"Libertaste-me mas o destino humano é ser escravo."
(...)
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?
(...)
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!
Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada.
Meu coração está perdido.
(...)
Feliz o homem marçano,
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada ,
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,
Que dorme sono,
Que come comida.
Que bebe bebida e por isso tem alegria.
A calma que tinhas deste-ma, e foi-me inquietação.
Libertaste-me mas o destino humano é ser escravo.
Acordaste-me, mas o sentido do ser humano é dormir.
Fernando Pessoa