A Tragédia Grega- MEDEIA de EURÍPEDES

MEDEIA por DELACROIX
.O ultraje pelo qual essa trágica amaldiçoada é obrigada a vivenciar, deixa-a acometida pela atér, cegueira moral que primeiro induz ao estado de desvario, depois, à ação desvairada e por fim, à ruína. A dor da mulher que, após muito amor e dedicação é trocada por outra, que se vê desnorteada pelo abandono do amado é universal e atualíssima. Infelizmente, quem paga o preço são os inocentes...

MEDEIA por CEZANNE

Representação da "Medéia" de Eurípides
Medéia, o rei Creonte e o Coro. Montagem da
Medéia de Eurípides na FCL-Araraquara (UNESP) pelo Grupo Giz-en-Scène de Leituras Dramatizadas em 05/09/1999. Foto: J.A. Rosa, 1999.
Medeia e o Velo de Ouro, de H.J.Draper.Medeia, Jasão e o Velo de Ouro, na volta da Colquida, para onde Jasão dirigiu a expedição dos Argonautas, com os 50 maiores heróis gregos, a fim de resgatar o Tosão de Ouro do carneiro encantado que tempos antes Mercúrio havia cavalgado em magnífico vôo, para salvar os príncipes Heles e Frixo da vingança de sua madrasta Ino. Heles caiu, exatamente sobre o ponto que no estreito de Bosforo separa o Mar Negro do Mediterrâneo, o Helesponto. Jasão, tempos depois, resgatou o velo do carneiro, com ajuda da princesa Medeia. O episodio foi eternizado no firmamento sob a constelação do Navio, hoje repartida em quatro, a Popa, a Quilha a Vela e a Bússola. (colaboração do poeta Ernane Gusmão)
Jasão e a Lenda dos Argonautas

Jasão entrega o tosão de ouro ao rei Pelias, seu tio.
Peça triste e que mostra uma Medéia cheia de rancor e mágoa, capaz de fazer as maiores atrocidades para se vingar da traição de seu marido, Jasão. Este que se casou com a filha de Creonte, rei de Corinto, (provavelmente o mesmo Creonte irmão de Jocasta, pois após a morte do rei de Corinto, um arauto vai a Tebas e avisa Édipo de que agora é rei de Corinto e Tebas, com Édipo exilado e com Creonte no trono real de Tebas, o único que possui o direito sobre o reinado de Corinto é também ele).
Na peça Medéia tenta por todos os modos se vingar de Jasão pela traição e humilhação a que a sujeitou, Creonte, rei de Corinto, sabe que Medéia é uma bárbara feiticeira, e a exila, por medo de que, em sua raiva, planeje algo contra sua filha e a casa real, ela então suplica por mais um dia de permanência para que arrume tudo para sua partida, é neste período que põe em prática seus planos.
Jasão oferece a Medéia uma ajuda em dinheiro para que vivas bem no exílio, visto que ela se nega a se humilhar e viver com ele no palácio como ama da rainha, pois ele insiste que só tomou o leito da princesa porque assim seus filhos com Medéia teriam irmãos no governo de Corinto e fariam parte da primeira fileira da cidade.
Ela recusa a oferta e furiosamente o se despede dele com palavras duras, enquanto em seu íntimo maquina as mais cruéis atrocidades. Para sua sorte, encontra Egeu, rei de Atenas, que ia ao Oráculo de Delfos, para saber quando teria filhos, pois ainda não possuía nenhum, conta ela a ele a sua história e pede exílio em Atenas, ele aceita e faz um juramente a pedido dela, assim os seus planos estão mais seguros, pois que terá para onde fugir.
Ela então prepara tudo, chama Jasão e pede desculpas falsamente por tudo que fizera e pede a Jasão que seus filhos sejam criados em Corinto em quanto ela vai ao exílio, ele diz que não sabe se Creonte concordarás, e ela manda a princesa presentes para que ajude a dobrar o rei.

Entretanto, esses presentes são sua vingança, visto que contém seus feitiços de modo que a princesa morre após vesti-los, esta descrição no livro é crua e fria, a princesa se decompondo com a carne saindo do corpo, no fim nem dava pra identificar o rosto dela, Creonte, desesperado se abraça à filha e morre do mesmo modo.
