SOL

gomes2000/ II

"Se choras por não ter visto o pôr do Sol, as lágrimas não te deixarão ver as estrelas."
Retratos avulso.

                                                 

A Feira da Ladra em Lisboa.

Todas as terças e sábados, esta feira continua no Campo de Santa Clara em Lisboa. O que se vende?

.

“Toda a espécie de antiguidades e objectos sobre cuja proveniência não se fazem perguntas... “

“Pelo "corredor" do arco até ao mercado espalham-se bancas e panos plenos dos objectos mais variados. Mais à frente, temos uma zona de artesanato sul-americano e outra de tendas com roupa militar. Pelo meio o "caos" generalizado de brincos, óculos de sol, bibelots... Seguem-se os móveis antigos e antiguidades, os alfarrabistas, tendas de roupa, as bancadas especializadas em discos e onde não falta nenhum (pode, inclusive, encomendar-se) e até se conseguem encontrar obras de arte pela simples razão de que o artista não tem mais sítio nenhum onde ir vender e ali é mais prático e directo... Não tenha receio de regatear preços: faz parte do jogo.” (publico.pt)

.

Cheguei a ir lá diversas vezes em miúda. Ia com as amigas na risota espreitar, passear, ... Cheguei a comprar uns crachás grandes, redondos, com uns dizeres modernos e muito em voga na altura! Tinha amigos, na idade dos 12/ 15 anos que iam para lá e vendiam tudo o que as vizinhas davam. Lembro-me até de um ferro de engomar rachado!! Cartas soltas, cartas de Monopólio, chaves, bibelots rachados, ...

Eu não vou lá há muitos anos.  Mas há uma coisa que por vezes me lembro. É que ainda hoje me pergunto para que quererão as pessoas certos artigos. Mas um, já me vem da memória de infância: as fotografias espalhadas nas mantas. Fotografias a preto e branco, retratos antigos, olhares, ... Retratos de alguém vendidos avulso. Quem quereria estas fotos e para quê?

Depois, alguém me explicou que muitas vezes, eram pessoas solitárias que as compravam. Pessoas sozinhas e sem família que preenchiam ou ainda preenchem molduras vazias com retratos de estranhos. Por isso, a procura de fotografias antigas ou de pessoas já falecidas. Depois inventam uns nomes e uma família. Para não se sentirem tão sós. E ainda hoje algumas pessoas recorrem a esse truque para ganhar um irmão, um primo, uma tia, ... Algumas pessoas mais idosas que não têem fotografias de ninguém.

                                                       

E eu imagino em Lisboa, talvez Alfama, uma senhora sozinha e sem familiares. E as moldurinhas numa camilha em cima de uma bela toalhinha branca rendada. E depois, de vez em quando olha para a família de estranhos e até já acredita mesmo que são os familiares distantes. Por vezes até fala com eles enquanto rega as plantinhas nos vasinhos pendurados na janela.

Provavelmente, também não tem a quem os mostrar. Talvez diga a algum vendedor ou uma vizinha que calhe a entrar na salinha:

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- Esta era a minha tia Maria. E este era o meu Joãozinho...

.

Eu não sou fanática por molduras. Tenho algumas, quando olho para elas vejo sempre um momento para recordar. E por vezes sorrio quando me lembro da altura do “disparo”. Felizmente, as minhas fotografias a preto e branco (que ficam lindas) são de pessoas e olhares que conheço.

E estes retratos perdidos são vendidos para enriquecer a vida de alguém que se sente demasiado só. Esses estranhos, estejam onde estiverem, neste mundo ou não, ganharam um novo nome.

Vem-me sempre à memória a imagem daqueles retratos espalhados nas mantas no chão quando me lembro da Feira da Ladra.

Hoje é terça-feira, por um acaso lembrei-me. Saiu isto.

E realmente deve ser muito triste essa solidão. 

 

Posted: terça-feira, 22 de Janeiro de 2008 23:07 por gomes2000

Comentários

bluewater68 said:

gomes2000,

pois eu li este texto e tive boas recordações.

A primeira vez que tive autorização para lá fazer negócio, fui muito carregado com muita coisa boa. Sobretudo, ferramentas. Otário, verde, completamente ingénuo e deslumbrado com todas as oportunidades de negócia que surgiam entre vários abutres que me rodearam, acabei por fazer péssimos negócios nesse dia. Com isso, aprendi a ser um vendedor implacável. Ainda me lembro de um casaco da minha avó, cujo negócio já desesperava uma velinha que o queria comprar. Ela insistia em 400esc. e eu queria 800esc. Depois de umas 20 tentativas, lá o vendi por 700esc.

