SOL

ESPANHOLADA

Ia sendo o crime perfeito.
Em Espanha, ele comprou um jipe BMW X5 acidentado. Não havia recuperação possível. Com poucos meses, estava transformado em sucata. Custou-lhe apenas três mil euros.
O transporte para Portugal ficou em conta.
O segundo passo foi adquirir um veículo igual em segunda mão, também preto como o proveniente do país vizinho. Só que desta feita, o carro teria de se encontrar em bom estado e com matrícula nacional.
Foi fácil. Fechou o negócio por 65 mil euros, preço aceitável para aquele carro com pouco mais de um ano. Pagou a pronto, a um comerciante de Loures.
Antes de ir buscar a viatura, o vigarista celebrou o contrato de seguro, com cobertura de danos próprios, incluindo todos os riscos possíveis. Mesmo em caso de acidente provocado pelo condutor, a apólice garantia o pagamento da indemnização.
A concretização da golpada era simples.
Bastou retirar as chapas de matrícula portuguesas e colocá-las no jipe sinistrado, transaccionado em Madrid.
Depois, o homem participou o sinistro. Sem intervenção de outros veículos, despistara-se e dera cabo do BM comprado há tão pouco tempo, nos arredores da capital portuguesa.
Estava tudo planeado. O valor correspondia aos tais 65 mil euros. Porém, ele aceitaria ficar com os salvados, ou seja, o que restava do X5. Assim, receberia um pagamento de apenas 62 mil euros, em cheque entregue pela seguradora, mas conservaria o carro acidentado.

A RATOEIRA

É claro que não tinha havido despiste nenhum. O carro português estava bem guardado, na garagem.
Após descontar o cheque, o burlão simularia ter reparado a viatura nacional. Colocá-la-ia à venda. Sem dificuldade, recuperaria os 65 mil euros despendidos com a sua compra.
Para exibir ao perito, havia o jipe espanhol. Todo espatifado, mas com as chapas de matrícula portuguesas.
O especialista observou o BMW, captou imagens fotográficas e deslocou-se ao sítio onde hipoteticamente teria ocorrido o desastre. Depois, confrontou os dados recolhidos com a documentação existente na companhia de seguros.
A falcatrua foi detectada. Junto ao pára-brisas, no canto inferior esquerdo, é visível um número, que identifica o quadro ou chassis de cada veículo. O perito teve o cuidado de fotografar essa identificação. Confrontou-a com a que figurava no certificado de matrícula. Não coincidiam. Portanto, o tal jipe acidentado não era o que se encontrava coberto pela apólice de seguro.
O esquema só teria resultado com a conivência do averiguador. Funcionaria às mil maravilhas caso ele acedesse a tirar uma fotografia ao número do quadro na viatura portuguesa, juntando a imagem às fotos do jipe espanhol. Assim, tudo bateria certo.

O JOGO DA MALA

Vou-me referir a um caso em que a generosidade e a boa-vontade resultaram num processo judicial contra um grande profissional da comunicação, que actuou com a melhor das intenções.
António Sala apresentava diariamente o programa radiofónico “Despertar”, com uma audiência extraordinária. Contava com uma rubrica intitulada “O Jogo da Mala”. Os ouvintes tinham que se manter atentos. Todos os dias, era seleccionada aleatoriamente uma pessoa que recebia um telefonema em casa. Se tivesse escutado a emissão cuidadosamente, saberia responder à pergunta que lhe era formulada: quanto dinheiro existe na mala? Acertando, ganhava o montante em causa.
Certa manhã, António Sala entrou em contacto com uma habitante de Madalena, uma localidade do concelho de Paredes, perto de Gondomar. A senhora admitiu desconhecer qual a soma. O popular radialista comunicou-lhe que acabara de perder cerca de cinquenta contos.
A mulher começou a lamentar-se, afirmando que aquele dinheirinho dar-lhe-ia muito jeito. Tinha vivido em África. Regressada a Portugal, levava uma vida que era uma tristeza, com o marido e os quatro filhos. Tinham passado fome e frio, sem dinheiro para comer e continuavam a viver muito mal.
A maior parte das pessoas comoveu-se com aquela história.
O Engenheiro Cansado de Carvalho era membro da Liga de Amigos da Rádio Renascença, o canal que difundia o programa. Com um coração de ouro, disponibilizou-se a enviar um cheque pessoal, entregando do seu bolso a verba em jogo. Antes de o programa terminar naquele dia, Sala anunciou a benemérita oferta.

A VERDADE


Contudo, outras pessoas moradoras na zona de Paredes também tinham ouvido a emissão. Alertaram para o facto de aquela senhora ser casada com um funcionário das Finanças, habitando em casa própria e possuindo uma quinta. Os filhos tinham bons empregos.
O locutor de rádio actuou de forma inteligente. Voltou a telefonar à farsante, prevenindo-a de que a conversa seria gravada para posterior transmissão. A mulher acabou por confessar que as informações sobre a sua verdadeira situação económica eram reais. O cheque já não seguiu.
Num dos programas seguintes, António Sala anunciou o que se passara, reproduzindo a conversa havida com a tal pantomineira. Leu ainda uma carta enviada pelos Bombeiros locais, explicando que aquela família vivia de forma muito equilibrada e que um dos filhos trabalhara para a corporação, mas fora dispensado por não cumprir os horários.
Este filho da gananciosa mulher resolveu queixar-se de Sala, movendo-lhe um processo em tribunal. Como o jornal “Expresso” titulou, era caso para dizer: “por bem fazer, mal haver”.
A situação encontra-se descrita nas interessantes “Memórias” de António Sala, recentemente editadas.

ELE TAMBÉM JÁ MORREU

Neste momento, são poucas as pessoas a acreditar que José Guedes é o estripador de Lisboa. Muito provavelmente, foi apenas uma brincadeira de mau gosto. Entre Julho de 1992 e Março de 1993, três prostitutas foram assassinadas em Póvoa de Santo Adrião, nos arredores de Lisboa. O criminoso esquartejou-as, deixando os cadáveres retalhados. Muitos acreditam que o verdadeiro homicida terá morrido em 1 de Novembro de 2000, com 57 anos. Tratar-se-ia de Luís da Silva Campos, professor do Instituto Superior de Agronomia. À época, a investigação da Polícia Judiciária recaiu também sobre ele. Mas tal como sucedeu relativamente aos outros suspeitos, não foram reunidas provas suficientes. Academicamente dedicado à bioquímica e aos vinhos, Luís Campos levava uma vida que ia muito para além da actividade docente. Como pianista, encantava. Chegou a ganhar a vida, tocando em bares londrinos, na sua juventude. Ocasionalmente, expunha quadros por ele pintados a óleo sobre tela. Era conhecido como escritor de livros policiais. Inicialmente, utilizava o pseudónimo Frank Gold. Depois, passou a assinar com o seu próprio nome. Nesse domínio, foi muito incentivado por Roussado Pinto, jornalista que redigia novelas de mistério. Fazia-o sob o nome de Ross Pynn, baseado na sua verdadeira identidade. Assim como Dinis Machado assinava Dennis McShade.