Jasão parte furioso ao encontro de Medéia que esta realizando a parte final da vingança, ela mata os próprios filhos para castigar Jasão, vence a si mesma e a sua consciência e os mata com o ferro cruel de forma brutal, Jasão, em seu desespero, implora para que ela abra a porta a fim de ele ver os filhos, mas ela não permite e foge levando o corpo dos filhos no carro que lhe deu seu avô, o Sol, de quem é descendente.
Assim termina essa tragédia, em que Medéia tira quatro vidas para se vingar da traição do marido, sendo que duas delas tirou com as próprias mãos e eram esses seus próprios filhos. Existem muitas versões para o final de Jasão. Na primeira delas, o herói, desesperado se suicida. Em outra, quando descansava sob a sombra de Argos, morreu esmagado pela popa do próprio navio. Há ainda outra versão segundo a qual aliou-se a Peleu e assumiu enfim o poder em Iolco.

A montagem de Medéia, celébre tragédia de Eurípedes, chegou aos palcos gaúchos, no 28 de junho, no Theatro São Pedro, sob a direção de Luciano Alabarse. Os mais de 5 mil espectadores conferiram uma produção, com elenco de 20 atores, encabeçado por Sandra Dani no papel de Medéia, e o melhor, com texto integral da obra
Segundo a lenda grega, a feiticeira Medéia ajudou Jasão, líder dos argonautas, a obter o velocino de ouro. O mito é conhecido pelas versões literárias que lhe deram Eurípides, Ésquilo, Ovídio e Sêneca. Medéia era filha de Eetes, rei da Cólquida. Eetes possuía o velocino de ouro, que Jasão e os argonautas buscavam, e o mantinha guardado por um dragão. A maga Medéia apaixonou-se por Jasão e, depois de ajudá-lo a realizar sua missão, seguiu com o grupo para a pátria de Jasão, Jolcos, na Tessália. Mais tarde, Jasão apaixonou-se por Glauce e abandonou Medéia. Inconformada, ela estrangulou os filhos que tivera com Jasão e presenteou a rival com um manto mágico que se incendiou ao ser vestido, matando-a. Medéia casou-se, depois, com o rei Egeu, de quem teve um filho, Medos. Por ter, porém, conspirado contra a vida de Teseu, filho de Egeu, foi obrigada a refugiar-se em Atenas. Medéia foi honrada como deusa em Corinto e sobretudo na Tessália. Sua lenda serviu de tema a obras artísticas e literárias de todos os tempos, das quais a mais conhecida é a tragédia Medéia, de Eurípides.

Medéia, à E, observa enquanto as filhas de Pélias preparam o caldeirão para o feitiço que iria rejuvenescer o pai. Cópia romana do relevo de mármore de um altar de Atenas. Data do original: séc. -V. Berlim, Pergamon Museum. Foto de Barbara McManus, 1992.
Julgamento de Medeia
… multiplico essa má sorte. Para uns eu sei demais e por isso me odeiam, outros não me entendem e me acham fechada, e para outros sou exatamente o oposto…
(...)Medéia, sacerdotiza de Hecate, a trágica amante de Jasão que punirá, vingativa, o amado, matando-lhes os filhos. ela, que na tragédia de Eurípedes será constrangida a dizer: -- De todos os seres do mundo que têm alma e espírito, nós mulheres somos as mais infelizes. Devemos antes de tudo, com dispêndio de dinheiro, comprar marido dando um patrão à nossa pessoa..."
De todos os seres do mundo que têm alma e espírito, nós mulheres somos as mais infelizes. Devemos antes de tudo, com dispêndio de dinheiro, comprar marido dando um patrão à nossa pessoa..."
De todos os seres do mundo que têm alma e espírito, nós mulheres somos as mais infelizes. Devemos antes de tudo, com dispêndio de dinheiro, comprar marido dando um patrão à nossa pessoa..."
De todos os seres do mundo que têm alma e espírito, nós mulheres somos as mais infelizes. Devemos antes de tudo, com dispêndio de dinheiro, comprar marido dando um patrão à nossa pessoa..."
De todos os seres do mundo que têm alma e espírito, nós mulheres somos as mais infelizes. Devemos antes de tudo, com dispêndio de dinheiro, comprar marido dando um patrão à nossa pessoa..."
