Sou a Kuru e moro no lugar mais bonito do planeta
“Chamo-me Kuru e tenho 32 anos. Sou uma Zao-é. Vivo no lugar mais bonito do mundo.

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Hoje estou a acabar de fazer uns cestos. Estou a ensinar as minhas filhas mais novas a trabalhar com a folhagem. Entrelaçamos as tiras esticadas e ainda aplicamos resina nalguns para isolar melhor.
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O meu marido principal, Shu, está a fazer setas. Afia com precisão a madeira retirada do núcleo de uma árvore conhecida por árvore-boata.
O maxilar de um pequeno macaco serve perfeitamente como grosa para tal tarefa.
No final, algumas setas chegam a ter 2 mts de comprimento.
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Os meus outros dois maridos: Danzu e Tsu, plantam mandioca na horta. É com a mandioca que fazemos a farinha, essencial na nossa alimentação.
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A nossa cabana central é o centro de actividades de todas as pequenas famílias (grupos) da tribo Zao-é. Construída com várias estacas na vertical onde atámos folhas. Estas fazem o tecto e único abrigo da cabana. É lá que contamos histórias, partilhamos conhecimentos, nos reunimos há muitas gerações, ...
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É onde Bao, a minha filha mais velha se encontra agora. Está a pintar o corpo com uma tinta vermelha retirada de uma planta local. Com certeza pensa em Danzu, um dos meus segundos maridos. Está-lhe prometida e o ritual de iniciação será amanhã. Estará apreensiva com o poturu?!
Este adorno de madeira é o único usado por todos os Zao-é. É um pedaço de madeira da árvore-poturu, esculpido e colocado numa incisão do lábio inferior quando nos tornamos adultos.
Só depois dessa altura se inicia qualquer actividade sexual.
Eu tinha 12 anos quando coloquei o meu Poturu.
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Não usamos qualquer roupa ou protecção nos pés.
Sei o que são essas protecções porque vi uns missionários vestidos quando era criança. Deram-me um pau que pinta (caneta) que ainda guardo no meu cestinho pessoal. Não percebo bem para que serve. Na Grande Cerimónia Anual, costumo pintar os corpos dos elementos da tribo com desenhos com este objecto.
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As mulheres da minha tribo e eu, claro, gostamos de fazer uns adornos com penas brancas de aves. Colamos com resina em redor da testa! Ficamos mais bonitas...
Ao fim de umas semanas, substituímos as penas e os adornos e à noite em redor de uma fogueira toda a família aprecia e comenta para orgulho das visadas que suportaram alguma dor nesse embelezamento.
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Normalmente, é a minha mãe que trabalha a resina. Ou as outras mulheres mais velhas e sábias. É que é mesmo necessário saber... se não, não se consegue fazer bem...
Muitas vezes, aquece a resina (dos castanheiros do pará), esfria-a, amassa-a... e repete o procedimento até conseguir uma espécie de cola ou borracha. É também com a resina que ela fabrica a polpa que mantém o fogo aceso à noite nas cabanas de toda a tribo.
Por causa dos jaguares e cobras...
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Nós, os Zao-é somos uma tribo constituída por pequenas famílias;
a matriarca com um marido principal (normalmente o caçador mais forte), mais dois ou três segundos maridos, os filhos e os anciãos do grupo.
Somos semi-nómadas e aproveitamos todos os recursos da pequena bolsa florestal onde habitamos.
Manufacturamos até sal através de uma espécie de canas locais. E o sal ajuda-nos na conservação do peixe e caça.
Sou Kuru, a matriarca do meu grupo e da tribo também.”
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O dia seguinte começa cedo.
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- As raparigas foram apanhar folhas e pedaços de cortiça( Yhyk).
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- Os rapazes mais jovens vão apanhar mel selvagem num ninho de abelhas
avistado anteriormente.
Um deles, trepa 15 metros numa árvore adjacente e bate com um pau
comprido até o ninho cair...
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- Shu vai caçar. Leva quatro setas.