 

OS BARES NOCTURNOS



15 anos mais velho do que Luís Campos, José Augusto Roussado Pinto incentivou o amigo a editar as suas obras na Europress, onde ambos entregavam os seus originais nas instalações de… Póvoa de Santo Adrião.
Em 1984, o professor, então com 41 anos, deu à estampa o livro “O Estripador de Lisboa”. É ficção concernente a uma série de assassinatos de meretrizes da capital, cometidos por um indivíduo que segmentava os corpos. Ao longo da narrativa, a identidade do criminoso nunca chega a ser revelada.
Tratava-se de um assunto que interessava Luís Campos. Ele era habitual frequentador de bares nocturnos de prostituição, como veio a afirmar Francisco José Viegas, que o entrevistou por duas vezes. O actual secretário de estado da cultura cruzava-se com o professor, na noite lisboeta.
Oito anos após a publicação daquele livro, ocorreram os crimes de Póvoa de Santo Adrião. Eram evidentes as muitas coincidências entre a intriga do romance e a realidade então investigada.
Duas hipóteses surgiam como viáveis. O assassino havia lido a obra de Luís Campos e imitava o protagonista. Ou o autor do livro colocara em prática aquilo que antes surgira na sua imaginação.

CILINDRADO NO TRIBUNAL

Nem todos os julgamentos criminais são altamente complexos. Não envolvem sempre crimes hediondos ou delinquentes profissionais. O quotidiano dos tribunais é também feito de casos simples, pouco graves, ainda que esteja em causa um processo criminal.
Quando eu me encontrava colocado em Sesimbra como juiz, deparei-me com uma situação comezinha, mas invulgar.
A freguesia da Quinta do Conde assumia algumas peculiaridades. A maior parte das casas tinha sido edificada clandestinamente, num meio florestal, sem arruamentos, esgotos, fornecimento de água potável ou serviço de electricidade. Com o esforço dos moradores e da autarquia, as infra-estruturas foram sendo criadas, desenhando-se um tecido urbano.
Para o final, ficou o asfaltamento das artérias. Durante muito tempo, a maior parte das vias permaneceu em terra ou macadame.
Quando as ruas começaram a ser alcatroadas, impunha-se o seu encerramento ao trânsito. Os arruamentos eram invadidos por máquinas, operários e sinalização, por forma a levar a cabo os trabalhos de pavimentação.
Obviamente, tal implicava incómodos para os moradores. Tinham de arrumar os seus carros longe de casa. De modo que o presidente da junta de freguesia pediu alguma tolerância ao empreiteiro. Solicitou que, ao final do dia, fosse permitido aos residentes circular com os automóveis, apenas com a finalidade de os estacionar junto à habitação. Assim aconteceu.

A COLISÃO


Em determinado dia, um dos moradores encontrava-se de folga. Deixou-se dormir até um pouco mais tarde. O seu carro permaneceu estacionado, enquanto os trabalhadores começavam a obra.
A dada altura, ainda pela manhã, ocorreu um acidente com o manobrador de um cilindro compactador, daqueles que possuem duas rodas na traseira e um rolo à frente, de modo a calcar o asfalto, alisando-o. Pois o condutor foi embater com o seu veículo contra o tal automóvel.
Logo um dos curiosos que assistia à obra correu a tocar à campainha do proprietário do carro. Alertada, a Guarda Nacional Republicana compareceu no local.
O manobrador do cilindro não era titular de nenhuma carta de condução. Legalmente, não podia conduzir na via pública.
Verificou-se ainda algo de curioso. Embora ainda fosse de manhã, ele acusou uma elevada taxa de alcoolemia, quando foi submetido ao teste de pesquisa através do ar expirado. Encontrava-se ébrio.
No próprio dia, o arguido respondeu perante mim, em julgamento sumário. O Procurador acusava-o de conduzir sem carta e de guiar em estado de embriaguez.
Ora colocava-se uma questão de ordem legal. Ambos os crimes pressupõem que a ocorrência se dê na via pública. Formalmente, aquela rua estava encerrada ao trânsito durante o período das obras.
De modo que os manobradores dos veículos não careciam de carta de condução.
Era certamente grave o condutor do cilindro ter bebido demais. Mas somente numa perspectiva laboral. Do ponto de vista rodoviário, nada havia a censurar, pois ele não circulava em via pública. Fora cometida uma infracção às normas de segurança no trabalho. Esse processo competia à então Inspecção do Trabalho, correspondente à actual Autoridade para as Condições do Trabalho.
Assim, absolvi o arguido. Haveria alguns problemas a resolver, mas que não competiam ao tribunal, em sede de processo criminal.
HELDER FRÁGUAS

O VALOR DA AMIZADE

Aprende-se muito com a agradável leitura da obra “Sozinha”, da autoria de Raquel Rocheta.

A ex-mulher de Carlos Cruz traça uma auto-biografia muito bem escrita. Concentra-se no período em que o apresentador televisivo esteve preso preventivamente, acusado de pedofilia, até ao divórcio entre os dois, após ele ser condenado em primeira instância.
A modelo e empresária refere-se a um aspecto importante. Há uns bons anos, eu já tinha abordado essa questão nas páginas do “Correio da Manhã”, onde assinava uma crónica semanal.
Carlos Cruz foi o grande responsável pela candidatura bem sucedida à realização do Euro 2004, em Portugal. Veio a ser agraciado pelo Presidente da República, com a Ordem do Infante D. Henrique.
Enquanto presidente da Comissão de Candidatura ao Campeonato Europeu de Futebol, Carlos Cruz privou intensamente com José Sócrates. Criaram-se laços de amizade. À data, o político era ministro do Ambiente, tendo a seu cargo a tutela do Desporto. Os dois tomavam juntos o pequeno-almoço, diariamente. Viajavam constantemente para o estrangeiro, acompanhados de Gilberto Madaíl.
A própria Raquel Rocheta encontrou-se, nalgumas ocasiões, com Sócrates.
Diz a autora que Carlos Cruz gostava de trabalhar com ele: “considerava que José Sócrates era um grande profissional, com objectivos bem definidos, uma pessoa muito organizada (pena que mais tarde, na altura do processo Casa Pia, tenha virado as costas ao Carlos, mostrando que esses objectivos eram mais importantes do que mostrar apoio a um amigo em dificuldades)”.
Esta é a questão fundamental.
Sócrates tinha como objectivo ser primeiro-ministro. Esqueceu a amizade com Carlos Cruz e nunca mais falou com ele, após este ter sido preso.