Numa outra vez, também por causa de um casaco, vendi um por 1500esc. (era dinheiro). Ao guardar o dinheiro, este caiu das calças e um casal perto de mim apanhou-o e não disse nada. Uma rapariga viu e deu o alerta. Gerou-se a confusão, a polícia apareceu, foi tudo para a esquadra e o caso foi parar a tribunal. Uns 6 meses depois, encontrei essa rapariga no Metro, que me disse já ter ido testemunhar a duas sessões no tribunal (eu só pensei: grande bola de neve). Muito tempo mais tarde, lá recebi uma carta a dizer que eu poderia ir receber os 1500esc. ao tribunal. Achei que iria dar muito trabalho e desisti de ficar com eles :))))

Grandes tempos!

E com o dinheiro das vendas íamos para as matinés das discotecas aos Sábados à tarde.

Beijinhos

# Janeiro 23, 2008 11:14

gomes2000 said:

ah ah bluewater,

também tenho algumas histórias engraçadas passadas por lá. E vendia calças de ganga usadas para comprar outras!!!

E é verdade, eu também ia às matinés sábados à tarde.

Lembro-me do Plateau.

Ou iamos ao cinema, o grupinho todo...

Ou íamos para o jardim do "Caleidoscópio" beber gasosas!!

Outros tempos, eu nunca mais lá fui.

beijinhos

# Janeiro 23, 2008 12:18

laranjeira said:

Olá gomes!

Mais um belíssimo texto, como tu Sabes fazer.

Olha cá rapariga, já viste o que a Lua E O Sol andou a dizer de nós?

Chamei-te mas estavas ocupada, vai lá ver o que lhes aconteceu, corridos por nós as três.

Beijinho

laranjinha

# Janeiro 23, 2008 13:01

gomes2000 said:

olá laranjinha,

o Sol e a Lua não andam na melhor fase, parece-me!!

Mas vamos ver.

E tu, andas triste? Porquê?! Não andes, tenta ver o outro lado!!! Há sempre alguma coisinha que nos anima. Procura-a e levanta a moral.

são dias, ou fases também, né?!

beijinhos

# Janeiro 23, 2008 13:17

pessoalissimo said:

GOMES

Juntar a Feira da Ladra às molduras com fotografias de familiares imaginários num cocktail sobre a tristeza e a solidão de quem vive sózinho, deu um post muito bonito, de recordações da juventude.

Por curioso que pareça, sendo eu alfacinha e tendo estudado em Lisboa (fiz os meus estudos superiores junto ao Chiado) nunca fui à Feira da Ladra. Uma lacuna no meu curriculum :))

Sabe, há muitos lugares assim, tipo Feira da Ladra. Um dos que conheço bem é, curiosamente, a Festa do Avante, onde costumo encontrar as coisas mais estranhas. Eu já lá deixei computadores avariados, máquinas de escrever antigas, telemóveis sem bateria, cabos eléctricos diversos, roupa?.No fim dos três dias que dura a festa tudo aquilo desaparece, comprado por gente anónima.

Ainda existem muitas destas feiras francas (livres de impostos) no país, duas que conheço bem são a da Malveira (Mafra) e de Barcelos. Ali até os solitários encontram o que procuram, alguma companhia.

--

Fernando

# Janeiro 23, 2008 17:09

desabafosdaminda said:

Gomes,

Gosto de feiras, gosto de gente, gosto de ver, cheirar, sentir? mas não gosto de comprar coisas velhas. Não sei explicar porque, se são questões de educação ( a minha mãe tem a mania das limpezas e fobia a micróbios) se são questões pessoas: mexer em coisas velhas, de quem desconheço o dono incomoda-me.

Contudo, adoro fotografias: ver como era a textura do papel, o cheiro que guardam, as poses, o que era considerado indecente no correr dos tempos?

No meu passado juvenil, em que não morava muito longe da Feira da Ladra, ia lá passear com os amigos, que iam comprar discos, botas da tropa ou casacos, que era a grande moda na época do PREC.

Eu ficava parada a olhar as fotos? e pensava: quem compra isto?

E tal como tu, imaginava que fosse gente só, que queria por força ter família.

Um beijo

Minda

# Janeiro 23, 2008 17:43

mitalaia said:

Ol´´a gomes2000

Curiosamente passei á feira da ladra no Sábado, depois da ausência de alguns anos.

Como morava perto, fui lá muitas vezes e de lá vieram as minhas ferramentas de faz tudo, como martelo, alicate, serrote etc.