Ouviu os macacos no dia anterior. A audição é talvez o factor mais
importante para ter sucesso na caça na grande floresta.
Com a primeira seta tenta acertar num macaco no cimo de uma árvore.
Este, ferido é perseguido durante alguns metros até que o segundo
disparo é fatal...
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- Danzu e Tsu foram pescar no rio.
Usam pedaços partidos de madeira da árvore-timbo. Esta árvore tem
uma toxina inofensiva para os humanos mas que afecta o sistema
nervoso dos peixes.
Os homens batem com os pedaços de madeira na água e ao fim de uns
minutos apanham alguns peixes.
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- A minha mãe faz uma espécie de pão com a farinha mandioca.
Faz uns buracos no chão, forra-os com umas folhas, coloca os pedaços
da massa e tapa tudo envolvendo com fogo até cozer o pão.
Fica muito gostoso.
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No fim do dia, vamos todos tomar banho ao rio. O banho é muito importante para nós. Para a nossa higiene.
E as crianças adoram. Deslizam pelas rochas e mergulham e brincam imenso. No acampamento, nunca se afastam muito da clareira por causa dos predadores na floresta...
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À noite, somos nós, as mulheres que cozinhamos.
Shu teve sorte com um macaco e começamos por este. Atiro o animal ao fogo para queimar o pêlo que é retirado pelas minhas filhas mais novas.
Enquanto o peixe é cozinhado, elas preparam o macaco e os rapazes mais novos retiram as cascas de castanhas do pará.
Todo o pequeno grupo trabalha. Em todas as famílias dos Zao-é é assim.
Mais tarde, com várias famílias reunidas na cabana central, o adorno é colocado em Bao e ela torna-se adulta. Sinto-me orgulhosa por ela.
Nesta noite, os cânticos e a festa tribal duram até tarde e Bao partilha o
leito com Danzu.
Um dia, será ela a matriarca e ele o marido principal.
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No dia seguinte, salgamos os tucanos e o javali, que Shu caçou há uns dias. Carregamos os cestos com castanhas e partimos. Iremos para outra zona da floresta, para outro acampamento aproveitando naturalmente a caça e os recursos da floresta sem os cansar. Ainda fui apanhar a planta para a dor de dentes de Tsu antes de irmos.
Quando voltarmos para o ano, a pequena horta de mandioca estará pronta para se fazer a colheita.
A minha filha Bao provavelmente já terá o seu primeiro bebé.
Se for uma menina vou ensinar-lhe o que sei fazer com as ervas... O que curam...
Se for rapaz, Shu vai ensiná-lo a caçar..."
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Para já, este pequeno acampamento ficará abandonado.
Os Zao-é desaparecem no verde imenso...
A pequena horta de mandioca e a cabana central não sobreviveram ao fogo nesse ano.
Shu também não conheceu a neta porque foi abatido por madeireiros, surpreendido numa caçada. Ainda feriu um deles com uma das suas compridas setas adornada com uma pena de abutre.
Mas os Zao-é ainda devem existir e a filha de Bao já deve ser por linhagem, matriarca também.
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Em 1983 alguns missionários conseguiram contactar com tribos Zao-é.
É natural que o desenvolvimento económico e da própria espécie acabe com os Zao-é e muitos outros. Penso que será mesmo natural.
Fica a minha homenagem simples a estes indios.
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amazónia 
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Nos minutos que demorou a ler este post desta minha história dos Zao-é, uma área da Amazónia com dimensão aproximada de alguns hectares foi destruída.
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As forças da globalização estão a invadir a Amazónia, apressando a morte da floresta e frustrando os esforços dos seus defensores. Nas últimas três décadas, centenas de pessoas morreram em guerras pela posse de terra e muitas outras enfrentam o medo, ameaçadas por quem lucra com o roubo da madeira e da terra.
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Nos últimos 40 anos, quase um quinto da floresta tropical da Amazónia foi abatido. Trata-se de uma área maior do que aquela que foi alvo de destruição nos 450 anos anteriores.
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No pulmão do mundo mandam as armas, as motosserras e os bulldozers...