O QUE SE PASSOU


Foi esta a matéria que eu abordei numa crónica publicada no “Correio da Manhã”, pouco antes de o líder socialista ganhar as eleições legislativas de Fevereiro de 2005.
Nessa altura, eu escrevi:
Aprendi a diferença entre amizade muito sólida e amizade íntima. Quem me ensinou foi o Engenheiro Sócrates, em entrevista dada a este jornal.
O que é que Sócrates diz sobre Carlos Cruz ?
Refere que estabeleceu uma relação próxima com o apresentador televisivo, com Miranda Calha e com Gilberto Madaíl: criou «uma amizade muito sólida com os três. Reuníamos quase todos os dias ao pequeno almoço e passámos juntos por momentos complicados e isso uniu-nos».
Mas quando lhe perguntam se tem falado com Carlos Cruz, responde logo: «Não, não. Aconteceu-lhe aquilo, depois ele estava preso e eu não faço parte do seu grupo íntimo de amigos».
Portanto, a distinção entre amizade muito sólida e íntima faz toda a diferença. É o que permite decidir entre contactar ou não um preso”.
Naturalmente, José Sócrates não gostou mesmo nada do que eu redigi.
Quando ele tomou posse como primeiro-ministro, a minha vida mudou.
O “Correio da Manhã” comunicou que me dispensava como colunista semanal.
Iniciou-se a perseguição de que eu fui alvo pelo conselho superior de magistratura.
O vice-presidente deste órgão era o juiz socialista Santos Bernardino. Mal soube da vitória do PS, este magistrado foi festejá-la para o Hotel Altis, juntamente com Sócrates. Santos Bernardino envergou um cachecol do Partido Socialista. Deixou-se fotografar assim, ao lado de Alberto Costa, que dias depois viria a tornar-se ministro da justiça.
Por outro lado, Noronha do Nascimento presidia à entidade. Trata-se do juiz protector de José Sócrates, seu grande amigo. Ordenou a escandalosa destruição das escutas telefónicas no caso Freeport.
O conselho superior de magistratura moveu-me um processo disciplinar. Invocavam o teor do meu blogue e das minhas crónicas jornalísticas. Eu sempre soube o que tinha causado tanto incómodo: o artigo sobre a amizade entre José Sócrates e Carlos Cruz.
Estou muito grato. Actualmente, ganho mais, Recebo a pensão de aposentação e, enquanto advogado, não me posso queixar da falta de clientes.


TEXTO INTEGRAL
Crónica publicada no jornal “Correio da Manhã”, de 11 de Julho de 2004
(http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/opiniao/um-amigo-na-cadeia)


UM AMIGO NA CADEIA

Aprendi a diferença entre amizade muito sólida e amizade íntima.
Quem me ensinou foi o Engenheiro Sócrates, em entrevista dada ao Correio da Manhã.
Ele foi um dos membros mais dinâmicos e competentes do governo de Guterres. Na oposição, tem-se destacado pelo seu valor. É um político de excepção.
No Ambiente, lutou firmemente pelos seus ideais. Preservou a zona costeira e, em particular, as praias. Já como ministro, tendo a seu cargo o Desporto, fomentou a prática, indo muito para além do espectáculo. É a ele que devemos a realização do Euro 2004.
Precisamente porque José Sócrates é um homem de acção, fiquei um pouco surpreendido com estes preciosismos linguísticos. Aliás, em nada se comparam às reflexões verdadeiramente significativas do filósofo grego seu homónimo.
Ora o que é que Sócrates diz sobre Carlos Cruz ?
Refere que estabeleceu uma relação próxima com o comunicador, com Miranda Calha e com Gilberto Madaíl: criou "uma amizade muito sólida com os três. Reuníamos quase todos os dias ao pequeno almoço e passámos juntos por momentos complicados e isso uniu-nos".
Mas quando lhe perguntam se tem falado com Carlos Cruz, responde logo: "não, não. Aconteceu-lhe aquilo, depois ele estava preso e eu não faço parte do seu grupo íntimo de amigos".
Portanto, a distinção entre amizade muito sólida e íntima faz toda a diferença. É o que permite decidir entre contactar ou não um preso.
Visitar um detido não significa que se concorde com o crime de que ele é acusado ou pelo qual cumpre pena. Tão pouco quer dizer que se acredita na inocência que eventualmente ele proclame.
Quando Costa Freire foi preso, este já não desempenhava as funções de Secretário de Estado. Leonor Beleza era Ministra da Saúde. Não deixou de visitar na cadeia aquele que a servira.
O Presidente Mário Soares avistou-se com Bettino Craxi, foragido à justiça italiana.

COMENTÁRIOS NA EDIÇÃO ON-LINE:


“Senhor Dr. Juiz, os meus parabéns pela sua crónica. Homens frontais e seguros como V. Exa. são precisos, aos montes, neste país de gente mesquinha, infinitamente mesquinha.
Até pode ser que Sócrates não o seja, mas, então é medroso, porque não tem coragem para enfrentar a mesquinhez deste povo. Lições como a sua são necessárias todos os dias. Muito obrigado. Viva a verticalidade, abaixo o medo e a mesquinhez!”
Comentário feito por: João de Castro


“Em que mundo é que vivemos!? O egoísmo e a individualidade reinam sobre o amor ao próximo...”.
Comentário feito por: Luís Fernando


“Amizade só pode ter um significado e um sentido - lealdade e cumplicidade nas boas e más horas. Quem não é capaz de ser solidário nos maus momentos não sabe ser amigo e deve ser dispensado.
Seria útil interrogar algumas figuras públicas como Carlos Cruz e Vale Azevedo que passaram momentos difíceis sobre o que eles têm a dizer sobre os tais amigos da... onça que agora vão começar novamente a aparecer. Devem ter muitas e tristes histórias. Por isso um voto de apreço a quem deu a cara por eles”.
Comentário feito por: Ricardo Carvalho


“Ninguém é perfeito...
O Sr. Sócrates, já o desconfiava, está do lado errado do balcão, não pertence definitivamente, ao lado dos Eleitos e muito menos dos Escolhidos.
Eu mesmo, hoje ateu, até à minha adolescência católico, tenho ainda bem presente o quão importante era para a Igreja praticar a Caridade visitando doentes e presos.
Hoje, sabemo-lo bem, a publicidade por exemplo no-lo ensina, dar ênfase a qualquer coisa não é um sinal de força antes de debilidade, combater debilidades, enfraquecimentos é, justamente, um dos leitmotiv do trabalho publicitário.
Desde muito cedo o homem, na relação com o outro, sabe o quão importante, conveniente, transcendente são estas coisas, chame-lhe ele Caridade, Solidariedade, Amizade e o quão difícil é para o comum dos seus semelhantes estar à altura destas mesmíssimas coisas, daí, dia após dia, ano após ano, século após século, o seu apego militante, prosélito, nestas e outras matérias que ele reputa essenciais para o homem que almeja ser.
Só os Bons, os Escolhidos muito mais do que os eleitos vão dando luta séria e pertinente ao pequeno sócrates que existe em todos nós. Que não seja por causa desta pecha socratesiana que outros, com certeza melhor talhados, vão desistindo...”.
Comentário feito por: Eduardo

 

PENA MÁXIMA

É especialmente curioso o livro “Telefonema 41”, sobre o caso do violador de Telheiras. A obra, muito bem escrita por Paulo Neves, relata, com detalhe, a investigação que levou à detenção do criminoso, agora condenado à pena máxima.