Aquiri lá umas calças de veludo, que achava o máximo. Na altura só as usava nas férias, porque por força, para o dia a dia, dominavam fato e gravata.

Disseste nostalgia! Pode ser, porém pretendo muito ser deste século XXI.

Beijos

Daniel

# Janeiro 23, 2008 19:59

gomes2000 said:

pessoalíssimo,

realmente encontram-se os artigos mais estranhos mesmo. Eu não costumo comprar nada porque no fundo são só velharias mesmo, talvez os colecionadores por vezes encontrem relíquias muito baratas, mas isso é para os entendidos!

Destas feiras, também já ouvi falar numa muito grande no algarve que é conhecida pela feira dos ingleses. Não sei se é verdade mas ouvi dizer que os ingleses quando regressavam a casa (Inglaterra) vendiam sacos camas e muitos artigos ao desbarato e parece que foi assim que começou, mas não tenho a certeza.

Quanto a essa lacuna no curriculum, bem, sinceramente não é muito importante, pois não?!

beijinhos

# Janeiro 23, 2008 21:15

gomes2000 said:

olá Minda,

sabe, eu cá em casa, às vezes dá-me assim uma "daquelas" e faço uma limpeza e vai tudo o que é tralha e mais tralha velha para o lixo. Faz bem renovar!!

Mantenho no entanto (ainda), 4 bonequinhas muito estimadas que eram do meu pai, era ele ainda solteiro! E um sapinho que comprei em Portimão quando tinha para aí 12 anos!! Não consigo deitar fora; são "aqueles" objectos que vão ficar, já vi.

Mais nada que me lembre. também não gosto muito de acumular coisas, nem velharias...

beijinhos

# Janeiro 23, 2008 21:19

gomes2000 said:

Daniel,

eu falei em nostalgia por causa dos seus posts com histórias magníficas sobre a guerra colonial (foi aí que o visitei pela primeira vez)embora tenha fugido de lá para Portugal e não tenha ido à guerra!! E as histórias de uma Lisboa antiga, o Chiado, ...

Também falei em "outras histórias", e claro que você pretende estar muito bem neste século. Também eu.

Mas gosto muito de ir visitá-lo e por mim pode escrever histórias e relatos antigos ou modernos. São sempre bonitos, nostálgicos ou não.

beijinhos, e obrigada pela simpatia que tem tido por aqui

# Janeiro 23, 2008 21:26

laranjeira said:

Gomes, obrigada pelo carinho, vou-te acender o resto das estrelinhas.

Beijinho

laranjinha

# Janeiro 23, 2008 22:02

poetacomalma said:

Cucu...!!!!!!!!!!!

Sim, sou eu mesmo!!

Mesminho!!

inho...

Vim só dar uma espreitadela...!!

Posso entrar...?

Sim...?

Não?

Depende?

Eu não mordo, juro!

Eh eh eh he eh eh...

Um beijo enooooooorme!

Chuac!

Chuac!

Poetinha

# Janeiro 23, 2008 22:20

gomes2000 said:

ó poetinha,

já li tantos comentários seus por aí, bem giros e fico muito feliz que apareça por aqui.

E com comentários com este formato que me fez uma pessoa está a ler e a rir! É óptimo.

Venha e traga humor, poesia ou não traga nada.

Aaaah, você também gosta de chuacs!

beijinhos para o poetinha

(fartei-me de rir com o seu post da tal festa

e parabéns pelos 200 posts, eu vou lá mais)

# Janeiro 23, 2008 22:47

poetacomalma said:

RESPOSTA AO TEU ÚLTIMO COMENTÁRIO NO MEU BLOGUE:

gomes2000,

Darling...

Sim querida, besos calientes...

Porquê...?

Não gostas de miminhos...?

Vai-te habituando...

Quem se dá com o Poetinha acaba sempre molhada de tanta beijoca nas bochechas...!!!

Eh eh eh eh eh...

Eu sou assim, não leves a mal...

Um beijo enoooooooooooooooooooooooorme...!

E volta sempre amore mio...!

Poetinha

# Janeiro 24, 2008 13:49

gomes2000 said:

poetinha

podemos tratar por tu, sim.

mas olhe que parece que lhe falta qualquer coisita,

huuuum, não sei...

muchos besos, mucho caliente....

e uma cervejola para refrescar?  

não sei não sei...

beijinhos também para ti, poetinha

# Janeiro 24, 2008 19:35

PSCGF said:

olá Gomes,

Belo tema.

Eu adorava a Feira da Ladra. Hoje ela está muito estranha e diferente...

