Asinus
Asinus metera-se outra vez numa grande confusão. Embora fosse o burro mais orgulhoso de toda a Palestina, lá estava ele de novo preso e sujeito aos pontapés de mais um comerciante indigno, e nesta vez no pátio mais sujo que ele jamais vira. O homem que era agora seu proprietário, chamava-se Ezequiel e não gastava um shekel para abrigar os animais, a água da gamela raramente estava limpa e a comida era rançosa. Também abusava da vara e batia-lhes com muita força tentando domesticá-los dessa maneira.
Asinus era um burro extraordinariamente grande, tinha umas orelhas pequenas e quase que podia passar por um cavalo pequeno se não tivesse tanto orgulho em ser burro. Por causa do seu tamanho, os comerciantes encontravam sempre compradores para ele. Partiam do princípio que ele podia transportar mais carga que os outros burros, e podia... O que não sabiam era que Asinus se recusava a fazê-lo. Só o descobriam quando lhe punham a carga em cima. Bem, um dia Asinus, ouviu um dos compradores mais preocupado com o tamanho da sua garupa do que com a sua força. E Ezequiel em vez de o descrever como forte e de passo firme, falou em tenro e delicioso... Foi demais. Cansado dos maus tratos investiu os cascos traseiros e atirou o malvado dono ao ar. Ezequiel decidiu que no dia seguinte iria mandar o grande Asinus para o matadouro como carne de cavalo.
A sorte de Asinus é que os outros burros simpatizavam com ele. Embora não o achassem muito inteligente por querer desafiar os homens, admiravam-no por isso. Concordaram em ajudá-lo na sua fuga mas não sabiam como. Mas na manhã seguinte, assim que o dono abriu o portão ao primeiro cliente, surgiu a oportunidade e todos os burros correram para o portão e transpuseram-no a correr. Ezequiel acabou por recuperar os burros. Estes nem tinham intenções de fugir. Mas faltava um. Asinus subia a correr uma das ruas íngremes. E o burro que Ezequiel montava em perseguição do grande burro não estava muito interessado em perseguir o amigo. Em vez de subir rua acima, correu direito a uma tenda de legumes e fez uma daquelas paragens bruscas, pelas quais os burros são famosos. E Ezequiel caiu no chão...
Mas, quando Asinus começava a saborear a sua liberdade, os nazarenos alertados pelos gritos de Ezequiel começaram a perseguir o grande burro. Depois de meia hora de liberdade, e muitas voltas e reviravoltas, Asinus ficou encurralado num beco. Em breve, a multidão estava em cima dele. Estafado e mal podendo respirar, já quase não sentia as mãos que lhe socavam o corpo. E teve medo...
Firmemente preso, Asinus apoiava-se ora numa pata ora noutra, e sabia que esta era de todas a pior sova que levava enquanto Ezequiel lhe batia com uma vara nos flancos.
- Senhor! Peço-lhe que não bata no burro! - disse um homem alto e magro do portão. Tinha uma enxó pendurada e parecia ser um carpinteiro.
- Estou a amansá-lo. Pôs a cidade em alvoroço.
- Foi esse o burro que fugiu? Gostava de o ver mais de perto.
Ezequiel não só abriu o portão ao homem como lhe ofereceu o cacete. Asinus preparou-se para uma nova sova mas o homem deitou o cacete fora e deu umas palmadinhas na cabeça do burro.
- É um animal forte. Aposto que consegue transportar imensa carga.
Asinus que ficara surpreendido com o gesto simpático do homem, reconheceu que afinal ele era igual aos outros e que só lhe queria pôr muita carga em cima. Ezequiel disse ao homem que Asinus era mau, feroz e teimoso, que ninguém o conseguia montar, que tinha burros melhores. Asinus sabia que estava condenado...
Os animais são como as pessoas. Se os tratarmos bem, elas tratam-nos bem. Talvez se fosse mais meigo com ele.... - O carpinteiro afagou carinhosamente Asinus e preparou-se para o montar. O burro, (tentando evitar a viagem fatal para o talhante) esfregou o focinho no ombro do carpinteiro e permaneceu quieto enquanto o carpinteiro o montava. O peso do homem ofendia a sua dignidade, mas hoje tinha que o aceitar. E caminhou vagarosamente pelo pátio. Ezequiel, espantado com a atitude do burro, aproveitou-se da ingenuidade do homem alto e acabou por pedir mais dinheiro do que o devido pelo burro,. Mas o homem comprou-o sem regatear. E não quis um freio! Asinus, aliviado, só queria sair dali. Ficaria com o homem alto de olhos verdes até conseguir preparar uma fuga... Teria que esperar para ter sucesso e não ser devolvido a Ezequiel. Tinha que confiar...
Cruzaram-se com outros burros carregados de mercadorias e galhos apanhados para o lume. Talvez o carpinteiro precisasse dele para carregar tábuas. Bem podia esquecer isso...
- Vês como olham para ti? És um burro forte e elegante. Por ti tinha pago o dobro.
