Sapateiros, os artistas de mãos. (ou) O "J" e lá se foram as botas!
A porta estreita está aberta.
Lá dentro, cheira a cabedal, graxa e a cola. Cheiros fortes num silêncio quebrado pelos sons das pequenas ferramentas manuseadas pelo homem sentado num pequeno banco.
O sapateiro talha um molde com as mãos enrugadas e calejadas.
Recordou-se de como tudo começara…

Filho de uma família numerosa, começara a aprender a arte de sapateiro aos dez anos. Naqueles tempos difíceis, e para ajudar no sustento em casa, poderia também ter ido para barbeiro ou alfaiate.
Mas gostou do seu “mestre de sapataria”.
Ao fim de poucos anos a trabalhar como aprendiz, a arte de sapataria já poucos segredos lhe reservava e abrira negócio por conta própria aos dezoito anos.
Gostou e governou-se toda a vida com esta arte.

Cortou o cabedal e pregou-o à forma. Depois, com as ferramentas usadas, as mãos experientes pontearam e trataram dos acabamentos.
O atelier escurecia com o passar das horas ...
O homem arrumou as formas e a velha faca de sapateiro.
Fechou o ferrolho da porta.
Do outro lado da rua, num estabelecimento com algumas máquinas modernas, os três funcionários despachavam-se com vários consertos rápidos anunciados num grande cartaz neon.

Eu cresci num bairro onde havia um atelier destes sapateiros antigos, hoje substituídos por máquinas em lojas de centros comerciais.
É uma arte esquecida. Uma profissão que se esfuma com os tempos. Como outras.
Devagarinho, a arte da sapataria vai perdendo a alma...
Os filhos destes mestres não quiseram seguir a profissão, pois os tempos mudaram e as opções de sustento serão outras …
Uma vez, há muito tempo, também falei nos nossos calceteiros.
http://sol.sapo.pt/blogs/gomes2000/archive/2008/01/06/A-cal_E700_ar-as-ruas.aspx
Calceteiros, sapateiros ...
“São artistas que trabalham com as mãos onde outros põem os pés.”

Com todo o carinho pelos velhos mestres de sapataria ...
há um mês, levei as minhas belas botas novas e todas giras a um destes ateliers antigos. Porque uma das capas novíssima e colocada por alguma maquineta, precisava do arranjo de um destes “mestres”.
O sapateiro, pessoa já com alguma idade, escreveu o meu nome na sola de uma das minhas belas botas novas e todas giras, com um “J” e não com o “G”, pormenor que não me pareceu muito importante.
Quando fui levantar as minhas belas botas novas e todas giras, o sapateiro devolveu-me umas botas velhas e todas horrorosas com o nome de uma Júlia numa das solas.
Tal não foi o meu espanto quando me apercebi que o senhor tinha trocado as minhas belas botas novas e todas giras pelas de outra cliente.
Isto não será muito normal, a não ser nas minhas histórias algo insólitas, claro … Ou é??????!!!
O sapateiro ficou muito perturbado quando se apercebeu do erro. Eu fiquei zangada, mas logo me comovi com a aflição do homem que queria dar-me as da senhora ...
Claro que a história ficou por aqui. E ...
Eu fiquei sem as minhas belas botas novas e todas giras.
- “E não te deu um recibo nem nada?!” – perguntou-me uma amiga.
Não. O método destes mestres artistas, foi desde sempre escrever o nome do ou da cliente na sola. Nem culpo o senhor … Foi o “J” … Não teria havido confusão, se algumas pessoas não tivessem falta de carácter.
Ouviu D. Júlia?!
Fique lá com as minhas belas botas novas e todas giras.
Desfrute-as bem. Eu não quis as suas …