SOL
A DOCE SALGADEIRA

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A DOCE SALGADEIRA.

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Dependendo da perspectiva da luz humana, estava a 26 de Janeiro de 2009 assistindo ao novo espectáculo terreno sem qualquer reacção. Os dias, bem poderiam ser insignificantes, mas o tempo de Inocêncio Fontes, era o de opulento reformado das lides entre mares. Refazia-se, esporadicamente, num pensador, sem pressa de cessar as infindáveis feições dum mar de surpresas. Mantinha-se tentado a moldá-lo levemente ao longo da praia e ocupar-lhe os vazios que se manifestam em repetidas observações diárias logo pela manhã. Pasmava, um tanto absorto, ao incremento da maré que subitamente subia e, sem sentir-se molhado, ia escalonando as leituras no patamar mais elevado da sociedade destacada no café. Os naipes de pensadores de bolso, designados por catalogadores do próprio tempo, saíam sempre empenhados da grande algibeira do casaco, sem esconderem o gosto em acudir à pestilenta vulgaridade que vai caindo em desgraça dos dias. Bastaria a mesquinhez, onde vagueiam a avaliação dos dias, para o fazer cair no mesmo erro. Praticamente com sessenta e cinco anos de idade, mantinha-se intacto ao senso comum avulso das tribunas da erudição arcaica da filantropia, mas era feliz. Inocêncio Fontes não possuía a ousadia gratuita do confronto ou interferência na vida pseudo-intelectual, que se preocupa com termos que fazem parte da compostagem do próprio tempo. Deixou os sublinhados diários das notícias que vibravam na boca do café prosseguirem a natural fusão da consciencialização nativa e mundial e juntarem-se aos refazedores dos estardalhos das expressões envelhecidas, com rostos que coalham uma jovial pasmaceira. Travou grande parte da sua vida a navegar, rodeado do despojado mar libertador do imaginário e, agora, em terra, descobriu a vulnerabilidade da escapatória ao sofrimento, com vidas encafuadas dentro de casa. Mesmo assim, tenta não embrutecer com as âncoras que encontrou nos inventários informativos. Não vive com a sedução propagandista  de  massas,  principal  fornecedor  de  conteúdos,

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onde se promove a materialização inútil dos costumes, mas gosta de desfrutar da vida na realidade. Bastou aguardar entre um pequeno fragmento de três séculos no tempo e entrar no caminho transformador dos aspectos visuais que definem a civilidade da brutalidade com alguma subtileza. O flanco político administrativo encontra-se num modelo pluralista gasto, causado pelos constantes acertos de objectivos, asfixiando diariamente o próprio sistema. A fonte noticiosa engrossou o seu caudal em novas fontes, acompanhadas de opiniões que saltitam na mais jovem e avançada tecnologia da captação mediática. Falta a certificação do domínio das águas que desembocam na modelada razão onde se dividem aos puxões, consoante os interesses instalados. Servidos os debates que alimentam a democracia, segue-se a absorção monologar de todas as azias acompanhadas de estranhas detenções dos segredos, formando uma saga infindável de resultados que dissecam a justiça. Antecipam uma conjuntura traçada à força nas linhas separadoras e tudo são sonhos onde não se equaciona o medonho desequilíbrio que vai espelhando ambas as vontades sobre um fio de felicidade. Estes aspectos podiam até não ter saído da cabeça de um velho, mas esta foi a equação que Inocêncio Fontes, de cabelos brancos, desembaraçou logo pela manhã enquanto se aprontava para sair de casa na Figueira da Foz. Apesar de ter um asco às suas rugas na pele, que teimam em denegrir a sua puberdade, é um homem emancipado, sem outros preconceitos, mantendo-se num meio indiferente ao aspecto que os anos deixam. Firmava-se, sem arredar pé das águas profundas onde lançou redes aos balanços, fazendo músculos nas ondas que o endureceu. Não se deixava abalar pela forte nortada que soprava no pontilhão do cais marítimo. Desde o início da manhã, anda pelos cabeços da amarração que ainda permanecem livres dos puxões das grandes embarcações. Por ali vai coçando as barbas e arrastando os pés no chão, sem esgotar  a  sua  admiração  em   seguir   a   corrente

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da  maré descontraída que o deixa boiar um olhar firmado nos exíguos barcos de peixes miúdos. São pescadores novos que coam as turvas águas vezes sem conta em malhas a ver navio, tentando suportar a navegação numa carreira sacudida de sombras da ondulação. Não via o mesmo gosto no engate do isco no anzol porque a vista não deixava, porém podia embalar na inquietação, adormecendo nesse sorriso que nos traz a satisfação de uma pescaria. Por maior deserto ou grão de vida que nele existisse, Inocêncio Fontes agia no tempo numa leitura permanente perante a alienação espiritual dos outros, sendo irredutível à personificação, enquanto grão segregado ao negrume nuclear do universo inacabado. Para ele, o último fragmento do século demonstrava a exigência do modo de vida humano, que ainda agora tinha iniciado a aceleração e já se estava a sentir a travagem que acentua uma esquizofrenia na mais nova vaga da conclusão capitalista. Não era a primeira vez que a alavanca económica estava sedada em parte incerta, escondendo o imo da razão vital.

Os segredos da mente não passavam de subterfúgios aos olhos de Inocêncio Fontes, amante do mar desde que iniciou os primeiros serviços pulando barricas de vinho, fazendo-se crescer sem azedar provas. Um indivíduo de índole marcante quando apertava as amarras do navio e as podia atracar. Nunca casou. Foi banhando-se nos portos de abrigo nas temporadas em que andava embarcado. Negociou atalhos abrindo novos caminhos, sacudiu sempre as gadanhas sem deixar vestígios a peixe nas salgadeiras. Com os anos, escondeu-se atrás das barbas, ajeitando na estiva do porto cargas a passagens à sua navegação de longo curso. Hoje vive apenas de umas pequenas fracções dos lucros que amealhou em negócios que manteve no passado com tripulantes de cargueiros com quem trabalhou e ainda representa uma relevante plataforma logística em terra. Passou grande parte da sua vida dedicando-se ao embarcadiço, explorando as costas dos portos do mundo. Entre descargas e cargas em cada porto que ia conhecendo, aprumava-se antes de sair para desembarcar em locais de diversão, passando por bares e pernaças de mulheres.

