A tal "Sortié" num TGV e o meu outro comboio a sério.
Há alguns anos atrás fui contratada a nível particular por diversas pessoas,
por várias ocasiões para as acompanhar à Alemanha, servindo de intérprete.
Foi um prazer, pois gosto dessa “coisa de intérprete”.
Além da remuneração, tive ainda a oportunidade de viajar e conhecer alguns locais, incluindo a bela cidade parisiense onde estive por duas vezes.
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Confesso que as viagens de avião me aterrorizaram sempre, e
“só eu sei porque não fiquei em casa…”
(Esta agora lembrou-me uma espécie de slogan…)
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Bem… numa dessas viagens, o casal que acompanhei preferiu viajar de comboio.
Neste caso 3.
Sta. Apolónia - Hendaye
Hendaye - Paris
Paris - Karlsruhe
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Viajamos no TGV.
Posso dizer que realmente aquele comboio é bonito, candeeiros,
mesinhas, e tomadas individuais, …
Com um excelente serviço, é também muito confortável, não temos sequer noção da alta velocidade a que rola, pois é mesmo muito muito suave…
“Docement…”
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Mas…
Tinham havido cheias, parte da linha estava obstruída com água.
Todos os passageiros do nosso belo TGV foram conduzidos para
uma série de autocarros para um percurso alternativo dos
restantes 200 quilómetros!
Não fosse eu, a tal que atrai o Sr. Murphy, naquele comboio...
Não fosse a minha mochila cheia de roupas roubada por algum ladrãozeco
na gare.
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Bem…
O casal que me acompanhou nesse percurso, resolveu tomar nota
do nome de todas as terras onde o comboio parava num
caderninho pequenino.
Eu observava as paisagens francesas que corriam pelas janelas,
escutava as indicações e diversas anotações dos meus clientes.
Numa dessas paragens, o senhor, ao ler a placa com a indicação
da saída na estação (Sortie), disse à esposa:
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- “Toma aí nota desta terra: Sortié! Estamos em Sortié!”
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E eu sorri e fiquei caladinha…
Uma nova cidade em França tinha surgido naquele caderninho…
“Sortié”!!!
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Mas, o que me fica na memória desta viagem, não é Paris ou as suas
bonitas pontes sobre o Sena, nem a Eiffel que na fotografia mais
parece um bocado de ferro retorcido atrás de mim, nem o belo e
rápido TGV, nem a nova cidade chamada “Sortié”…
Talvez repetisse com prazer aquele croissant num café muito
típico, em Montparnasse.
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O melhor da viagem?!
Só para mim, claro…
Foi o primeiro comboio que apanhamos em Santa Apolónia com
destino em Hendaye.
“O” Comboio…
Daqueles bonitos, antigos e com aquele rolar e barulho típico de
um comboio normal.
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Não, não era este. Mas quase podia…
Existem coisas que simplesmente não mudam em mim….
Aquela viagem nocturna…
Andei pelos diversos vagões, passeei durante várias horas pelo velho
e enorme comboio enquanto já a maioria dos passageiros tinha
recolhido às cabinas, e aproveitei para “vasculhar” o que pude.
Conversei com os revisores, funcionários da carruagem- restaurante,
com o maquinista não consegui… pois.
Que bela maquina. Mesmo…
Tantas carruagens.
Tantas, que numa curva tentei ver a primeira e a última, mas não
consegui. Era enorme. Lindo…
E aquele som…
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No meu pensamento, já de madrugada na cabine, aquecida pela coberta
pois a noite estava gelada, quase me imaginei no famoso e velhinho
“Expresso do Oriente”, num noutro tempo, numa outra viagem, onde
adormeci já sem ver os Pirinéus …
Talvez até tenha sonhado com uma personagem com cabeça em forma
de ovo e um aspecto um pouco bizarro, chamada Poirot …
Não sei...
Foi uma viagem inesquecível…
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Se hoje trocava um bilhete de uma viagem neste “magnífico” comboio
por 3 bilhetes em “primeira” no TGV?
Ou pelos aviões que detesto?!
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Claro que não!!!
Continuo a mesma.
Não sei se alguém já fez a viagem que falo, talvez ninguém tenha
ficado acordado a “vasculhar” um simples e grande comboio!
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Mas, que beleza…
Aquele barulho, aquele rolar pouco ou nada suave… repetitivo…
Ficou para sempre nas minhas memórias…