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UMA VIDA SENTIMENTAL PARTICULARMENTE
ATRIBULADA
“Águas
passadas não movem moinhos”. Helena do Ângelo, de 70 anos, resume, assim, as
vidas sentimentais atribuladas – a sua, a de Adolfo Vieira e a de outras
mulheres que ele conquistou ao longo das décadas de 40 e 50.
No auge, dono de propriedades, milionário, figura
respeitada, Adolfo deitou para trás das costas moralismos ou tradições
familiares e tratou de levar a vida à sua maneira. As mulheres terão sido a sua
perdição.
Casado com
Ernestina, senhora da vizinha vila de Melgaço, cedo abandonou o lar,
deambulando atrás deste ou daquele rabo-de-saia. “Se calhar, porque a legítima
nunca lhe pode dar filhos”, recorda Joaquim Brito, presidente da Junta de
Freguesia de Monção, que herdou do pai uma alfaiataria, onde Adolfo Vieira
mandava fazer os seus fatos.
De Helena
do Ângelo, o homem deixou três filhos – Idalina, Luís e Fernando -, da Quinhas
outro, mais um da Binda das Sousas e dois da bonita galega Pilar Ramona. Avesso
a “falsos moralismos”, conforme relata o dono de um café no centro de Monção, o
contrabandista viveu ali todas as suas paixões, fixando residência conforme a
senhora amada. Devaneios que nunca escondeu.
Na vila,
não se conhecem desvarios sentimentais, arrufos públicos, dramas conjugais. “O
que havia era que, quando íamos à mercearia, ficávamos a olhar umas para as
outras, a ver quem comprava mais, para ver a quem ele tinha deixado mais
dinheiro”, lembra Helena.
Adolfo
alugou casas, entregava a mesada às companheiras, “amou todos os filhos”, mas
deitou tudo a perder. “A Ramona fê-lo perder a cabeça. Gastou todo o dinheiro
com as mulheres, mais a Pilar, mas também me deu muito!”, atira.
Helena, por
desgosto, emigrou para Angola e, quando voltou, soube que Adolfo, antes de
morrer, tentara voltar para a esposa. “Quem não teve a carne também não quer o
osso”, ter-lhe-á dito Ernestina, na versão de Helena.
Há dias,
Pilar Ramona passou por Monção, aonde foi tratar de papelada relacionada com a
morte recente dos dois filhos. E quis visitar Helena, por quem nutre um
sentimento de amizade…
DIÁRIO DE NOTÍCIAS – QUINTA-FEIRA, 30 DE JANEIRO DE
1997