Asinus pensou que o carpinteiro não percebia muito do valor dos burros mas que tinha um ar próspero e uma bolsa escondida nas vestes com dinheiro a mais para trazer consigo, com tantos ladrões. Pelo caminho, ainda distribuiu uns shekels por alguns mendigos.
Aproximavam-se das ruas onde viviam os comerciantes. As casas eram pequenas mas bem conservadas. As crianças brincavam na rua e uma delas puxou o rabo a Asinus. O grande burro deu um coice em tom de aviso. Nunca gostara de crianças. Para ele, eram simplesmente homens e mulheres em miniatura mas com vozes mais estridentes. Ainda estava para nascer o burro que zurrasse mais alto do que uma criança aos gritos. Chegaram por fim a uma loja.
Cá estamos nós. É a tua nova casa. espera até conheceres a minha mulher.
E entrou na loja, gritando: Maria, vem ver o que eu trouxe.
Asinus ficou à espera à porta e observou as pilhas de pranchas, cavaletes para serrar madeira e a serradura e aparas no chão. E ficou perplexo quando a viu. Era a mulher mais bonita de toda a Galileia. Tinha um rosto lindo, o cabelo preto, os olhos grandes e um pouco apreensivos, uma pele clara e suave. Sorria. Esperava uma criança e o tempo de dar à luz devia estar para breve.
- Esta é a minha mulher, Maria. E tu, não és o único burro digno de a transportar?
Quando ela se dirigiu a Asinus e lhe passou os dedos no focinho, o grande burro teve dificuldade em acreditar que um toque tão leve pudesse provocar uma sensação tão calorosa.
- É um burro maravilhoso. Espero que aguente uma viagem tão grande.
Asinus arrebitou as orelhas. Viagem? Não estavam bons da cabeça se eles pensavam em viajar e em pôr-lhe a carga às costas. Mas pelo menos podia sair daquela cidade miserável...
José, deu de comer ao animal, juntou cereal ao feno e encheu a gamela com água limpa. Depois, o carpinteiro escovou e limpou Asinus. E com os seus dedos fortes passou um unguento nas feridas e no corpo fustigado do animal. Perversamente, Asinus quase desejou que o tratamento não lhe fizesse bem. Não queria dever gratidão a este homem. Maria, ao ouvir a história por José, compreendeu que o marido tinha comprado o burro para o salvar da sova!
Nessa noite fria, Asinus ficou muito surpreendido quando José o levou para uma cama de palha junto do lume na única divisão da casa que ficou mais pequena com o animal lá dentro. Mas Asinus era desconfiado, e eles não fariam nada por pura genesosidade. Afinal eram simplesmente humanos...
Ainda não era madrugada quando Asinus foi surpreendido pelo baruho de alguém a acender uma lareira. Entreabriu um olho esperando que ela não notasse que ele estava acordado e o enxotasse lá para fora. Mas era o homem quem acendia o lume e punha água a ferver. Que raio de lar era este? Porque não era a mulher a fazer o trabalho?
José mediu o dorso de Asinus como se fosse um alfaiate e não um carpinteiro. Moldou um arco desenhado na madeira, ajustou-o ao corpo do animal e forrou-o com pele de carneiro. Fez assim uma cadeira para transportar a mulher, de modo a que fosse confortável para os dois na longa viagem a Belém. Entretanto, apareceram três viajantes (amigos de Ezequiel) que se ofereceram para os acompanhar em caravana para maior segurança de todos.
Era uma visão que os nazarenos iriam recordar por muito tempo. Maria, envolta numa manta de lã fina, sentada em cima de um burro cinzento seguia atrás de José, enquanto três homens seguiam atrás com mais três burros, como se Maria de uma verdadeira rainha se tratasse. Embora os viajantes tivessem um ar quase majestático, um deles seguia mortificado com tantos olhos em cima dele e da sua carga, que consistia além de Maria (que até era bastante leve) nuns alforges pesados de cada um dos lados. Mas Asinus sofreu a humilhação, esperando alcançar a tão esperada liberdade ao cair da noite. Passaram o dia a viajar pela paisagem semeada de ciprestes e alfarrobeiras ainda verdes...
Mas ao falar com os outros burros, Asinus descobriu que os três viajantes só pretendiam empurrá-los nos penhascos do desfiladeiro para ficarem com a bolsa de José, cheia de dinheiro para pagar os impostos.
Ao descobrirem os corpos juntos lá em baixo, vão culpar o burro e dizer que foi ele que se desequilibrou. E o burro orgulhoso não se cansava de se espantar com a maldade do coração dos homens.
Maria também não confiava nos três companheiros e José apercebeu-se que algo a inquietava.
- Maria, há qualquer coisa neles que te incomoda. O que é?
- Não sei.
E Asinus sentiu um toque de piedade. Afinal, apesar de humanos não mereciam ser assassinados pelos amigos de Ezequiel. E, ao cair da noite, todos os burros foram presos excepto Asinus...