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Recorria aos mesmos locais, mas nunca eram as mesmas. Em cada porto novo, farejava a cidade em demanda e raramente se enganava nos rodeios das praças e ruas que desembocam todas nas corridas da chuva. Inocêncio Fontes é um homem alto como uma grua, que perdia as mangas do casaco nos longos braços marcados de desenhos e siglas metálicas com a força de um coração galã. Em alto mar, as suas mãos ásperas do trabalho não o incomodavam a descarregar a energia que se acumulava nas viagens mais dilatadas no convés. Por vezes, sujeitava-se a apagar as noites lentamente estimulado com truques manuais, acompanhado num vasto reportório cinéfilo de intérpretes americanas galvanizadoras.

Nos anos 80 deixou os barcos de carga geral e a granel, feitos numa perfeita sucata, mas mesmo assim enfrentaram enxurradas de vagas de mar sem afundar. As primeiras viagens foram embarcadas em Roterdão, num cargueiro frigorífico, mantendo a minúcia que requerem os negócios da china, sempre executados com extremo cuidado, ajudado pelos três sócios, engendrando as possíveis escalas em oportunidade. Sobre o porto firme, após as autoridades portuárias darem ordem, iniciava-se a descarga, orientada com o apoio de Inocêncio Fontes, operando via rádio, para assegurar a estabilidade do navio. O trabalho era moroso, aguardando que todo o espaço dos porões ficasse apenas reservado à ressonância das vozes dos três limpadores que se preparavam para retirar a excepcional bagagem, devidamente embalada, para não criar alergia à vista do comandante e acomodar melhor toda aquela tonelagem de carga com cheiro a fruta fresca. Dispensado todo o pessoal excedentário, os três sócios dirigiam-se para as entranhas do navio, erguendo maçaricos em punho, para efectuarem a remoção de um tapume laminado. Enquanto decorria a operação dos “sócios do tapume”, Inocêncio Fontes arrefecia na asa da ponte do barco, preparando as manobras térreas de saída do cais. Com a ânsia toda, a ampla área vazia parecia estreita para passarem no meio dos contentores

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do cais, a pé, e não serem surpreendidos pelas autoridades portuárias ou saqueados por mandatários mediadores de alguma coroa. O medo instalava-se, pois estavam no norte da Europa, contíguos às regras de um preciosismo bretão e longe das calorosas terras do atlântico sul que deixaram há semanas atrás. Sentia-se satisfeito por ter vivido e nada arrependido dos negócios em paralelo com tudo o que negociou, sem o deixar aprisionado a devedores.

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A grande gratificação de todas as viagens foi concluída há seis meses, quando lhe bateram à porta de casa. O dia estava soalheiro e o almoço daquele sábado de verão com uns camaradas, acabara de o arrancar da mesa e o atirar uns metros à frente, para a cama de rede no soalheiro quintal murado. Anestesiado na aguardente, arrotava breves sopros, distanciando as moscas da sua boca. Acorda de imediato com um bater forte no portão de ferro. Os seus camaradas já tinham saído e não batem no portão porque lhe conhecem as manhas… mas insistiam. Devem ser banhistas à procura de quarto para alugar, e responde clamando aos céus que o deixassem dormir:

-É amigo, tenho tudo alugado…

Do lado de lá do muro, uma voz de mulher pergunta:

-Aqui é a casa do senhor Inocêncio Fontes?

-Sou eu…

-Então, abra o portão!

Entorpecido, levantou-se para ir abrir o portão e ver o que se passava com a mulher de pronúncia espanhola. Conforme abre o portão depara-se com um olhar extasiado de mala de viagem e outra de mão a condizer, pronta para se instalar na sua casa. 

-Então o que se passa? Pergunta o velho Inocêncio.

-Você é o Inocêncio Fontes? Diz a mulher de voz tímida.

-Sou, mas não tenho possibilidades de alugar… 

A mulher interpela-o: -Posso dar-lhe um abraço? 

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Inocêncio ficou baralhado, não se lembrava de ter visto aquela mulher em nenhuma parte e tão pouco ter parentes espanhóis. Especados na entrada do portão, continuavam a olhar-se.

-Se a senhora quiser, eu posso dar-lhe uma ajuda, mas aqui não pode ficar, eu estou velho de mais…

A mulher interpela-o novamente:

-Veja lá o que vai dizer que eu venho de muito longe para dar-lhe um abraço, pai.

Completamente bloqueado com a palavra pai, Inocêncio, conhecedor de recheios de gente, descobre-lhe umas gotas de mar salgado fugidas das duas sãs e belas ilhas que o vêm sem vento, fixas em si e pergunta-lhe, recuando um passo e escancarando o portão todo para trás para poder entrar a incógnita filha:

-Quem é você?

-Sou a filha de Valquíria Delmar, do Panamá, está lembrado?

-Valquíria, sim… do estreito do Panamá…Estive lá duas vezes. Mas onde está a tua mãe?

-No Panamá. Não me diga que você acha que a mãe tem saudades suas?

-Tens toda a razão. Entra. Inocêncio ficou sem palavras com a aparição que nem lhe perguntou o nome.

-Como te chamas?

-Olga Delmar. Retirando de imediato da mala de mão em pele uma fotografia da mãe, oferece-lha, acrescentando: -E esta aqui, ao colo, sou eu.     

