Os lugares também morrem. Assustarão os lobos ainda alguém?!
Os lugares também morrem.
“Quando eu era pequenina, fui passar umas férias a uma aldeiazinha perto de Mirandela.
Lembro-me do tanque no meio da (única) praça, onde eu ajudei a lavar as minhas roupinhas.
Recordo-me também da festa que fizeram uma noite, com o bailarico ao som de um
acordeão e sob as luzes das lâmpadas coloridas colocadas à volta do pequeno recinto.
Fartei-me de brincar por baixo das mesas compridas com as outras crianças até tarde naquela noite.
Lembro-me até de ter dançado no rancho folclórico!!!
Também assisti ao degolar de algumas galinhas e a uma matança de um borrego. Actos naturais. Eu é que não me esqueci...
E enjoei a alheira desde essa altura.
Em todas as mesas, em todas as casas, havia sempre um prato com alheira cortada em pedaços, um cesto com pão e um grupo de moscas pequeninas a esvoaçar às rodas e rodas...
Daquelas que não poisam e que pareciam bailar com o movimento dos cortinados branquinhos e rendados que esvoaçavam com a brisa.
Lembro-me das senhoras que usavam uns lenços coloridos na cabeça e uns vestidos compridos com um avental.
Elas estavam sempre a cozinhar ou a tratar da roupa enquanto eu brincava com os meus “Legos”...
Descobri que podia fazer hoteis com eles, autênticos resorts de 5 estrelas com direito a uma piscina minúscula e tudo. Depois apanhava insectos (com muito trabalho e paciência) que eram os hóspedes…
Claro que com as asas molhadas após um mergulho forçado na piscina, não voavam e eu colocava-os nas “espreguiçadeiras Lego” para secarem ao sol.
Após isso, alguns voavam de novo para a liberdade...
Na cama lembro-me dos lençois rijos, muito branquinhos e com cheirinho a sabão.
Com uma série de cobertores por cima porque fazia muito frio, eu encolhia-me toda sob o peso daqueles agasalhos e ficava quentinha...
E tinha medo ao ouvir os lobos uivar à noite longe, na serra...
Ficava uns minutos com os olhos muito abertos no escuro... e escutava os uivos...
Nunca mais os esqueci.”
Aldeias portuguesas, realidades de lugares que morreram.
Sem qualquer tipo de crítica, um olhar sobre alguns reflexos da famosa desertificação.
1946 - Concelho de Vila Pouca de Aguiar, aldeia de Cubas
As árvores estão tratadas, a produção é boa, as hortas cheias e regadas...
As vacas estão ordenhadas.
Alguns habitantes dormem uma sesta enquanto os restantes vão à missa na
Capela de Santa Bárbara.
Logo à noite os cerca de 50 habitantes irão reunir, para uma despedida a quatro jovens
da aldeia que vão emigrar...
2008 - aldeia de Cubas
Não se pode chamar uma estrada de terra batida.
É só um carreiro com pedras que sobe a serra da Padrela até aos 1147 metros de altitude.
Nem as ambulâncias lá sobem.
Lá em cima, resistem dois casais de habitantes.
O Sr. Francisco e a D. Liberação, o Sr. José e a D. Nazaré.
Por causa de uns terrenos, os dois homens cortaram relações, as mulheres apoiaram-nos e as palavras secaram totalmente na aldeia...
Um deles agrupa alfaia, o outro acabou de amanhar um nabal...
Olham um para outro.
Não se cumprimentam.
O silêncio nesta aldeia é ensurdecedor, quebrado só por por algum pássaro...
Nem um mugir...
Mesmo as vacas partiram. Os dois homens já não têm saúde nem disposição para tomar conta delas.
Por vezes o acesso é feito com uma égua que carrega um dos homens à aldeia lá em baixo... Precisa de ir ao café de dois em dois meses.
- “Conviver” – diz ele.
1946 – Concelho de Montalegre, aldeia de Sanguinhedo
Perto de duzentos habitantes.
Só a residência de D. Ana Barroso acolhe 22 pessoas, entre empregados e patrões.
Produz pão para toda a região.
No dia anterior, a aldeia tinha festejado o fim das malhadas.
Todos juntos no monte, tinham dançado e cantado ao som da concertina e do realejo
do Ti António, que sentado numa pedra batia o pé ao ritmo...
Á noite as meninas juntam-se e fazem bordados.
A construção da barragem afoga três quartos dos lameiros da povoação.
Depois, mais tarde, as minas de volfrâmio encerram e o desemprego é enorme.
Um grande incêndio e o ambiente cinzento ajudaram...
Muitos habitantes já partiram... Mais ninguém se muda para a aldeia.
2008 - aldeia de Sanguinhedo
O mato tomou conta de algumas casas.
Algumas paredes estão rachadas e os caminhos estão cobertos de musgo.
As casas são habitadas só por giestas, urze e pequenas lagartixas.
Um pano da loiça resiste num prego num arado ferrugento.
Uma Casal Boss enferrujada está tombada na rua principal.
Os fornos da D. Ana há muito tempo que não cozem pão.
As portas e vidraças estão cerradas e abandonadas...
Não resta um habitante em Sanguinhedo.
- “Nem uma alma” – diriam por ali.
2008- Concelho de Vinhais, aldeia de Cerdedo
O regresso de um jovem emigrante com a esposa grávida e uma filha de três anos duplicou a população da aldeia.
Os quatro habitantes estranharam um pouco o aspecto jovem e tatuado do casal mas adoptaram logo a menina como uma neta fingida.
Mesmo para as aldeias das redondezas, Casares ou Vilarinho das Poças, a menina é
como um empréstimo de alegria!
A única habitante menina. Criança.
Este emigrante de 31 anos diz ter-se cansado do ruído, da cidade e do crime!
Quis regressar às origens.
Trolha durante a semana e agricultor nos tempos livres, garante terem tudo o que precisam ali.
Uma bandeira de Portugal e outra do Benfica assinalam a porta da sua casa, com paredes de betão e não de granito como as outras...
O Centro de Saúde fica a 30 quilómetros e o café mais proximo a quatro.
Em Portugal, em lugares bonitos.
O que acontecerão às ruínas de Sanguinhedo daqui a uma década...
Ou aos fornos da D. Ana.
Culturas de lugares... lugares que morreram e que morrem sozinhos.
Evolução?!
Outros locais estarão sufocados... quase sem ar puro.
Esses lugares... morrerão também.
Com outras doenças...
De excessos.
Será talvez melhor para a natureza, a nossa ausência ali…
E teremos mesmo tudo o que precisamos para ser felizes num local destes?
Mesmo sem pessoas?

(Portugal em 2008)
“E a aldeia que eu recordo...
Terão as pedras e o mato conquistado terreno..., será que o silêncio emudeceu as lavadeiras no tanque?
Terá aquele lugar já morrido também?!
Os lobos que uivam no monte ainda terão algumas crianças para assustar?”