De todos os seres do mundo que têm alma e espírito, nós mulheres somos as mais infelizes. Devemos antes de tudo, com dispêndio de dinheiro, comprar marido dando um patrão à nossa pessoa..."
De todos os seres do mundo que têm alma e espírito, nós mulheres somos as mais infelizes. Devemos antes de tudo, com dispêndio de dinheiro, comprar marido dando um patrão à nossa pessoa..."
“(...) Vim pedir ódio. Vim pedir a coragem da vingança. Vingança é o único alento do oprimido, sua única esperança! (...) Gosto de sangue na minha boca. O homem pai dos meus filhos, que ajudei com a minha juventude, vai se casar com outra. Ele viajou seis meses, voltou, não deu sinal, foi na boca anônima que eu ouvi que ele ia se casar – pelo meu homem confiei nesta vida tão sobressaltada e agora eis-me abandonada, com dois filhos, sem dinheiro, sem parente para me receber e chorar minha raiva mais do que eu. (...) Eu já estou morta. Mas a morte só não basta. Eu quero o vento da desgraça”. (Med.,p.135)
Palavras de Medéia
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Para "espanto" dos mortais só é castigada pelo seu próprio sofrimento. O Sol, pai de seu pai, envia-lhe um carro que lhe permite a fuga gloriosa-

Jasão e Medea - John William Waterhouse, 1907
- John William Waterhouse, 1907 
Maria Callas em Medeia numa encenação de Pasollini
Medéia por Pasolini
“Limitei-me a retirar do texto de Eurípides apenas algumas citações... Medéia é o confronto do universo arcaico e religioso com o mundo de Jasão, racional e pragmático. Jasão é o herói atual, que não apenas perdeu o senso metafísico como sequer se questiona sobre isso. A sua procura busca apenas o sucesso. Confrontado à outra civilização, à raça do espírito, Jasão dá início a uma tragédia impressionante.” (Pasolini)
Medeia
De Consuelo de Castro
Direção de Regina Galdino
Com Leona Cavalli , Cássio Scapin, Francarlos Reis, Rubens Caribé, Gustavo Trestini e Vanessa Bruno.
2004

Medeia- fragmento da peça de Marcelo Flecha

EURÍPEDES
Maria Regina Candido
"
Medéia é um dos mais marcantes trabalhos de valor imaginativo da literatura ocidental. Medéia é apresentada, inicialmente, como vítima, mas, ela é capaz de lutar e perseguir a sua vingança como um herói homérico.
De acordo com Jean-Pierre Vernant mito se apresenta como um relato vindo de épocas passadas e nesse sentido, o relato mítico não resulta da invenção individual e nem da fantasia criadora, mas da transmissão e da memória de uma sociedade (VERNANT, 2000: 12). Logo, para compreendermos o significado do mito de Medéia, temos a necessidade de interagir com a sociedade que o produziu.
A tragédia Medéia, apresentada no teatro de Dionisos em 431 a C., nos remete às práticas da magia, aos sentimentos femininos e à condição social da mulher grega no período clássico. Este tema integra o que se convencionou denominar de História de Gênero tornando possível demonstrar que a história das mulheres podia ter suas próprias heroínas que atuaram mesmo em condição de subordinação à figura masculina. Elas souberam manipular o poder ao qual estavam submetidas atuando por lances, empregando táticas e subvertendo a ordem.
Para apreendermos o lugar social da mulher na sociedade grega do período clássico devemos inseri-la em seu contexto social de produção (HILL, 1995: 21). Isto porque existe uma heterogeneidade de informação quando se busca referências sobre as mulheres na antigüidade, os dados variam dos poemas à prosa, do período arcaico ao clássico e de região. Embora haja uma diversidade de informação é possível estabelecer alguma generalização diante das inúmeras atribuições a elas destinadas como a procriação entre outras. Atribuições e responsabilidades assumidas em relação ao passados, presente e ao futuro de uma comunidade. Consideramos a possibilidade da construção da história das mulheres na atualidade e para atingir este fim, devemos compreender a sua atuação junto as sociedades do passado como a comunidade políade dos atenienses, buscando subsídios que nos possibilitem repensar a condição social da mulher no nosso tempo-presente.