Sentaram-se nas cadeiras por baixo do alpendre, junto da mesa por arrumar. Copos sujos e pratos com restos de comida esperavam que as moscas e formigas acabassem por limpar os vestígios. A filha também reparou que o velho tinha acabado de levar uma chicotada, dobrando-lhe os ombros puxados pela cabeça apontada à fotografia que tinha nas mãos e adiantou conversa: -Quero que fique a saber que a minha visita foi só para o conhecer, não venho pedir-lhe nada mais que a sua companhia e me conte das suas viagens. E se estiver a precisar de alguma coisa que lhe faça falta, diga, não se acanhe.

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-Porque perguntas isso?

-O pai aluga quartos da casa… é porque precisa.

-Os quartos, neste momento, até estão vagos… se quiseres ficar, podes escolher um para ti.

-Então, o pai tem um papel lá fora com escritos e quando bati no portão, você respondeu que tinha tudo alugado.

-Filha, o aluguer dos quartos é uma forma de não me sentir tão sozinho. Queres comer alguma coisa?

-Ainda não tenho fome, mas posso lavar-lhe esta louça.

-Deixa estar, dizem que vai chover esta noite e basta recolher o toldo que a chuva faz o resto, mas conta-me cá como soubeste que eu vivia aqui, se a morada que dei à tua mãe era de Sesimbra, e essa casa já nem sequer existe?

-Foi com uma boa dose de paciência, através das novas tecnologias e da imprescindível ajuda da Rosa de Sesimbra, sabe quem é?

-Não sei a que Rosa te referes, mas com as novas tecnologias até esta fotografia poderia ser uma montagem, também podes ficar a saber que com a cisma da tua mãe, tu nasceste e cresceste sem eu ter tido conhecimento. Tens mais irmãos?

-Que eu saiba, não. Quantas vezes o pai foi ao Panamá?

-Espera um pouco que eu já venho.

Inocêncio levantou-se da cadeira para pegar dois copos lavados e uma garrafa de whisky velho capaz de resistir ao envelhecimento sem a ver partir. Não guardava muitas garrafas especiais, mas as mantidas fechadas tinham um sabor maior do que abertas nesses períodos de êxtase descritos em milhares de empenhos ao fascínio dos prazeres, onde qualquer bebida serve para duplicar a visão da noite e se ajustam as contas para os dias seguintes. Naquela santa tarde podia estar a maior tempestade que alguma vez enfrentou e nada mais sentia a não ser as diversas leituras do peso do gene, que não acompanhou. A circunstância que fez Inocêncio ir a primeira vez ao Panamá, deve-se a uma avaria no navio, deixando-os à deriva um eterno dia em águas mornas. Depois de rebocado e atracado iniciaram-se as reparações, adiadas em sabotagens para assegurar a amarração de amores em

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que Inocêncio e Valquíria se tinham envolvido, esgotando inesperadamente o stock de preservativos. Não foi o único tripulante que humedeceu o corpo em terra panamense. Inocêncio e outro tripulante deram uma carga de trabalho aos reparadores do navio. Obrigaram-nos, inclusive, com palmadas de mão fechada, a dizer ao comandante que estavam à espera de peças. O suborno não foi fácil, até soarem os três longos apitos da partida. Na tacada à máquina, lavavam-se as manchas das manobras e as pingas de amor e sangue que secaram na viagem. Inocêncio chegou a Portugal passados sete meses de trabalhos, ajudando a riscar a pintura da escala de calados no costado do navio. A habitação em que recuperava o fôlego para novo embarque ficava em Sesimbra. Na entrada da antiga e mofada casa, solta a bagagem das mãos para recolher do chão toda a correspondência que a porta rasgada, apenas na portinhola, permitia que a comunicação voasse, dependendo da vontade do carteiro. No meio de sete meses de memórias e contas para pagar, duas grandes cartas de amor, perfumadas por Valquíria Delmar. Em nenhuma das cartas que ainda guarda, referia que estivesse grávida, tendo uma vaga ideia de uma, escrita disposta como fosse um questionário. Expressava uma grande vontade no seu regresso para viver junto de si e permanecer e amá-lo eternamente. Tudo isto, como fosse possível, um lobo-do-mar atracar-se a um único porto. Nunca lhe respondeu às cartas e dois anos depois voltou ao mesmo porto no Panamá. Foram dois dias, fazendo as mesmas incursões, à mesma casa e aos mesmos locais, mas perdera-lhe o rasto. Olga escutava atentamente as palavras do pai partilhando cigarros e bebendo do excelente whisky.

-E tu, Olga, vives lá com a tua mãe no umbigo das Américas?

-Sim, vivo com a mãe e trabalho numa rádio.

-Não me digas que é pirata.

Pergunta Olga muito admirada: -Quem é pirata, a mãe ou eu?

-Refiro-me à rádio onde trabalhas, pois a tua mãe gostava mais de dançar disco.

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-É rádio oficial, sim. A mãe, desde que eu nasci, foi viver para casa da tia Dalva em San Felipe para poder trabalhar. Lá cresci, fiz boas amizades, mas a nossa vida deu uma grande reviravolta desde que a mãe casou com um americano. Tinha eu na altura dezanove anos, quando fomos viver para a Avenida Balboa, com toda a comodidade, para um apartamento enorme. No ano passado o meu padrasto teve um acidente de carro que o levou.

-Vocês também iam no carro?

-Felizmente não. Mas a mãe ficou muito combalida. Anda pela casa, lá no arranha-céus todo envidraçado, a falar sozinha…

-Porque é que ela não veio contigo?

Olga cruza os braços em espanto: -A D. Valquíria é uma pessoa muito boa, mas não chegue a tanto. Acha que depois de todo o sacrifício que a mãe passou para me criar, ia gostaria de voar como uma passarinha para o rever? Quando eu disse que vinha a Portugal ao seu encontro, ela opôs-se, mas posso estar a conjecturar… cada um é que deve decidir a vontade por si.