A aplicação dos 25 anos de prisão causou admiração em juristas e público em geral.
É inegável a extrema gravidade dos factos. Porém, devem considerar-se dois factores.
Há vários tipos de violação. O que estava ali em causa era obrigar as vítimas a praticar sexo oral. É diferente da cópula ou do coito anal. Em termos legais, diz-se que o grau de ilicitude é mais elevado quando existe penetração vaginal.
Depois, importa avaliar a jurisprudência. É indispensável conhecer as decisões de outros juízes, por forma a que não se verifiquem significativas disparidades entre sentenças, consoante o tribunal onde se realiza o julgamento.
Ora existem muitas situações de homicídio, violação repetida de crianças ou rapto, cujos autores estão a cumprir pena bem inferior à mais gravosa que a lei portuguesa admite: 25 anos.
A proporcionalidade determina que as sanções mais pesadas estejam reservadas para os delitos mais atrozes.
Nitidamente, o julgamento foi marcado pela mediatização e pela opinião pública.

DUAS PERPLEXIDADES


Neste importante livro, o autor destaca dois aspectos que causaram séria estranheza ao advogado de defesa.
O contributo mais importante para a captura do violador surgiu com a divulgação do retrato-robô. Inicialmente, tinham surgido umas imagens que não levaram a lado nenhum. Realizadas com base na descrição apresentada pelas vítimas, estavam bem distantes da fisionomia real do criminoso.
Há uns tempos atrás, estas gravuras eram efectuadas por um desenhador, que escutava o queixoso, apurando com ele os detalhes do rosto.
No final da década de 80, passaram a ser empregues transparências. Em centenas de folhas de plástico incolor figuravam olhos, narizes, bocas, orelhas, penteados, óculos, bigodes… A testemunha ia escolhendo as mais aproximadas. Com a sobreposição, obtinha-se uma face.
Actualmente, é utilizado um programa informático de computador, com a mesma função. Vai-se optando pelas diversas partes da cara, até obter o retrato final. A aplicação de que a Polícia Judiciária dispõe é o “Composite Lab”. A conjugação permite a elaboração de milhares de desenhos diferentes.
Por exemplo, há cerca de 1500 penteados masculinos.
Os técnicos do Laboratório de Polícia Científica começam por uma triagem ou delimitação, eliminando hipóteses. Assim, partem das informações sobre o sexo, a idade aproximada e a etnia.
Como já referi, neste caso, os primeiros retratos-robô foram inúteis. A aparência do violador era totalmente diferente.
De repente, surgiu uma imagem muito fiel. Posteriormente, o advogado de defesa afirmou: “a perfeição do retrato-robô era tal que mais parecia uma fotografia”.
Logo após o desenho surgir na comunicação social, choveram os telefonemas para a Polícia Judiciária e o homem foi preso.
Daí surgir a desconfiança de que este retrato final foi elaborado já após haver uma denúncia e conhecida que era a identidade do suspeito. As descrições apresentadas pelas vítimas não permitiriam obter um esboço tão semelhante à realidade.

HELDER FRÁGUAS

HOSPITAL, CASINO OU PRISÃO?

Todos sabemos que o primeiro-ministro passou parte da sua infância em Angola, no período correspondente ao ensino primário.

Seu pai é médico. Fora convidado para dirigir o novo Hospital Sanatório de Luanda. O clínico partiu em 1970, antes de concluída a obra daquela unidade, por forma a preparar a sua instalação.
Da passagem de António Passos Coelho por África, resultou um interessante livro de memórias: “Angola – Amor Impossível”.
Aí, ele relata um curioso episódio com contornos judiciais e supostamente clínicos também.
Um médico inspector, conhecido pela sua arrogância, cometera um acto imperdoável. Um negro ia assaltar a casa deste indivíduo. Contudo, deparou-se com o proprietário e desatou a fugir.
O dono da residência não hesitou. Pegou na sua pistola e atingiu o meliante pelas costas, pondo-lhe termo à vida.
Obviamente, não se estava perante legítima defesa. Mas ainda se poderia alegar que o médico tinha actuado no errado pressuposto de que o assaltante não fugia, mas dirigia-se sim ao encontro da casa. Era de noite e a confusão seria admissível.

UMA AJUDINHA


No decurso do julgamento, o juiz quis ajudar o réu:
- Certamente, no meio daquela escuridão, o Senhor Dr. não se apercebeu que o falecido estava de costas, a fugir. Perturbado com a presença do intruso, pensou que ele ia dirigir-se a si. Por isso, disparou contra ele. Foi assim, não é verdade?
Sobranceiro, o acusado recusou aquela boa vontade do magistrado:
- Nada disso, Senhor Dr. Juiz. Eu vi bem que ele estava de costas, a fugir. Abati o homem, para o capturar.
Nestas condições, é claro que o tal médico inspector foi condenado a pena de prisão efectiva.
Toda a gente imaginava que ele iria cumprir a sentença na recém-inaugurada cadeia do Capolo, junto a Kuito (antiga Silva Porto). Tratava-se de um estabelecimento prisional modelar, com adequadas condições e que proporcionava trabalho a todos os reclusos, num amplo espaço rural. A única desvantagem é que se situava num local isolado. Tal dificultava a visita dos familiares.
António Passos Coelho conhecia bem esta prisão, pois ali servira como médico, antes da inauguração do sanatório.