Retornando a abordagem do mito: compreendemos a narrativa mítica da sacerdotisa de Hécate como um registro de memória que nos traz fragmentos do passado dos gregos. A memorização de um mito se faz em forma de poesia como na epopéia homérica que atuou primeiro como poesia oral, composta e cantada diante de um público que a reproduziu por gerações, através da participação ativa dos aedos - poetas cantadores, inspirados pela divindade denominada de Mnemosýne. Somente mais tarde é que a escrita alcança o mito resultando no estabelecimento de uma vertente oficial definida pelo texto escrito. Entretanto, devemos ressaltar que a narrativa mítica diferencia-se do texto poético pelo fato de comportar variantes, versões distintas, ou seja, permite ao narrador acrescentar e modificar a narrativa de acordo com o público ao qual se destinava (VERNANT, 2000: 13).
O poeta, ao compor a sua dramaturgia, deixou vestígios de acontecimentos do passado dos quais foi testemunha. Para nós, o passado tornou-se um país estrangeiro no qual tudo é feito de modo diferente. Entretanto, o registro de memória do poeta, em forma de poesia, nos permite estabelecer uma aproximação com a cultura dos helenos. Reconhecemos que as informações sobre as mulheres foram compostas pelos homens, os quais tiveram uma atitude de não nomeá-las, tornando-as uma realidade silenciosa. O poeta Eurípides, no entanto, as coloca em primeiro plano, embora no desempenho de atividades que os homens definiram e determinaram que elas atuassem, ou seja, o espaço fechado do gineceu no exercício dos cuidados domésticos. Acreditamos que os vestígios de memória registrados pela tragédia Medéia nos possibilitam repensar a atuação da mulher subvertendo a ordem estabelecida.
Eurípides expõe a protagonista trágica como uma mulher abandonada pelo marido que desejava contrair novas núpcias com a jovem princesa de Corinto como nos indica a citação: "pois, encontra-se órfã sem cidade, ultrajada pelo marido, sem mãe e nem irmão para abrigá-la do infortuno" (Eurípides, Medéia, v. 255). A situação nefasta de Medéia a coloca como esposa abandonada, mãe de duas crianças em situação de exílio e mulher estrangeira. O drama de Medéia, exposto logo no início da tragédia, visava despertar a comoção nos espectadores do teatro de Atenas, pois a infidelidade e a traição masculina não eram temas incomuns na sociedade grega, assim como não deixou de ser nos dias actuais. No caso da sacerdotisa de Hécate, o agravante estava no fato dela estar na condição de mulher estrangeira, longe de seus familiares, a ela estava sendo exigido que cedesse a sua posição de esposa para uma mulher mais jovem e de status social em melhores condições.
A tragédia Medéia tem por princípio o agon, principal requisito da vida do ateniense que se manifesta nas assembléias e tribunais. Nesta dramaturgia, o agon envolvia questões relacionadas à escolha e a acção humana que provinha da ética e obrigava o espectador a fazer uma escolha: a justiça ou a vingança. O poeta nos apresenta a reação dramática de uma mulher, inconformada com o abandono do marido que não considerou todo um passado comum de aventuras. Medéia praticou vários crimes e transgressões em nome do amor que sentia por Jasão.
No prólogo tomamos ciência da trajetória de Medéia que veio da remota região de Colquida para o exílio em Corinto. Naquela região, considerada bárbara, ela conheceu Jasão e, movida por uma avassaladora paixão, traiu seu pai ao ajudar o herói Jasão a conquistar o Velocino de Ouro através da arte da magia e encantamentos. O ardil, usado por Medéia foi descoberto, obrigando-a a fugir em companhia de seu amado. Seu pai, o rei Aeetes, empreende uma perseguição ao casal pelos mares, porém, ao fugir, Medéia havia trazido o seu irmão Absyrto, que foi morto em meio à viagem. Ela o executou e esquartejou o seu corpo, jogando os pedaços ao mar para atrasar a perseguição de seu pai. A fuga teve êxito, porque o rei interrompeu a perseguição para recolher os pedaços do corpo do filho, vendo diante de seus olhos o crime de Medéia que pôs fim a sua descendência.
