nesse dia, tal como qualquer outro dia, e apesar de estar “teso”, estava impecavelmente vestido! De fato limpo e bonito, de gravata de seda, de sapatos engraxados e até de pasta na mão…Parecia mais o executivo do ano da Fortune 500 do que alguém sem lugar onde “cair morto”…Como é que aquele homem, quando me viu, “descobriu” a minha situação real?...como descobriu ele o meu desespero?...
Para além do dinheiro, havia uma outra coisa dentro do livro…um pedaço de papel onde estava escrito uma única palavra: “FAZ”.
ESPANHA - A FUGA PARA CEUTA (E MARROCOS…)
Era eu um adolescente, nos anos 80 do século passado, quando decidi fugir de casa….e com boas razões. A minha casa era um “inferno” e o resto do mundo, para mim, parecia um “paraíso”…No entanto, pelo-sim-pelo-não, decidi avisar algumas pessoas do meu plano e destino, não fosse o “diabo” tecê-las e eu precisasse de ajuda mais tarde…
Mas a história começa umas semanas antes…
Eu tinha conseguido poupar uns “cobres” (cerca de 100 contos) devido a uns trabalhos de ajudante de tudo-e-mais-alguma-coisa durante o verão…Não sabendo o que fazer com o dinheiro e não querendo gastá-lo em “matraquilhos” e “snooker” decidi fazer o que há muito já pensava: fugir de casa!...Mas para onde, pensava eu…até que um dia li no jornal que iria partir de Lisboa uma excursão com destino a Ceuta! Estava decidido…
Tratei de tudo e, na noite anterior à partida, fui para Lisboa de comboio…Não pensei em passaporte (que na altura era necessário para atravessar fronteiras nestas bandas) nem no facto de ser menor…Parecia-me uma boa ideia e pronto!
Chegado a Stª Apolónia, perto da meia noite, e, porque não queria gastar dinheiro em “pensões”, resolvi deambular pela capital a noite toda, o que fiz, mantendo-me, no entanto, nas zonas melhor iluminadas….Chegada a manhã apresentei-me no local combinado. Já lá estavam cerca de 10 pessoas…
Quando o autocarro chegou eu entrei, mostrei o bilhete ao condutor, e sentei-me a seu lado…no lugar usualmente destinado aos guias turísticos….Ele, o condutor, penso que julgava que eu estava com alguém, pois nada me perguntou durante a viagem inteira…Chegados à fronteira com Espanha alguns agentes entraram no autocarro, pedindo documentos e bilhetes…mas a mim nada!...Acho que eles pensaram que eu era filho do condutor ou qualquer coisa…não sei…mas deixaram-me “em paz”….e lá segui eu viagem rumo a Algeciras (sul de Espanha).
Quando lá chegámos os excursionistas dispersaram-se….e eu, sem planos, fiz o mesmo!...Passei o resto do dia e da noite passeando em Algeciras e “gozando” a minha “nova” liberdade…parte do tempo em amena “cavaqueira” com Holandeses e Alemães…No dia seguinte, já cansado, sentei-me num banco…uns minutos mais tarde vi o condutor do “meu” autocarro, e, como quem “não-quer-a-coisa”, perguntei-lhe o nome da pensão onde os outros excursionistas estavam instalados!...Ele estranhou um pouco, mas eu inventei uma desculpa “esfarrapada” e ele disse-me…Eu descobri e dirigi-me para lá…
Quando lá cheguei entrei como se lá estivesse hospedado…subi ao 1º andar e procurei um quarto que estivesse vazio e de porta aberta…encontrei um! Dormi um pouco, talvez umas horitas, tomei um duche e, antes de sair, deixei uns “trocos” na mesinha de cabeceira e num pedaço de papel escrevi: “muy obligado”…Quando já estava a descer as escadas resolvi voltar atrás…entrei de novo no quarto, escrevi outro pedaço de papel com “muy obligado”, substitui-o pelo primeiro, e levei o original comigo como “souvenir”…ainda o tenho!
Já na rua dei “de caras” com o “meu” autocarro…o condutor reconheceu-me e perguntou-me se eu queria ir “com eles”…eu disse que sim, entrei, e foi assim que fiquei a conhecer Gibraltar!
De volta a Algeciras decidi continuar o meu passeio…após uns minutos “dei por mim” na zona dos ferries…juntei-me a um grupo de Alemães e depois de comprar o bilhete lá segui viagem para Ceuta….Nessa noite, cansadíssimo, tive mesmo de pagar a tarifa toda por um quarto….
O dia seguinte foi fantástico! Na minha mente eu estava na África “real”…o que, de facto, não é nem um pouco verdade…mas queria lá eu saber! O continente era o Africano!...chegada a noite as “coisas” complicaram-se…Já a noite caía quando reparei que estava a ser seguido por 2 tipos, com cerca de 25 anos, para todo o lado que ia…Durante muito tempo, andando sempre em zonas iluminadas e bastante frequentadas, tentei “perde-los” mas sem sucesso…entretanto já eram 11 da noite…Cada vez menos gente na rua e eu cada vez mais assustado…e eles, os 2 tipos, cada vez a caminharem mais perto de mim…estava prestes a ser roubado, pelo menos…
Quando já estava a entrar em “pânico” vi um café (eu estava numa zona, digamos, “menos boa”…) e corri lá para dentro…todos no café olharam para mim!…Eu pedi uma Coca-Cola e sentei-me…os 2 tipos ficaram na rua à minha espera…Após uns minutos um sujeito veio falar comigo dizendo-me que era português mas que vivia em Ceuta…Disse: “Pensei que devias ser Português por causa do emblema do Sporting que tens na mochila…”…conversámos muito e eu contei-lhe a minha “história”…a minha vida e a minha “fuga”…Eu não gostava de estar ali a falar sobre a minha vida a um “estranho”, mas o facto era que eu não conhecia mais ninguém e nesta altura já não estava a gostar tanto da minha “viagem”…
Após mais um bocado fiquei a saber que aquele café era dele…que ele era casado com uma Marroquina (que trabalhava numa farmácia durante o dia e ajudava na cozinha do café à noite…) e que, se eu quisesse, poderia ficar por lá a trabalhar para eles até decidir o que fazer com a minha vida…Foi o que fiz…
Para encurtar esta história que já vai longa, digo apenas que 3 meses mais tarde estava a trabalhar em Marrocos, também num café (pertencente a um casal Francês), e que, após algum tempo, regressei a Portugal…ainda mais “teso” do que como no dia em que “fugi”, mas muito mais homem e feliz…
ITÁLIA – O CONSIGLIERI…
A certa altura da minha vida dei comigo a viver em Bolzano, Itália, junto aos Alpes…Passava os dias a estudar (Pintura), a visitar todos os museus que podia e a trabalhar…a vida corria-me bem. Vivia na zona “histórica”, tinha um bom ordenado e adorava (e adoro!) Itália!...Passava a maior parte do tempo sozinho e feliz…!