-Filha, eu tenho sessenta e quatro anos e acabo de saber que sou pai pela primeira vez, não tenho o direito de julgar a atitude heróica da tua mãe, omitindo a boa nova, porque se eu soubesse, teria assumido a responsabilidade.

-Por acaso na época recebeu alguma carta da mãe?

-Recebi.

-Então fique sabendo que a mãe quando lhe escreveu não procurou de si esse compromisso do seu dever material venerado, bem que ajudaria na altura. O que ela queria era o seu carinho e atenção que você foi capaz de lhe dar em tão pouco tempo.

Inocêncio fez silêncio. Levantou-se e distendeu as pernas no pátio. Olhou o céu limpo e Olga seguiu-o, procurando qualquer ruído do dia que escurecia. Ambos, iluminados em whisky e de viés, eram espreitados pelo pasmado candeeiro da rua. Já bastava de   burgo-podre   a   estremar   a   excitabilidade   nervosa   que

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magnetiza o mundo, como todos os seres desejassem ser compostos de metal. Ele não acredita que hajam voluntários que queiram viver eternamente num estaleiro tentando aliviar a fuga da loucura. Abraçou-a, arrumando os afectos, deixando ficar um sussurro no seu ouvido: -Valquiria…

-O pai quer que lhe telefone?

-É melhor não. Só mostraria a minha irresponsabilidade.

-Mas o pai não fez nada de mal!

-Isso é o que te parece filha. Acabei de turvar a visão do meu mundo, dando-te whisky em vez do leite.

Olga, com o espírito reconciliador, por instantes vislumbrou a possibilidade de vir a vê-los juntos.   

-Ó Pai, não se preocupe, eu sou adulta já tenho trinta anos e ninguém vai acreditar que você foi capaz de embebedar-me com leite, para além disso, a mãe não vai notar que estivemos a beber. Ela vai gostar de o ouvir. Vou ligar.

Olga agarra-se à sua mala de mão pendurada na cadeira e remexe a tralha demoradamente, repetindo um discurso para dentro da mala em pele, como o animal ainda estivesse vivo: -Birkin, onde escondeste o meu telemóvel?

O pai apronta-se a ir acender a luz do pátio para facilitar a busca do telemóvel e singrado na ventania alcoólica pergunta: -Quem é o Birkin?

-É marca de mala de famosos…  

-Pensei que fosse o teu namorado. Hoje dão nomes próprios às coisas mais insignificantes, não bastava ser mala de pele de crocodilo?

-Ó pai, deve haver muita gente que se arrasta para ter uma mala esfolada de animal, mas esta é mesmo sintética, agora o que interessa é saber do telemóvel.

Encontrado o minúsculo telefone dentro da pacífica mala, Olga prime a marcação e passa-o de imediato, tiritando a voz em chamada de atenção: - Não se esqueça de lhe dizer que a vai visitar.

Inocêncio agarra o telefone calado, aguardando a chegada de alguma palavra em bom-tom.

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-Então filha, deste com a casa desse desgraçado marinheiro do teu pai ou vive mesmo na rua?

Rompe-se o silêncio com um sorriso de Inocêncio: -Valquíria, também não perdeste o sabor do sal…

-Quem é que está a falar?

-Inocêncio, o pai da nossa filha.   

-A Olga está aí?

-Foi lá dentro ao quarto de banho. Porquê, já tens saudades dela?

-Ó vadio, quantos filhos fizeste por esse mundo?

-Se todas as outras mulheres a escrever forem como tu, esta é com certeza a única filha que temos.

-Ainda te fazes ao mar ou só comes peixe no prato?

-Deixei o embarcadiço há três anos, mas qualquer dia vou fazer-te uma visita.

-Só uma? Bem, se eu durar, vou ficar à espera mais trinta anos, depois disso evita fazer perguntas para não me cansares.

-Com que idade tu estás?

-Menos cinco do que tu, desgraçado.

-A tua filha está aqui, queres falar com ela?

-Foi ela que me ligou, ou estou enganada?

Despediu-se rapidamente, com mais vontade de se despir e voar até ao Panamá, e passou o telefone à filha. Os minutos seguintes foram estonteantes. Ambos estavam excitadíssimos de alegria abraçados por saber que iriam estar juntos como uma família, nem que fosse por uns instantes, e a filha enche os dois copos para aclarar o entorpecimento em causa real e arrebata um valente beijo no pai, pedindo um brinde de trago, deixando a garrafa com o fundo a luzir. Sem qualquer dúvida, Olga tinha características marcantes da mãe que guardaria para aferir no Panamá e em altura própria. Aquela união familiar, para além de todo o significado que pode expressar para cada um deles, deixava o sangue frio de Inocêncio mais grosso, não permitia perceber ainda toda a razão de  tal  aproximação,  passados  trinta

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anos, deixando-o com a sensação de mãe e filha quererem-no por perto.

Com fome, Olga começou por levantar da mesa toda a louça suja e o pai deitou-se na rede a seguir as estrelas sem paragem e chama a filha: -Olga, chega aqui.  

-Que foi, está bem disposto?

-Estou…tenho ali no forno uma carne que sobrou do almoço…

-Eh…eh…, deixe-se estar, eu segui-lhe o cheiro e já fui espreitar, quando tudo estiver pronto eu chamo-o.