O poeta nos expõe uma mulher, cujo comportamento integra o espaço do desvio ao padrão estabelecido e esperado pelo homem grego. Ao evidenciar este crime, o poeta traz à memória dos atenienses o fato de que a protagonista havia estado envolvida em outros crimes de morte. No episódio ocorrido na região de Iolco, Medéia ardilosamente havia providenciado a morte o rei da pior maneira que um ser humano poderia morrer (Eurípides, Medéia, v. 485): através das mãos de suas próprias filhas. Estas foram persuadidas a acreditar que esquartejando o corpo de seu pai, o rei Pélias, em meio a ervas e encantamentos, conseguiriam a proeza de rejuvenescer o velho rei; o resultado foi a destruição de todo o palácio (Eurípides, Medéia, v. 485).
Por este crime, o casal foi perseguido pelo filho do rei morto. O atendimento ao pedido de asilo em Corinto foi aceito na condição de Medéia fazer uso de seus conhecimentos mágicos para cessar a seca, a fome e a infertilidade que assolava a região.
Nos interrogamos sobre o objetivo da mensagem do poeta ao nos expor uma mulher estrangeira, atuante, detentora de saberes mágicos e considerada mulher de feroz caráter, de hedionda natureza e espírito implacável (Eurípides, Medéia. v. 100). Medéia representa a mulher envolvida em circunstâncias hostis, saiu da casa de seus pais muito jovem para acompanhar o seu marido. Acreditamos que houve uma empatia entre o personagem Medéia e o público feminino, pois casar jovem era uma situação familiar com as quais as mulheres de Atenas, presentes no teatro, se identificavam. Ao assistir uma dramaturgia, o ouvinte se identificava emocionalmente com o drama vivenciado pela protagonista, a ponto de perder o julgamento racional em prol da satisfação e de interesses emotivos, gerando uma tensão entre a simpatia e o julgamento justo.
No momento em que a protagonista discursa para o coro que representa as mulheres de Corinto, ela expõe uma tradição na qual todas se reconheceriam, pois desde muito jovem eram destinadas à subordinação à autoridade masculina. O responsável pela família providenciava o seu casamento para o qual era preciso um dote com o objetivo de comprar um marido e cabia à jovem aceitá-lo como senhor com total controle sobre a sua pessoa.
O acordo de casamento acontecia entre os homens e as jovens não tinham a oportunidade de escolher o marido, o que levou Medéia a afirmar que de todos os que têm vida, a mulher, seria o ser mais infeliz pela obrigação de aceitar um homem a quem não podiam repudiar, visto que a mulher divorciada não era bem vista nesta sociedade (Eurípides, Medéia, v. 235). Quando chegavam na nova residência não sabiam o que as aguardava, por não terem sido bem instruídas pelos familiares, tinham por obrigação adivinhar qual a melhor maneira de convívio com o esposo. A jovem tendo a sorte de conseguir um bom esposo teria uma vida invejável, caso contrário, viveria sob o jugo da violência para a qual a morte tornar-se-ia o bem mais suave (Eurípides, Medéia, 235-240); em caso de gravidez, por exemplo, a protagonista afirmava preferir lutar com escudo três vezes a parir uma só vez (Eurípides, Medéia, v. 250).
O lamento de Medéia tornou-se público através do uso da palavra, da retórica que era um instrumento fundamental para a construção do drama visando expor o cotidiano da mulher ateniense. Diante da sua falta de opção e liberdade, as mulheres, por serem retiradas muito jovens da casa paterna e serem confinadas no interior do oikos, atuariam como mulher e esposa devendo, por obrigação, cuidar dos escravos, do marido, dos filhos e exercer com eficácia as atividades domésticas (Eurípides, Medéia v. 245).
O padrão definido como ideal para o comportamento feminino foi construído pelo homem grego que esperava que ela seguisse o modelo mélissa, a saber: ser submissa, silenciosa e passiva, atributos contrários ao comportamento masculino definido como dominante, ativo, agressivo e agente de decisão.
No entanto, o comportamento de Medéia trazia à memória dos atenienses o mito de Pandora, de quem, afirmaria Hesíodo, descender toda a funesta geração de mulheres (Hesíodo, Teogonia, v. 585) e que Eurípides complementava ao afirmar serem as mulheres habilíssimas artesãs de todo os males (Eurípides, Medéia, v. 409). Essas palavras marcavam o inconformismo da protagonista com a sua atual situação, Ela expressava o seu desagrado ameaçando os seus inimigos, a saber: três de meus inimigos matarei: o pai, a jovem e meu marido (Eurípides, Medéia v. 375), e, ao mesmo tempo, alertava que ninguém a considere fraca, sem força, sossegada diante do infortúnio, mas de outro modo perigosa contra os seus inimigos (Eurípides, Medéia v. 410). A partir destas palavras, a protagonista de Eurípides, decidiu pela ação de vingança, atitude reconhecida nos heróis trágicos em sua busca desesperada por recuperar a honra ultrajada como o guerreiro Ajax de Sófocles.
