Melgaço, 24 de Dezembro de 1973, 22.30 horas.

A vila de Melgaço nunca perecia tanto como naquela noite : os comércios fechavam mais cedo e os cafés trancavam as portas às 8 da noite, o mais tardar. Os habitantes da Vila tornavam-se imperceptíveis até ao dia seguinte.

O céu estrelado e a temperatura bastante agradável para a estação tinham favorecido a formação de um ligeiro nevoeiro.

Havia uma dezena de minutos que eu me fora juntar ao Chancas ao cunhal do Hilário (que era um espaço defesa), o ponto de encontro nocturno da juventude melgacense do meu tempo. Eu, ele e o Manel Mareco tínhamos marcado encontro ali, depois de cearmos. Havia muito que nos desabituáramos de ir para a cama antes da meia-noite.

Para os nossos pais, e consequentemente para nós, o Natal era um dia ordinário ao qual não atribuíamos o carácter festivo que a generalidade, abusivamente, lhe prestava. Os móbeis eram múltiplos e intrínsecos às nossas famílias.

Apareceu o Manel e, entre cigarradas, continuámos a falar de tudo e de nada. De repente, ouvimos dizer :

- Com que então também vos aborrecíeis na casa ?

Era o Júlio, que vinha de Eiró, onde a mãe vivia. Como nós, e, em parte por motivos análogos, não acordava qualquer importância àquela festividade. Encostou-se.

Retomámos a nossa conversa estéril serenamente. E ali permanecemos uma trintena de minutos, até que o Júlio perguntou :

- Hoje não há nenhum café aberto, pois não ?

- Acho que não – respondeu o Manel.

- Está aberto o “27“ – afirmou o Chancas.

- Tens a certeza ? – duvidámos.

- Ai, eu não sei ? Ando com um pito de Monção que trabalha ali, caraças !

- Então vamos para lá ! Sempre se está melhor a beber uns copos, não ? – propôs o Júlio.

Concordámos com ele e dirigimo-nos para o “27“.

Não havia ninguém. Abancámos ao balcão, à entrada. Foi o pito de que o Chancas falara, a Armanda, que nos atendeu. Pedimos uma caneca de tinto e tigelas. Realmente estava-se bastante melhor do que no cunhal do Hilário. À medida que os minutos passavam, mais apreciávamos o tinto e mais nos agradava conversar.

Pouco faltava para que o badalo do sino da Matriz martelasse as doze pancadas nocturnas quando entrou na pensão um homenzinho que mais parecia um duende. O aspecto simplório contrastava com a cortesia e a afabilidade de que deu prova ao cumprimentar-nos e ao dirigir-se à moça : desejava telefonar para os Arcos de Valdevez. A rapariga pôs o contador a zero e indicou-lhe o telefone ao fundo do balcão.

Indiferentes, ouvimo-lo falar a uma mulher e a uns rapazes um tempo indeterminado. A família, certamente. Quando acabou, e a jovem, depois de verificar o contador, lhe disse quanto devia, o homenzinho quase gritou :

- Cento e setenta escudos, minha menina ? Ai, meu Deus, é quase tanto como o que eu ganho no mês ! Nunca pensei que fosse tão caro !

Virámos o olhar para o homem. A sua saudação tinha despertado o nosso respeito, mas esta jeremiada deixava-nos desconcertados. Silêncio. Continuou a lastimar-se ininteligivelmente. Então o Júlio disse-lhe gentilmente :

- Venha cá, amigo. Você o que faz ?

- Sou caseiro da Dona ****** , no Louridal - respondeu, meio confuso.

- E quanto lhe paga ?

- Ó meu rico sinhor nim chega a trezentos escudos !

- Tem família ?

- Tenho, sim sinhor, uma mulher e quatro filhos nos Arcos qu’ a Dona ***** não quer qu’ os traga.

Novo silêncio.

- Quem paga o telefonema sou eu – disse por fim o Júlio, dirigindo-se à empregada – Traga uma tigelinha para o nosso amigo – e deu-lhe duas palmadinhas amistosas nas costas – que vai beber uma pinguinha connosco.

O Júlio, sentado, era tão grande como ele.

Transtornado, incapaz de pronunciar uma palavra, o homenzinho tirou um lenço amarrotado do bolso e limpou os olhos.

 

António El Cambório – 2011.