Eu vou-me mudar , mas por agora ainda tenho escritorio perto da Feira. Por isso conheço bem.

Ainda vou lá passando, mas já não tem tantas bancas com objectos que me interessem. Hoje já vou ás lojinhas que lá estão com velharias e antiguidades.

Isso é uma paixão.

E adoro objectos, moveis  antigos . E lá vou contar mais um bocadinho da minha vida ...

Eu vivo quase num museu . Mas é um museu que saiu na maioria dos casos das minhas mãos. Isto é , eu compro peças antigas e já danificadas e restauro-as.

È uma paixão que me leva muito tempo e dedicação.

Uma vez comprei um recheio de uma casa do Norte . Deveria ser um casarão antigo... E tive a mesma sensação que tu descreves-te ao ver no meio de toda a tralha fotos antigas. Devolvi-as . Eu não consigo ter fotos que não me dizem nada e que me fazem lembrar que pertencem a outro lugar e a outras pessoas.

Por isso Gomes , não faças posts sobre moveis, antiguidades e afins . Pois se o fizeres eu escreverei aqui verdadeiros lençois , mesmo lenções.

Agora voltando ao post , o que eu adoro é ver os turistas de mapa na mão á procura da Feira da Ladra .

Ás 3ªs Feiras é uma "procissão ", quando vou ao café e os vejo caminhar para mim começo a recapitular as linguas para dizer: rua á esquerda, sobe e vira ...

Já sabes ,quando quiseres lá ir ,vens tomar um café...

Beijinhos

Paula

# Janeiro 24, 2008 22:18

gomes2000 said:

Paula,

existem objectos e móveis antigos muito bonitos.

Pessoalmente, não gosto do "bichinho" da madeira a roer, a roer, ...

Também acho que os móveis antigos não ficam bem em qualquer casa! Só combinados com o resto da decoração.

Mas gosto do cheiro da madeira, não tivesse eu casado com um carpinteiro, cujo sonho era trabalhar no restauro de móveis antigos!

Objectos antigos para mim? Talvez uma jóia, um relógio,... acho graça quando vejo um dos primeiros televisores (monos) ainda a funcionar algures...

E também já me disseram que a Feira já não é a mesma!!

Quem sabe um dia, até vá beber esse cafézinho contigo.

beijinhos

# Janeiro 24, 2008 22:52

JAMES said:

Olá 'gomes2000'!

Peço-lhe mil perdões por entrar neste seu cantinho sem bater à porta...GOSTEI! e este tema da Feira da Ladra traz-me algumas recordações muito bonitas!

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Um beijinho

James

# Janeiro 24, 2008 23:05

gomes2000 said:

James,

obrigada pela visita e pela música.

Volte sempre e não precisa bater á porta.

Que prenda!!!!!!!!!! Adorei. Música bonita no meu blogue...

Leonard Cohen se não me engano?!

Obrigada e beijinhos

# Janeiro 24, 2008 23:16

poetacomalma said:

gomes2000...

Darling...

Não percebi essas palavrinhas marotas...

Tu...

Falta qualquer coisa ao poetinha...

Ai meu docinho... se me conhecesses...

Eu não sou como os outros... que só falam, falam, falam, falam e não fazem nada...

@;o))

Eh eh eh eh eh eh eh...

Está atenta meu doce...

A todo o momento posso aparecer-te ao lado...

E záscatrapuz!

Eh eh eh eh...

Ai Jesus credo!!

Deve ser do fim-de-semana à porta!

Ando com delírios...

Fica bem minha coisinha linda...

Sorri sempre...

Besos calientes amore mio...

Poetinha

um must...

um poço de sensualidade e virilidade...

# Janeiro 25, 2008 8:48

void2 said:

Olá gomes2000,

Esta tua historia fez-me reviver bons bocados da minha juventude.

A Feira da Ladra e os vendedores da banha da cobra ...

Saudades...

# Janeiro 25, 2008 22:22

AlfredoRamosAnciaes said:

Caríssima Gomes,

Aprendi umas coisas no seu texto sobre motivações de aquisição de antiguidades.

Em 2004/2005 colaborei num livro intitulado «O Mundo nas Colecções dos Nossos Encantos», editado em Portugal e Brasil. Também está editado na Net mas como o tenho em papel, não me lembro, neste momento, do endereço web mas se for pesquisado pelo título geral ou pelo meu próprio nome Afredo Ramos Anciães aparece a dita obra.

Estamos sempre a aprender.

Gostei da sua exposição.

Bom Fim de Semana.

fred

# Janeiro 27, 2008 0:51
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