Ajax e Medéia apresentam atitudes semelhantes: não suportam a idéia de serem vítimas de injustiças e de traição. Ambos não toleram a etimasmene - falta de respeito (Eurípides, Medéia, v. 1355) de seus inimigos que riem de suas atuais condições de fracasso; no caso de Medéia, por estar só - mone (Eurípides, Medéia v. 513) e abandonada - eremos (Eurípides, Medéia v. 255). Medéia decidiu agir com violência por não querer causar riso deixando impunes os seus inimigos (Eurípides, Medéia v. 1050). A sacerdotisa de Hécate deixava transparecer que a mais grave atitude diante de uma vítima de desprezo e fracasso era o riso - gelos (Eurípides, Medéia v. 383), e somente a vingança cruel através da morte poderia reverter esta situação tornando-a vitoriosa diante dos inimigos (Eurípides, Medéia, v. 395).
A semelhança entre Ajax e Medéia não é mera coincidência, pois o poeta coloca na personagem atitudes masculinas, mesmo sendo inapropriado para uma mulher agir com inteligência e coragem. O uso da palavra e sua atitude decisiva remetem às ações de heróis que atuavam de forma individual para solucionar uma situação imediata, como nos indicam os termos como ergasteon (Eurípides, Medéia v. 791) definido como algo que deve ser feito; a palavra tolmeteon (Eurípides, Medéia v. 1051) nos remete a algo ousado a ser realizado. O verbo kteno significa a decisão de, em tempo breve, matar, extinguir, exterminar. Com reações próprias de seres passionais, Medéia exibia o seu temperamento movido por forte emoção - thymos, sentimento que marcava toda a trajetória da narrativa, considerada fora da razão, da justiça coletiva, da justa medida; uma ação identificada em povos que viviam fora da cultura. Jasão reforçava este pensamento ao reafirmar que a grande dádiva que ele, cidadão grego, havia ofertado à Medéia foi tê-la tirado de terras bárbaras trazendo-a para residir na cultura helênica que conhecia a justiça, a ordem e as leis (Eurípides, Medéia, v. 535).
Medéia muda de atitude visando atingir seu objetivo. Ela passa a agir de acordo com o modelo estabelecido pelos homens, ou seja, submissa, obediente, deixando transparecer que aceitava o destino determinado por Jasão e Creonte. Ela prometia acatar a ordem do rei que havia determinado a sua saída de Corinto (Eurípides, Medéia, v. 927). Para reafirmar o seu arrependimento e compromisso, Medéia envia, através de seus filhos, o presente de núpcias (envenenado) para a noiva de Jasão, e desta maneira ela mata a princesa e o rei.
O discurso dissimulado tem por princípio a arte da persuasão, da força da palavra que convence e permitindo a realização de sua vingança. Como mulher, ela não tinha a capacidade do uso da força física precisando, portanto, buscar meios alternativos para fazer valer a sua vontade e vencer o inimigo. A única solução foi usar o conhecimento do qual provinha sua habilidade e o saber que dominava: a arte da magia no uso de filtros e venenos, cujo conhecimento fazia parte de sua tradição familiar por ser sobrinha de Circe, sacerdotisa de Hécate e neta de Hélios.
Sua ascendência lhe forneceu força, coragem e magia, atributos essenciais para sacrificar e enterrar os filhos no santuário de Hera Akraia. De acordo com os mitógrafos anteriores ao final do V século, os filhos de Medéia teriam sido mortos pela população de Corinto para vingar a morte de seus soberanos. Entretanto, o poeta Eurípides estabeleceu uma nova vertente mítica mostrando que as crianças haveriam sido executadas como sacrifício aos deuses pela própria sacerdotisa de Hécate. Talvez uma forma cruel e eficaz de vingança contra o abandono do marido e uma maneira de expor o quanto ela era terrível com os seus inimigos, pois, matando os filhos ela extinguia a descendência de Jasão que reconhecia: sem filhos você me destruiu (Eurípides, Medéia, v. 1325).