- O meu burro não foge. - disse José aos outros. E Asinus não fugiu. Não foi capaz.
Ao terceiro dia, a estrada tornou-se mais íngreme e começou a serpentear por afloramentos de grandes rochas. Asinus concentrou-se nos três homens lá atrás. Atrás? Isso deu-lhe uma ideia. Sabia pelos outros burros qual o local exacto onde íam cometer o acto sórdido...
Maria comentava com José como o burro era dócil e a transportava suavemente. Asinus mal tocou no cereal na pausa. Só pensava na fuga e no seu plano para salvar Maria e José. Ao retomarem o caminho e quando se aproximaram do local onde o desfiladeiro era mais acentuado, Asinus preparou-se para correr ao ouvir os outros burros a aproximarem-se por trás. E após derrubar umas pedras com um coice enquanto simulava um espirro, rompeu em trote enquanto Maria gritava: Pára Asinus. Pára! E puxava-lhe a testeira enquanto tentava acalmar o burro com palavras. Mas Asinus não parou e José desatou a correr numa tentativa de os apanhar. Asinus, volta aqui. pára! Asinus galopava e nessa altura já estava bastante afastado e podia abrandar sem que José os apanhasse. E sabia o caminho até Engannim, onde iriam pernoitar. Depois à noite, já passado o perigo, finalmente fugiria como planeava desde que José o comprara...
Quando José os apanhou, já era quase noite e estava demasiado preocupado com a mulher para castigar o burro que agora mascava erva muito calmamente. Mas a Maria até estava divertida! Tinha sido a sua cavalgada mais rápida mas também a mais suave. E tinha o pressentimento que o burro os salvara...
Depois de se informarem, encontraram uma estalagem que tinha um estábulo anexo e campos abundantes em erva. Asinus estava cansado da caminhada, estava frio e olhou para José e Maria enquanto estes entravam na estalagem. Era a última vez que os via. Para pessoas, não eram maus. Mas eram pessoas e as pessoas eram suas inimigas. Enquanto olhava os montes para escolher o mellhor caminho par se escapar ouviu uma voz:
- Asinus. Vem aqui.
Que é agora? - pensou o burro. Devia voltar-se e fugir? Mas José abraçou-o e disse: Sabes, hoje assustaste-me mas cuidaste da minha mulher e estou-te grato por isso. E abraçou-o afectuosamente.
- Anda, quero tratar de ti. E sem se aperceber, Asinus deu por si a entrar no estábulo. O grande burro concluiu que os seus planos de fuga tinham que ser novamente adiados. E dormiu quentinho e aconchegado...
Nos dias seguintes, o burro não abrandou o passo embora José manifestasse alguma culpa por ter abandonado os companheiros. Maria sentia-se mais segura só com o marido e Asinus. E enquanto José mandava abrandar Asinus, Maria dava-lhe palmadinhas discretas e incentivava-o a estugar o passo. Subiram montanhas, atravessaram cidades e José provou ao burro com várias atitudes que era um homem honesto. E apesar da preocupação de José, Maria garantia-lhe que o filho só nasceria em Belém. E por detrás do aspecto frágil daquela mulher, Asinus sentia uma vontade muito forte. E transportava-a com todo o cuidado.
Depois de muitas peripécias com outros burros, ladrões, um novo reencontro com os três antigos companheiros de viagem e uma nova tentativa de assassinato frustrada por Asinus (desta vez, com a ajuda dos outros burros que finalmente se revoltaram), o grande e forte burro conseguiu chegar a Belém com Maria e José em segurança.
Dentro de um pequeno estábulo, numa noite fria, José arranjou num canto um monte de palha fresca que cobriu com uma manta. Foi buscar água a um poço e Maria entrou em trabalho de parto enquanto Jósé a ajudava. Asinus observava. Finalmente ouviu-se um choro forte.
- É um rapaz! - gritou José.
- Tu sabias que era. É lindo.
Asinus mal podia acreditar na aura de felicidade que envolvia o homem.
- Asinus, vem ver o nosso filho.
Asinus sentiu-se quase tímido enquanto se dirigia a eles. Não sabia que os homens tinham tais sentimentos. E eles sorriram. Até o bebé sorriu.
E Asinus sentiu uma grande gratidão. Baixou os olhos para a criança e sentiu-se deslumbrado. Ficou intrigado com os seus próprios sentimentos. Por fim, disse para consigo: Um dia quando ele for mais crescido, vou ensiná-lo a montar!
«Esta história é talvez a minha história natalícia preferida: O Presente de Asinus de Thomas Coffey. Como a história é muito grande, alterei um pouco e este foi um resumo meu. Penso que O Mr. Thomas não se importa até porque, como ele diz, no fim vence o amor e a história é sobre isso mesmo....»
Burro, jumento ou jegue são os nomes vulgares de Equus asinus.
Eu, pessoalmente acho graça aos burros e acho que é um animal muito engraçado, raramente não utilizado só para o trabalho.