A insensatez de Cunhal
Apesar da trapalhada que é a proposta de alteração dos poderes presidenciais, contraditórios entre si e incongruentes na prática, o PSD soube assumir a iniciativa política numa matéria – a revisão da Constituição – da qual retirará dividendos políticos a prazo. E para a qual levou a reboque todos os outros partidos, a começar pelo PS que já só questiona o calendário da revisão. Todos os partidos? Todos, não. O PCP, como é da tradição, já fez saber que «não quer que se abra o processo de revisão nem agora, nem depois das presidenciais»... nem nunca.
E a propósito dos métodos de decisão e de formulação das orientações políticas do PCP, vale a pena ler, neste tempo de férias, o livro que Carlos Brito publicou recentemente sobre Álvaro Cunhal e os mais de 30 anos que passou ao seu lado na direcção do PCP. Brito dá-nos a conhecer melhor a sempre reservada e encoberta figura de Cunhal.
Constata-se, por um lado, que o histórico líder do PCP ao longo de meio século cometeu erros políticos de palmatória. Como o de levar a Comissão Executiva do PCP a qualificar o golpe militar de 16 de Março de 1974 de manobra «putschista» e a profetizar que o fascismo «não cairá por si próprio, nem tão-pouco pela acção de umas dezenas de oficiais do Exército». Isto a menos de um mês do 25 de Abril. Ou como o de ter imposto ao X Congresso, gratuita e precipitadamente, a exclusão de «qualquer apoio do PCP a uma candidatura de Mário Soares a PR».
O que o obrigou a convocar à pressa, após a passagem de Soares à 2.ª volta, um Congresso Extraordinário apenas para o partido voltar com a palavra atrás.
Confirma-se, por outro lado, que era Cunhal quem tudo antevia, decidia e levava à prática na direcção do PCP. Desde as viragens na linha do partido, como o recuo no Verão Quente de 1975, às teses dos Congressos, às entrevistas de fundo, aos principais comunicados, etc., Cunhal dirigia tudo. Mesmo tudo. Qual prevalência do colectivo partidário, qual centralismo democrático, qual quê. O PCP viveu mais de 50 anos em hipercentralismo autocrático. O livro de Carlos Brito é bem elucidativo a esse propósito.
Entratanto, esta semana, o membro da Comissão Política do PCP, Jorge Pires, veio propor «a nacionalização da banca». A sensatez de Cunhal continua, apesar de tudo, a fazer falta na Soeiro Pereira Gomes.
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