Uma hora tinha passado e Olga perdia-se em curiosidades espalhadas pela casa. O jantar já tinha arrefecido ao som dos roncos vindos da cama de rede, humedecida inesperadamente no nevoeiro que caiu. Tratou de o acordar, não fosse desaparecer no nevoeiro. Sacudiu-o da rede, despertando-o da bebedeira. Ele imaginava estar a navegar em alto mar, numa visibilidade cega, zumbida pelas estrondosas trompas dos navios. Põe um pé em terra, tentando equilibrar o barco. Entorpecido, seguiu para dentro de casa amparado pela filha que lhe corrigia a trajectória. Voltou a restabelecer o contacto à mesa, conferindo a paridade do americano que se teria atracado a Valquíria.

-Filha, que trabalho tinha o tal americano que morreu no acidente?

-Era um pequeno empresário de construção civil, mas dedicando-se essencialmente a obras de saneamento privado, esgotos, drenagem…O senhor Edgar gostava de empreitadas muito subterrâneas.

-Edgar! Mas afinal de que nacionalidade era ele?

-Brasileira.

-Ah, América do sul...

Olga ri-se e acrescenta: -A mãe pregou-me a mesma partida, dizendo que ele era americano, e quando mo apresentou é que percebi. Mas deixe-me contar o mistério que ele deixou. Ele era de estatura baixa, pouco conversador, bem diferente da mãe e de mim, passava pouco tempo no apartamento luxuoso onde vivemos. Às vezes, aos fins-de-semana, quando chegava da farra,

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encontrava-o a ver um filme na sala ou a patuscar com a mãe na cozinha e eu aproveitava para dormir, pois levanto-me muito cedo durante a semana. Os dias que jantávamos juntos, eram festejados pela raridade, ver o senhor Edgar a partilhar breves palavras caídas como bolas de gelo nas suas doses de whisky… Nem tudo lhe correu bem. Edgar antes de trabalhar por conta própria era encarregado numa obra no exterior do estado do Panamá. Na altura, as chuvas, tinham arrancado parte da construção duma conduta de esgoto junto a uma estrada muito movimentada. Durante a reparação, a obra parou devido à intensa chuva que os impediu de prosseguir e abandonaram o local retirando os sinalizadores da estrada, já ligeiramente abatida, para facilitar a passagem no local. A estrada de noite acabou por abater fazendo vítimas mortais e, desde aí, nunca mais voltou a sair do Panamá.   

- Possivelmente ele não era o único responsável do abatimento da estrada.

-Mas na altura, a bebida poderia ter sido a causa da distracção.

-Ele era alcoólico?

-Era, mas só se notava de perto. Não enrolava as palavras, muito menos pedia para embrulhar, consumia sem perder o sentido de um assunto. Agora, se alguém lhe falasse em parar com a bebida, ele saía desembestado de casa, voando com o carro e assim se foi… Dizia não ter família e que a única era a do trabalho e nós as duas. Depois da morte no trágico acidente, viemos a saber que tinha um irmão a quem tinha deixado um testamento e uma parte do seu património. A empresa das fossas está agora a seu cargo, mas até hoje não percebemos a razão de esconder aquele irmão. Mesmo assim, nada de extraordinário, não fosse o dinheiro que viemos a descobrir dentro do cofre que tinha em casa.   

-Era muito?

 -É muito, demasiado para acreditar que tivesse só aquele negócio de fossas…

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-Desculpa filha, mas tudo isso me cheira a m****. Passados trinta anos vens conhecer o teu pai e trazes-me uma notícia destas!

-Ó pai, sempre pensei que ia gostar da ideia de ajudar a limpar aquele cheiro. Mas fique sabendo, tudo se proporcionou desde a morte do Edgar. Eu sempre falei com a mãe em querer um dia conhecê-lo, desde o tempo em que vivíamos em San Felipe em casa da tia Dalva. Chegava da escola e ia ajudar a mãe a fazer empadas para vender no dia seguinte… e tocava no assunto. 

Inocêncio cruza os talheres e responde limpando a boca ao guardanapo: -Claro que vou ajudar, mas diz-me, ele não terá deixado dívidas para pagar, vocês não desconfiam de nada?

-O apartamento estava pago, todos os empregados tinham o salário em dia e, até ao momento, ninguém nos bateu à porta.

-Então, não se preocupem com a proveniência do dinheiro, é vosso.

Inocêncio afastou todo o tipo de suposições que pudessem inverter ou simular a felicidade da filha, erguendo um copo cheio de vinho ao mar das encruzilhadas que o mundo enfrenta, cortando a vaga de golada. Bate o copo vazio na mesa não querendo pensar que pudesse estar a ser alvo de uma hábil manobra montada, longe dos seus horizontes, e abre a garganta aguada mais profunda do seu ser, vagueando em voz alta aos perdigotos: - Olga, nem a idade e sabedoria nos salvaria dos escrúpulos mais ocultos, atravancados na natural inépcia a que chegou o egotismo. Os homens procuram outro planeta com as características da terra e, se um dia o descobrissem, seria consumido como uma guloseima nas mãos de uma criança. A humanidade está a criar o maior espelho sobre si próprio e a terra ajuda a renovar o poder de voar para nesse voo, que é a vida, conseguir decifrar a dor que espelha o azul dos dias e o negro das noites.

Olga contorcia-se na cadeira apoiando a cabeça, para tentar fixar a duplicidade dos contornos da tal bebedeira.

-O pai está a voar muito alto.

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-Ó filha, os segredos da mente dos homens não passam de subterfúgios hábeis de quem dispõe teorias. A vida é um aperfeiçoar de voos… e repara que, nem a sua condição, o afasta de terminar num rasteiro.

No dia seguinte, o sol batia nas portadas entreabertas, arejando os pulmões da casa às golfadas de fumo, entrando o ar quente do meio-dia. Ambos estavam com o corpo bem vincado da quebrada bebedeira e abandonaram a casa dos quartos de hóspedes e fizeram-se à praia, acordando as línguas nas águas frias de uma noite de conversa.

-Quando é que o pai vai ao Panamá?

-Porquê, não te sabe bem esta água fresca?