REMÉDIO SANTO



Ora logo após a condenação daquele médico inspector pelo crime de homicídio, surgiu uma grande novidade. Dois colegas dele atestaram, sob compromisso de honra, que lhe fora detectada uma tuberculose pulmonar. Tornava-se impossível mandá-lo para a cadeia.
Ele teria de ir para o novo Hospital Sanatório, sob prisão.
Quando António Passos Coelho tomou posse como respectivo director, deparou-se com este facto consumado. Obviamente, não lhe competia observar o “doente” e verificar se o diagnóstico estava ou não correcto.
Porém, não contemporizou com a situação que se veio a criar com a admissão daquele médico, condenado e “tuberculoso”.
Naturalmente, as visitas aos pacientes decorriam durante o período do dia.
Pois o médico inspector recebia amigos a toda a hora. O enfermeiro-chefe queixava-se de que, à noite, chegavam uma série de pessoas que se juntavam ao suposto doente, para jogar king e bridge. Chegavam a formar-se três mesas de jogo, provocando ruído num momento em que devia reinar o silêncio.
Nalguns meios, o hospital já era apelidado de sanatório-prisão e de sanatório-casino.
O Dr. Passos Coelho expôs superiormente a situação, exigindo que terminassem aquelas visitas nocturnas. Contudo, o problema não ficou resolvido.
Fez, então, um ultimato. Aquele internado especial teria de passar a respeitar o horário normal para receber visitantes. Caso contrário, António pediria a demissão do cargo de director.
É caso para dizer: foi remédio santo.
No dia seguinte, o médico assistente deu alta ao seu colega subitamente atingido por tuberculose e, pelos vistos, de rápida cura. Assim, o sanatório deixou de contar com a presença do médico inspector, condenado por matar um negro.

 

 HELDER FRÁGUAS

SEM SABER DE NADA

Não sou supersticioso. Designadamente, não me incomoda estar num local onde ocorreu uma morte trágica, como um homicídio.

Aliás, a minha casa pertencia a um indivíduo que foi raptado e assassinado no Brasil. A viúva não teve coragem de voltar a entrar na casa onde os dois planeavam gozar a reforma. É natural que a senhora ficasse perturbada ao permanecer numa casa que foi pensada para o casal. A mim, não me causa qualquer aborrecimento, como também é compreensível.
Curiosamente, uma das minhas vizinhas é também viúva, tendo o marido sido barbaramente morto igualmente no Brasil. E num café-restaurante da mesma urbanização, ocorreu um homicídio. O estabelecimento encerrou, na ocasião. Passados uns tempos, reabriu. Mas por pouco tempo. Parecia que não havia muitos clientes que se sentissem à vontade ali. Há anos que está desocupado e ninguém se mostra interessado em explorar a casa.

SIGILO TOTAL

Vem isto a propósito de eu ter acabado de ler uma novidade editorial: o livro “Renato Seabra – A Queda de um Anjo”. O seu autor é Rodrigo Freixo, o jornalista que cobriu o assassínio de Carlos Castro para a revista “Caras”.
É interessante o que ele conta a propósito de um turista, que se encontrava hospedado no Hotel Intercontinental, quando aí ocorreu o crime.
O homem encontrava-se de visita a Nova Iorque, com a mulher e os dois filhos. Ocupavam dois quartos no 35º andar, ou seja, no piso imediatamente acima relativamente àquele onde Castro foi morto.
Este hóspede veio a tomar conhecimento da ocorrência, mas decidiu não relatar nada à família. Tinha decidido mudar de unidade hoteleira, caso a mulher ou os filhos viessem a saber do crime.
A verdade é que conseguiu mesmo ocultar aquela tragédia, para não os impressionar.
Havia muitos jornalistas à porta do Intercontinental. O 34º piso foi isolado. O acesso aos elevadores era controlado por empregados, que apenas permitiam a entrada a quem ocupasse um quarto.
Em todo o caso, o pessoal tinha ordens para não abordar o tema.
O crime deu-se em 7 de Janeiro. Aquela família esteve no hotel até ao dia 11. Somente nesse dia, já no aeroporto, o sujeito veio a narrar a família os motivos de tanto aparato subitamente instalado na unidade onde ficaram hospedados.
É uma obra cuja leitura recomendo.

 HELDER FRÁGUAS

COMO RESOLVER O PROBLEMA

Merece-me todo o respeito o drama sofrido pela actriz Sónia Brazão, a sua capacidade de resistir em busca da sobrevivência assim como o notável trabalho terapêutico desenvolvido pelos médicos.
Poucas pessoas crêem que se tenha tratado de puro acidente. Acresce que antes da explosão, ela tinha ingerido álcool e fármacos, conforme ficou demonstrado pelos exames toxicológicos.
Tais circunstâncias poderiam acarretar duas consequências.
A nível penal, a artista pode ser acusada de um crime de explosão, que acarreta uma pena de prisão até 8 anos.
Num tribunal cível, seria admissível que fosse condenada a pagar uma indemnização pelos prejuízos causados.
A questão parece-me de simples resolução.
Um advogado hábil sabe como actuar. Basta criar a convicção de que há outras hipóteses plausíveis, além da possibilidade de ter sido a própria a causar a explosão.
Por exemplo, é suficiente alegar que um intruso pode ter penetrado na casa, com a intenção de a matar. Abriu os bicos do gás e activou o forno. A vítima pode não se aperceber do cheiro, por se encontrar sonolenta ou constipada.
Não é necessário provar que esta hipótese realmente se verificou. Basta demonstrar que há a probabilidade de ter ocorrido. Para um juiz condenar, tem de ter a certeza absoluta de que a única eventualidade viável é a que consta da acusação, ou seja, que a arguida actuou como lhe é imputado. Se existirem outras possibilidades verosímeis, então o juiz é obrigado a absolver a arguida.
Deste modo, nem vale a pena considerar uma suposta inimputabilidade acidental, ou seja, uma temporária perturbação psicológica.

UM TIRO NA CABEÇA

A meu ver, no caso de Sónia Brazão, o fundamental é manter o mistério. Foi puro acidente, tentativa de suicídio, tentativa de um terceiro lhe destruir a casa, tentativa de homicídio? Nunca se saberá.
Sendo assim, impõe-se a absolvição.
Aqui há uns anos, deparei-me com uma situação curiosa.
Um sujeito queria suicidar-se. Pegou numa pistola e disparou sobre a sua própria cabeça. Sobreviveu e, após um longo internamento, teve alta.
O diabo é que a arma não estava legalizada. Logo que ele saiu do hospital, o Ministério Público acusou-o de detenção ilícita de arma de fogo.
Coube-me a mim julgar este homem, que não morrera por um triz. Absolvi-o.
A notícia detalhada encontra-se em “Suicida falhado mandado em paz”.