Uma certa tarde decidi ir comer ao MacDonald’s…Um hamburger e uma cerveja! Desculpem, duas cervejas…olhem, estava tão contente da vida, tão cheio “de vida”, tão “em paz” nesse dia que decidi beber mais uma!...Isto enquanto observava (e, às vezes, desenhava…) as pessoas que me rodeavam e as ruas lá fora…
A certa altura entram duas moças no MacDonald´s…Uma era era loura e a outra morena e eram tal-e-qual o “homem quer”...”Bélissimas”, disse eu para mim mesmo…Mas não “me meti” com elas, pois é coisa (não sei bem o porquê disto…!) que nunca fiz nem faço…costumo sempre pensar:…”se algo tem de acontecer, acontecerá naturalmente…”
Mas as moças queriam “conversa”…começaram a olhar para mim e, mais tarde, vieram até à minha mesa…Após as “introduções” convidaram-me para ir a uma festa em casa delas, mais tarde nessa noite…Festa de aniversário de uma delas, segundo me informaram…Eu disse que sim, que teria todo o prazer…Escrevi a morada e disse-lhes “até logo”…
À hora combinada bati à porta das moças…viviam numa “rica” casa, eu diria um “casarão”…jardins, muros, estátuas e uns gansos “ou-lá-o-que-era”…Não era um “pálazzio”, mas era grande e bonita!...Eu entrei…mas achei estranho que a festa, que era de aniversário, era composta de 3 pessoas…eu…e elas!...Mas tudo bem, eu já estava a “ver-o-filme” e não tinha razões de queixa…
Sentámo-nos num sofá, ouvimos musica e conversámos…claro está, com muito “flirt” e “inuendos” à mistura…éramos todos novos, solteiros e não estávamos a fazer mal a ninguém…
Passados uns 30 minutos ouvi um barulho…um portão a abrir-se! Nem 5 segundos tinham passado e eis que entra uma senhora pela sala “adentro” murmurando gritos (que é, para mim, “aquela voz/tom” de como quem tenta gritar algo importante mas fá-lo sussurrando…não sei se me fiz entender…)…a senhora não parava de dizer:..” Consiglieri… consiglieri…”…”Quem??”, pensava eu…
As 2 raparigas “agarraram” em mim, levaram-me para as traseiras da casa e fizeram-me pular pela janela fora e ainda depois pelo raio do muro, também das traseiras…Fiquei com o meu fatinho branco “tipo Don Jonhson do Miami Vice” (tinha comprado o fato para o imitar…e até me ficava bem, naquela altura!) todo sujo e esverdeado por causa da relva e do muro…Raios!
Já na rua, chateado com “aquilo” tudo mas com a esperança de ainda (talvez…) voltar para dentro da casa, meti-me num café que ficava mesmo ao lado da dita casa…ia esperar lá para ver se as via sair à minha procura…pelo sim pelo não…
Como eu estava sempre a olhar para o portão da casa, um tipo que estava no café veio ter comigo e perguntou-me o que é que queria “da casa”…Eu, um pouco a medo, disse-lhe que “nada”…que “estava só a ver…”.
Então ele disse-me:…”Olha, se gostas de ver casas vai ver outras mas não esta, que pertence ao Consiglieri!”…”Ao quem??”, disse eu….”Ao Consiglieri…já ouviste falar da Máfia?”, disse ele…eu disse que sim, e ele terminou a conversa desta maneira:..”Olha, nesta casa vive o Consiglieri e as suas duas filhas…se vieste para aqui à procura delas o melhor é ires embora…vês aquela poça de sangue ali no passeio?...é o sangue do ultimo gajo que fez o que tu agora estás a fazer…!”
Eu pirei-me logo dali para fora!!!...no entanto, quando já estava ao fundo da rua, um Alfa Romeo 164 passou por mim e abrandou…a janela do lado do condutor baixou e um homem (este não tinha “ar” de Consiglieri…) disse-me:…”Nunca mais passes nesta rua…”…eu fiquei ali calado a olhar para o carro que entretanto tinha “arrancado”…nos bancos de trás estavam as duas filhas do Consiglieri!...olharam para mim, abriram as palmas da mão, e “mandaram-me” (ambas!!) um beijo que nunca me esqueçi!
Pelo sim pelo não 2 semanas mais tarde mudei-me para Florença…
Vou ficar por aqui…estou muito cansado!..Espero que tenham gostado…são apenas 3 histórias, talvez noutra oportunidade escreva mais…mas talvez mais curtas, eh eh eh!
Abraços,
DCII