-Está óptima para acordar…

Olga sentou-se num rochedo, aguardando pela resposta que demorava vir à tona. Tinha uma semana para saber quais as intenções do pai em ir visitar Valquíria, mas ficou esclarecida durante o almoço num restaurante perto da praia. Ninguém poderia prever o resultado do reencontro, mas Inocêncio estava decidido a visitar Valquíria pela altura do seu aniversário, em meados de Outubro. Faltavam três meses para a surpresa e Olga começou de imediato a engendrar, conseguindo preencher em poucos dias, o aluguer dos quartos de hóspedes da casa do pai, tarefa facilitada graças aos seus dotes expeditos que aceleraram a noção de tempo ao pai.

Os três meses passaram-se sem o velho se sentir velho, abraçado semanalmente em telefonemas com a filha e, antes de embarcar, seguiu os seus conselhos e cortou a barba. A sua expressão facial tornou-se tão leve que, no dia do embarque, esteve quase a perder o voo, devido à fotografia de barbas no passaporte, contrastando com a nova pele rebocada de branco. Durante a travessia aérea criara um conflito antagónico sobre o atlântico e sentiu os pés em terra, desencadeando uma real visão de Valquíria. Estaria ela agora mais exigente para disfarçar as suas nádegas e peito mais pendentes ou estaria em permanentes recauchutagens até desfigurar a velhice? Apesar de saber do seu temperamento vibrante, acendem-se hoje sessenta anos, e  não devem  ter  caído,

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muito menos passados no estreito do Panamá. Inocêncio tinha poucas mudanças a aparentar. Mantém o vigor que o enaltece e todo ele se distende em sedução, transmitindo, num esfregar de pontas de dedos, o valor da intimidade conquistada com ocasionais alternadeiras. Abdicou de alguns hábitos, pedidos pela filha, mas só as barbas ficaram no chão ao amanhecer em Portugal, enquanto o compromisso de fumar voou adiado em duas escalas na viagem dentro do casaco, até finalmente desembarcar, já noite, no Panamá. Na gare vai olhando para todas as pessoas, acertando o andar híbrido, chegando a ser sulcado por alguns apressados que o acostam ao extremo brilho dos olhos da filha. Abraçados, saíram do aeroporto, pois estava mais que combinada a surpresa à mãe e meteram-se num táxi. Olga estava feliz. Sorria agarrada ao braço do pai, mas estava abstracta, não deixando sair as palavras livremente como em Portugal, parecendo aprisionar um montão de surpresas. Depois de meia hora, o táxi pára numa rua escura, sem grande movimento, e o pai pergunta, segurando a sua mala de viagem: - É aqui?

-É, mas não se assuste com o aspecto que por dentro são muito confortáveis.

O pai ficou espantado com os “arranha-céus”, de dois e quatro andares, que ladeavam a rua. Aquelas habitações tinham ar de já terem respirado melhores dias e Inocêncio não quis demolir com um berro os neurónios da vizinhança e perguntou encantado com tanta beleza: -É aqui que vocês vivem?

- Outra vez? Já lhe disse que sim…

-Mas filha, tu quando me disseste que a tua mãe vivia na avenida Balboa…

-Pois, se eu lhe contasse a verdade, você nunca cá punha os pés, não é?

Inocêncio tenta atenuar o tom da voz da filha: - Não digas disparates. Eu viria sempre filha…

-Pai, tudo o que lhe contei em Portugal é verdade excepto a avenida, que afinal é rua, faz-lhe diferença?

O homem estava a tentar abordar a filha do mesmo jeito com que

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se pega num recém-nascido: -Não, não me faz diferença nenhuma, mas quem é que está com a tua mãe dentro de casa?

-Em princípio, quando entrarmos, nós os três. A porta é esta, agora veja lá se é amável. Olhe, não se esqueça que ela faz anos hoje e não sabe que você está cá.

A filha abre a porta e empurra o pai para que entre à sua frente. A entrada da casa fazia-lhe lembrar a casa que teve em Sesimbra, mas mais colorida, talvez pela música que parece ter ficado a tocar trinta anos. Meia dúzia de passos para atravessar a sala e entrar na luz branca, onde vibravam os sons da tachada e apela ao costado da cozinheira: – D. Valquíria, tem jantar para um lobo-do-mar?

Assim que se voltou, começa a limpar as mãos molhadas nas ancas de quem reconheceu as águas passadas e vocifera o nome da filha –OLGA, OLGA, OLGA…

-Que queres da Olga, ela está aqui, deixaste de ver?

Pai e filha estancados de braço dado à sua frente aguardam a reacção da mãe. 

-Não, estou a ver-te muito bem… Estás a agarrar no que deverias ter abraçado quando eu te chamei.

Olga afaga carinhosamente o peito do pai e diz-lhe: -Pai, não ligue, que ela está cheia de ciúmes meus por eu o ter encontrado.

-Tu é que quiseste ir atrás do teu pai, não fui eu. 

Olga sai da cozinha e deixa-os ao desejo, não fosse estragar a carpideira entupida por o abraçar. Sem mesuras, o velho avança e atreve-se a um justo cumprimento, apertando-a num abraço tatuado e felicita-a de parabéns. Os seus grandes braços ainda chegavam para se atracar ao seu físico, agora mais anafado, e beija-a repetidas vezes no rosto. Apesar de estarem na cozinha, Valquíria não alimentou grandes ilusões e fez-se desamarrar das mãos que a incomodavam no trancão. Pergunta ele, insistindo, sem desviar as atenções da fome:

-Então, o que é o jantar?

-Sancocho daqui… afastando-o com a apresentação da faca-mãe de cozinha e acrescenta: ou queres um picadinho?

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Sorriu e saiu da cozinha: -Por falar em coxo, vou tirar os sapatos tenho os pés inchados.