 

HELDER FRÁGUAS

O AUTOCARRO COM DOIS VOLANTES

Não conheci Salvador Caetano, mas, como todos os portugueses, acompanhei a sua carreira de self made man.
Chamar-lhe importador da Toyota seria injusto e redutor. Aliás, o condicionamento industrial, as pautas aduaneiras e o proteccionismo nacional impossibilitariam uma actividade de apenas comerciante.
Era um verdadeiro industrial, gerando emprego para milhares de pessoas que trabalhavam nas unidades de montagem de veículos.
Em 1993, fui pela primeira vez a Pequim.
Voei num Boeing 747, comandado por um antigo piloto da força aérea, como era costume à época, na Air China. Ao acercarmo-nos da capital chinesa, a aterragem do enorme Jumbo foi pouco diferente daquela que seria efectuada com um caça. Rápida aproximação à pista e short landing, com significativas inclinações, como se faltasse espaço… O ideal para quem aprecia emoções fortes.
O gigantesco aeroporto estava dotado de mangas, que nos permitiriam chegar directamente à aerogare. O comandante tentou aceder a uma delas, realizando uma série de manobras infrutíferas.
Depois… desistiu.
Largou o avião no meio da pista. Aguardámos por um daqueles autocarros que não têm traseira. Em ambas as extremidades, possuem uma cabine, com volante.
Era um Caetano, em plena China. Os guiadores não deixavam margens para incertezas. Ostentavam o símbolo da marca portuguesa. Placas junto às portas esclareciam também quanto à origem da viatura. Não havia dúvida. O motorista transportava-nos num autocarro Caetano, concebido no norte de Portugal.
Muito mais do que importador, Salvador Caetano era também fabricante e exportador.

COMPRAR PORTUGUÊS?


Mais do que ver portugueses a comprar produtos nacionais, agrada-me sobretudo verificar que, em Inglaterra, encontro gente local a consumir vinho Mateus Rosé. Tal como é bom encontrar sumos Compal em Estocolmo ou café Delta em Espanha. Assim como é reconfortante descobrir que os franceses usam sapatos Miguel Vieira. Do mesmo modo, dá um especial prazer quando se toma conhecimento de que o mármore português é utilizado na Malásia.
O meu desejo é que, noutros países, não estimulem demasiado o consumo de produtos nacionais. Espero que estejam abertos a apreciar aquilo que se produz em Portugal.
Na aldeia global, vigora um princípio básico: “não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti”. Se todos preferirem o que é nacional, os produtos portugueses serão esquecidos no estrangeiro.
Por isso, faz-me alguma confusão o apelo nacionalista à preferência por bens portugueses. Somos dez milhões de consumidores, com fraco poder de compra. Não se resolve nada se andarmos só a tentar vender uns aos outros.
Pelo contrário, eu e muitos portugueses optamos amiúde por adquirir produtos estrangeiros, cuja origem é certificada como integrando uma rede de fair trade ou comércio justo.
Em Portugal, o melhor é começarmos a pensar em exportar o que fazemos de melhor. Tenhamos como horizonte o globo terrestre. Trata-se de 7 mil milhões de pessoas a quem podemos vender a nossa produção.
Assim saibamos ter a visão e o rasgo de Salvador Caetano, que, até na China de Deng XiaoPing, comercializava os seus autocarros fabricados em Portugal.

HELDER FRÁGUAS

A HORA DA MORTE

É particularmente interessante o novo livro de Hernâni Carvalho. Versa sobre o bárbaro assassinato de Carlos Castro e intitula-se “Morrer em Times Square”.

Eu tenho verificado que há duas correntes, na opinião pública.
Uns defendem que Renato Seabra foi levado àquele acto tresloucado devido ao tipo de relacionamento que Castro quis impor.
Noutra perspectiva, entende-se que este assassino era já uma pessoa desequilibrada. Mais tarde ou mais cedo, ver-se-ia perante uma situação qualquer que espoletaria a sua faceta violenta. Mesmo que não existisse um homem chamado Carlos Castro, haveria sempre outra vítima que morreria às mãos deste criminoso.
Eu tendo a perfilhar esta última posição.

VOZEARIA


Deste livro agora publicado, destaco dois pontos importantes.
Em primeiro lugar, Carlos Castro sempre soube que Renato não era homossexual.
Como afirma o autor da obra, o assassino manifestava uma condição egodistónica. Sendo heterossexual, aceitava manter um relacionamento com um indivíduo do mesmo sexo.
Amigo de Carlos Castro, o escritor Guilherme de Melo confirma que o cronista tinha conhecimento disso. Aliás, tal correspondia ao padrão de conduta da vítima: “O Carlos nunca se apaixonou por rapazes que fossem genuinamente homossexuais” – diz Guliherme.
Outro aspecto relevante concerne ao diálogo mantido com o jovem de Cantanhede, nos momentos que antecederam o homicídio.
Não se pode dizer que a conversa tenha sido especialmente longa, para quem partilhava o mesmo quarto de hotel há mais de uma semana.
A morte terá ocorrido cerca das 14h00m. Pelas 12h25m, Renato encontrava-se sozinho, na rua. Ligou à mãe, recorrendo a um telefone emprestado.
Às 12h47m, voltou a falar com a progenitora. Encontrava-se já acompanhado de Carlos Castro, na unidade hoteleira. Aparentemente, o jovem acabara de chegar aos aposentos.
A irlandesa Suzanne Divilly, hospedada no mesmo piso, confirmou ter ouvido vozearia, entre as 13h00m e as 14h00m.

A PERSONALIDADE MANIFESTA-SE


Mesmo considerando a hipótese mais benévola para o arguido, um assassinato nunca seria uma resposta tolerável.
No campo da mera suposição, imagine-se que Carlos Castro teria dito qualquer coisa como o seguinte:
- Renato, lembra-te das quantias que eu já transferi para a tua conta bancária. Fui eu que te proporcionei o casting para os boxers da Marvel. Só compareceste em certos eventos porque ias comigo. Por exemplo, a exposição do Domingos Oliveira, no Hotel Corinthia. Se tu me traíres e me abandonares, eu posso destruir a tua carreira. Não serás ninguém no mundo da moda, Renato.
Se tal pressão tivesse ocorrido, um indivíduo normal faria uma opção. Ou cedia à chantagem e mantinha o relacionamento, temendo que as ameaças se concretizassem. Ou, então, seguiria a sua vida, diria adeus ao companheiro e procuraria que ele não o prejudicasse.
Ninguém provido de razoabilidade julgaria que a solução para o dilema seria cometer um homicídio.
Por isso, eu creio que a personalidade de Renato Seabra se manifestou naquele instante criminoso. Tal como sucederia numa outra ocasião qualquer, envolvendo pessoas diferentes, mas em que o modelo fosse confrontado com um momento de tensão e medo.