O poeta coloca Medéia fugindo em direção à Atenas, lugar em que a sacerdotisa utilizaria os seus saberes mágicos a serviço do rei Egeu, ao afirmar: cessarei o teu ser sem filhos e te farei semear filhos, tais drogas conheço (Eurípides, Medéia, v. 715). Esta informação nos remete à proposta de Eurípides de usar o palco trágico como o espaço das denúncias relativas às transformações, que aconteciam na sociedade ateniense no final do V século.
Analisando a personagem Medéia, algumas questões nos chamam a atenção: a protagonista não representa a mulher grega devido a sua atitude considerada bárbara, como nos informa as palavras de Jasão ao afirmar que nenhuma mulher grega ousaria matar os próprios filhos (Eurípides, Medéia, v. 1340). Então que tipo de mulher ela representaria?
Medéia usa a palavra para convencer, apela para a morte visando remover obstáculos, usa da astúcia, da faca e do veneno que, no conjunto, não formam poderes sobrenaturais. As práticas mágicas de Medéia nos indicam o domínio e o conhecimento de ervas, infusões e raízes que não denotam possuir poderes mágicos. Este domínio e saber poderiam ser encontrados em algumas mulheres que circulavam em Atenas, sendo comum entre as mulheres atenienses e estrangeiras que necessitavam do uso de plantas e ervas para fins terapêuticos.
Medéia representava a mulher estrangeira que detinha esta habilidade e o conhecimento de sua função e eficácia. A documentação textual nos indica várias mulheres míticas que detinham o conhecimento e o domínio de ervas e filtros para encantamentos como Helena e Circe. Este saber, que se estendeu por tradição às mulheres, consistia na habilidade em manejar o cozimento das ervas, folhas e raízes para fazer infusões e filtros, que, devido ao seu poder de cura, passaram a ser considerados mágicos. Acreditamos que a ausência de conhecimento específico do funcionamento da natureza feminina fomentou a necessidade do domínio do uso das ervas pelas mulheres, com o objetivo de atender aos seus problemas de saúde.
O conhecimento das ervas atendia tanto às mulheres casadas quanto às prostitutas e hetairas que necessitavam saber que o efeito de folhas da família das mentas era muito útil para os problemas menstruais; as dores de varizes eram amenizadas com fricção de folhas de hera; a cebola selvagem e o alho triturados com óleo e vinho, tornavam-se eficazes para conter sangramento e secreção vaginal; a erva artemísia atuava sobre o ovário e plantas como a belladona podiam ser usadas como calmante, mas que em porções concentradas tornavam-se abortivas; já as ervas da família do ópium eram eficazes como analgésicos para as mulheres em trabalho de parto.
Temos por suposição que Eurípides expõe na habilidade de Medéia, que esta habilidade era um saber prejudicial à comunidade masculina. O seu desagravo seria a extensão do temor dos homens de Atenas pela participação ativa das mulheres junto ao uso das ervas e ungüentos considerados mágicos. A preocupação do poeta com o uso das raízes pode estar direcionada às ervas específicas que visavam despertar o interesse sexual. Um episódio desta natureza pode ser observado na citação da Ilíada (XIV, 198) quando uma mulher solicita à deusa Afrodite que a encante com o desejo e o feitiço do amor para que ela possa usar deste ardil com o seu amado. Acreditamos que esta mulher tenha sido aconselhada a usar as folhas de orquídias trituradas com vinho, um eficaz medicamento contra a impotência masculina - o termo orchis significa testículo em grego - e, no caso das porções/kukeon e filtros mágicos, ao serem ingeridos pelo ser amado, podiam ter como resultado a sua morte.
As ervas consideradas mágicas usadas pelas mulheres em forma de banhos e ungüentos, permaneciam em seu corpo em meio a fragrâncias aromáticas, mas havia a possibilidade de causar problemas na virilidade masculina, quando se tratava de ungüentos contraceptivos que podiam fomentar a impotência masculina. Havia plantas, ervas e raízes que também eram conhecidas por suas virtudes apotropaicas e usadas como amuleto contra a má sorte e roubos. Umas faziam prosperar os negócios outras eram eficazes para arruinar a saúde e as atividades do inimigo.