-É, fazes bem pôr os dedinhos de fora…

Enquanto ele tira os chinelos da mala, Olga trata de pôr a mesa enfeitando-a com pétalas de flores. Sentados os três à mesa, Inocêncio diz estar cheio de fome e responde Valquíria: -Se não comias bem em Portugal podes começar a comer as pétalas, que aqui serás o último a ser servido.

-Ó mãe, não precisa de o tratar assim…

-Tu cala-te. Disseste que tinhas que ir à rádio para resolver um problema e afinal foste buscar este desgraçado onde?

-Ao aeroporto.

Valquíria vai servindo-os e resmungando: -Meus aldrabões, vocês encobrem-se bem. Olhem que eu ainda estou…

Olga pede à mãe: -Diga o que ia a dizer, estou…

-Estou parva…

Olga manda uma gargalhada e diz: -O amor é belo.

Inocêncio, à colherada, vai sorvendo o caldo do sancocho, uma espécie de cozido à portuguesa ensopado com pedaços de galinha, porco e sem qualquer porção de chouriços, coisa que

o deixou indignado, tal falta, e apura o facto: -Este prato não tem enchidos, vocês não gostam?

-Gostamos pois, não sei se vale a pena dividir essa rodela em duas, o que achas filha? Aponta Valquíria para o prato dele.

-Mas eu não tenho chouriço no prato! 

-Pois não. Olga vai buscar a faca.

-Ó mãe, pare com isso, você hoje está uma pilha.

-Espero que sim. Disse o atrevido Inocêncio.

-A mãe tomou hoje a medicação?

-Hoje, como faço anos, dei folga ao trabalho de os tomar. Ó Inocêncio, eu não pus chouriço, mas antigamente até de papagaios era feito este prato.

Acrescenta Olga às palavras da mãe: -Os papagaios devem ter sido obra de Noriega, quem falasse demais, ia para a panela.

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-Mas eu amanhã asso um chouriço, queres?

Inocêncio pára de comer e responde à aniversariante: -Depende donde o fores arranjar.

Valquíria tenta suspender aquela parvoíce e trata de acertar-lhe o tempo, batendo com um dedo na testa: -Aqui, apesar de serem menos cinco horas do que em Portugal, depressa o calor faz crescer vários riscos e cuidado com as carnes, podem ter ossos finos que se espetam na garganta.

O dia era de festa, mas para empurrar a comida bastou o sumo de ananás e a perturbada mulher que distendia volta e meia um braço para lhe dar uma palmada nas costas.

Desde a noite em que chegou ao Panamá, a vida de Valquíria e Inocêncio mudou radicalmente. Enfrentaram uma semana sem recordação, recheada de novos temperos amorosos retomados sem pressa, pois Valquíria aparentava estar minada numa depressão nervosa e sem tomar a medicação, toda ela era uma bomba prestes a rebentar por dentro e por fora. Inocêncio teve muito cuidado a manejar com tal engenho e teve que arregaçar mangas para suportar conter tanta energia. A presença dele tornou-a ainda mais agitada e, não fosse a filha propor levá-la ao médico para rever a medicação, Valquíria acabaria por esgotar o velho. Na segunda semana, e aos poucos, voltou a ser vivaça, mas sem estremar os seus comportamentos. A estadia estava a chegar ao fim e não se podia ir embora sem agradar a filha com uma visita à rádio, que seguia mais atentamente nos últimos dias, e ficou combinado que na próxima viagem faria uma emissão com o pai.

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Passaram três meses, a determinação dele ganhou novas formas e de placa de aluguer de quartos passou a placa de vende-se. No primeiro fim-de-semana que a colocou, já a estava a tirar para acrescentar Urgente, ao ponto dos amigos questionarem se estaria zangado com alguém. Usou a técnica da filha que lhe alugou os quartos da casa num instante, escrevendo na frente de uma t-shirt, vende-se casa e o número de telefone, mas faltavam-lhe os atributos naturais da filha e as letras grandes bem desenhadas. Também, com o frio de Janeiro, o agasalho não ajudava e aguardou por melhores dias.   

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Inocêncio Fontes Mula imigrou recentemente para o Panamá.

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Secundino em vias de habitação

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A casa estava demasiado húmida devido às infiltrações na placa e, com os dias a cheirar a primavera, Secundino decidiu ir ao centro regional de realojamento habitacional Longas Vias saber de vagas mais perto da cidade. Chegou por volta do meio-dia, cansado e rouco, pois passou a noite a enxotar a rataria que, volta e meia, o apoquenta. Espreita no guichet ambulatório e ninguém para o atender. Aguardou por ali, perto da roulotte, até que lhe aparece o agente imobiliário e o saúda: -Boa tarde, então o que é que o traz por cá?

- Boas… ando à procura de um placa aqui mais perto da cidade, por acaso sabe-me dizer se há vagas?

- Ó migo, os espaços condignos que temos estão todos ocupados, mas estamos a prever que antes das eleições fiquem todos os pedidos resolvidos.

- Sabe, é que eu para safar a boca, farto-me de andar e tenho os pés numa lástima, não dá para por uma cunhazinha?

- Ó migo, então, se você está aflito dos pés, com uma cunha ainda vai ficar pior. Mas onde é que você se abriga?

- 9º Viaduto, Bandas de Sintra, Pilar 4, entrada poente.

- Ah, IC19, mas você mora numa zona privilegiada. E você sabe andar de bicicleta?

- Não, porquê?

- É que se soubesse, tinha muitas vias onde ficar, mas eu vou falar com o engenheiro para ver o que se pode arranjar.

- Veja lá então, é que, o Secundino também quer inovar.