 HELDER FRÁGUAS

COZINHEIRA DE MÃO-CHEIA

O envenenamento com a intenção de matar assume algumas características particulares.
Trata-se de homicídio qualificado, ou seja punido mais severamente, visto que o meio utilizado é insidioso. Quase sempre demonstra que houve premeditação. É uma modalidade adoptada sobretudo por mulheres delinquentes.
Depois, é relativamente fácil falhar o alvo.
Há dias, assisti a uma palestra proferida pela fabulosa artista plástica Ana Maria Botelho. A pintora contava que passou parte da sua juventude em França, logo após a libertação do jugo nazi.
Colaborou na Obra do Padre Courtois, para reinserção social de mulheres que haviam cumprido pena de prisão. A instituição funcionava no Castelo de La Ferté-Vidame, a 80 km de Paris.
A respectiva cozinheira era uma ex-reclusa. Tinha cumprido pena por matar 7 homens, por envenenamento. Não constituía curriculum famoso para quem preparava as refeições…
A criminosa tinha decidido livrar-se do marido. Preparou o café bem forte, como era habitual. Porém, juntou-lhe um potente pesticida.
Quando o esposo chegasse a casa, certamente servir-se-ia. Era garantido que não sobreviveria.
O resultado foi mais trágico do que pretendido pela assassina.
O homem tinha estado com 6 amigos, a beber umas cervejas, numa taberna local. Após, decidiram encaminhar-se todos para a casa do desgraçado, que tinha a morte já encomendada. Os 7 tomaram café e vieram a falecer.

DE QUEM É A CULPA ?


Isto faz-me lembrar um dramático acidente ocorrido aqui há uns bons anos, na casa de uns amigos meus. Levaram a cabo uma grandiosa festa e contrataram uma firma de catering para servir a refeição.
Num garrafão de água, ainda com o rótulo original, encontrava-se lixívia.
O empregado encarregue de preparar o café agarrou no recipiente e verteu o respectivo conteúdo para o reservatório da máquina. Estava perfeitamente convencido de que se tratava de água mineral.
O resultado final foi uma série de pessoas gravemente afectadas com a ingestão da poderosa solução misturada com o café e o açúcar.
No pólo oposto destas intoxicações voluntárias ou por incúria, encontra-se algo relativamente comum, pertencente ao domínio totalmente virtual.
É mais ou menos vulgar um indivíduo, que padeça de doença psiquiátrica, convencer-se de que o querem envenenar. A certeza é tão forte que recusa-se a comer qualquer tipo de alimentos, mesmo por ele confeccionados. Teme que, numa qualquer fase, os mesmos tenham sido contaminados.
Certa vez, deparei-me com um caso deste género. Um sujeito de boas famílias sofria de delírio de envenenamento. Não comia há cinco dias. Embora ele depositasse inteira confiança na irmã, recusava ceder às tentativas que ela fazia de o persuadir a alimentar-se.
Como juiz da comarca, vi-me forçado a determinar o seu internamento compulsivo. Rapidamente, curou-se e livrou-se do receio de tomar as refeições.

 HELDER FRÁGUAS

 

O QUE A MÃE CONTA

Merece-me todo o respeito o livro “Madeleine”, redigido por Kate McCann. É uma obra muito interessante, cuja leitura recomendo.

Obviamente, o pai e a mãe não têm iguais responsabilidades quanto ao trágico desaparecimento da filha. É provável que os dois nem sequer saibam as mesmas coisas sobre o assunto. Possivelmente, alguma luz brotará se o casal se vier a divorciar, um dia.
Um dos erros mais flagrantes do inquérito policial foi a constituição dos dois progenitores como arguidos, de uma assentada, equiparando-os. Não havia nenhum elemento a indicar que ambos tinham agido mancomunados.
Aliás, posteriormente, o director da Polícia Judiciária admitiu que tinha havido precipitações.

O PRIMEIRO SUSPEITO

Neste livro, a autora foca a confusão que surgiu logo no início.
Refere-se ao modo como os investigadores perseguiram Robert Murat, concentrando-se em alguém que não levantava suspeitas válidas.
Este luso-britânico foi constituído arguido, interrogado e confrontado com várias testemunhas. A sua casa e o respectivo jardim foram alvo de intensas buscas.
Evidentemente, ele nada tinha que ver com o caso. Como explica Kate McCann, residindo ele na “Casa Liliana”, a cem metros do Ocean Club, é natural que tivesse sido avistado nas imediações do complexo turístico. Mas tal ocorreu porque ele se encontrava junto de sua casa e não devido a querer aproximar-se do local onde se encontrava alojada a menina desaparecida.
Murat, como suspeito, foi uma invenção da jornalista Lori Campbell, do jornal “Sunday Times”. Ela quis escrever artigos sobre uma personagem hipoteticamente misteriosa, filho de pai português e mãe inglesa. Morava com a progenitora, apesar de contar mais de trinta anos de idade, e dizia trabalhar como agente imobiliário. Ainda por cima, tinha um amigo russo, entendido em informática, como se tal fosse algo de muito estranho.
Infelizmente, a polícia agarrou-se a estas suposições da jornalista, exactamente como ela tanto queria. Foi uma preciosa ajuda para a repórter desenvolver as suas notícias.
A investigação lançou-se num enleado percurso sem rumo traçado, para não dizer que ficou completamente à deriva.
Muito mais tarde, Kate McCann analisou minuciosamente o processo e chegou à seguinte conclusão: “não encontrei nada que pudesse ser classificado como provas concretas contra o Murat”. Nem ela as encontrou nem ninguém as descobriu. Robert Murat é completamente alheio ao caso.

OS VIDENTES

Outro aspecto curioso do livro concerne aos oportunistas, que abordavam os pais de Maddie.
Explica Kate que, no seu desespero, prestou demasiada atenção a videntes: “apesar de sermos os dois cientistas por inclinação e profissão, o Gerry e eu cedemos”.
Investimos algum tempo e até recursos a seguir as indicações de milhares de metapsíquicos, tempo e recursos que, percebo agora, teriam sido mais bem empregues em trabalho de investigação mais ortodoxo
A informação fornecida por esses charlatães era “extremamente vaga. Descrever uma casa branca junto de um caminho de terra não ajuda muito. Há milhões de casas brancas no mundo e milhões de caminhos de terra”.
Os detractores de Kate poderão dizer que ela faz estas afirmações apenas para desviar as atenções. Manifesta-se muito preocupada e aflita, em busca da filha, quando na realidade sempre soube perfeitamente o que ocorreu. Creio que a leitura da obra demonstra que não é esse o caso.

HELDER FRÁGUAS

VIOLÊNCIA NÃO SIGNIFICA AGRESSÃO

Em Portugal, há mais mulheres juízas do que os seus colegas do sexo masculino. A procuradora Maria José Morgado até sugeriu que fosse criada uma quota para homens.

