Sentimentos no Parque Etosha ... um local tão longe e tão bonito!

Na Namíbia existe um parque natural, o Etosha.
É uma enorme reserva natural de área protegida. Originalmente com 100.000 km ², o parque tem actualmente um pouco menos de um quarto de sua área original, devido às mudanças políticas.
Permanece ainda uma grande e importante área onde a vida selvagem é protegida.
A Depressão no Etosha denomina uma área com aproximadamente 130km de comprimento.
Apenas por um período muito breve se enche de água durante o ano, sendo normalmente uma visão seca, de sal, poeira, aridez…
As temperaturas atingem os 66 graus Celsius.

A manada de elefantes aguardava enquanto a matriarca (Verruga) olhava para uma das suas crias mortas. Estava ao lado dela há quatro horas. Não queria deixá-la ali …
Mas, Verruga tinha outra cria. Rendeu-se ao destino, ergueu a tromba numa sentida despedida, bateu levemente no corpo da cria e voltou a guiar a pequena manada.
Dirigiam-se para o norte, para as chuvas e para a floresta verdejante.
Mas, com o mesmo vírus mortal da irmã, a segunda cria de Verruga tombou dias depois.
E o grande elefante sofreu muito. O que sentiu foi tão forte que, mesmo sendo quem era, abandonou a manada. Ficou documentado que uma matriarca pode abandonar a manada por desgosto. Durante seis semanas vagueou sozinha, sempre por perto da cria, com um olhar de profunda tristeza, sem qualquer sentimento direccionado para o perigo da sua actual solidão ou sobrevivência.
Em dois meses abandonou duas crias, e essa situação enfraqueceu a grande mãe. Fisicamente e psicologicamente.
Mas o grande animal fez o seu luto…
Apressou o passo e apanhou a manada, os seus amigos e companheiros. A líder era agora a elefante mais forte e jovem que orientara a manada naquele período, um elefante fêmea, a Donut.

Poucas semanas mais tarde, várias manadas de elefantes juntaram-se no início da Depressão para todas juntas a contornarem em direcção ao que a memória lhes trazia; água, alimento, … E todas juntas formaram uma manada enorme, originando imagens naturais espectaculares.
Alguns elefantes machos, solitários, pararam na orla da Depressão. Olharam para o atalho de ambiente seco, inóspito. Avaliaram os riscos durante algumas horas até que dois jovens, avançaram solitários, desaparecendo num pó cinzento, numa poeira salgada que parece fumegar do chão.
Todos os outros foram pelo caminho mais longo, guiando e protegendo as pequenas crias, aproveitando alguns poços e charcos, percorrendo o longo caminho até longe, onde se viam os trovões…

Existem profissões para as quais eu não sinto vocação, pela minha personalidade. Perante certas situações, seria-me muito difícil não intervir, como mera investigadora ou espectadora. Ou teria que fechar os olhos e deixar a câmara de filmar sozinha...
E tenho muito medo de alguns “bichinhos”…
Mas, admiro muito as pessoas que passam anos ou mesmo algumas décadas, em locais totalmente selvagens e inóspitos, para investigarem e filmarem a vida selvagem no planeta. Naturalmente, sem interferências …
Pessoas que abdicam de uma vida para se dedicarem a outra, com bens e necessidades muito diferentes. Pessoas que habitam em acampamentos de lona (bem equipados) e que, na minha opinião vivem experiências únicas nas suas vidas.
Devido a estas pessoas, o conhecimento sobre o nosso planeta e os seus animais é muito maior. Dão-me também a possibilidade de ver documentários espectaculares, com relatos fantásticos e bem documentados, onde a fotografia e imagem falam mais do que qualquer palavra.
*Um deles, um Sr. Edmond Bernus, apaixonado por fotografia, viveu mais de 30 anos num acampamento em Níger, África. Deixou mais de 6000 documentos e registos da vida animal. E talvez, das fotografias mais belas daquele continente.
Sobre os elefantes do Etosha, posso dizer que fiquei sensibilizada com os sentimentos e força destes animais. Como com tantos outros sempre que vejo um bom documentário!.
A elefante Verruga voltou na Primavera seguinte quando a Depressão encheu com água. Era novamente a líder e matriarca do grupo.
As manadas foram regressando e a dela acabou por parar por um longo momento num local certo.
Rodearam um crânio seco. Aguardaram todos excepto Verruga que se aproximou. Com a tromba, esfregou os ossos, cheirou, esfregou, … Emitiu uns sons muito baixos, repetidamente…
Ali ficaram todos, quietos… Partilharam aquele momento em silêncio alinhados num pequeno círculo.
Verruga manifestava-se (quase um ano depois) novamente perante os restos de uma das suas crias. Os sons de lamento prolongaram-se por um longo momento.
Com carinho, o elefante acariciou o pequeno crânio com a tromba. Ergueu-o bem alto, deixou-o cair, acariciou-o uma última vez…
E dirigiu-se para a manada … começando uma nova jornada.

Alguns parques como o Etosha recebem visitantes. Este turismo ajuda a mudar algumas políticas e incentiva à protecção de alguma vida selvagem. Ajuda ainda a combater a caça clandestina, oferecendo outros rendimentos a alguns caçadores que passam a trabalhar nas reservas.
Infelizmente, muitas armadilhas são encontradas e o comercio de alguns membros destes animais assim como a caça ilegal continuam a ser praticadas.
Os animais são espectaculares. Já sei que não é difícil emocionar-me, mas fico sempre emocionada com algumas das suas atitudes.
Existem também sítios muito bonitos. Acredito que a melhor das fotografias não lhes faça justiça.
Deixo aqui registada, toda a minha admiração por estas pessoas; investigadores, biólogos, zoólogos, fotógrafos, cidadãos, amigos, colaboradores, …, todas as pessoas que nos trazem imagens e relatos maravilhosos sobre a vida selvagem no nosso planeta.
Sem eles, muitos animais ficariam também sós neste planeta numa guerra desigual contra o Homem.
E eles também sentem… Neste documentário, a grande objectiva mostrou-me um elefante muito grande e belo. E num momento, chorou ...

“Quando olhamos a primeira vez, a paisagem parece-nos sombria, assustadora… Se olharmos melhor e com o tempo, é como se abrisse uma janela para um novo mundo…” (palavras de uma repórter do National Geografic)