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Bom Gosto

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D. Suerda Dipe Astran, mulher destacada pelas elevadas funções que exerce como conselheira ministerial do Bom Gosto, está prestes a enfrentar a recente rival, Cerna Lua, uma jovem chistosa anfitriã que pretende demonstrar, no plenário do supremo Bom Gosto, os novos critérios para tal desempenho. Para aliviar o início da carga de trabalhos, Suerda Dipe Astran lançou a regionalização do Bom Gosto a debate. Cerna opôs-se de imediato a tal escolha. A divisão regional significaria aceitar o modelo actual financeiro, turvando de critérios a transparência, em derrapagens e piões às portas de um novo modelo de fiscalização. Suerda não gostou da intervenção e pediu à mesa da jurisdição para intervir às insinuações das contas do seu bom gosto. Após vários arrufos, o tema musical passou à discussão seguinte, dando palavra a Cerna: -Quais as vantagens da exacerbada dívida externa na construção de líricas vias entre as principais cidades se nelas mesmo se estão a esgotar as formas de subsistência do bom gosto?

D. Suerda Dipe Astran levantou-se e apertou o botão da frondosa blusa, prontificando-se a responder: -No caso dos novos trechos e auto-estrada, queremos facilitar a saída e entrada a quem não queira suportar a pressão das grandes cidades, podendo espairecer numa área de serviço ou, atrevendo-se a sair das grandes vias, contemplar o sol, a água e muita terra para desbravar. Se explorarem bem todo o território, podem encontrar quintas com as técnicas mais avançadas na agropecuária, podendo também desfrutar de lindas vacas em momentos únicos de exteriorização. Temos a importantíssima obra TGV, em alternativa, para assegurar a um maior número de passageiros uma rápida visita pelo riquíssimo espólio pitoresco de paisagens num país a conhecer. Afinal, tudo virá um dia a girar em torno de duas grandes cidades com ligações ao mundo virtual.

O Plenário sublimou em calorosas palmas tanta beleza e bom gosto por parte de Suerda Dipe Astran, mas Cerna não se deixou intimidar e voltou ao debate: -O que tenciona fazer D. Suerda se se tornar incomportável para o país a dívida externa?

-O progresso de desenvolvimento não parará, mesmo que o financiamento seja cancelado, pois penhorarei com bom gosto parte do país a África.

Cerna abandonou o plenário no primeiro dia de lua nova.

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Vento: 0,0%

Scarlett Hooft Graafland

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Não deveria ter preço o esforço empenhado do Banco Central Europeu. Levaram água, novamente, ao seu “moinho”. Parece que os moinhos conhecem os segredos dos ventos melhor do que ninguém. Em dias limpos, a visibilidade é boa, deixando a descoberto todos os socalcos em que se apoia a agreste paisagem. Ninguém parece querer arriscar abandonar o ar puro da montanha e fazer-se ao caminho, descobrindo os microrganismos que vivem na mucosidade das vertentes montanhosas mais a abaixo. Eles são únicos. Em dias de nevoeiro, sentam-se nos bancos que circundam o moinho e aguardam que o vento mexa as majestosas velas vermelhas e dissipe a visão, voltando a descobrir novos motivos de emprego em cada fundo do valado investimento.

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Vai apagando, vai?

(Autor desconhecido)

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A fobia dos dias apodera-se dos que semeiam aldrabice.

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Dose tampão para a crise

Imagem daqui

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Enquanto se repetir o ciclo mensal, cai a dentição. Sorriso prolongado por mais tempo, pode ser definitivo ou mistério clínico a desvendar.

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A densidade das Conversas

Podemos levantar carpetes e descobrir, por lá, a futilidade vã das pessoas.

Agora, arredar um armário com mais de meia tonelada, só mesmo se a companhia o desejar.

 

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Revolução

 

Todos dependemos da seriedade e transparência política dos políticos no governo. Não adiem mais os decretos que englobam todas as forças políticas. Submetam-se à transparência, sem medo, das vossas contas, mesmo exercendo outras profissões, porque os que governam no governo, podem cair em sucessivas tentações e nós, os portugueses, deveríamos ter a liberdade e o direito de o saber. Concordo que os políticos sejam remunerados acima do que está estipulado, mas eles preferem assim, vai-se lá saber porquê… 

A revolução dos valores está a dar passos largos, só os políticos não querem ver. Até quando? Parem com as manobras de distracção enquanto a água ainda não fervilha.

Atenção,  não estranhem as receitas.

E lá andam às voltas na cozinha, provando os hábeis segredos, sabendo que o trem até é modesto.

O fim da imunidade parlamentar será antes das eleições de 2009?

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Nem tudo na vida é mau

 

O glossário do  Portal do Cliente Bancário é também fidedigno, pois na letra C não existem contratos paralelos, na letra O não consta a palavra Offshore e na letra P a palavra paraísos fiscais. Também na letra T não encontrei tributação privilegiada.

 

 

Convicções

 

Que princípios defendem as pessoas que se atracam atrás de códigos de conduta, com regras de natureza ética e deontológica cristã?

 

Alguém saberá explicar-me o que se passou no período intertestamental?

 

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O Líder citou:

"Muitas abelhas, um só voo"

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Abelhudo sou eu, e cito do mesmo autor, acatando os sinais das pequenas criaturas:

 

"Debaixo de toda a vida contemporânea se encontra latente uma injustiça."

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Serão sempre um exemplo em sabedoria.

Acautelam-se e subsistem ao futuro.

Mas em terra.

 

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Flores

Pronunciando a voz das flores, sem as vermos, elas murcham. Todas são tão diferentes, quando respiras o vento que as traz. Em cada haste, serpentes pernoitam associadas ao mesmo chão.

De sede, o vento semeia a memória descascada ao tempo. Observa como as pétalas, preexistem amantes. De noite, apertavam abraços. Os dias, eram pétalas que aos poucos se despedem. De pés arrancados do chão, a luz desafia, brotando chocalhos e badalos aos botões.   

 

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