Concluímos que o poeta utiliza o espaço do teatro de Atenas, através da personagem Medéia, para fazer uma denúncia, alertando para a emergência de antigos saberes integrando novas práticas sociais como o uso do conhecimento mágico das ervas e filtros para atender desejos individuais. O uso das práticas mágicas das ervas e raízes tanto podia atender às necessidades de medicamentos para curar as doenças femininas, quanto ser usado como veneno para efetuar uma vingança. Medéia com a sua sophia expõe a ambigüidade de um saber que poderia ajudar um amigo com os seus benefícios, mas poderia ser fatal e destruir os inimigos. Como nos afirma Medéia, temido será sempre quem possui este saber, pois aquele que provocou este ódio não celebrará facilmente a bela vitória.
Revista Mirabilia
Maria Regina Candido

Eurípedes ( 484 ac - 406 ac )
Vida
"Não se sabe ao certo, mas os antigos acreditavam que Eurípedes nasceu em Salamina em 480 aC, no dia da maior batalha naval da guerra contra os persas. Outros acreditam que a data mais correta seja algum dia por volta de 485 aC.
Há evidências de que sua família fosse abastada. Também há registros de que Eurípedes tenha desempenhado funções em templos gregos na juventude, mas, à medida que foi crescendo e conhecendo o pensamento de gente como Protágoras, Sócrates e Anaxágoras, foi perdendo paulatinamente suas crenças e começou a questioná-las em seus trabalhos. Anaxágoras, por exemplo, sustentava que o sol não era uma carruagem dourada que percorria o céu, como se cria, mas uma enorme e sólida esfera de terra ou rocha.
Casou-se duas vezes e teve três filhos, e fala-se que teria uma quarta filha que teria morrido de ataque de um cão raivoso (diz-se também que isto é só uma das muitas anedotas criadas por Aristófanes, que jamais perdia uma chance de ridicularizar Eurípedes).
Os registros de sua vida pública, para além das competições teatrais, são quase inexistentes. A única história confiável é uma escrita por Aristóteles relacionando Eurípedes a uma disputa sobre liturgias - um acontecimento que demonstra forte evidência de sua boa condição na sociedade em que vivia.
Acredita-se que tenha visitado Siracusa, na Sicília, que tenha exercido diversas atividades públicas durante sua vida, e que tenha aceitado o convite do rei Arquelau I da Macedônia e vivido neste país depois de 408 aC. De acordo com Pausânias, Eurípedes foi sepultado por lá.
Obras
Eurípedes competiu pela primeira vez no principal festival dramático de Atenas em 455 aC., um ano após a morte de Ésquilo. Ficou em terceiro lugar. Em 441 a.C. ganhou o primeiro prêmio, tendo ganho mais quatro vezes em outras ocasiões.
Foi um alvo constante do humor de Aristófanes, sendo personagem em algumas peças, especialmente em "Os Sapos", em que Dioniso viaja ao Hades para resgatar Eurípedes entre os mortos. A nota satírica consiste em que, no último instante, os deuses se decidem por salvar a Ésquilo no lugar de Eurípedes. Em 408 a.C., após sua última participação no festival ateniense, mudou-se para a Macedônia, onde escreveu a peça Arquelau, em homenagem a seu novo protetor.
Morreu em 406 a.C. na mesma Macedônia, provavelmente por causa do inverno rigoroso do país.
Entre seus melhores trabalhos, temos Alceste, Medéia, Electra e As Bacantes. Também de nota são Os Ciclopes, a única sátira de Eurípedes a chegar completa aos dias de hoje.
De suas peças, chegaram completas até nós as seguintes: Medéia, Hipólito, Hécuba, Andrômaca, Alceste, As bacantes, Héracles, A Heracléade, As suplicantes, As mulheres de Tróia, Electra, Ifigênia em Áulida, Helena, Íon, Orestes, Ifigênia em Táurida, As fenícias e O ciclope.
Dentre as peças de que só conhecemos fragmentos incluem-se: Telefo, Os Cretenses, Stheneboea, Belerofonte, Cresfonte, Erecteu, Feton, O Sábio Melanipes, Alexandre, Palamedes, Sísifo, Melanipes Cativo, Andrômeda, Antíope, Arquelau, Hipsipile, Édipo e Filoctetes."
Texto por Rico Ferrari