Uma coisa é certa. Como em qualquer profissão, o sexo tem influência no modo como se desempenham as funções de juiz.
É muito curioso o modo como tal se manifesta em casos de violação.
Vejamos a deplorável situação do médico psiquiatra que violou uma cliente grávida, padecendo de depressão. Na primeira instância, o arguido foi condenado. Mas ele decidiu interpor recurso para o Tribunal da Relação.
O processo foi levado à apreciação de 3 juízes desembargadores. Uma senhora e dois homens. Por sorteio, ficou determinado que a relatora seria a juíza. Tal significou que a ela competiu-lhe elaborar um texto, que serve de projecto de sentença. Depois, procedeu-se a votação.
A juíza redigiu um acórdão, dando sem efeito a condenação anterior. Determinou a absolvição do psiquiatra, por entender que ele não usou de violência. Um dos outros juízes concordou com ela. Estabeleceu-se a necessária maioria e o arguido foi ilibado.
O desembargador José Papão votou contra. Manifestou a sua posição, explicando: “estamos perante uma situação verdadeiramente abnorme, de a vítima ali se ter dirigido para uma consulta de psiquiatria para tratamento da sua depressão. A forma como o arguido perverteu esta finalidade e converteu a consulta num processo de satisfação de impulsos libidinosos impede-me de avaliar as comprovadas atitudes e comportamentos de ambos os intervenientes segundo um padrão de normalidade”.
É interessante verificar que a senhora juíza foi a primeira a propor a absolvição do acusado. A ela, opôs-se um colega, do sexo masculino.
Pessoalmente, eu acompanho a opinião do juiz vencido.
Violência não significa agressão. Neste caso, o médico impôs-se, agarrando a cabeça da vítima e empurrando-a. Do mesmo modo, quando alguém aponta uma arma, actua violentamente, embora não agrida.

INCERTEZA


Uma mulher juíza encara a violação com empatia relativamente à vítima. Imagina o sofrimento de quem é forçada a manter relações sexuais contra a sua vontade, com impossibilidade de resistir.
Pelo contrário, os homens juízes têm dificuldade em estimar a dor que tal representa. Mas repudiam a atitude do sujeito que obriga uma senhora a suportar a penetração, sem consentimento, mais devido a um exercício de domínio do que por satisfação sexual. Os sentimentos de um juiz são idênticos aos dos presos, que marginalizam os violadores. Estes delinquentes não adoptam um comportamento digno de um verdadeiro homem.
Dito de outro modo, a juíza do sexo feminino protege a vítima. O juiz reprova a atitude do criminoso.
Tal leva a resultados bem diferentes, quando se procede à deliberação, entre o colectivo de 3 juízes.
Recordo-me de um caso ocorrido aqui há cerca de 6 anos.
Eu integrava um tribunal colectivo de primeira instância, composto pelo juiz-presidente e dois adjuntos: eu próprio e uma colega.
A questão era delicada. Não havia dúvida de que a vítima havia sido violada. Fora identificado um suspeito, que a senhora reconheceu claramente como sendo o homem que a atacou. Todavia, era impossível efectuar testes de DNA que permitissem confirmar essa imputação. O arguido negava peremptoriamente a autoria do crime.
Terminado o julgamento, gerou-se uma cisão entre nós os três.
A nossa colega afirmou que se verificava incerteza e votou pela absolvição do arguido. Lavrou uma declaração escrita, expondo a sua convicção.
Pelo contrário, eu e o juiz-presidente demo-nos por satisfeitos com o reconhecimento efectuado pela vítima. Deste modo, o indivíduo foi condenado.

HELDER FRÁGUAS 

O COVEIRO DE CARLOS CASTRO

É interessante o livro “As Últimas Horas de Carlos Castro”. Redigido por um amigo do cronista social, vai muito para além do que o título anuncia.

Designadamente, relata a viagem que o autor, Cláudio Montez, fez a Nova Iorque, após o bárbaro assassinato. Foi tratar das exéquias fúnebres, juntamente com duas irmãs da vítima, Amélia e Fernanda.
Não obstante a tragédia, pelo menos importava satisfazer um desejo de Carlos Castro: que, após a morte, as suas cinzas fossem depositadas naquela cidade norte-americana.
Na obra, relata-se um curioso acontecimento, ocorrido na aeronave, que percorreu o Atlântico.
Montez apercebeu-se de que um indivíduo, com cerca de 60 anos, percorria o corredor de um lado para o outro. Era um português, que, a dada altura, abordou o autor do livro, perguntando-lhe:
- Trabalha em Nova Iorque?
Não desejando fornecer muitas informações, Cláudio Montez limitou-se a responder negativamente, acrescentando apenas que ia em passeio.
O interlocutor retorquiu, explicando que estava emigrado nos Estados Unidos. Era coveiro na cidade que não dorme.
Cláudio decidiu contar o verdadeiro motivo pelo qual ele e as duas senhoras faziam aquela viagem.
Foi muito importante, pois o amigo de Carlos Castro e as suas irmãs não possuíam nenhumas orientações quanto aos procedimentos necessários para tratar da cremação.
Afirma Montez: o senhor “ajudou-nos imenso e esclareceu-nos todas as dúvidas”.
Depois, elucida: “foi uma coincidência tão grande. Nem queria acreditar. São coincidências que nos fazem pensar”.
Eu tenho as minhas dúvidas sobre se terá sido assim um acaso, completamente fortuito.
Certamente, foi uma agradável circunstância o facto de, no avião, encontrar-se um coveiro. Mas duvido que a conversa tenha surgido por mera coincidência.
O crime teve uma cobertura mediática muito intensa. Naturalmente, vários passageiros comentaram que, na aeronave, se encontravam as irmãs do malogrado colunista. Atenta a sua profissão, é natural que o coveiro quisesse dialogar com as senhoras, tendo encetado o contacto com o homem que as acompanhava.

ALMOÇAR COM O ARGUIDO

Coincidência curiosa aconteceu-me, há 10 anos atrás, quando me encontrava colocado em Almeirim e decidi fundar o Rotary Club local, em conjunto com outros quatro companheiros.
Combinámos uma reunião. Um dos meus amigos marcou mesa num conhecido restaurante local, onde eu nunca tinha ido.
Antes da hora do almoço, fui para o tribunal. Às 9h30m, dei início a um julgamento por agressão.
Considerei o arguido culpado. Mas não o mandei para a cadeia. Optei pela multa. Ora o valor diário desta baseia-se nas condições económicas do arguido.
Coloquei-lhe, portanto, algumas questões sobre a sua profissão. A resposta foi surpreendente: ele era o dono do restaurante onde tínhamos mesa marcada para o almoço.
Quando contei aos meus companheiros rotários o que se tinha passado, eles levaram-me a tomar a refeição noutro estabelecimento.
Em tom de mera brincadeira, disseram:
- Não queremos que morras envenenado.

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